Lembro-me muito da Sara, uma menina que poucas vezes me dirigiu a palavra mas que foi a primeira a tirar-me do sério (pôr-me roxa, a suar, a esbracejar, a desgoelar-me, a ficar como só quem passa por isso sabe). Mas lembro-me dela pelas melhores razões.
Uma vez fiz um concurso. Tinham de fazer um desenho e o melhor receberia um prémio. Disse-lhes que não precisavam de entregar o desenho terminado, até porque tínhamos pouco tempo. Apesar disto, eles desenharam e pintaram à pressa, mais ainda ao ouvir-me dizer que já estava na hora de entregar. A Sara entregou-me um desenho a lápis e ainda por pintar, calmamente e sem pretensão nenhuma. E eu nunca me vou esquecer da expressão de felicidade que invadiu a carinha dela quando eu disse à turma que ela era a vencedora. Tive de lhe dizer que viesse receber o prémio, pois ela continuava sentada.
A Sara era magrinha, alta e morena. Uns olhos enormes, pretos e pestanudos. Nunca foi de muitos abraços e beijos mas criou um ritual comigo: saía da escola e dizia-me adeus ao ver-me entrar no carro. Sorria sempre. E enquanto eu fazia a inversão de marcha para descer a rua, ela ia andando em direcção a casa, atravessava a estrada principal e às tantas atrasava o passo e punha-se a olhar para trás enquanto andava, que era para me ver passar de carro. E eu passava e dizia-lhe adeus, e ela a mim, de muito longe, e ficava tão feliz que eu nem entendia porquê. Fazíamos isto todos os dias e eu ainda hoje sinto vontade de chorar ao lembrar-me dela na beira da estrada e de mochila às costas, à espera que eu passasse.
Mostrar mensagens com a etiqueta os meus alunos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta os meus alunos. Mostrar todas as mensagens
3 de setembro de 2007
22 de junho de 2007
férias
Acabaram as aulas e com elas a minha experiência como professora em escolas primárias. Despedi-me dos meninos sem adeuses, sem lágrimas, sem discursos. Porque já foi tudo dito e porque hei-de visitá-los.
Todas as turmas estiveram especialmente insubordinadas nestes últimos dias. Prometi caramelos de morango a quem se portasse bem... somente os do monte tiveram direito.
Um dos 13 veio dar-me um beijo pela primeira vez e disse:
Eu queria ter mais aulas. Estas foram as aulas de que mais gostei. As minhas aulas favoritas.



Todas as turmas estiveram especialmente insubordinadas nestes últimos dias. Prometi caramelos de morango a quem se portasse bem... somente os do monte tiveram direito.
Um dos 13 veio dar-me um beijo pela primeira vez e disse:
Eu queria ter mais aulas. Estas foram as aulas de que mais gostei. As minhas aulas favoritas.



8 de junho de 2007
os fracos e oprimidos e a pessessora justiceira
Um dia destes estava eu a voltar à sala dos 20 depois de lavar pincéis e copinhos de iogurte e deparo-me com a seguinte cena: João e Pedro, um de cada lado da Filipa (a menina que tem um problema qualquer não assumido pela família e algum atraso no desenvolvimento) a colocarem-lhe um enorme saco de plástico azul na cabeça.A Filipa é diferente. Hoje está muito melhor, antes quase nem comunicava comigo e eram poucos os exercícios que fazia. Agora faz tudo, à maneira e ao ritmo dela. Mas não deixa de ser diferente, de parecer uma totó, de ser motivo de chacota. E eu que já mais de uma vez defini muito bem a minha posição em relação ao assunto "fazer pouco dos outros" naquela turma, quando vi a Filipa indefesa no meio dos dois pequenos demónios da turma, tive um gigantesco ataque de fúria. Mandei um par de berros tão assustadores ao Pedro (que nesse momento estava empolgado a mostrar ao João como fazer) que os olhos dele imediatamente se encheram de lágrimas. Aproximou-se de mim com uma das suas boas mentiras (regras de sobrevivência de um menino muito pequenino que apanha forte e feio em casa): "Ó pufessora foi o João, eu estava a tirar!".
Respirei fundo. Ralhei. Expliquei o perigo do saco de plástico na cabeça, disse que não se incomoda os outros, não se bate, não se goza, não se arrelia. Não se faz nada que não gostemos que nos façam também.
Fiquei com a imagem da Filipa com aquele enorme e ridículo chapéu de cozinheiro azul, quieta, ainda sem reacção. Para ela aquilo nem deve ter tido importância. Mas para mim foi um soco no estômago.
Hoje, no monte, o Zé que fala baixinho e que não me dá confiança, estava a chorar baixinho. Magoado. "O que foi Zé? Tiraram-me a bola. E a bola é tua? É. E quem ta tirou? O Raul e o Diogo."
Dá-se o meu segundo ataque de fúria da semana. Os dois rufias da escola escolheram como vítima o Zé (que também não é santo mas é mais pequeno que eles, é só um, é magrinho e fala muito fininho e baixinho. E é o dono da bola.). "Anda Zé que vamos buscar a tua bola agora."
Toda a turma rejubilou. A professora estava prestes a meter medo aos meninos grandes de quem todos têm medo. Chegámos lá a baixo e o Zé foi cheio de coragem ao encontro dos matulões (um deles tem cara de homem, é rouco, tem braços musculados e cerra os dentes quando ameaça alguém de punho no ar, seja menino ou menina, da idade dele ou mais novo). Assim que me viram ("Olha quem vem aí!") atiraram-me a bola e quase fugiram mas já era tarde. Bombardeei-os com uma sequência de perguntas que só podia levá-los a dar-me razão e a, depois de uns segundos de silêncio, pedir desculpa ao Zé na frente dos outros meninos. Pura humilhação. Ainda houve espaço para uma ameaça de porrada no Domingo (missa?) mas eu estava ali, gigante, de bola na mão, pronta para ameaçar por cima com a possibilidade de falar com os pais. E já se sabe onde estes meninos vão buscar o uso da força para impor respeito...
Apesar da fúria, tive o cuidado de os fazer ver o lado do Zé: "Eu sou maior que vocês os dois juntos e não vos tiro nada sem autorização e sabem porquê? Porque não sou malcriada. Porque não sou injusta. Não sou má. (...) E se alguém vos tirar alguma coisa assim como vocês tiraram ao Zé? Ah leva logo um soco! - aproximei-me do Rambo - Então adivinha lá porque é que o Zé não te dá um soco a ti."
O Rambo começou a rir-se, atrapalhado e foi essa a nossa deixa para voltar à sala de aula, como heróis. Os meus pequeninos bochechudos estavam ansiosamente à espera de saber se eu tinha batido em alguém, está claro. Aproveitei para lhes perguntar se também vão ser como o Raul e o Diogo quando crescerem...
Sei que não poderia fazer isto com meninos da cidade, muito menos meninos com mais de 10 anos, pois aí o Zé não teria de esperar por Domingo para se arrepender de ter falado. Felizmente pude fazê-lo. Penso sempre em que adultos se irão transformar estas crianças.
Para desanuviar, desenhámos muito no quadro e o Duarte* também teve direito a mimo especial. Quando cheguei e ele veio pela mão da funcionária ao meu encontro, olhei para a sua cara suja de tudo (manteiga, migalhas, ranho, etc) e decidi, arriscando-me a desautorizar a senhora, pegar nele e ir lavar-lhe a cara (mesmo sem sabonete, que desse só há por milagre). E ele na boa. De repente aquela cara escura e seca parecia uma cara de criança e eu tive vontade de o ter mais tempo comigo só para o acarinhar.
Depois consegui fazê-lo ir ao quadro e por lá ficou até ao fim da aula, deliciado com o giz azul nas mãos... e na cara.
1 de junho de 2007
expressão
Hoje jogámos a este jogo de desenhar para os outros adivinharem. As profissões. Vejo como os meus meninos se desenvolveram. Penso mais uma vez no sistema de ensino e em como a Arte (em especial o Desenho) puxa por eles a todos os níveis. É surpreendente.
Dentista e Condutor de autocarro
Astronauta
Professor
Treinador
Dentista e Condutor de autocarro
Astronauta
Professor
Treinador
21 de maio de 2007
prémio do melhor aluno
Na 6ª feira cheguei ao monte com um discurso debaixo da língua. Contei aos meninos da minha zanga com os 13. Disse-lhes tudo e eles ficaram chocados ("São mesmo malcriados!"). Tudo para chegar a um elogio à turma. Disse-lhes que foram a minha turma que mais evoluiu (por outras palavras), que aprenderam muito comigo e que estavam todos de parabéns. Foi com muita tristeza que os ouvi dizer que os senhores do agrupamento dizem que os meninos do "monte" são os piores. Escusado será dizer que eu vou encher a boca na próxima vez que falar com o professor do conselho executivo, dizendo-lhe para além do óbvio, como estou chocada com o que chega aos ouvidos (e à auto-estima) destas crianças.
Todos receberam no fim da aula dois daqueles doces prémios.
O Pólo Norte, por Pedro I. (do monte).
Hoje respirei fundo antes de pôr os pés na turma dos 13.
Uma das vantagens de trabalhar com crianças nesta idade é poder tirar partido do seu apuradíssimo sentido de justiça. Pergunto-lhes sempre se sabem por que estou chateada, por que estão a ser castigados e eles sabem sempre. Sempre.
Hoje comecei por lhes perguntar se tinham notado algo de diferente na última aula (eu saí de lá a espumar pela boca, quase bati com a porta ao deixá-los lá dentro e confesso que detestaria ver uma filmagem do estado em que fiquei quando atingi o meu limite).
Quando os confronto assim eles ficam tristes, calados (!) e pensativos. De seguida disse-lhes que eles tinham conseguido a proeza de me fazer ficar farta deles. Ameacei proibir que voltassem à minha aula se alguém se atrevesse a desrespeitar-me mais uma vez.
A aula correu bem. Mas o melhor estava para vir. Quando faltavam dois minutos para o fim da aula eu perguntei se sabiam com quantos meninos naquela turma eu nunca me tinha zangado a sério. Tudo mudo. Quando coloquei a questão de outra forma ouviu-se um coro: "PEDRO".
Elogiei os meninos que antes se portavam muito mal e que agora estão bem melhor, elogiei os que nunca me fizeram perder a cabeça e por último perguntei se eles sabiam quem era o meu melhor aluno ali dentro. "PEDRO".
Pedro, eu tenho uma prenda para ti. Porque quando um menino se esforça, deve ser recompensado. E para que todos vejam que vale a pena. Escrevi aqui um recado para os teus pais saberem.
Ouviu-se um burburinho assim que eu peguei no saco e tirei de lá uma caixa de 24 marcadores e outra de 24 lápis. O Pedro pôs-se a pé imediatamente e veio receber o prémio. Não sorriu porque ele não é muito expansivo. Também não é o mais brilhante nem o que desenha melhor. Mas é, sem sombra de dúvidas, o mais esforçado, o mais dedicado, o mais bem-educado. O melhor aluno.
Senti muita vontade de chorar. E no carro chorei. Parabéns Pedro.
Todos receberam no fim da aula dois daqueles doces prémios.
O Pólo Norte, por Pedro I. (do monte).Hoje respirei fundo antes de pôr os pés na turma dos 13.
Uma das vantagens de trabalhar com crianças nesta idade é poder tirar partido do seu apuradíssimo sentido de justiça. Pergunto-lhes sempre se sabem por que estou chateada, por que estão a ser castigados e eles sabem sempre. Sempre.
Hoje comecei por lhes perguntar se tinham notado algo de diferente na última aula (eu saí de lá a espumar pela boca, quase bati com a porta ao deixá-los lá dentro e confesso que detestaria ver uma filmagem do estado em que fiquei quando atingi o meu limite).
Quando os confronto assim eles ficam tristes, calados (!) e pensativos. De seguida disse-lhes que eles tinham conseguido a proeza de me fazer ficar farta deles. Ameacei proibir que voltassem à minha aula se alguém se atrevesse a desrespeitar-me mais uma vez.
A aula correu bem. Mas o melhor estava para vir. Quando faltavam dois minutos para o fim da aula eu perguntei se sabiam com quantos meninos naquela turma eu nunca me tinha zangado a sério. Tudo mudo. Quando coloquei a questão de outra forma ouviu-se um coro: "PEDRO".
Elogiei os meninos que antes se portavam muito mal e que agora estão bem melhor, elogiei os que nunca me fizeram perder a cabeça e por último perguntei se eles sabiam quem era o meu melhor aluno ali dentro. "PEDRO".
Pedro, eu tenho uma prenda para ti. Porque quando um menino se esforça, deve ser recompensado. E para que todos vejam que vale a pena. Escrevi aqui um recado para os teus pais saberem.
Ouviu-se um burburinho assim que eu peguei no saco e tirei de lá uma caixa de 24 marcadores e outra de 24 lápis. O Pedro pôs-se a pé imediatamente e veio receber o prémio. Não sorriu porque ele não é muito expansivo. Também não é o mais brilhante nem o que desenha melhor. Mas é, sem sombra de dúvidas, o mais esforçado, o mais dedicado, o mais bem-educado. O melhor aluno.
Senti muita vontade de chorar. E no carro chorei. Parabéns Pedro.
18 de maio de 2007
o que eu não escrevo aqui

Depois deste comentário (e isto não é uma provocação) fiquei a pensar se haverá mais gente que pensa como a Petra. Pensei nisso e noutras coisas:
Será que quem vem aqui, por não ler determinadas coisas, julga que elas não existem na minha vida? Será que pensam que eu não tenho vida sexual? Será que pensam que eu não vejo televisão e chamo nomes a um personagem da novela quando ele trai a mulher? Será que pensam que eu não saio de casa se não para dar aulas ou ir às compras, só porque não escrevo sobre o resto? Ora bem. Será que pensam que os meus alunos não fazem mais nada para além do que eu aqui escrevo?
Isto é um blog. Eu só escrevo aqui sobre coisas que me marcam e que considero interessantes para partilhar com quem quiser lê-las.
Eu não escrevo, no que toca aos meus alunos, coisas óbvias como os meus alunos são crianças. Eu parto do princípio que se sabe que qualquer criança desobedece, se distrai, se cansa. Que qualquer criança precisa de estímulos e que eu me esmero em motivá-los e participar positivamente na sua educação... Não sinto a menor vontade de dizer aqui que ralhei com o Zé Pedro porque ele não pára quieto e desestabiliza a turma inteira, que o João me parece ter um problema grave de comportamento, que a Tânia tem pé chato, que a Cláudia é carente. Disto, quem lida com crianças (ou faz a mínima ideia do que é a Infância) sabe que é o pão nosso de cada dia. Todos os dias eu dou uma ralhete a alguém. Todos os dias me lembro que qualquer acto de rebeldia por parte de um aluno é atentamente observado por dezenas de pares de olhos. Todos os dias sou firme. E todos os dias elogio e abro um enorme sorriso às turmas. Será que eu tenho de escrever isso aqui? Será que não se deduz?
Não todos os dias mas também muitas vezes, eu zango-me com os meninos mais malcriados. Fico exausta, fico triste com determinadas atitudes que não sinto a menor vontade de relatar aqui. Mas não é isso a vida de professor? Não está subentendido? Não é óbvio que no dia seguinte eu volto a encher-me de alegria por ir dar aulas? Não é claro como água que eu tenho vontade e gosto em ir ter com aquelas crianças, apesar dos €12/hora e dos 4€ de gasolina/dia?
Eu ainda acho que quem lê o Vermelho Devagarinho sabe que para eu ter perdido a vontade de ir dar aula à turma dos 13, é porque algo de muito grave se passa ali. Não preciso de escrever. Ou preciso?
17 de maio de 2007
dá-me um beijinho
Depois da minha grande zanga com a turma dos 13 fiquei com vontade de não voltar lá. Apesar de eu adorar os meus alunos devo dizer que não gosto dos pais deles. Esses pais da mão pesada que de educação pouco percebem. Nesta turma os meninos são de uma exigência e desconfiança que me irrita. Lembram-me de mim e da minha turma do 8º ano. Desprezávamos os professores, pareciam-nos todos uns totós. Alguns da turma dos 13 (não todos) questionam o que eu digo, dão palpites e muitas vezes fingem que eu não falei.

Para meu regalo estes 13 estão em minoria em relação a outros 41 que me adoram. Acreditam nas coisas que eu digo, absorvem como esponjas tudo o que tenho de interessante para lhes transmitir, respeitam-me e levam-me muito a sério, apesar das minhas brincadeiras. Estes 41 gritam o meu nome em tom de claque, abraçam-me as pernas, dizem que eu estou bonita, querem ser à minha beira, esperam ansiosamente que a porta abra para eu entrar e se alaparem no meu corpo ou treparem por ele a cima (deixando-me meia-despida), fazem fila para beijinhos e às vezes dizem oooooooh quando eu mando arrumar. Crianças carentes ou simplesmente bem educadas. Crianças que dizem dá-me um beijinho como quem pede um medicamento e que se deixam ficar imóveis com as caras entre as minhas mãos a aproveitar cada um dos meus muitos beijos repenicadinhos.

Para meu regalo estes 13 estão em minoria em relação a outros 41 que me adoram. Acreditam nas coisas que eu digo, absorvem como esponjas tudo o que tenho de interessante para lhes transmitir, respeitam-me e levam-me muito a sério, apesar das minhas brincadeiras. Estes 41 gritam o meu nome em tom de claque, abraçam-me as pernas, dizem que eu estou bonita, querem ser à minha beira, esperam ansiosamente que a porta abra para eu entrar e se alaparem no meu corpo ou treparem por ele a cima (deixando-me meia-despida), fazem fila para beijinhos e às vezes dizem oooooooh quando eu mando arrumar. Crianças carentes ou simplesmente bem educadas. Crianças que dizem dá-me um beijinho como quem pede um medicamento e que se deixam ficar imóveis com as caras entre as minhas mãos a aproveitar cada um dos meus muitos beijos repenicadinhos.
14 de maio de 2007
deles
Na aula, sobre os direitos dos animais: O animal morto deve ser tratado com respeito.
Eu: Imaginem que encontramos uma vaca atropelada. Deixamos o seu corpo ficar no meio da estrada para levar com mais carros?
Miguel (8 anos): Achas? O carro até buába por cima da baca!
Miguel (6 anos): A vaca até deitava leite!
Eu: ...
Noutra aula, o Rui não se cala e o Pedro está no quadro a desenhar.
Eu: Rui, pára com as fitas!
Rui: O que são fitas?
Eu: É o que tu fazes muito, Rui.
Pedro: Eu sei o que são fintas! Lá fora até fintei dois!
Eu: ...
Eu: Imaginem que encontramos uma vaca atropelada. Deixamos o seu corpo ficar no meio da estrada para levar com mais carros?
Miguel (8 anos): Achas? O carro até buába por cima da baca!
Miguel (6 anos): A vaca até deitava leite!
Eu: ...
Noutra aula, o Rui não se cala e o Pedro está no quadro a desenhar.
Eu: Rui, pára com as fitas!
Rui: O que são fitas?
Eu: É o que tu fazes muito, Rui.
Pedro: Eu sei o que são fintas! Lá fora até fintei dois!
Eu: ...
11 de maio de 2007
bater

Hoje o Miguel aproximou-se de mim com os olhos no chão e disse: "Quero dizer uma coisa... o meu pai disse para eu dizer que peço desculpa... eu nunca mais volto a fazer... eu nunca mais me porto mal...".
O meu coração doeu e a minha voz tremeu ao dizer-lhe "está bem". Ontem o Miguel foi muito malcriado e faltou-me ao respeito. Não é necessário estar aqui a relatar o seu comportamento. Basta dizer que senti pela primeira vez que se ele não estivesse a 5 metros de mim talvez a minha mão tivesse ganho vida própria e tivesse abanado o seu corpinho violentamente. Associado ao mau comportamento dos outros, isto foi razão suficiente para hoje eu não ter tido vontade de lá voltar.
A notícia correu a escola, deu em castigos e acabou com uma aula sossegada, hoje.
Sinto uma revolta muito grande. Esta minha turma tem 13 alunos, todos "normais". É a turma de crianças mais malcriadas que alguma vez vi. Contra mim tenho vários factores:
- Eu não obrigo ninguém a participar nas aulas, acredito que a arte e a expressão plástica nesta idade se devem fazer por gosto;
- Eu não imponho respeito, conquisto-o;
- Eu não meto medo aos meus alunos, isso faria de mim uma má professora;
- Eu promovo a confiança e a amizade, não vejo nisso falta de respeito;
- Eu não bato, sou totalmente contra o uso de violência física ou psicológica.
- Os pais destas crianças batem por tudo e por nada, acho que nunca leram nada sobre psicologia.
humor infantil
As anedotas dos meus alunos, assim como aquilo que os faz rir são de uma ingenuidade que me enternece.
Ontem a Raquel estava a contar à Juliana que o Zé Pedro viu as cuecas da Patrícia. A Raquel mede dois palmos, não tem os dentes da frente e quando se ri muito os olhos crescem e brilham, a veia da testa incha e a cara cora. Foi assim que eu a vi a contar o sucedido, enquanto a Patrícia se torcia toda, sorridente e orgulhosa. A Raquel continuou:
"O Zé Pedro entrou e ela estava assim (exemplifica, cuecas nos joelhos) e ele viu!!! E depois eu perguntei-lhe de que cor eram as cuecas, ele disse que eram brancas E ERAM MESMO!"
Ontem a Raquel estava a contar à Juliana que o Zé Pedro viu as cuecas da Patrícia. A Raquel mede dois palmos, não tem os dentes da frente e quando se ri muito os olhos crescem e brilham, a veia da testa incha e a cara cora. Foi assim que eu a vi a contar o sucedido, enquanto a Patrícia se torcia toda, sorridente e orgulhosa. A Raquel continuou:
"O Zé Pedro entrou e ela estava assim (exemplifica, cuecas nos joelhos) e ele viu!!! E depois eu perguntei-lhe de que cor eram as cuecas, ele disse que eram brancas E ERAM MESMO!"
10 de maio de 2007
os meus pequeninos
Ando tão atarefada de volta dos livros que já nem me preocupa tanto o estado do chão da cozinha. Hoje os senhores das boas intenções voltaram e felizmente eu estava de pijama, nem sequer abri a porta. "Está tudo bem com a família?" - disse um deles e eu afastei-me da porta apavorada.
Tenho dois desenhos para fazer. Dois dos meus alunos. São dos mais baixinhos. Um é o Pedro e outra é a Catarina. Ele é despenteado, moreno, de olhos verdes. Uma peste. Rouco e muito travesso. Ela é ruiva, olhos castanhos e voz também rouca. Ele fala aos berros, ela fala tão baixo que eu tenho de me baixar para a ouvir. Em comum têm os dentes de leite tão pequeninos que nunca deixo de os observar. Lindos.
Frases deles:
Pedro - "Uma vez um gato mordeu-me aqui (no braço) e eu nem chorei!"
Catarina - "Natacha, o meu irmão rráchga-me os dessenhos."
Tenho dois desenhos para fazer. Dois dos meus alunos. São dos mais baixinhos. Um é o Pedro e outra é a Catarina. Ele é despenteado, moreno, de olhos verdes. Uma peste. Rouco e muito travesso. Ela é ruiva, olhos castanhos e voz também rouca. Ele fala aos berros, ela fala tão baixo que eu tenho de me baixar para a ouvir. Em comum têm os dentes de leite tão pequeninos que nunca deixo de os observar. Lindos.
Frases deles:
Pedro - "Uma vez um gato mordeu-me aqui (no braço) e eu nem chorei!"
Catarina - "Natacha, o meu irmão rráchga-me os dessenhos."
24 de abril de 2007
serviço público
No mundo dos caramelos de fruta, o de morango é Deus.Em terra de criança, quem tem caramelo de morango é rei.
Jamais deixarás uma criança escolher o caramelo. As do fim da fila roer-se-ão de inveja porque não há de morango suficientes.
Jamais deixarás alguém trocar de sabor porque "num guósto de limom...". Eles gostam de todos, até se houver de cebola.
Jamais comerás caramelos de fruta diante de crianças sem lhes prometeres um a cada. Instalar-se-á o caos e elas soltarão gritos de guerra do género: "Aaaaaah gulosa! Não é justo!!!"
Jamais levarás os caramelos de fruta dentro de sacos de plástico. As crianças têm visão raio-x.
17 de abril de 2007
crida prebesa


Se a minha aluna Diana bordasse, aposto que faria lenços dos namorados. A foto é da Rosa Pomar.
Sei muito bem do que vou sentir mais falta quando deixar as escolas.
Quando eles dão uma corrida para se aproximarem de mim e dizerem olá, quando se agarram ao meu corpo como lapas, quando conversam comigo honestamente sabendo que me podem contar tudo e que eu nunca lhes bateria, quando me oferecem desenhos lindos e me fazem declarações de amor. E quando ficam a ver-me ir embora.
educar
Educar bem deve ser a coisa mais difícil do mundo. Cruzes!
Estou farta de ouvir a teoria que ponho em prática: as crianças precisam de regras, precisam de limites, precisam de firmeza, de rigor, precisam tanto de ouvir um não como de ouvir um sim. As crianças são manipuladoras e génios da chantagem emocional. Apesar disto, eu sofro nas mãos deles. Às vezes é mesmo muito muito difícil. Há dias em que eles só querem brincar porque precisam de brincar e há dias em que eu não quero brincar, quero dar aula sem ter de puxar pela cabeça para lhes dar a volta. Alguns vêm de casa muito mal-educados e o meu trabalho ainda fica mais dificultado. Apesar de às vezes eu falhar (e lamento tanto), há duas coisas que nunca esqueço: os elogios e os castigos.

Alguns dos meninos têm como máxima a ideia que eu também tive em relação aos professores: são uns idiotas. Há meninos que me fazem de burra, acham que eu não pesco as suas conspirações, que não percebo que só ficam calados enquanto eu estiver a olhar para eles e que assim que virar costas eles recomeçam a cochichar. Alguns gozam com a minha cara e pensam que não me vingo.
Ora, numa das aulas de pintura com giz no quadro, a Sabrina foi a última. Quando acabou, pedi-lhe que apagasse o quadro para irmos embora. Ela começou a apagar e assim que eu desviei os olhos, pôs-se a desenhar outra vez e a escrever, com toda a turma a ver. Quando vi, dei-lhe um par de berros e disse, para que todos tomassem como exemplo: "Tu nunca mais numa aula minha, voltas a ir ao quadro." - e ela riu-se. Eu continuei: "Não percebeste? Nunca mas nunca mais, até ao fim do ano, tu voltas a desenhar no quadro. Devias era estar a chorar." e então ela ficou pensativa e os outros gravaram aquilo nas suas memórias.
Depois disso, houve uma aula em que foram desenhar ao quadro e todos fizeram questão de me lembrar que a Sabrina não podia ir. Ela mesmo assim pediu-me muito para ir, até se humilhou mas eu não arredei pé. Remédio santo para todos. Há poucos dias voltámos ao quadro. E foi nesse dia que o meu coração se partiu em pedacinhos. Ela ficou tão caladinha, vermelha, com um nó na garganta. Rezou para que eu me esquecesse do eterno castigo e tentou redimir-se. Eu fingi que não vi. Mandei-os ao quadro um por um. Não houve tempo para irem todos mas a Sabrina soube, e eu também, porque é que ela não foi. Portou-se muito bem e tem melhorado imenso. E como recompensa, não vai voltar a ver os colegas irem ao quadro com aquele nó na garganta e aqueles olhos postos em mim, quando eu não estivesse a olhar para ela. Não há mais quadro para ninguém, por ela e por mim...
Estou farta de ouvir a teoria que ponho em prática: as crianças precisam de regras, precisam de limites, precisam de firmeza, de rigor, precisam tanto de ouvir um não como de ouvir um sim. As crianças são manipuladoras e génios da chantagem emocional. Apesar disto, eu sofro nas mãos deles. Às vezes é mesmo muito muito difícil. Há dias em que eles só querem brincar porque precisam de brincar e há dias em que eu não quero brincar, quero dar aula sem ter de puxar pela cabeça para lhes dar a volta. Alguns vêm de casa muito mal-educados e o meu trabalho ainda fica mais dificultado. Apesar de às vezes eu falhar (e lamento tanto), há duas coisas que nunca esqueço: os elogios e os castigos.

Alguns dos meninos têm como máxima a ideia que eu também tive em relação aos professores: são uns idiotas. Há meninos que me fazem de burra, acham que eu não pesco as suas conspirações, que não percebo que só ficam calados enquanto eu estiver a olhar para eles e que assim que virar costas eles recomeçam a cochichar. Alguns gozam com a minha cara e pensam que não me vingo.
Ora, numa das aulas de pintura com giz no quadro, a Sabrina foi a última. Quando acabou, pedi-lhe que apagasse o quadro para irmos embora. Ela começou a apagar e assim que eu desviei os olhos, pôs-se a desenhar outra vez e a escrever, com toda a turma a ver. Quando vi, dei-lhe um par de berros e disse, para que todos tomassem como exemplo: "Tu nunca mais numa aula minha, voltas a ir ao quadro." - e ela riu-se. Eu continuei: "Não percebeste? Nunca mas nunca mais, até ao fim do ano, tu voltas a desenhar no quadro. Devias era estar a chorar." e então ela ficou pensativa e os outros gravaram aquilo nas suas memórias.
Depois disso, houve uma aula em que foram desenhar ao quadro e todos fizeram questão de me lembrar que a Sabrina não podia ir. Ela mesmo assim pediu-me muito para ir, até se humilhou mas eu não arredei pé. Remédio santo para todos. Há poucos dias voltámos ao quadro. E foi nesse dia que o meu coração se partiu em pedacinhos. Ela ficou tão caladinha, vermelha, com um nó na garganta. Rezou para que eu me esquecesse do eterno castigo e tentou redimir-se. Eu fingi que não vi. Mandei-os ao quadro um por um. Não houve tempo para irem todos mas a Sabrina soube, e eu também, porque é que ela não foi. Portou-se muito bem e tem melhorado imenso. E como recompensa, não vai voltar a ver os colegas irem ao quadro com aquele nó na garganta e aqueles olhos postos em mim, quando eu não estivesse a olhar para ela. Não há mais quadro para ninguém, por ela e por mim...
12 de abril de 2007
eu juguei futebole até à nuoite!

Voltei aos meus aluninhos. Não pareciam os mesmos. Calmos, concentrados, espevitados. Depois de horas e horas de rua, nas férias, voltaram revigorados, morenos, sossegados para a minha aula. "Eu andei de patins! ... Eu andei de bicicleta! ... Eu brinquei com a minha mãe!"
Sei que não vai durar muito tempo e é isso que me revolta. Quando eu tinha a idade deles, brincava até me cansar. Brincava muito com coisas pequenas, folhinhas, paus, com as minhas bonecas e desenhava tanto. Estas crianças, apanhadas pelo Enriquecimento Curricular, saem da escola ao fim do dia, não vêem o sol e não cheiram a terra, tanto quanto necessitam. E esse é um dos motivos por que me sinto menos mal em deixá-los, em Junho. Este sistema educativo não funciona. Transforma crianças em bichos encarcerados, com distúrbios do comportamento (que eu testemunhei e esta certeza ninguém ma tira), na tentativa de criar doutores e engenheiros para o nosso país.
Mais uma vez comparo esta educação com a que eu tive: Eu não tive inglês desde os 6 anos, eu não tive informática na escola, eu não tive aulas de teatro, música, pintura e educação física anexadas ao tão essencial e obrigatório Estudo do Meio, à Matemática, à Lingua Portuguesa e à História e Geografia de Portugal. E não é que até fui boa aluna? Talvez por o meu cérebro se ter alimentado também de brincadeiras, de imaginação, de desenhos-animados, de muita fantasia e imensa gargalhada.
Na Escola Primária dos meus sonhos, também há Civismo como disciplina, há Culinária, há noções básicas de Primeiros Socorros em brincadeiras e teatrinhos. Há (meus Deus) Educação Sexual, há muita Arte, há Jogos, há Jardinagem, há Código da Estrada mais na prática (vrrum vrrum eu sou um camião!) do que na teoria e há tempo de sobra para se brincar. E ao sair da escola, há luz do dia e uma tarde livre pela frente. Da escola dos meus sonhos, os doutores e engenheiros sairiam a saber cozinhar, com perspectivas de deixar as saias da mãe antes dos 30 anos.
Obrigada querida Lu, por me mostrares esta escola :)
30 de março de 2007
deficiente 2

Hoje eu e a Tocas fizemos um bolo. Rimo-nos muito, juntas.
Ela é única, no seu tamanho e ingenuidade de 3 anos, num corpo de 6. Digo-lhe que a quero só para mim e ela pergunta puqué. Fala um dialecto que é só dela e que nós, seus fãs incondicionais, entendemos. Sempre tão cómica, com um sentido de humor que nunca vi numa criança "normal". É rápida nos seus discursos teatrais, tão rápida que não me dá tempo de tomar nota mentalmente, das coisas incríveis que diz.
No outro dia contei-lhe do cocó da Mimi na casa-de-banho e ela, logo de seguida, inventou também uma história de um cão que teve que era inóme e fazia um cocó inóme, também. E o cheiro era riba. Riba riba riba!
Hoje ela disse coisas tão engraçadas. Vou começar a escrevê-las e depois farei uma história ilustrada.
O mundo seria um lugar melhor, se houvesse mais gente como a Tocas. Descubro-lhe qualidades que não conheço em mais ninguém. (Quem diria? Eu, miss-aborto, a pensar que um bebé com trissomia 21 dentro de mim, nasceria sim senhor...)
25 de março de 2007
aperta-me também
Na escola dos 20 há infantário. Vejo os meninos de lá como bebés. Muito baixinhos e bochechudos. Gostam de me dizer adeus e ficar a olhar para mim.
Um dia destes estava um monte de meninas de uns 3 ou 4 anos a observar-me então eu disse-lhes olá e não resisti a esfregar a barriguita de uma delas."Vocês são tão giras!"
Foi aí que ela se encostou toda a mim, à minha perna. Abracei-a com uma mão. "Ai que eu aperto-te, que delícia!" e assim que a larguei e me dirigi para a porta, uma outra menina encheu-se de coragem e tocou-me na perna. Recuou e esperou que eu olhasse para baixo. E lá estava ela, à espera de um mimo também.
"Anda cá, anda que eu aperto-te também!"
E subitamente as outras meninas dirigiram-se para as minhas pernas como bicharocos e enroscaram-se todas num abraço apertado. Apertei-as uma por uma, com festinhas nas costas e cafunés. Nenhuma delas falou.
Às vezes vale a pena ser adulto, para poder observar estas coisas.
Um dia destes estava um monte de meninas de uns 3 ou 4 anos a observar-me então eu disse-lhes olá e não resisti a esfregar a barriguita de uma delas."Vocês são tão giras!"
Foi aí que ela se encostou toda a mim, à minha perna. Abracei-a com uma mão. "Ai que eu aperto-te, que delícia!" e assim que a larguei e me dirigi para a porta, uma outra menina encheu-se de coragem e tocou-me na perna. Recuou e esperou que eu olhasse para baixo. E lá estava ela, à espera de um mimo também.
"Anda cá, anda que eu aperto-te também!"
E subitamente as outras meninas dirigiram-se para as minhas pernas como bicharocos e enroscaram-se todas num abraço apertado. Apertei-as uma por uma, com festinhas nas costas e cafunés. Nenhuma delas falou.
Às vezes vale a pena ser adulto, para poder observar estas coisas.
23 de março de 2007
páscoa
Eu sou tão distraída que só ontem percebi que hoje acabavam as aulas. Estou de férias das escolinhas!
Hoje os meninos do monte tentaram matar-me de duas maneiras:
1: Esticar a ignorância até ao impossível
"Eu - Como se chama o nosso planeta?
Eles - PORTUGAL!
(eu com cara de parva)
Eles - Viana do Castelo!
(cara de parva)
Eles - (nome da aldeia onde vivem que prefiro não identificar)
Eu - Começa por T.
Alguém- Tailândia!"
2: Entupir-me de amêndoas da Páscoa
São tão meiguinhos. O portão ainda estava fechado e nós a abraçarmo-nos por entre as grades, já estava eu com uma amêndoa na boca, outra na mão e outra no bolso. Deram-me uma, duas, vinte. Mostravam-me as barriguinhas de fora da camisola interior e chamavam por mim. O Zé Pedro deu-me um beijinho na mão sem ninguém ver. "Acham que eu vou ficar gorda? - Não, professora!"
Foi aula-lanche. Todos a comer e a desenhar com giz colorido no quadro. Eu, por milagre, tinha sempre uma amêndoa na boca e três na mão. Até que o Zé veio caladinho e não me ofereceu uma. Ofereceu-me um monte! Ele raramente me dá confiança. Mas quando lhe perguntei "O que é isto???", não conseguiu deixar de se rir e dizer baixinho com a sua voz fina "São amêndoas!" A julgar pela maneira como me retratou uma vez, desconfio que ele me queria matar. Ou talvez não :)
Hoje os meninos do monte tentaram matar-me de duas maneiras:
1: Esticar a ignorância até ao impossível
"Eu - Como se chama o nosso planeta?
Eles - PORTUGAL!
(eu com cara de parva)
Eles - Viana do Castelo!
(cara de parva)
Eles - (nome da aldeia onde vivem que prefiro não identificar)
Eu - Começa por T.
Alguém- Tailândia!"
2: Entupir-me de amêndoas da Páscoa
São tão meiguinhos. O portão ainda estava fechado e nós a abraçarmo-nos por entre as grades, já estava eu com uma amêndoa na boca, outra na mão e outra no bolso. Deram-me uma, duas, vinte. Mostravam-me as barriguinhas de fora da camisola interior e chamavam por mim. O Zé Pedro deu-me um beijinho na mão sem ninguém ver. "Acham que eu vou ficar gorda? - Não, professora!"
Foi aula-lanche. Todos a comer e a desenhar com giz colorido no quadro. Eu, por milagre, tinha sempre uma amêndoa na boca e três na mão. Até que o Zé veio caladinho e não me ofereceu uma. Ofereceu-me um monte! Ele raramente me dá confiança. Mas quando lhe perguntei "O que é isto???", não conseguiu deixar de se rir e dizer baixinho com a sua voz fina "São amêndoas!" A julgar pela maneira como me retratou uma vez, desconfio que ele me queria matar. Ou talvez não :)
21 de março de 2007
os meus alunos




Às vezes eles desafiam-me, são muito malcriados, respondem-me torto. Às vezes batem nos colegas e choram. Muitas vezes fazem queixinhas e algumas vezes mentem. Muitas vezes correm e gritam e eu, algumas vezes, ralho. Às vezes fazem chichi na casa de banho das meninas e depois vêm-me dizer. Muitas vezes são cruéis. Mas quando olho para eles sem eles saberem que estou a olhar, o meu coração enche-se de luz, com as suas gargalhadas e correrias.
19 de março de 2007
hoje
Subscrever:
Mensagens (Atom)


