18 de abril de 2015

doem-me as costas até aos pés

As palavras acumulam-se-me na garganta, e volta e meia transbordam em forma de post.

Tenho umas saudades de trabalhar que às vezes dá-me vontade de chorar. Trabalhar no sentido de ir para o trabalho, fazer cafés (as saudades que tenho de fazer flat whites e desenhar coraçõezinhos com a espuma do leite chegam a ser doentias), clientes e colegas com quem conversar sobre nada de muito profundo, ter horas marcadas e intervalos e metros à pinha para regressar a casa. Porque trabalhar assim parece férias, comparado com ser mãe a tempo inteiro. 
Há uns meses vi a minha vizinha de baixo sair para o trabalho uns quantos dias seguidos. Acho que ao terceiro dia senti inveja. Isto só faz sentido para quem tem filhos, imagino. Essa saudade da vida passada, dos tempos em que eu era só eu, tão mas tão livre que nem tinha noção do mundo de possibilidades que tinha nas mãos. Perguntem-me se queria voltar atrás, ou ter adiado o ter um filho, se me arrependo do que quer que seja e a resposta é não, não, não. Não há como imaginar a vida sem o Diogo. A vida é tão melhor com um filho que até o nosso passado parece mais feliz. Parece que as saudades me toldam a razão e só me lembro de coisas boas. As viagens com o Faneca. Vejo-me em esplanadas a tomar cafés, a comer azeitonas e a beber vinho, vejo fins de tarde rodeada de amigos e gargalhadas, e todos esses dias me parecem Verão. Tudo me parece morno e vejo-me com a minha prima no mar de Carreço a nadar, vejo-me deitada na areia a observar conchas tão pequenas que pareciam grãos de areia também... de cores que nunca imaginei. Cansaço? Sabia lá eu o que era cansaço. Frustração? Sabia lá eu. Não dormir bem uma noite? UMA NOITE? Ahahahhahahhahaha!

A minha vizinha um dia voltou do trabalho e encontrámo-nos lá em baixo, eu a tentar domar a minha cria, o carrinho, as bolachas, gorros, cachecóis, toalhitas e fraldas. Ela toda livre, toda só ela, chave de casa na mão, bolsa ao ombro, quando me diz "I'm expecting" e mostra-me o crachá "baby on board". E foi como se me tivesse dito que tinha ganho a lotaria. Melhor, que eu tinha ganho a lotaria! Arrepiei-me toda, agradeci-lhe tanto por me contar, vim para casa e fui buscar dois dos meus livros sobre gravidez e bebés, pus-lhes um grande laço vermelho. A vida da minha vizinha já podia ser boa, mas o melhor está para vir, não tenho dúvidas.

1 comentário:

Manuela Tinoco disse...

lindo... não sou mae, nem serei mas foi lindo de ler e perceber a tua alegria... :)
bjnhs!