27 de agosto de 2009

auto ajuda

Tenho relido o meu blog. É chocante. A minha capacidade de adaptação ao cansaço desafia as leis da mãe natureza. Só agora consigo ver o óbvio. Andei a testar os meus limites durante anos. Não só os limites da minha força física, mental e emocional. Os limites do meu optimismo, da minha boa vontade e da minha auto-estima. É triste. Mas podia ter sido pior. Só admiti que não estava bem quando já não conseguia mexer-me.
Estava a pintar. Sei que esta minha forma confusa de expressão em que as metáforas se misturam com a realidade não ajuda mas agora é a sério. O pincel parecia pesar cinco quilos. Foi como se me dissessem para pintar com um garrafão cheio de água pendurado no pulso. O braço não resistia. A mão não se mantinha firme por mais de cinco segundos. A tinta parecia seca e a parede áspera. Começou a arder-me o ombro, depois o cotovelo e por fim a mão. Ainda repeti este processo doloroso uma e outra vez, incrédula, a tentar recordar o que teria feito no dia anterior para me estar a sentir assim, que nunca tinha sentido aquilo, que coisa estranha, que eu normalmente pinto uma parede toda à trincha em menos de nada e carrego montes de tralha e nunca me doem os braços.
O peso estendeu-se para o resto do corpo. Agora eu estava a tentar pintar com um garrafão no pulso e um elefante às cavalitas. Sentei-me no chão, ofegante. Levantei-me e voltei a tentar. Nem cinco minutos aguentei. Não pode ser. O meu braço. A minha mão direita, o meu corpo. Vou deitar-me no chão só um bocadinho, isto já passa.
Deitada no chão, desisti. Olhei para a parede e senti-me completamente incapaz de a pintar. Tantos metros quadrados, uma infinidade de horas de trabalho pela frente e eu tão pequena, tipo mosca moribunda a tentar mexer-se.
Nem uma lágrima. A vontade de chorar andou-me presa na garganta durante meses. E foi assim, seca, que virei costas à parede e disse a mim mesma.
Estou doente.
Mente doente, corpo frágil. Os meus dois joelhos pifaram. O médico japonês, o ortopedista, o fisiatra e as fisioterapeutas fizeram a mesma cara quando lhes disse em que consiste o meu trabalho e quanto tempo fico de pé, e de joelhos, e no escadote, apesar das queixas que já vinha a apresentar. Levei os meus dois joelhos ao limite. É triste. Mas podia ter sido pior. Agora é gelo, fisioterapia, gelo. Nada de ginásios, nada de hiperflexão das pernas, que as cartilagens isto e as rótulas aquilo, que não sei quê artroses e que eu só tenho vinte e sete anos. Eu sempre soube que as pinturas em parede não durariam para sempre, nunca me pus foi essa possibilidade tão cedo. O terror de me ver sem trabalhar, sem acesso às minhas ferramentas essenciais - a minha mente e a minha mão - e ao dinheiro que elas me iam dando. Como se vai ao médico sem dinheiro? Houve meses de crise profunda. Os limites da minha esperança também foram testados. Como uma máquina que avaria, eu toda avariei. Agora lembrei-me do calgon. Há máquinas de lavar roupa mais estimadas que eu.
Tantas vezes neste blog escrevi a palavra cansada. Também muitas vezes escrevi a palavra limite. De cansaço já entendia alguma coisa, mas de limites muito pouco. É triste.
Mas podia ter sido pior.
Hoje terminei a pintura.

:)

Muito obrigada, Babá.

14 comentários:

sapatinhos de verniz disse...

Realmente os sinais já tu os transmitias há muito...
Revi-me em muito do que escreveste neste post, que a lembrança daqueles 5 anos, vieram à tona... Também não quis perceber que estava doente, que precisava de ajuda... quando finalmente recorri a um médico, a bola de neve já tinha ganho peso de mais para parar... Foram 5 anos tenebrosos! Felizmente para mim, tenho uns pais que não souberam mais que me fazer e que me deram mais do que alguma vez pensei possível para um ser humano dar, aguentar, lutar... Infelizmente para eles, envelheceram o dobro... no final da minha depressão, os meus pais pareciam 10 anos mais velhos... Felizmente para os três, descobrimos que nos amavamos muito! O laço saiu reforçado e com tudo o que se passou, crescemos bastante!!!

Desejo que o AMOR (seja de familiares, amigos ou conhecidos) seja o teu elixir!
Desejo-te tudo de bom!

A pintura está fantástica... sei que costumo dizer sempre isto, mas tu não imaginas o talento enorme que tens!!!
Mas acima de tudo aconselho-te a procurares fazer o que te deixar feliz... se forem as pinturas força, se for outra coisa, então luta por isso!!!
Procura dentro de ti o que te traz boas sensações e fá-lo!!!
Grande abraço Natacha!

eusinha.na disse...

E apesar do cansaço, das dores e de todo o sofrimento, mais uma vez criaste um sonho. PARABÉNS pelo teu trabalho. Claudia e Francisquinho

Oficinas RANHA disse...

E ficou absolutamente maravilhosa, como sempre...
Com tanto talento, só me resta esperar e ansiar que possas continuar nas paredes...
Um beijinho, Rita

alice disse...

Gosto de pensar que vais continuar a pintar paredes. Talvez tenhas só de encontrar um ritmo para acalmares o teu corpo.
Nem imagino o esforço de estar horas de pé a pintar, que só de pintar uma parede de rolo já estou a dar em doida...
E desconfio que se estiveres uns tempos sem pintar paredes, a criatividade vai começar a transbordar para outras coisas.

Hoje passei ao largo de Viana e lembrei-me de ti! :D
beijinhos.

Sofia disse...

Nat, uma coisa de cada vez.
A pintura está lindaaaaaa!!!
beijocas

Marta Mourão disse...

É isso: uma coisa de cada vez. E palpita-me que esse problema ainda te vai mostrar outras coisas que vais adorar descobrir fazer!

Angel disse...

está lindo, adorei este trabalho, acredito que andes cansada mas repara bem no que produzes, é lindissimo!!!

Raquel disse...

Rapidas melhoras, vais ver que novas etapas viram com muitos sorrisos!! E como sempre... mais uma parede maravilhosa!!
Beijinhos

Karla disse...

Linda, linda! Espero que não deixes por completo de fazer uma coisa de que tanto gostas... mas se assim for, sei que descobrirás outras :)

Anónimo disse...

Olá. Não é qwue tenha alguma coisa haver com tudo isto, mas deixo umas palavritas, se assim permitires... Tal como alguém já o terá dito, tens apenas de encontrar o teu ritmo, adequar o teu trabalho à tua capacidade física. Posso te dar como exemplo o meu marido que é distribuidor de jornais, sai de casa à 1h manhã e chega por volta das 11h, vai de Braga a Monção, Melgaço, Paredes de Coura..., folga no Natal e na Passagem de Ano. Anda neste trabalho há dez anos. Com certeza que gostava de ter outro, mas como tem uma casa para sustentar e até gosta do trabalho, vai aguentando. Imagina agora as "artroses" que não terá futuramente. Quero com isto dizer que, apesar de todas as maleitas que os médicos te preveram, todos os empregos têm um desgaste físico ou emocional, consoante a natureza de cada um. Uns mais fortes que outros, claro está, mas ninguém mais do que ninguém. Agora compara... entre um trabalho que adoras, que tem uma qualidade inigualável... (umas dorzitas!? abranda um pouco, descansa, tenta fazer disto uma espécie de part-time)e um emprego que não te dá prazer, as horas não passam... Não sei,acho que sim, que deves ter em conta o que os médicos te disseram, mas, também pensar que por essa ordem de idéias não haveriam trolhas, carpinteiros, estivadores... distribuidores de jornais! :)Pensa na sorte que tens pelo dom que "Deus" te deu... Abraço.
Ps: Estou como anónima apenas porque não me apetece 'tar agora com registos, blá...
Ass: Vanda

Adriana disse...

Natacha, penso que para você trazer tanta alegria, sendo com as pinturas ou com suas palavras você tem que estar muito bem...Você teria que arrumar um modo de poupar um pouco desta energia para você mesma.Será que existe um jeito? Ficaria tão feliz se tivesse! Quando entro no seu blog sinto que o ser humano ainda é humano... Você me faz feliz ! Muito obrigado!
Mas entre me fazer feliz e você ser feliz pense primeiro em você minha querida...
Adriana.

Anónimo disse...

Olá Natacha,
ao ler este texto revi-me a mim mesma à quatro atrás. Cheguei a um estado de exaustão que o resultado foi o ficar de baixa por 5 meses, e sou sincera , foi horrível.
Mas serviu-me de lição: aprendi a gerir o meu tempo, a desfrutar mais aquilo que me rodeia e principalmente que cada coisa tem o seu ritmo.Estou ainda a aprender a escutar os sinais do meu corpo...Melhores dias acabarão por lhe bater à porta, acredite.Dedique-se a outras coisas que não exijam tanto de si fisicamente, afinal a Natacha tem tantas ideias e projectos ...Quem sabe se agora não é a altura indicada para pôr alguns deles cá para fora.
Votos de melhoras e muitos beijinhos
Paula e Martim

hpinto disse...

Nunca me vi na tua situação, quer física quer emocional (embora nesta última tenham havido tempos "menos bons" o que a nível físico também teve os seus efeitos consegui sempre "dar a volta" e resolver as coisas).
Não te venho dar soluções nem sequer conselhos, apesar de tu seres das pessoas que já me disse que eu costumo ter sempre uma palavra "acertada" e pensamento ponderado (ihihih nem sempre é assim ;o)

Acho que vais descobrir o melhor que tens a fazer gerindo sentimentos e "mazelas". Tens o brilho das pessoas que dão o melhor delas e que mesmo em situações más acabam por dar a volta. E eu continuao a acreditar que és uma pessoa optimista e isso há-de dar-te força para descobrires por onde é o teu caminho :o)

A minha máxima desde há alguns anos para cá é: o que não nos mata torna-nos mais fortes!
Nem sempre conseguimos entender isto mas acho que tu entendes ;o)

E obrigada pelas tuas palavras no meu blog.
1 ano após a reviravolta a nível profissional espero estar a encaminhar as coisas no sentido certo - apesar de às vezes o mais fácil ser desmotivar e pensar em desistir sou gémeos sabes e as "gaijas" gémeos costumam descansar quando é preciso e depois voltar à carga - mesmo que em sentido diferente mas no sentido que as faz feliz!

Beijocas muito grandes nessa bochecha "goda" :o*****

Analog Girl disse...

Eu pouco comento mas vou sendo uma leitora fiel do teu vermelho devagarinho. Queria só deixar um beijinho.
Agora preocupa-te em descansar, arrumar a "casa". Aos poucos hás-de encontrar energia e vontade para concretizares novos projectos.

Bela parede, by the way.
Força!