às vezes lembro-me de coisas
Eu e a Carlita tínhamos gravura na faculdade. Acho que toda a gente devia experimentar fazer gravura, é tão interessante... e acredito que exercita imenso o cérebro.
Então. Saíamos da oficina com as mãos imundas. As unhas pretas, apesar do diluente, do gel tira-nódoas, do sabão, da água, da escovinha. Às oito horas da noite íamos para casa cozinhar e comer e rir muito (uma das melhores coisas que me aconteceram na vida: morar com alguém que se ri tanto quanto eu). Antes passávamos pelo supermercado Tomita, ao lado do café Cifrão. Tenho esta imagem das minhas mãos sujas em contacto com as da menina da caixa, de pensar no que ela pensaria.
Com o passar dos dias a tinta ia desaparecendo (íamos quase todos os dias ao Tomita da Rodrigues de Freitas), até à aula seguinte.
Foram meses com as unhas pretas. Que saudades.
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7 de outubro de 2009
13 de setembro de 2008
pó
Tenho saudades do Porto.
No dia em que enfiei tudo em sacos para vir embora, estávamos eu, a Carlita e a Raquelita (duas asmáticas). Eu com o meu discurso anti-dona-de-casa:
"Eu não limpo o pó! Deixo que se vá acumulando até ter três dedos de altura. Depois é só pegar-lhe por uma pontinha que ele sai como um cobertor!"
Orgulhosa dos meus princípios, desatei a pegar em tudo à bruta, naquilo que era a despedida do meu último quarto no Porto, depois de cinco anos que passaram tão depressa. De repente não conseguíamos ver-nos umas às outras. Não há a festa da espuma? Aquela era a festa do pó. A Raquelita fugiu, aflita, com uma mão na cara. Foi tão cómico, como tantas outras coisas que fazíamos as três juntas...
(suspiro)
Bruxinha, tenho sempre saudades. Jantei com a outra croma há dias, ela não lê isto portanto posso chamar-lhe o que me apetecer. Vou passar a chamar-lhe A Noiva Cadáver, que achas?
No dia em que enfiei tudo em sacos para vir embora, estávamos eu, a Carlita e a Raquelita (duas asmáticas). Eu com o meu discurso anti-dona-de-casa:
"Eu não limpo o pó! Deixo que se vá acumulando até ter três dedos de altura. Depois é só pegar-lhe por uma pontinha que ele sai como um cobertor!"
Orgulhosa dos meus princípios, desatei a pegar em tudo à bruta, naquilo que era a despedida do meu último quarto no Porto, depois de cinco anos que passaram tão depressa. De repente não conseguíamos ver-nos umas às outras. Não há a festa da espuma? Aquela era a festa do pó. A Raquelita fugiu, aflita, com uma mão na cara. Foi tão cómico, como tantas outras coisas que fazíamos as três juntas...
(suspiro)
Bruxinha, tenho sempre saudades. Jantei com a outra croma há dias, ela não lê isto portanto posso chamar-lhe o que me apetecer. Vou passar a chamar-lhe A Noiva Cadáver, que achas?
3 de dezembro de 2007
mais do porto
Quando eu e a Carlita comprámos o exaustor mais barato que havia no hipermercado, levámo-lo para casa, eu apanhei-me a sós com o armário da cozinha alugada e fiz-lhe uma cratera. Fomos à drogaria, comprámos tubo de exaustor e fita-cola para isolar o tubo de exaustor. Fizemos furos na parede e a meio tivemos de parar para eu telefonar a um electricista amigo e lhe perguntar se o cheiro a borracha esturricada que se tinha instalado na nossa cozinha era sinal de alguma coisa muito grave.
Continuámos. Depois de eu transpirar rios e a Carlita ficar com asma, instalámos, finalmente, o nosso exaustor. Quando o pusemos no máximo e o máximo dele era fraquinho fraquinho, a Carlita disse que aquilo não era um exaustor, era um exausto. E rimo-nos tanto.
Continuámos. Depois de eu transpirar rios e a Carlita ficar com asma, instalámos, finalmente, o nosso exaustor. Quando o pusemos no máximo e o máximo dele era fraquinho fraquinho, a Carlita disse que aquilo não era um exaustor, era um exausto. E rimo-nos tanto.
1 de dezembro de 2007
o meu Porto
Vivi na rua Coelho Neto. Depois na de Santo Ildefonso. Fui vizinha de casas de albergue, de muitos bêbedos e de barulhos estranhos. De taxistas porta fora de ferro na mão... Vivi em ruas mal frequentadas. Fui tão feliz. Ia a uma mercearia tradicionalíssima onde me acarinhavam, o dono e a dona, em que me cortavam o alho-francês e me impingiam a coelha de estimação que "coitadinha fica tanto tempo sozinha e consigo, menina, ficava melhor". Nessa mercearia encontrava muitas vezes as minhas vizinhas transexuais, que mesmo com mais de 40 anos, ainda pareciam homens gordos de peruca, ainda tinham voz grossa e eram uns amores sempre na conversa. A típica mercearia da baixa, o dono de bigode, a dona baixinha baixinha, os transexuais e a estudante de Belas Artes. Que saudades.
1 de abril de 2007
de volta ao porto
25 de fevereiro de 2007
imbicta
Tenho sentido saudades do Porto. Do nosso vizinho Sr. Figueiredo (que com cerca de 80 anos, é um homem tão carinhoso, tão atencioso, educado e moderno), do Sr. Rocha e da Dª Fernanda da mercearia, das janelas de guilhotina. Uma vez uma caiu-me no dedo e eu só tive tempo de dizer a palavra F - baixinho, para não acordar a Debinha e o Nuno - e ver muitas muitas estrelas antes de raciocinar. Nunca senti uma dor tão horrível. Tenho saudades da Rádio Nova (novaaaa... nova!), dos gatos do telhado que nos entravam em casa e da lata das pessoas. Tenho saudades do laboratório de fotografia, com a Patrícia e o David a cantarem "Dá-me lume" do Jorge Palma e dos coraçás com queijo aquecidos do Café Belas Artes. Dos jantares com a Carlita e a Bruxinha e das caipirinhas no quintal. Não sei porquê agora, tanto tempo depois. Tenho saudades.
14 de fevereiro de 2007
quem vem e atravessa o rio

Hoje fui ao Porto. Mal cheguei vi um homem a atirar um papel para o chão como quem não fez nada e comecei logo a alucinar. Mas depois chegaram as saudades.
Campanhã. Quatro piscas. O dono de um carro prestes a ir embora: "Quer estacionar? Quer estacionar menina?"
Trânsito. Carros por todo o lado, filas, semáforos, estacionamentos inacreditáveis sem multa e sem nada. No Porto eu conduzo como quero, até pareço taxista e divirto-me com a minha Bruxinha agarrada à porta, apavorada.
No café: "SAI UM PINGUINHO DE SIMBALINO FAZ FAVOR!"
Papelaria da faculdade: "Já tem este porta-chaves há muito tempo, não tem? Eu lembro-me dele. (...) Tchau menina, tudo de bom."
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15 de janeiro de 2007
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