24 de outubro de 2009

happy birth day

Quando me vi sentada na frente do neurologista a chorar, já vergada sobre a mesa, pensei que aquilo não era de todo o que eu estava à espera de fazer e dizer num consultório. Achava que me iria comportar minimamente bem. Mas eu tinha um pedido de ajuda a fazer. Disse-lhe coisas que nunca disse a ninguém. Ninguém. Ele tinha a voz dos colchões colunex. Ouviu-me como se não houvesse consultas a seguir e tivesse o resto do dia só para mim. Tive de aproveitar.

Disse-lhe do bicho que me engoliu. De como eu andava e parecia que não era eu. Era levada, engolida, estava dentro do bicho. Ouvia os passos mas não era eu que os dava. Via as pessoas mas não via nitidamente. E os sons estavam todos abafados. Ele tomava notas e às vezes acenava. Disse-lhe que uso imagens... Que estava como que num poço. As pessoas e a minha vida lá em cima, e o céu azul e a luz. Às vezes via-me mais perto da superfície, mas nunca capaz de sair.

"E tem vindo a isolar-se?" - perguntou. E eu comecei a chorar outra vez. "Sim. Muito."
E lembrei-me da minha Carlita e do Hugo e da Vânia, e dos amigos deles que me enchem de mimos e me dizem coisas tão queridas. E me convidam a toda a hora para sair. E eu no fundo do poço. Já sem unhas...
Todos os convites e todo o contacto com pessoas me ardiam. Como uma luz muito intensa ao acordar. Ardia por dentro e por fora. "Então como estás? Que fazes?" Cheguei ao ponto de deixar de olhar as pessoas nos olhos. Ardia. A minha mãe encontrou-me em casa, já eu estava a ficar demente. Já nem falar. Já nem pensar. Nem acalmá-la. Dizer-lhe que só estava cansada.

Passei por momentos de não suportar sons, nem luz. Nem conversas, nem raciocínios. Perguntas, nem pensar. Como podia eu querer pintar? Que tonta. Depois veio a medicação, que veio como um ácido por mim adentro. Todos os dias dizia, com as caixas na mão: Os meus remédios fazem-me bem. Os meus químicos. Gosto deles. E dava um beijo numa das caixas. Passei mais de duas semanas com náuseas. Às vezes lutava para não vomitar. De resto eram os picos de humor, esses momentos assustadores em que me ria às gargalhadas e brincava, para depois tudo voltar a arder muito, e eu precisar de me enroscar toda sobre mim mesma novamente. E não vomitar. Manter os químicos cá dentro. Fazem-me bem e eu gosto deles.

Estava no Algarve com a Di, na esplanada, a ler uma revista qualquer. Foi nesse momento, com um café e uma sobremesa, que eu senti qualquer coisa a percorrer-me o corpo. Já não era o bicho. Era mesmo eu a sentir. No meu corpo. Disse-lhe "Acabo de me sentir muito, muito bem."
"Isso é bom", disse a minha enfermeira. Ela sabia que eu ainda tinha muito que me debater até me ver livre do bicho. Aquilo era só eu a tentar respirar pela primeira vez, recém-nascida. Exausta. Mas bem.

O psiquiatra convenceu-me de que ter pensamentos horríveis não faz mal nenhum. É deixá-los passar. Aceitar e deixar passar. São só pensamentos. Assim faço, todos os dias. Também me disse que desconfiava que eu ia ficar ainda melhor, quando eu lhe disse que estava muito bem. Achei que isso já era ser muito ambicioso, mas se ele é dos melhores e eu sou a pessoa doente, resta-me acreditar e ficar caladinha.

Tinha razão.
Agora eu estou em carne viva. O bicho foi-se. Nem vê-lo. A minha pele é a única coisa que me separa do mundo exterior. Os meus sentidos são meus. Os meus passos são meus e eu ando depressa, no meio das pessoas. É para isso que só uso sapatilhas. Não há tempo a perder. Ouço e vejo perfeitamente. E tudo me emociona, como se sentisse - e sinto - as coisas pela primeira vez, depois de muito muito tempo.

11 comentários:

hpinto disse...

Quando leio estas coisas que escreves dá-me um grande aperto no coração... ainda mais porque te tive bem ao pé de mim e nem te perguntei como estavas - em relação ao depressão, aos compimidos...

Tinha decidido que não iria puxar conversa nesse campo e que só falariamos disso se tu assim o quisesses.
Pareceste-me bem. Mas sei como é fingir que estamos maravilhosas quando de facto não o estamos...
Pelo que leio aqui hoje leva-me a crer que não "fingiste" para mim ;o) e que estavas bem quando falámos :o)

Posso estar meia atrapalhada e com trabalho e andar um bocado distraída mas tenho tempo para mais uns chocolates quentes de vez em quando - e das próximas vezes com qualquer coisa para comer à mistura! Que taralhouca que sou! Estava tão contente por te ter no meu atelier que nem te ofereci nada para comer... baaahhh!

;op

ecila disse...

Nat obrigada pela partilha, requer muita coragem. Um texto maravilhoso (como sempre) de esperança e renascer. Do fundo do coração, ainda bem que já passou :)

patrícia disse...

*

ps disse...

se estiveres a gostar mesmo do teu psiquiatra, tens que me arranjar o número dele...

Oficinas RANHA disse...

E então só resta dizer... parabéns a uma nova Natacha, sem bicho... muitos e muitos parabéns... bem vinda, ou bem regressada...
Um grande abraço, Rita

paulo f disse...

Olha, o meu aumentou-me agora a dose de SerPax e de Mylan.
C'um caraças!
;)
pf

Alecrim disse...

um beijinho.
(um dia partilho contigo, mas de viva voz, as minhas passagens por essas estradas negras, e a luz no final.)

Ana Rita disse...

Obrigada pela coragem de partilhar assim tanto que mexe com todas as nossas entranhas.

Li* disse...

muitos parabéns por teres luatdo com tanta força e persistencia contra o bicho!
parabéns à tua nova vida =)

fd disse...

Uma descrição impressionante e um alento para quem tem de expulsar o bicho.

tons neutros disse...

Querida Natacha...
Tinha perdido o teu rasto à algum tempo...agora descobrio-o novamente...
Não sabia,fiquei surpresa...caiu-me uma lagrima sufocada...
Sempre que necessitares de algo estou aqui!
Beijinho grande...