4 de outubro de 2009

do cérebro

Quando cheguei ao 9º ano não sabia bem o que queria ser. Queria ser cirurgiã plástica. Reconstruir caras e corpos estropiados. Ou então pintora.
A psicóloga a que a minha mãe me levou analisou os resultados dos testes e disse, sem hesitar, "temos artista".

Eu não gosto de matemática. Tenho horror a química. Física é gira por causa da inércia e do movimento uniformemente acelerado (sempre gostei de imaginar coisas em queda livre) e das forças centrífugas e... mais nada. Organização e pensamento abstracto? Zero. Cálculo mental? Zero. Estudar coisas que me parecem inúteis? Zero. Memorizar tabelas e símbolos e nomes estranhos? Zero. Mas para decorar a letra e melodia de uma música pimba à primeira contem comigo.

Adiante. Quando uma psicóloga nos "diz" que o caminho a seguir é o caminho que nos parece mais fácil, segue-se em frente sem se olhar para trás. Foi o que eu fiz. Adeus ciências exactas e pensamento abstracto, adeus horas de estudo e exercícios estúpidos estúpidos estúpidos (seno traço fracção xis igual a ípsilon mais fórmula resolvente fechar parêntesis - e é escusado apedrejarem-me, a minha adorada mãe é professora de matemática e gosta de mim apesar disto). Olá vintes a geometria descritiva, visualização no espaço, uso da imaginação, desenho, pintura e história da arte. Um mar de rosas.
O facto de ter reprovado a Desenho mal cheguei à faculdade foi um aviso a que não prestei atenção. Estava habituada a ouvir aaaaaahs desde a primeira classe sempre que fazia um rabisco. Alguma armadilha me haveria de surgir no caminho luminoso e verdejante que a psicóloga me indicou. Ou, no mínimo, alguma surpresa me esperaria no final do caminho.
O meu cérebro pifou.
Acabei sentada em frente a um psiquiatra. Que não me indica caminhos. Ensina-me a pôr tudo em causa. Diz-me que os meus pensamentos mais assustadores não passam de ideias disparatadas. Que as pessoas criativas são mesmo assim, têm mais ideias que a maioria das pessoas e também acreditam mais facilmente naquilo que os seus cérebros produzem. Diz uma e outra vez, para que eu não me esqueça. Diz-me que mude de estratégia, de caminho, se necessário for. E eu adoro esta nova visão. Esta busca de um novo norte. Começo a ficar cada vez mais fascinada por aquilo que o meu cérebro (e suas patologias) me tem ensinado. Chego a pensar em tirar outra licenciatura, quem sabe, um dia. Qualquer coisa que me aproxime ainda mais da mente e do comportamento humanos. Qualquer coisa que (eu sei eu sei não digam!) passe por estudar física, química e matemática.

Quase "recuperada" mas ainda muito dependente do comprimido mágico e do senhor de barba que ridiculariza os meus dramas, vejo-me livre. Livre de todos os pesos com que me fui carregando ao longo dos anos. Tão livre e leve que chego a prever onde me levam os caminhos, de uma perspectiva aérea, privilegiada. Com uma confiança e optimismo quase irresponsáveis.



PS: hoje sonhei com uma gaivota.

6 comentários:

on satage disse...

mmm...
tás a pensar seguir psicologia ou algo do género?!
posso ser tua paciente?
o teu sentido de humor ajuda-me sempre a colocar um sorriso nestes lábios estanques que tenho tido nos últimos tempos!
...
já reparaste que a forma "ilustrada" como partilhas a tua vida aqui consegue animar muitas pessoas?!
em meu nome agradeço-te!

hpinto disse...

...penso que o caminho esta semana te vai trazer ao meu atelier, certo?!
:o)
Estou à tua espera!!!

(manda mail - h.pinto@clix.pt - para combinarmos pq entretanto já não tenho o teu n.º - é o que dá fiarmo-nos nos telemóveis qd já não confiamos na nossa memória... é que os ditos também pifam...)

:o***

Taynah disse...

É sempre bom mudar de rumo, assim descobrimos cada vez mais respostas para tantas perguntas internas. Sucesso em todo e qualquer caminho que você resolver seguir. Beeeijo

mimi, a original disse...

Chulei outra vez! Ao imaginar-te livre, leve. feliz, como uma gaivota a voar na praia Norte, o pôr do sol por fundo ...Corto as amarras e vôo contigo, em pensamento, feliz também! Que bom, meu amor...

Oficinas RANHA disse...

A vida traz-nos, muitas e muitas vezes, caminhos inesperados... acho que não os devemos desperdiçar e sim, se possível, somá-los...
Rita

Li* disse...

seja qual caminho for, o que importa é que te sintas bem e realizada! nem que tenhas que experimentar muitos ... :)

eu apoio!