Hoje enfiei-me numa caixa com rodas aos trambolhões estrada fora para Lisboa, em direcção à mi primi que conheço faz hoje 23 anos. De Esposende até ao Porto tudo o que vi me ajudava a ter vómitos. Cada balanço do autocarro me fazia salivar, revirar os olhos e suspirar por ajuda. "Ai Bruno..." Depois de uma super-praga-imaginária rogada ao condutor do autocarro, finalmente adormeci.
A companhia que me trouxe até Lisboa, AVIC: Ai Você Imaginava o Cuê?
11 de março de 2007
9 de março de 2007
vaca
Que bem que acabou a minha semana. Fui para a escola pela auto-estrada e pude ver a paisagem - adoro ser minhota - ouvi o Mika no rádio e ao sair da escola, dei de caras com uma vaca. Passo por elas todos os dias mas hoje, cruzei-me mesmo com uma e a sua dona e não resisti.
"- Posso fazer uma festinha na vaca?
(a senhora ficou perplexa)
- Pode! Ela é tão meiguinha. Gosta de vacas?
- Adoro.
- A senhora é professora?
- Sim (já a sentir o pêlo, a pele quente e a ver o olho gigantesco olhar para mim)
- É professora e gosta de vacas?
- Sim! Queria ter uma só para mim!"
Amanhã já serei dada como louca no cimo do monte. Mas adoro vacas. Adoro. A de hoje era enorme e tão bonita. As vacas parecem-me cães, apenas mais calmas e volumosas.

Para quem não percebe nada de vacas, esta da foto é um bebé. Estava ao lado da mãe, muito pequenino, em Serralves e quando se começou a aproximar de mim é que eu pude imaginar o tamanho da mãe.
"- Posso fazer uma festinha na vaca?
(a senhora ficou perplexa)
- Pode! Ela é tão meiguinha. Gosta de vacas?
- Adoro.
- A senhora é professora?
- Sim (já a sentir o pêlo, a pele quente e a ver o olho gigantesco olhar para mim)
- É professora e gosta de vacas?
- Sim! Queria ter uma só para mim!"
Amanhã já serei dada como louca no cimo do monte. Mas adoro vacas. Adoro. A de hoje era enorme e tão bonita. As vacas parecem-me cães, apenas mais calmas e volumosas.

Para quem não percebe nada de vacas, esta da foto é um bebé. Estava ao lado da mãe, muito pequenino, em Serralves e quando se começou a aproximar de mim é que eu pude imaginar o tamanho da mãe.
pesadelo
Quem diz que os animais não pensam ou é estúpido ou nunca teve um. O Peter não só pensa e percebe tudo o que lhe dizemos, como prevê o futuro. Hoje, quando cheguei a casa dos meus pais, ele veio a correr ter comigo, com ar de aflição e alívio ao mesmo tempo. Ele sabia exactamente o que eu ia encontrar quando entrasse em casa. Correu para o sofá, juntando-se à Gioconda, constrangida. Sinto um cheirinho a presente de Mimi (que deixa os outros dois muito atrapalhados, antecipando o ralhete. Mas os animais não pensam, isto é só reflexo condicionado.) Nada da bebé. "Mimi?" - Ouço uma patada na porta. E a profecia do Peter concretiza-se.
Os três cães passam a manhã em casa e o meu papel é de chegar antes do meu pai para que ele não morra de ataque cardíaco com as surpresas da Mimi. Todos os dias ela escolhe uma parte da casa para remodelar. Tira as coisas do lugar e depois corre livremente sentindo-se a melhor decãoradora da Meadela. O que ela queria mesmo era brincar mais com o Patim mas como às vezes o traz consigo pelo pescoço ou pela asa, é melhor ficar com os outros cães.
Hoje a Mimi decidiu remodelar a casa-de-banho pequena (que tem no máximo 3 metros quadrados). Pegou no sabonete e levou-o lá para fora e depois alguma coisa correu mal. Fechou-se sem querer, lá dentro. Não sei quanto tempo terá lá ficado às escuras (o Peter não me quis dizer) mas foi tempo suficiente para entrar em stress e poder relaxar os esfíncteres. E já que não podia fazer mais nada, estreou-se na patinagem-artística-às-escuras. Ora, quando eu a chamei e ela deu a tal patada na porta, ainda tinha os patins calçados e foi com eles que começou a saltar como uma mola, pela casa toda. Muito grata e feliz, veio de patins abraçar-me, enquanto eu gritava, ria e tentava não vomitar.
De seguida, o pesadelo. Limpar tudo em 15 minutos. Chão, paredes, sanita, bidé, balde de plástico, conteúdo do balde de plástico e as patas da patinadora. 10 pontos, Mimi.
Os três cães passam a manhã em casa e o meu papel é de chegar antes do meu pai para que ele não morra de ataque cardíaco com as surpresas da Mimi. Todos os dias ela escolhe uma parte da casa para remodelar. Tira as coisas do lugar e depois corre livremente sentindo-se a melhor decãoradora da Meadela. O que ela queria mesmo era brincar mais com o Patim mas como às vezes o traz consigo pelo pescoço ou pela asa, é melhor ficar com os outros cães.
Hoje a Mimi decidiu remodelar a casa-de-banho pequena (que tem no máximo 3 metros quadrados). Pegou no sabonete e levou-o lá para fora e depois alguma coisa correu mal. Fechou-se sem querer, lá dentro. Não sei quanto tempo terá lá ficado às escuras (o Peter não me quis dizer) mas foi tempo suficiente para entrar em stress e poder relaxar os esfíncteres. E já que não podia fazer mais nada, estreou-se na patinagem-artística-às-escuras. Ora, quando eu a chamei e ela deu a tal patada na porta, ainda tinha os patins calçados e foi com eles que começou a saltar como uma mola, pela casa toda. Muito grata e feliz, veio de patins abraçar-me, enquanto eu gritava, ria e tentava não vomitar.
De seguida, o pesadelo. Limpar tudo em 15 minutos. Chão, paredes, sanita, bidé, balde de plástico, conteúdo do balde de plástico e as patas da patinadora. 10 pontos, Mimi.
8 de março de 2007
mulher
Isto de nascer depois do 25 de Abril tem que se lhe diga. Nunca me senti realmente ameaçada por ser mulher, nunca senti a minha liberdade comprometida, muito por inconsciência, diga-se. Excepto agora, por causa do aborto. Fiquei tão abalada com as coisas que li e ouvi que, pela primeira vez na vida me senti realmente discriminada por ser mulher. De todas as outras vezes em que fui posta de parte ou olhada de lado (por machismo ou outros motivos), este meu narizinho empinado pôs-se a trabalhar e então nunca fiquei traumatizada. Excepto agora, por causa do aborto. A questão do nosso referendo, na minha opinião, trata de Liberdade. Liberdade de escolha, liberdade de expressão, até. Ainda hoje a revolta me percorre as veias ao pensar nas palavras do professor Marcelo. Ainda hoje penso nas pessoas que ouvi dizer os seus argumentos e que tenho de respeitar, mesmo não me cabendo na cabeça o que me disseram. Acordei para a vida quando vi que algumas pessoas que votaram não, estavam a querer dizer-me a mim, como mulher citada na questão do referendo, isto:
Olha, tu não sabes, mas dentro de ti está um ser humano. Dentro de ti está um bebé que é teu filho. Olha, tu não estás a ver bem as coisas. Senta-te aqui e ouve as minhas sábias palavras. Tu vais desejar este filho, vais querer vê-lo crescer cada vez mais, dentro e fora de ti. Vais gostar de o parir, de o amamentar, de lhe mudar as fraldas. Tu não sabes mas vais gostar de acordar de madrugada com o seu choro incessante e indecifrável. Vais saber o que é ser mãe. Vais afeiçoar-te a ele porque é esse o teu papel. Olha, tu não sabes mas, apesar de não desejares tê-lo agora, ele vai encher a tua vida de luz, mesmo que sejas pobre, mesmo que não saibas ser mãe, mesmo que tenhas outros projectos para a tua vida. A vida dele é mais importante, porque o teu bebé é frágil neste momento. Mesmo que não o queiras, ele quer-te a ti. Sabes, este teu filho não é só teu, também é do mundo, da vida. Ele tem direitos próprios e, se tu não o quiseres, podes dá-lo para adopção. Assim ele será feliz e tu também. Pensa bem, não é por mal que eu voto não. É porque sou pelo direito à vida, sou pelos direitos humanos. Entendes? Eu voto não, para o caso de não teres percebido ou concordado com os meus argumentos. Eu voto não porque um dia vais perceber que eu tenho mais razão que tu.
Hoje, como mulher, ainda guardo mágoa das pessoas que quiseram apoderar-se do meu útero e da minha vida. Pessoalmente, pouco me afecta se me quiserem proibir de abortar. Com esta teimosia que não me larga, com esta auto-estima e com alguns tostões que consiga juntar, vou a Espanha e vou onde quiser. Filho meu, há-de ser muito amado e desejado, não há-de ser filho do NÃO.
Mas isso sou eu. E as outras? As outras Mulheres?
Feliz dia a todas!
Olha, tu não sabes, mas dentro de ti está um ser humano. Dentro de ti está um bebé que é teu filho. Olha, tu não estás a ver bem as coisas. Senta-te aqui e ouve as minhas sábias palavras. Tu vais desejar este filho, vais querer vê-lo crescer cada vez mais, dentro e fora de ti. Vais gostar de o parir, de o amamentar, de lhe mudar as fraldas. Tu não sabes mas vais gostar de acordar de madrugada com o seu choro incessante e indecifrável. Vais saber o que é ser mãe. Vais afeiçoar-te a ele porque é esse o teu papel. Olha, tu não sabes mas, apesar de não desejares tê-lo agora, ele vai encher a tua vida de luz, mesmo que sejas pobre, mesmo que não saibas ser mãe, mesmo que tenhas outros projectos para a tua vida. A vida dele é mais importante, porque o teu bebé é frágil neste momento. Mesmo que não o queiras, ele quer-te a ti. Sabes, este teu filho não é só teu, também é do mundo, da vida. Ele tem direitos próprios e, se tu não o quiseres, podes dá-lo para adopção. Assim ele será feliz e tu também. Pensa bem, não é por mal que eu voto não. É porque sou pelo direito à vida, sou pelos direitos humanos. Entendes? Eu voto não, para o caso de não teres percebido ou concordado com os meus argumentos. Eu voto não porque um dia vais perceber que eu tenho mais razão que tu.
Hoje, como mulher, ainda guardo mágoa das pessoas que quiseram apoderar-se do meu útero e da minha vida. Pessoalmente, pouco me afecta se me quiserem proibir de abortar. Com esta teimosia que não me larga, com esta auto-estima e com alguns tostões que consiga juntar, vou a Espanha e vou onde quiser. Filho meu, há-de ser muito amado e desejado, não há-de ser filho do NÃO.
Mas isso sou eu. E as outras? As outras Mulheres?
Feliz dia a todas!
face 2 face
velhota
"Assim vestida ainda pareces mais uma velhota."É verdade. Eu vejo mal, sou meia trenga, impaciente, visto saias com 10 anos como esta da foto, não tenho vergonha de passar vergonhas e no trânsito converso demais com os outros condutores. Não vou falar dos cabelos brancos porque felizmente tenho um marido, uma mãe e uma irmã que me catam, por isso é como se eles não existissem. Estou velha, é verdade. Mas gosto. E, cada vez mais perto do 1/4 de século, tenho saudades de ser pequenina.
Faz agora um ano que aluguei a minha casa, a nossa. Ir a casa dos meus pais tornou-se uma rotina diária mas ao fim-de-semana, como tenho mais tempo, regresso ao passado, vasculhando em armários e caixas fechadas há muito tempo. Crises de nostalgia. Tenho de fotografar as coisas que encontro.
Para quem tem saudades dos anos 80 e 90, deixo dois novos links (este e este), que farão chorar algumas pessoas lamechinhas como eu. Os muitos desenhos animados que vi quando era pequena marcaram-me para o resto da vida e acredito que determinaram o meu futuro e o modo como penso hoje.
Aqui fica um cheirinho de um dos meus favoritos.
Faz agora um ano que aluguei a minha casa, a nossa. Ir a casa dos meus pais tornou-se uma rotina diária mas ao fim-de-semana, como tenho mais tempo, regresso ao passado, vasculhando em armários e caixas fechadas há muito tempo. Crises de nostalgia. Tenho de fotografar as coisas que encontro.
Para quem tem saudades dos anos 80 e 90, deixo dois novos links (este e este), que farão chorar algumas pessoas lamechinhas como eu. Os muitos desenhos animados que vi quando era pequena marcaram-me para o resto da vida e acredito que determinaram o meu futuro e o modo como penso hoje.
Aqui fica um cheirinho de um dos meus favoritos.
7 de março de 2007
eu queria morrer
Ontem, à conversa com a Nhocas sobre toxicodependentes, lembrei-me de uma mulher que veio falar comigo no Porto, estava eu à espera de uma amiga na central de autocarros. Ela viu-me sozinha e aproximou-se. Disse: "Sabe, eu queria morrer." e todo o meu corpo doeu. Os meus olhos transbordaram e ela disse "Não chore..." enquanto também os seus olhos se encheram de lágrimas e se sentou ao meu lado. Já não tinha dentes nem saúde, nem carne nos ossos, nem pele sem manchas e feridas. Ela era toda dor. A voz saía baixinho e fiquei a ouvi-la. Queria voltar a drogar-se porque já não tinha força, queria morrer sem sofrer, por não ter quem cuidasse dela. Dei-lhe dinheiro para o autocarro mas acho que saiu dali para fazer outra viagem. Não me sinto culpada por isso. Sinto culpa sim, por lhe ter dado a mão naquele momento e depois ter ido à minha vida. Depois de ler qualquer coisa sobre as salas de chuto na Suíça e na Alemanha, começo a não lhes torcer o nariz.
6 de março de 2007
5 de março de 2007
lágrimas deles, lágrimas minhas
Hoje o Miguel de 6 anos fez uma das suas birras que com certeza resultam em casa. Disse-lhe que estava a perder tempo, que não me comovia minimamente, que nunca conseguiria nada de mim dessa maneira e levou um par de berros quando chutou uma cadeira. Chora muito e não pára de argumentar, com voz anasalada e olhos que lhe saltam dos óculos. Eu, coração de pedra, ralho-lhe e elogio de seguida quem se senta ao lado das meninas sem se sentir "menos homem" por isso (que foi o motivo da birra do Miguel).
Já não terei tanto coração de pedra quando eles choram sem ser por birra e às escondidas. A Filipa tem um problema qualquer que não é assumido pela família, mas que tem características de Autismo. Vira um olho para cada lado como um camaleão e viaja num mundo só dela. Tem problemas de concentração e de desenvolvimento mas é muito meiga comigo. Como não tenho de fazer diagnósticos, trato-a simplesmente como aos outros e ela tem progredido imenso. No início nem desenhava e agora faz quase tudo, pinta e vem mostrar-me orgulhosamente as coisas que faz. Mas os meninos não perdoam e sabem que ela é estranha. Um dia chamei-a para vir desenhar ao quadro e o David disse "Oh ela faz tudo mal!", ficando imediatamente proibido de vir também. Entretanto, na mesa, a Patrícia divertia-se a esconder coisas da Filipa para ela ficar confusa e o Pedro, já impaciente por ela desenhar tão mal, desenhava na folha dela. Fiquei possuída. Diante de todos, disse-lhes que quem desenha bem ali sou eu e que nunca gozaria com eles por fazerem coisas fáceis ou desenharem pior do que eu. No fim da aula disse aos três criminosos do dia que não fossem embora porque eu queria falar com eles. O David veio imediatamente pedir-me desculpas mas teve que ouvir tudo até ao fim. Perguntei-lhes se não reparavam que a Filipa é diferente deles e eles disseram que sim. Disse-lhes que ela não faz as coisas mal porque quer, simplesmente não consegue fazer melhor e que não podem tratá-la assim, nunca mais. Nem a ela nem a ninguém e que deveriam pedir-lhe desculpa. Saíram todos a correr e eu fui-me embora triste, alheia ao facto de que ali, como professora, tenho às vezes tanta autoridade como os pais. Lá fora esperava a razão por que eles saíram a correr. Se a professora os segurou no fim da aula, é porque aprontaram das boas!
O David estava sentado no muro a soluçar e o Pedro, assim que chegou ao pé da mãe, começou a contrair-se e a pestanejar como se aí viesse uma chuva de pedras."O QUE É QUE TU FIZESTE!?" E eu caí em mim. Estas pessoas embrutecidas que batem numa criança como quem bate no cão, não sabem que se deve conversar com elas e que há coisas que têm de se ir contrariando porque os meninos não aprendem de repente. Consegui impedir que o Pedro apanhasse na minha frente e quase ordenei à mãe que nunca lhe batesse depois de eu já ter ralhado. Nisto a senhora que estava com o David mostrou-lhe as costas da mão e disse "Pára de chorar! Levas um estalo!" e eu meti-me na frente para perguntar ao David se tinha percebido o que eu tinha dito, ao que ele acenou sem tirar os olhos do chão nem parar de soluçar. "Então pronto. Até amanhã." - disse eu já a fugir para o carro e a tentar conter o choro até ao virar da esquina. Mas não consegui. A mágoa apoderou-se de mim. Tinha de ter feito aquilo. Tinha de proteger a Filipa e de lhes ralhar na hora, sem que ela estivesse a ouvir. Lá fora, as pessoas que me sugerem que dê um par de palmadas aos filhos, estragaram tudo. Tive medo que os meninos ficassem com raiva de mim, mas no dia seguinte já estava tudo bem outra vez. Apenas o meu coração doía, por o mundo não ser perfeito e as crianças pagarem por isso.
Já não terei tanto coração de pedra quando eles choram sem ser por birra e às escondidas. A Filipa tem um problema qualquer que não é assumido pela família, mas que tem características de Autismo. Vira um olho para cada lado como um camaleão e viaja num mundo só dela. Tem problemas de concentração e de desenvolvimento mas é muito meiga comigo. Como não tenho de fazer diagnósticos, trato-a simplesmente como aos outros e ela tem progredido imenso. No início nem desenhava e agora faz quase tudo, pinta e vem mostrar-me orgulhosamente as coisas que faz. Mas os meninos não perdoam e sabem que ela é estranha. Um dia chamei-a para vir desenhar ao quadro e o David disse "Oh ela faz tudo mal!", ficando imediatamente proibido de vir também. Entretanto, na mesa, a Patrícia divertia-se a esconder coisas da Filipa para ela ficar confusa e o Pedro, já impaciente por ela desenhar tão mal, desenhava na folha dela. Fiquei possuída. Diante de todos, disse-lhes que quem desenha bem ali sou eu e que nunca gozaria com eles por fazerem coisas fáceis ou desenharem pior do que eu. No fim da aula disse aos três criminosos do dia que não fossem embora porque eu queria falar com eles. O David veio imediatamente pedir-me desculpas mas teve que ouvir tudo até ao fim. Perguntei-lhes se não reparavam que a Filipa é diferente deles e eles disseram que sim. Disse-lhes que ela não faz as coisas mal porque quer, simplesmente não consegue fazer melhor e que não podem tratá-la assim, nunca mais. Nem a ela nem a ninguém e que deveriam pedir-lhe desculpa. Saíram todos a correr e eu fui-me embora triste, alheia ao facto de que ali, como professora, tenho às vezes tanta autoridade como os pais. Lá fora esperava a razão por que eles saíram a correr. Se a professora os segurou no fim da aula, é porque aprontaram das boas!
O David estava sentado no muro a soluçar e o Pedro, assim que chegou ao pé da mãe, começou a contrair-se e a pestanejar como se aí viesse uma chuva de pedras."O QUE É QUE TU FIZESTE!?" E eu caí em mim. Estas pessoas embrutecidas que batem numa criança como quem bate no cão, não sabem que se deve conversar com elas e que há coisas que têm de se ir contrariando porque os meninos não aprendem de repente. Consegui impedir que o Pedro apanhasse na minha frente e quase ordenei à mãe que nunca lhe batesse depois de eu já ter ralhado. Nisto a senhora que estava com o David mostrou-lhe as costas da mão e disse "Pára de chorar! Levas um estalo!" e eu meti-me na frente para perguntar ao David se tinha percebido o que eu tinha dito, ao que ele acenou sem tirar os olhos do chão nem parar de soluçar. "Então pronto. Até amanhã." - disse eu já a fugir para o carro e a tentar conter o choro até ao virar da esquina. Mas não consegui. A mágoa apoderou-se de mim. Tinha de ter feito aquilo. Tinha de proteger a Filipa e de lhes ralhar na hora, sem que ela estivesse a ouvir. Lá fora, as pessoas que me sugerem que dê um par de palmadas aos filhos, estragaram tudo. Tive medo que os meninos ficassem com raiva de mim, mas no dia seguinte já estava tudo bem outra vez. Apenas o meu coração doía, por o mundo não ser perfeito e as crianças pagarem por isso.
cogumelo
A minha cabeça neste momento. Capacete de laquê.
Quando entro no cabeleireiro sei que estou a passar para uma realidade paralela, onde as pessoas falam português mas não entendem o que eu digo. Tento explicar muito bem, com gestos e exemplos mas isso não adianta nada, assim como de nada valem as minhas orações enquanto finjo ler a Nova Gente e a Maria, pois quem tem a tesoura na mão já começou a concretizar o que tem em mente.
Hoje o corte ficou mesmo bom. Mas a menina que me secou o cabelo transformou-me na minha professora de Português do 12º ano.
Linguagem de cabeleireiro que já consegui traduzir:
"Qual o champô que costuma usar? Algum em especial?" - Tradução: "Deseja que lhe lave a cabeça com algum champô específico, por mais €1.50?"
"Costuma usar amaciador?" - Tradução: "Deseja que lhe aplique amaciador, por mais €1.50?"
Quando entro no cabeleireiro sei que estou a passar para uma realidade paralela, onde as pessoas falam português mas não entendem o que eu digo. Tento explicar muito bem, com gestos e exemplos mas isso não adianta nada, assim como de nada valem as minhas orações enquanto finjo ler a Nova Gente e a Maria, pois quem tem a tesoura na mão já começou a concretizar o que tem em mente.
Hoje o corte ficou mesmo bom. Mas a menina que me secou o cabelo transformou-me na minha professora de Português do 12º ano.
Linguagem de cabeleireiro que já consegui traduzir:
"Qual o champô que costuma usar? Algum em especial?" - Tradução: "Deseja que lhe lave a cabeça com algum champô específico, por mais €1.50?"
"Costuma usar amaciador?" - Tradução: "Deseja que lhe aplique amaciador, por mais €1.50?"
3 de março de 2007
patetices
De volta do Pateta para a Beatriz, penso nos direitos de autor do Walt Disney. Logo depois de ter feito um Noddy, fui informar-me junto da Sociedade Portuguesa de Autores sobre o que deveria fazer quando me pedem um boneco que não é de minha autoria. Disseram-me que se fosse num espaço público, talvez tivesse de pagar alguma coisa. Em relação à música, quando o compositor morreu há mais de 70 anos, já não temos de pagar direitos de autor. Ora, o Walt Disney morreu há 40. E agora que torno público o meu trabalho, sinto-me na obrigação de fazer alguma coisa. Jamais tentaria consolar-me com a desculpa de que "o império Disney não sofre com menos 100€" assim como não me consola a ideia de que os autores do Noddy ou do Pooh já estejam mortos e milionários. Para um cliente, talvez o valor da obra fique apenas pelo desenho mas para mim não. Eu, que vejo os meus bonecos a 3D dentro da minha cabeça, que os ouço e toco, que converso com eles, ficaria muito desgostosa se alguém um dia os reduzisse a simples desenhos copiáveis e assim ganhasse dinheiro, sem sequer me avisar.
melhor, mas com muita tosse
2 de março de 2007
made in portugal
binhas

A minha avó. Detesta o nome que tem e por isso é Bibinha. Uma mulher de armas, que sofreu tanto e já esqueceu muita coisa. A única avó que tenho, apaixonada por homens famosos que deseja beijar (palavras dela), tem 81 anos e pinta os olhos. Usou calças, teve leitor de VHS e telemóvel primeiro que qualquer mulher da idade dela. Tem pena que o Freddie Mercury fosse gay e adora broa, como eu.
A Binhas apanhou uma gripe e de repente ficou muito pequenina, quando a vi a tremer de febre. Veio-me à cabeça o tempo em que eu era mais baixa do que ela e ela tomava conta de nós. Dava-nos bolachas maria com manteiga, punha-nos a ver desenhos animados e deixava-nos brincar com toda a quinquilharia da casa. Comia morangos com açúcar e no fim lambia o pires. Dormíamos juntas e ela contava histórias, víamos as teias de aranha no tecto, cantava para mim e passava a noite toda a cobrir-me para eu nunca apanhar frio. Fazia bife com batatas (fritas ou cozidas) e nunca me esquecerei do arroz dela. Agora, como é uma mulher moderna, aquece as coisas congeladas no microondas e pronto.
A minha avó ficou pequenina e tão frágil, com febre e tosse e eu lembrei-me do Alberto Caeiro com vontade de chorar.
"Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."
(O Guardador de Rebanhos)
faróis de nevoeiro
Só depois de 100 posts é que me lembro deste tema! Sempre tive vontade de gritar ao mundo a minha raivinha dos condutores portugueses. Sempre vi o "Levanta-te e Ri" à espera que alguém abordasse o tema, sonhei ser comediante só para poder gozar com a cara deles e ser aplaudida de pé.
Esses senhores que quando compram o carro, o compram com uma série de extras. Não importa se desrespeitam o código da estrada, desde que os seus carros tenham jantes de liga leve, ar condicionado e, claro, faróis de nevoeiro (o que faz de qualquer cromo, um bom condutor). Ora, estes últimos nunca têm a sorte de lhes aparecer um belo nevoeiro, uma chuva intensa, uma queda de granizo, um nevão, uma tempestade de areia, um fim do mundo. E como os condutores dos carros quitados sabem isso, sabendo também que pagaram - e bem - para ter mais três faróis do que a maioria dos condutores trenguinhos como eu, toca a arranjar um fenómeno natural que justifique os belos faróis. O pôr-do-sol.
Odeio-os! Rogo-lhes super-pragas-imaginárias das mais poderosas. Odeio vê-los passar de mínimos ligados (prova de que não é necessário acender as luzes, porque ainda são 17h) e aqueles dois focos que me cegam completamente, a exibir o carrão que compraram e que tem luzes que brilham. Odeio-os ainda mais à noite, quando vêm atrás de mim e me encandeiam.
"Ah! Anoiteceu, 'bora ligar as luzes. Oh não! Era só uma nuvem..."
Esses senhores que quando compram o carro, o compram com uma série de extras. Não importa se desrespeitam o código da estrada, desde que os seus carros tenham jantes de liga leve, ar condicionado e, claro, faróis de nevoeiro (o que faz de qualquer cromo, um bom condutor). Ora, estes últimos nunca têm a sorte de lhes aparecer um belo nevoeiro, uma chuva intensa, uma queda de granizo, um nevão, uma tempestade de areia, um fim do mundo. E como os condutores dos carros quitados sabem isso, sabendo também que pagaram - e bem - para ter mais três faróis do que a maioria dos condutores trenguinhos como eu, toca a arranjar um fenómeno natural que justifique os belos faróis. O pôr-do-sol.
Odeio-os! Rogo-lhes super-pragas-imaginárias das mais poderosas. Odeio vê-los passar de mínimos ligados (prova de que não é necessário acender as luzes, porque ainda são 17h) e aqueles dois focos que me cegam completamente, a exibir o carrão que compraram e que tem luzes que brilham. Odeio-os ainda mais à noite, quando vêm atrás de mim e me encandeiam.
"Ah! Anoiteceu, 'bora ligar as luzes. Oh não! Era só uma nuvem..."
28 de fevereiro de 2007
são bebés

Juro que nem eu estava em cima de uma cadeira, nem a Raquel estava de joelhos.
O impulso que têm de fazer confusão é, na verdade, a Infância. A vivacidade, a alegria contagiante, a cumplicidade que têm entre si... é lógico que a má educação aliada a isto tudo, faz desastres e eu fico fora de mim várias vezes. Mas no fundo, sinto pena deles. Pus em prática até hoje, todas as técnicas que conheço e de que me lembrei para tentar sossegá-los e discipliná-los sem eles levarem a mal. Sei que me adoram, até porque não são muito exigentes, mas também porque eu tento falar a língua que eles falam entre si. Para que frases como "CALEM-SE!!!! Mal-criados!", "Queres que mande um recado para a tua casa?", "Estou com vontade de me ir embora e só fico aqui hoje porque me pagam!" não ficarem a latejar na minha cabeça e no inconsciente deles, esforço-me por recorrer a outra frases, outras técnicas que surtem o mesmo efeito e não nos deixam zangados:
- História de terror. Descrevo uma série de pormenores que alimentam a imaginação e trabalham a visualização e memória. Eles vão trabalhando e eu faço os sumários. No fim faço um concurso para ver quem se lembra dos pormenores todos. "Era uma vez uma lagartixa. Ela chegou a um casarão que tinha uma porta verde de 3 metros de altura e um batente dourado. Alguém sabe o que é um batente? (...) A lagartixa viu uma sombra e pegadas enormes, 20 vezes maiores do que ela, ouviu um som assustador e encostou-se a um canto cheia de medo." Olho para a turma. Tudo em silêncio, no entanto, de boca aberta e olhos esbugalhados, pincel na mão, mas sem pintar. No dia seguinte dizem-me que sonharam com a história mas querem uma pior ainda.
- Conto até 10, de olhos fechados, depois de anunciar que ao abrir os olhos, quem não estiver sentado vai ter o nome no quadro. Devem associar às escondidinhas, adoram.
- A boa e velha chantagem. Minha melhor aliada. "Só vem ao quadro quem estiver sentado com as duas perninhas para a frente, calado e concentrado!" Parecem militares.
- "Quem consegue ficar calado?" Levantam a mão e ficam mudos.
- Aula de pintura. Cada dois meninos tem direito a um prato de plástico - a nossa paleta. Passo pelas mesas com tinta, mas só dou a quem estiver mesmo mesmo calado. Para aumentar o grau de dificuldade, faço-lhes perguntas, às quais respondem instintivamente (pensando que não faz parte do jogo), ficando então sem tinta. É o delírio. "Não respondas! Não digas nada!!!" (Rui para o colega, depois de ter caído na ratoeira ao responder-me como se chamava).
- Ópera. Apanham cada susto. Mas depois também querem cantar. Faço de conta que não fui eu quem começou.
27 de fevereiro de 2007
dumbo
O filme mais triste e mais marcante que já vi.
O filme que me ensinou a gostar dos animais selvagens, gostar tanto que só os queria muito longe de nós, humanos.
Os elefantes, assim como muitos outros animais, criam laços afectivos com os seus familiares e amigos, sofrem com a perda dos seus queridos, visitam cemitérios e, às vezes, choram lágrimas gordas como as do Dumbo.
O filme Dumbo da Disney não merece ser pirateado. Merece ser comprado ou alugado e mostrado a todas as crianças e a todos os adultos (neste video, a música original, recebeu o Oscar - choro sempre). E para quem não gosta de bonecos como eu, fica este livro e este site.
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