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29 de abril de 2010

então foi assim

Eu subi a Rua do Salvador a pé, cheguei à Travessa do Açougue, atravessei cuidadosamente a estrada e a carrinha que vi lá ao longe e cujo condutor me viu também - que eu sou grande e colorida pelo menos ao sol da manhã - desce a acelerar na minha direcção, passa-me uma tangente (secante) e acerta-me com uma pranchada no ombro quando eu já estava a pôr o pé no passeio.

Ouviu-se um baque que ecoou em toda a Alfama.
Eu vi estrelas e ouvi sininhos até que me apercebi de que o espelho lateral da viatura tinha acabado de me atingir violentamente. E se eu medisse menos 20cm, neste momento estaria morta e decapitada.
Fiquei a choramingar de mão no ombro e a ver a carrinha assassina sumir ao longe.

Se eu gosto de Lisboa? Adoro.
Se eu gosto do trânsito de Lisboa? Odeio com todo o fervor.
Se eu tenho carta de condução? Tenho.
Se eu pudesse o que é que fazia ao sacana que quase me amputou o meu braço direito, coisa mais rechonchudinha e branca do mundo, fonte dos meus rendimentos? Seguia-o com um tractor e fazia dele pizza antes mesmo de chegar ao Largo das Portas do Sol.

Se eu sei os nomes de todas as ruas e largos de Lisboa? Não. Estou só a armar-me.

18 de abril de 2010

pinturas (e não só) em lisboa

Eu fugi para Lisboa. Primeiro porque precisava, segundo porque o meu irmão me deu abrigo, e terceiro porque em Lisboa há mais trabalho. É o êxodo rural.

Em Lisboa encontrei luz, calor, muitos sotaques, pouquíssimos palavrões, uma rede de transportes públicos que fascina qualquer saloia como eu, família, velhos e novos amigos e uma paixoneta que se transformou em amor palpitante.

Moramos na rota dos aviões - as janelas lá de casa abanam quando há aterragens. Abanam de tal maneira que nem nos apercebemos do sismo.
Enquanto fui digerindo a mudança o tempo passou. Ainda não estou totalmente lá, mas quando venho cá a cima faz-me falta aquilo tudo.

Então é isto. Vivo na capital mas venho ao norte e vou ao sul. E pinto, como sempre, onde houver paredes a precisar de histórias.

purpurina

na lua

fadinhas no jardim

magia


Estas fadinhas foram pintadas para três irmãs. Lindas lindas lindas. Pequeninas, rechonchudas e que faziam perguntas (e afirmações) deliciosas sobre o meu trabalho. A bebé riu-se de mim com sarcasmo quando lhe mostrei a tinta verde dentro da lata.
:)

26 de outubro de 2009

luzboa

A Rita levou-me por Lisboa fora. Que privilégio, ser guiada durante horas por uma alfacinha de Artes que gosta de se rir tanto quanto eu. Andámos quilómetros e só vimos coisas bonitas. Tudo tão lindo. Se os meus neurónios tivessem jeito para nomes eu agora dizia em que ruas e largos e edifícios estivemos, porque são mesmo conhecidos.

Entrámos em várias igrejas. Nunca devo ter estado tão espiritual como estou hoje em dia. O meu sentido crítico em relação às religiões em geral e à fé católica em particular dissipou-se. Não tenho tempo nem paciência para questionar as questões e a fé dos outros. Não tenho moral, aliás, porque eu acredito que os animais vão para o céu. Ponto.

A igreja de S. Domingos deixou-me sem ar. Precisei de me sentar. Acho que se tivesse ficado de pé chorava um bocadinho. A Rita entendeu que eu precisava daquilo. Inspirei e expirei consciente, muitas vezes. Deve ser o que muitas pessoas sentem quando rezam. Um reconforto. Um está tudo bem.

Obrigada, Rita.

À saída havia fila para a ginjinha e castanhas assadas a €2. Fizemos tchintchin com os copinhos de plástico e concordámos: A vida é muito boa e nós merecemos. O senhor da ginjinha perguntou se era com ou sem fruta. E eu "Hã?", a Rita "Não", eu "É bom?" e o senhor nem me deu tempo. Lá vai uma ginjinha para o fundo do meu copinho. E eu tudo bem, que é só um item na lista de milhões e milhões de coisas que eu ainda não fiz antes de morrer. A ginjinha é uma azeitona doce. Gostei. A meio das castanhas assadas já eu estava bêbeda. Rimo-nos muito muito muito. Já era de noite e eu ainda viria a riscar mais um item da lista.

Comer pastéis de Belém.

Um orgasmo digestivo. Como é que se vive vinte e sete anos sem pastéis de Belém?! Doutor, descobri, afinal não era depressão, doutor...

Depois o mosteiro dos Jerónimos.
Quem me dera ver o que há dentro do túmulo do Camões... Adorei o facto de na escultura, em que ele está tão bonito e sereno, o olho direito estar descoberto. Está fechado mas é diferente do esquerdo. A pálpebra tem menos volume.
Espero que o Luís de Camões se tenha sentido tão feliz como eu, em Lisboa. Ele merece.

23 de outubro de 2009

lisboa

Uma semana em Lisboa. Adoro tudo. Tudo. O trânsito caótico, a poluição, as multidões, o ritmo acelerado que me embala. Adoro a inércia do rebanho. Lá vou eu sem pressa no meio das pessoas que correm loucas.

Estou sensível a tudo. Estou em carne viva. Até do metro eu gosto. Das pessoas todas. A porcaria da gripe A é um mito. Não querem que a gente se toque. Querem que sintamos muito, muito medo. A maior infecção de todas é a indiferença.
No metro até as pessoas todas apertadas me agradam. Uma vez fui apalpada no metro e detestei. Mas foi ao final do dia e já estava exausta e as pessoas já cheiravam mal. Às oito da manhã as pessoas cheiram bem. Hoje éramos tantos. A minha mão e outras seis ou sete mãos agarradas ao varão no meio da carruagem. Sou mais alta que a maioria das pessoas. O meu pulso colado à cara dum homem que ouvia uma música ensurdecedora. Ainda bem que pus perfume nos pulsos, pensei. Agora ele ouve música pesada aos altos berros e cheira o meu pulso que cheira mesmo bem. No metro joga-se a um jogo de que todos sabem as regras. Chama-se Quanto-tempo-consigo-ficar-sem-olhar-nos-olhos-da-pessoa-que-tenho-a-três-centímetros-de-mim.

Sinto-me profundamente feliz. Hoje chorei de felicidade. Tudo me parece bem. Até a chuva e as minhas calças encharcadas até à canela.
No metro vou a olhar lá para fora e o lá fora é só tudo preto e o reflexo do que se passa dentro da carruagem. Pelo reflexo há quem quebre as regras do jogo. Eu fixo-me na próxima paragem. Porque quando estamos a chegar a Roma, o reflexo é amoR. E eu não posso perder esse momento da linha verde, no metro de Lisboa.

9 de junho de 2008

coisas de lisboa

Lisboa tem jacarandás.

A Ivete Sangalo é linda e canta e dança.

Os meus super-mega-óculos permitiram-me reconhecer o Rui Unas a mais de vinte metros (sou mesmo da aldeia não sou?).

A Amy Winehouse foi uma desilusão. Aplaudiu-se a autodestruição e o desperdício de um enorme talento. E eu que sou contra manifestações de violência e destruição, fiquei ali em pé, sem saber se ria ou chorava, a pôr tudo em causa com as minhas questões profundas, enquanto a cantora tentava manter-se em pé e os milhares de pessoas cantavam por ela. Muito muito triste. Eu valorizo quem tem talento mas valorizo ainda mais quem tem talento e o trabalha e se empenha e transpira e é profissional e respeita quem aposta nesse talento. No fundo esperava que a organização do Rock in Rio pensasse assim também.

A Ana e a família receberam-me tão bem. Levaram-me a Sintra e ofereceram-me um montão de travesseiros. Obrigada... (já disse que só tenho clientes amorosos?)

Lisboa tem muita gente de todas as cores e feitios. Tem comboios e metros que nunca mais acabam e uma agitação no ar. Imagino-me a viver em Lisboa. Depois vejo quantos apartamentos podia alugar em Viana com a renda dum em Lisboa. E pronto.