Quando olho para o meu filho a caminhar no parque e me vejo a orientá-lo, me ouço a dizer "vamos" mais vezes do que desejo e a impedi-lo de largar a correr relva fora, desviando-se do caminho, não consigo não sentir tristeza. Todos os dias desejo que seja adiado o dia em que o espírito selvagem do Diogo seja ferido, e enquanto isso sou eu quem já o vai domando.
Lá íamos, à volta do lago, ele a fazer pausas para apanhar algo do chão, ou mexer numa planta, ou cumprimentar alguém, ou se agachar e esfregar o chão de terra batida cheio de pedrinhas. Fica com as palmas cinzentas, apanha um grão que lá lhe saltou ao tacto e traz-mo. Deixar que se suje à vontade e meta as mãos na boca são tarefas fáceis, comparadas com conter o apressar quando na verdade não há pressa nenhuma, deixá-lo parar quantas vezes quiser. A minha intenção de o "treinar" no parque para que um dia possa andar no passeio sabendo que a estrada é perigosa até pode ser muito boa, mas o que se torna óbvio para mim é a minha ansiedade quase crónica, a necessidade de controlo, o impulso de o proteger e sobretudo a formatação que sofri ao longo desta minha vida, e que por mais que não queira, teimo em já impor ao meu bebé.
Lá estava ele, agachado, tão pequenino, tão frágil no meio da imensidão do parque. Olhei e contive o "vamos?", vi-o a ele e a um plátano centenário, e o meu bebé era feito do mesmo que tudo o resto. Tinha nele a mesma sabedoria centenária do simplesmente existir no momento presente, de tocar no chão e nas pedrinhas porque o chão e as pedrinhas estão ali, o caminho e o relvado formam uma mesma superfície sem limites, e o ir para casa ou ver os patos não existem ainda. Para ele tudo é possilidades, tudo é permitido até que eu lhe diga que não, tudo é limpo e puro até que eu lhe diga que é sujo, tudo é trepável até que eu o avise que pode cair. Parece que à medida que lhe vou roubando esta visão inocente e animal da energia que gere a Terra, transfiro para ele e preencho esses vazios com os meus medos, as minhas regras, os meus limites e limitações. E parece-me tudo tão cruel e injusto, porque na verdade ele é o meu professor, quando volta a agachar-se sem pressa para apanhar mais uma pedrinha.
22 de abril de 2015
18 de abril de 2015
doem-me as costas até aos pés
As palavras acumulam-se-me na garganta, e volta e meia transbordam em forma de post.
Tenho umas saudades de trabalhar que às vezes dá-me vontade de chorar. Trabalhar no sentido de ir para o trabalho, fazer cafés (as saudades que tenho de fazer flat whites e desenhar coraçõezinhos com a espuma do leite chegam a ser doentias), clientes e colegas com quem conversar sobre nada de muito profundo, ter horas marcadas e intervalos e metros à pinha para regressar a casa. Porque trabalhar assim parece férias, comparado com ser mãe a tempo inteiro.
Há uns meses vi a minha vizinha de baixo sair para o trabalho uns quantos dias seguidos. Acho que ao terceiro dia senti inveja. Isto só faz sentido para quem tem filhos, imagino. Essa saudade da vida passada, dos tempos em que eu era só eu, tão mas tão livre que nem tinha noção do mundo de possibilidades que tinha nas mãos. Perguntem-me se queria voltar atrás, ou ter adiado o ter um filho, se me arrependo do que quer que seja e a resposta é não, não, não. Não há como imaginar a vida sem o Diogo. A vida é tão melhor com um filho que até o nosso passado parece mais feliz. Parece que as saudades me toldam a razão e só me lembro de coisas boas. As viagens com o Faneca. Vejo-me em esplanadas a tomar cafés, a comer azeitonas e a beber vinho, vejo fins de tarde rodeada de amigos e gargalhadas, e todos esses dias me parecem Verão. Tudo me parece morno e vejo-me com a minha prima no mar de Carreço a nadar, vejo-me deitada na areia a observar conchas tão pequenas que pareciam grãos de areia também... de cores que nunca imaginei. Cansaço? Sabia lá eu o que era cansaço. Frustração? Sabia lá eu. Não dormir bem uma noite? UMA NOITE? Ahahahhahahhahaha!
A minha vizinha um dia voltou do trabalho e encontrámo-nos lá em baixo, eu a tentar domar a minha cria, o carrinho, as bolachas, gorros, cachecóis, toalhitas e fraldas. Ela toda livre, toda só ela, chave de casa na mão, bolsa ao ombro, quando me diz "I'm expecting" e mostra-me o crachá "baby on board". E foi como se me tivesse dito que tinha ganho a lotaria. Melhor, que eu tinha ganho a lotaria! Arrepiei-me toda, agradeci-lhe tanto por me contar, vim para casa e fui buscar dois dos meus livros sobre gravidez e bebés, pus-lhes um grande laço vermelho. A vida da minha vizinha já podia ser boa, mas o melhor está para vir, não tenho dúvidas.
14 de março de 2015
chamam-lhes buskers
Ali num dos túneis junto ao rio Tamisa, se não é no da oxo tower é outro ao pé de Blackfriars, há um violinista talentoso mas muito zangado com a vida, que assim que alguém pára para o ouvir, pára de tocar. A primeira vez que parei, tão feliz de expor meu rico filho a tão belo som, o homem parou e olhou para nós. Retomou. Eu, inocente e um pouco parva, nem sequer percebi do que se tratava. Fui ao porta moedas e deparo-me com uma nota de 20 libras e umas moedinhas pretas. Virei costas para ir ao café da esquina e trocar a nota, e eis que o senhor pára de tocar outra vez e começa a praguejar aos berros na língua dele. Fascinante como não é preciso ser poliglota para perceber quando nos estão a chamar puta. Se não tivesse um filho pequeno e não tivesse imaginado o homem enlouquecido a bater-nos com o violino, ter-lhe-ia não só dado aquela moeda de uma libra (que dei), e agradecido (que agradeci), mas também perguntado se aqueles gritos eram comigo (e desejado que dias melhores lhe acontecessem). Quanta amargura, quanta raiva.
Isto para dizer que aqui no nosso bairro há um rapaz a tocar guitarra e a cantar à porta do supermercado que é talento em estado puro. Sempre que o vejo estaciono o carrinho a dois metros dele e o Diogo fica ali na primeira fila, hipnotizado. Tão humilde quanto tímido. Desfaz-se em sorrisos e já nos reconhece. Canta versões mas tem a própria banda com quem toca e canta músicas originais. Só desejo que o sucesso lhe chegue depressa, porque inocente e um pouco parva que sou, acredito com muita força que a sorte se faz com as nossas próprias mãos, e quem carrega boas energias e põe amor naquilo que faz (por mais adversas que sejam as condições), merece viver disso e prosperar em todas as direcções.
Isto para dizer que aqui no nosso bairro há um rapaz a tocar guitarra e a cantar à porta do supermercado que é talento em estado puro. Sempre que o vejo estaciono o carrinho a dois metros dele e o Diogo fica ali na primeira fila, hipnotizado. Tão humilde quanto tímido. Desfaz-se em sorrisos e já nos reconhece. Canta versões mas tem a própria banda com quem toca e canta músicas originais. Só desejo que o sucesso lhe chegue depressa, porque inocente e um pouco parva que sou, acredito com muita força que a sorte se faz com as nossas próprias mãos, e quem carrega boas energias e põe amor naquilo que faz (por mais adversas que sejam as condições), merece viver disso e prosperar em todas as direcções.
achado nos rascunhos 05/08/2014
Um dia vou olhar para trás e rir-me (não é que não me ria agora, mas vou rir-me com mais vontade) desta fase em que os meus dias eram passados com um bebé que quando não estava a rastejar pela sala, estava pendurado em mim, e que nos poucos minutos entre uma coisa e outra eu estaria a pintar móveis, vender livros, contactar lojas, ouvir nãos, ouvir talvezes e agarrar-me aos sins com a força da necessidade (essa força maior que a força de vontade, porque o que tem de ser tem muita força) de quem não tem alternativa. Há sempre alternativas, claro, mas no meu caso eu enlouqueceria se não fizesse (ou tentasse fazer) outra coisa para além de ser mãe. O que roça a loucura, porque ser mãe a tempo inteiro é trabalhar 24 horas por dia, mas é assim que eu sou e sinto e penso.
Voltou a acontecer. Sonhei que ganhava a lotaria e no meu sonho comprava aquela lojinha que ando a cobiçar há meses (que já foi um café vegan e por isso tem bom karma), estava a planear a decoração e já me via a vender os móveis, as ilustrações, os bolinhos caseiros, já me via com o Faneca a tratar de toda a parte administrativa e burocrática e sentia esta alegria profunda de me ver na minha lojinha, livre do medo de não fazer dinheiro porque afinal de contas tinha ganho a lotaria.
Voltou a acontecer. Sonhei que ganhava a lotaria e no meu sonho comprava aquela lojinha que ando a cobiçar há meses (que já foi um café vegan e por isso tem bom karma), estava a planear a decoração e já me via a vender os móveis, as ilustrações, os bolinhos caseiros, já me via com o Faneca a tratar de toda a parte administrativa e burocrática e sentia esta alegria profunda de me ver na minha lojinha, livre do medo de não fazer dinheiro porque afinal de contas tinha ganho a lotaria.
3 de março de 2015
um ano e meio
Um ano e meio de Diogo cá fora. Há dias sentia o coraçãozinho dele a bater acelerado e dizia-lhe que aquele coração já bate sem parar há mais de dois anos.
Não sei para onde foram as horas e os dias. Sei que todas as certezas que tinha antes de ter um filho cairam por terra, e chego a ter vergonha das coisas que já pensei e disse sobre bebés. A única certeza que tenho hoje é que cada casal deve fazer aquilo que funciona para si e para o seu bebé, o que os faz feliz. Tudo o resto que dizem os profissionais de saúde, os livros, os sites, os palpites bem intencionados de quem não faz parte deste trio, se não nos soa a certo, é pura e simplesmente ignorado.
Se pudesse voltar atrás no tempo e dar um conselho a mim própria antes de sequer engravidar seria, sem dúvida, que ouvisse o meu instinto sem hesitar. Ter-me-ia poupado muita angústia.
Temos um filho à espera de projectar e moldar nele todos os nossos ideais, e quando nos damos conta ele está é a agir como nós, a gesticular como nós, a falar como nós. Só que tudo é exagerado com requinte de caricatura, incluindo os nossos defeitos e tudo o que achámos omitir.
Um ano e meio e percebe tudo o que dizemos, em português e holandês. Estamos constantemente sob escuta. Adora animais, sobretudo cães. Gosta de pessoas em geral e do pai em particular, com quem joga às escondidas e às perseguições e com quem dá longos passeios pela casa de mão dada. Aspira o chão e pára para dar beijos no aspirador. Dá beijos em tudo, diz olá a objectos e pessoas e se o quisermos fazer feliz é só levá-lo à estação, ver passar uns quantos comboios e depois entrar num.
Ainda mama e desde que começou o martírio dos dentes acorda vezes sem conta durante a noite. Adora ajudar a fazer a comida, gosta de comer o que cozinhou tépido (não há comida de que não goste) e de sopa fria. Anda há mais de um mês mas ainda não corre. Faz-se entender muito bem com a sua linguagem gestual acompanhada de bás, pás, cãs e umas quantas palavras com mais de uma sílaba.
Nunca pára quieto.
Quanto a mim, nunca cheguei a sentir aquele amor maior e arrebatador, talvez porque já me sentia capaz de o amar assim, já o amava quando saiu de dentro de mim naquela piscina. O que me surpreende é onde esse amor me leva. Transforma-me e revolve-me as entranhas, abala até o que eu achava ser inabalável em mim. Os limites da paciência, da frustração e do cansaço esticam-se, rompem-se e redefinem-se todos os dias. Tantas coisas perderam a importância e tantas ficaram em pausa, para que eu seja hoje uma mãe a tempo inteiro e ilustradora nos minutos vagos.
Há dias o sol brilhou e entrou quente pelas janelas da sala. Eu imaginei-me imediatamente a tomar um café e ler um livro sentada no sofá, mas o que aqueles raios de sol revelaram é que não há superfície desta casa que não tenha pó, ou dedadas de comida, ou ambos. Dei comigo a praguejar enquanto limpava freneticamente o que podia e a rezar a todos os santinhos para que já que sou uma incompetente duma dona de casa, ao menos que seja boa mãe.
19 de novembro de 2014
24 de julho de 2014
dioguinho
Quase onze meses de vida. Onze mais nove meses duma existência tão pura, tão inocente. Vejo nitidamente porque é que nós, seres humanos, nascemos animais perfeitos e depois nos transformamos em gente. Projecto no meu filho aquilo que li nos livros, nos sites, aquilo que ouvi dizer, que me aconselharam. Tantas expectativas em cima dum serzinho que nem sabe o que é ser outro. Ele é ele próprio e vê o mundo somente (ainda) através da sua própria existência. Quase onze meses e quase seis dentes. Nada do que li ou ouvi me preparou para isto dos dentes, que só é comparável aos primeiros meses com um recém-nascido, em que se desejarmos poder tomar um banho descansadas e ainda lavar os nossos dentes (sem ser no banho) várias vezes por dia estamos a ser ambiciosas. Seis dentes. Ainda não anda. Ainda não gatinha. Ainda não se senta sozinho. Só duplicou o peso com que nasceu com mais de oito meses e começou a segurar bem a cabeça sozinho com cinco. Ainda não dorme a noite toda sozinho. Sempre que me perguntam o que é que ele já faz desta lista, apetece-me engoli-lo e voltar a tê-lo só meu, dentro de mim, onde tudo era perfeito. Ninguém se atreve a perguntar a uma grávida "Então o teu filho já tem pernas e braços? E dedos? E o coração bate?" porque se sabe que tudo vem a seu tempo, porque a natureza é muito maior que os livros e sites e conselhos e sobretudo é maior que os homens, e porque a uma grávida não se deve dizer indelicadezas.
Pois a uma mãe deve-se pensar duas, três, quatro vezes antes de questionar o desenvolvimento, o ritmo ou o que quer que seja do seu filho. Porque o filho nasceu mas continua a ser feito dela, um pedaço que dela saiu e que agora está cá fora a pulsar, vivo e exposto ao mundo, aos outros, aos olhos dos outros que querem, que teimam em moldá-lo.
Não engulo o meu filho. Digo simplesmente que não, ainda não. Tem uma vida inteira pela frente, para se sentar sozinho, andar e correr, cair sozinho. Levantar-se sozinho. Uma vida inteira para comer sozinho e sim, ele há-de largar as minhas mamas e eu hei-de morrer de saudades disso. Poderia dizer, para compensar, que já diz mamã e papa, que entende holandês e português e que faz um sem número de gracinhas que nos derretem. Sabe como nos arrancar uma gargalhada e o que mais me comove é que olha para todas as pessoas com quem se cruza nesta cidade (todas as culturas e raças, todos os feitios e idades, todos os extractos sociais) e demonstra por elas o mesmo interesse. Olha as pessoas nos olhos, profunda e demoradamente com uma tolerância e curiosidade típica de bicho selvagem que nunca foi ferido. Se o olhar e interesse forem retribuidos, sai-se com uma das suas gracinhas infalíveis.
Algures na cronologia do Diogo alguém vai conseguir fazer um comentário bem intencionado ou uma pergunta inocente que não passará pela minha censura e pela minha vontade de o engolir, e há-de ofender, há-de magoar o meu bebé. Um dia ele vai deixar de olhar, confiante de que é perfeito e único, nos olhos de toda a gente que com ele se cruzar. Resta-me fazer tudo o que sei para que esse dia nunca chegue, e continuar muito atenta a tudo o que o meu filho tem para me ensinar.
Pois a uma mãe deve-se pensar duas, três, quatro vezes antes de questionar o desenvolvimento, o ritmo ou o que quer que seja do seu filho. Porque o filho nasceu mas continua a ser feito dela, um pedaço que dela saiu e que agora está cá fora a pulsar, vivo e exposto ao mundo, aos outros, aos olhos dos outros que querem, que teimam em moldá-lo.
Não engulo o meu filho. Digo simplesmente que não, ainda não. Tem uma vida inteira pela frente, para se sentar sozinho, andar e correr, cair sozinho. Levantar-se sozinho. Uma vida inteira para comer sozinho e sim, ele há-de largar as minhas mamas e eu hei-de morrer de saudades disso. Poderia dizer, para compensar, que já diz mamã e papa, que entende holandês e português e que faz um sem número de gracinhas que nos derretem. Sabe como nos arrancar uma gargalhada e o que mais me comove é que olha para todas as pessoas com quem se cruza nesta cidade (todas as culturas e raças, todos os feitios e idades, todos os extractos sociais) e demonstra por elas o mesmo interesse. Olha as pessoas nos olhos, profunda e demoradamente com uma tolerância e curiosidade típica de bicho selvagem que nunca foi ferido. Se o olhar e interesse forem retribuidos, sai-se com uma das suas gracinhas infalíveis.
Algures na cronologia do Diogo alguém vai conseguir fazer um comentário bem intencionado ou uma pergunta inocente que não passará pela minha censura e pela minha vontade de o engolir, e há-de ofender, há-de magoar o meu bebé. Um dia ele vai deixar de olhar, confiante de que é perfeito e único, nos olhos de toda a gente que com ele se cruzar. Resta-me fazer tudo o que sei para que esse dia nunca chegue, e continuar muito atenta a tudo o que o meu filho tem para me ensinar.
15 de junho de 2014
o que eu não sabia
Dizem que quando se tem um filho se descobre um amor maior. Que se ama um filho mais do que se imaginava ser capaz. Eu fiquei à espera disso. No entanto nunca apanhei a tal surpresa.
Veio antes o instinto, uma coisa tão esmagadora que me deixou irracional durante semanas. Incapaz de verbalizar, de escrever, de não chorar. Imaginar que alguma coisa de mal pudesse acontecer ao meu bebé, assim como ouvi-lo chorar por mais de um minuto, causava-me a sensação física e dolorosa de ter engolido um garrafão de ácido e sentir as minhas entranhas corroerem-se. Corroerem-me de dentro para fora. Quando vi o meu corpo deitar leite sempre que o meu filho chorava, ou pensava nele, ou já se tivessem passado três horas, apercebi-me de que sou um animal como os outros animais, sem metáforas. Um mamífero tão munido de instinto como de útero, de mamas, de leite. E que se eu sentia aquela angústia, aquele chamamento incessante e ensurdecedor que na minha opinião pouco tem a ver com amor, então muitas outras mães o sentem, sobretudo as mães chamadas de animais irracionais. Também eu irracional, senti no meu corpo a dor dos animais que exploramos. Passei a gravidez a comer queijo porque como a maioria das pessoas conseguia visualizar uma vaca feliz nos alpes suíços a ser ordenhada manualmente. De repente a indústria do queijo assombrava o meu dia-a-dia e era a história de terror mais cruel e retorcida de todas, porque eu participei dela durante mais de trinta anos com a minha ignorância, o meu corpo, a minha gula e o meu dinheiro. A minha hipocrisia.
Depois chegou o amor. E tal como eu estava à espera, apaixonei-me ainda mais pelo meu bebé, todos os dias mais um bocadinho, e todos os dias são melhores e todos os clichés sobre ter um filho fazem sentido. Amo o meu filho tal como imaginei, fascinada com cada feito, babada de orgulho, desfeita em sorrisos, toda eu colo e mimo e paciência.
O que eu não sabia é que esse amor transbordaria. Que o amor maior que a maternidade trouxe é o meu amor-próprio, para surpresa das surpresas. Que aquele estado de graça em que estive era só o começo e que entraria nesta casa um mestre espiritual de três quilos e meio, pronto para viver comigo vinte e quatro horas por dia e me dar lições a cada minuto. Todos os dias desejo gostar de mim como o Diogo gosta dele mesmo. Todos os dias admiro o entusiasmo e optimismo com que ele vê o mundo. Como se nada de mal pudesse acontecer, numa existência em que se é alegria e tolerância puras, em que se expressa o que se sente simples e honestamente. Todos os dias aspiro a cuidar da minha saúde e a olhar por mim como cuido e olho por ele. Gostava de viver para sempre, para poder continuar esta caminhada com vista privilegiada para o que é um amor que transborda e se espalha em todas as direcções, em que não sei onde acabo eu e começa o meu filho, o meu namorado, a nossa família e todos os que fazem parte da nossa vida.
Veio antes o instinto, uma coisa tão esmagadora que me deixou irracional durante semanas. Incapaz de verbalizar, de escrever, de não chorar. Imaginar que alguma coisa de mal pudesse acontecer ao meu bebé, assim como ouvi-lo chorar por mais de um minuto, causava-me a sensação física e dolorosa de ter engolido um garrafão de ácido e sentir as minhas entranhas corroerem-se. Corroerem-me de dentro para fora. Quando vi o meu corpo deitar leite sempre que o meu filho chorava, ou pensava nele, ou já se tivessem passado três horas, apercebi-me de que sou um animal como os outros animais, sem metáforas. Um mamífero tão munido de instinto como de útero, de mamas, de leite. E que se eu sentia aquela angústia, aquele chamamento incessante e ensurdecedor que na minha opinião pouco tem a ver com amor, então muitas outras mães o sentem, sobretudo as mães chamadas de animais irracionais. Também eu irracional, senti no meu corpo a dor dos animais que exploramos. Passei a gravidez a comer queijo porque como a maioria das pessoas conseguia visualizar uma vaca feliz nos alpes suíços a ser ordenhada manualmente. De repente a indústria do queijo assombrava o meu dia-a-dia e era a história de terror mais cruel e retorcida de todas, porque eu participei dela durante mais de trinta anos com a minha ignorância, o meu corpo, a minha gula e o meu dinheiro. A minha hipocrisia.
Depois chegou o amor. E tal como eu estava à espera, apaixonei-me ainda mais pelo meu bebé, todos os dias mais um bocadinho, e todos os dias são melhores e todos os clichés sobre ter um filho fazem sentido. Amo o meu filho tal como imaginei, fascinada com cada feito, babada de orgulho, desfeita em sorrisos, toda eu colo e mimo e paciência.
O que eu não sabia é que esse amor transbordaria. Que o amor maior que a maternidade trouxe é o meu amor-próprio, para surpresa das surpresas. Que aquele estado de graça em que estive era só o começo e que entraria nesta casa um mestre espiritual de três quilos e meio, pronto para viver comigo vinte e quatro horas por dia e me dar lições a cada minuto. Todos os dias desejo gostar de mim como o Diogo gosta dele mesmo. Todos os dias admiro o entusiasmo e optimismo com que ele vê o mundo. Como se nada de mal pudesse acontecer, numa existência em que se é alegria e tolerância puras, em que se expressa o que se sente simples e honestamente. Todos os dias aspiro a cuidar da minha saúde e a olhar por mim como cuido e olho por ele. Gostava de viver para sempre, para poder continuar esta caminhada com vista privilegiada para o que é um amor que transborda e se espalha em todas as direcções, em que não sei onde acabo eu e começa o meu filho, o meu namorado, a nossa família e todos os que fazem parte da nossa vida.
15 de abril de 2014
de volta
Mais cem exemplares, numerados e assinados com amor e carinho. O preço é 12 euros, o que inclui o envio em correio azul nacional. Para comprar e para mais informações, aqui fica o endereço do costume: natachapintas@gmail.com.
Entretanto, o regresso às tintas compensou. Muito, muito obrigada por todos os comentários e apoio!
Já não me lembro há quantos anos não pegava na tralha com que me sinto mais à vontade. Pincéis, lixas, martelo e pregos, chave de fendas e parafusos, cola para madeira, fita crepe, verniz, a minha paleta... Esta sala transformou-se em oficina e cada minuto em que o Diogo não precisou de mim (agora com os dentes a caminho precisa de mim vinte e cinco horas por dia) foi passado ou a pensar na cómoda, ou a tratar da cómoda. E porque este é um bairro onde se vende móveis velhos a preços altos, dei corda aos sapatos e fiz-me às lojas. E mais uma vez sinto que a minha gratidão é sempre superada pela generosidade de quem me rodeia... na segunda loja não só recebi um sim imediato, como rasgados elogios e ainda ajuda para divulgar o meu trabalho. Decorem o nome Papagaio, porque é lá que o meu regresso às pinturas está a acontecer. Estou tão entusiasmada!
9 de abril de 2014
a simbologia das coisas
Voltei às tintas. Devagar. Tão devagarinho quanto arrastei o saco do material (que veio naquela mala) de debaixo da cama. Porque na cama estava um bebé a dormir, o bebé que me tem preenchido os dias e que é a desculpa ideal para que eu não pinte mais.
Só um verniz é que não sobreviveu a estes três anos, tudo o resto, coberto de pó, estava à minha espera.
Pintei uma cómoda que encontrei no lixo daqui do prédio. Ainda não está terminada mas mal posso esperar por a pôr à venda, porque viver do que se gosta de fazer é das melhores coisas que há.
Só um verniz é que não sobreviveu a estes três anos, tudo o resto, coberto de pó, estava à minha espera.
Pintei uma cómoda que encontrei no lixo daqui do prédio. Ainda não está terminada mas mal posso esperar por a pôr à venda, porque viver do que se gosta de fazer é das melhores coisas que há.
18 de março de 2014
este post é antigo mas podia ter sido escrito hoje
Uma batata doce e quatro cenouras depois.
Gostava que houvesse uma boa desculpa para a maneira como esta minha cabeça funciona. Esta falta de ordem, esta sopa de letras, esta incapacidade crónica de fazer uma coisa de cada vez.
O bebé adormeceu e eu fui à despensa buscar o aspirador, que este chão desta casa está tão sujo, mas tão sujo, que já passou do ponto da vergonha e tornou-se comédia. Para haver ilustrações nesta casa, outras coisas não acontecem. Ora é a louça por lavar, ora é o chão por aspirar, ora é ir à rua e ver o céu. Hoje vimos o céu, e também haveria um chão aspirado se eu não tivesse chegado à despensa para pegar no aspirador e dado de caras com um saco de batatas doces, e o que é bom na vida é batata doce e cenoura cozidas e salteadas em azeite e muito alho e coentros, então toca a cozinhar a olhar para o chão imundo. Como pode alguém ter tanta fome? Podia dizer que é por dar de mamar, mas é mentira. Eu sou uma comedora emocional e a culpa é do não-desenhar.
Isto para dizer que eu gostava de ser daqueles artistas que não pensam em mais nada do que em desenhar e pintar. Aliás, que não fazem mais nada do que desenhar e pintar, porque pensar penso eu. Passo mais tempo preocupada em desenhar do que a desenhar de facto. Houve um tempo em que eu passava os dias a desenhar, mas mesmo esses dias requeriam de mim um enorme esforço e disciplina. Queria ter tanta vontade de desenhar como tenho de comer. Queria ser tão eficiente no trabalho criativo como sou na cozinha (dêem-me um ovo e chocolate em pó e eu faço um bolo. E como-o).
Uma batata doce e quatro cenouras depois, o chão continua imundo, o bebé acordou e eu nem aspirei, nem desenhei. Enfim.
Gostava que houvesse uma boa desculpa para a maneira como esta minha cabeça funciona. Esta falta de ordem, esta sopa de letras, esta incapacidade crónica de fazer uma coisa de cada vez.
O bebé adormeceu e eu fui à despensa buscar o aspirador, que este chão desta casa está tão sujo, mas tão sujo, que já passou do ponto da vergonha e tornou-se comédia. Para haver ilustrações nesta casa, outras coisas não acontecem. Ora é a louça por lavar, ora é o chão por aspirar, ora é ir à rua e ver o céu. Hoje vimos o céu, e também haveria um chão aspirado se eu não tivesse chegado à despensa para pegar no aspirador e dado de caras com um saco de batatas doces, e o que é bom na vida é batata doce e cenoura cozidas e salteadas em azeite e muito alho e coentros, então toca a cozinhar a olhar para o chão imundo. Como pode alguém ter tanta fome? Podia dizer que é por dar de mamar, mas é mentira. Eu sou uma comedora emocional e a culpa é do não-desenhar.
Isto para dizer que eu gostava de ser daqueles artistas que não pensam em mais nada do que em desenhar e pintar. Aliás, que não fazem mais nada do que desenhar e pintar, porque pensar penso eu. Passo mais tempo preocupada em desenhar do que a desenhar de facto. Houve um tempo em que eu passava os dias a desenhar, mas mesmo esses dias requeriam de mim um enorme esforço e disciplina. Queria ter tanta vontade de desenhar como tenho de comer. Queria ser tão eficiente no trabalho criativo como sou na cozinha (dêem-me um ovo e chocolate em pó e eu faço um bolo. E como-o).
Uma batata doce e quatro cenouras depois, o chão continua imundo, o bebé acordou e eu nem aspirei, nem desenhei. Enfim.
28 de fevereiro de 2014
em modo babyblog
Há um ano vimo-lo pela primeira vez. Nada: nenhum livro, video ou poema me poderiam preparar para ver o que vi, sentir o que senti. 6 cm de gente. Um coraçãozinho acelerado, um cordão umbilical a bombar imparável, dois hemisférios do cérebro, estômago cheio de líquido, mãos e pés cheios de dedinhos. Uma pessoinha que não se fazia sentir ou notar cá fora, mas que parecia já tão à vontade na sua pequena gruta. Ora levantava as pernas, ora os braços, abriu e fechou a boca, mexeu-se sempre que eu me ri. Não tirei os olhos do ecran, não larguei a mão do meu amor, não consegui parar de chorar.
Um ano depois, está prestes a começar a comer outras coisas que não o meu leite, e eu sinto um misto de entusiasmo e melancolia. Até hoje, desde o momento em que foi feito, aquele corpinho só precisou de se alimentar do meu corpo. Esta ilusão egoísta e constante de que os nossos filhos são nossos. Cresce tão depressa que já o estou a imaginar adolescente. Quero parar no tempo estes dias em que os olhos dele brilham fascinados com tudo o que se lhes apresenta, estes dias em que ele ainda acha que eu sou a pessoa mais interessante do mundo, a melhor cantora, a comediante mais engraçada. Tudo na existência dele é amor e confiança. Cabe-nos num braço e não se cansa dos nossos beijos. Ri e gargalha com "o mar enrola na areia", pára de chorar se imitarmos os sons dos animais. Ser feliz com pouco não é só possível, é o ideal, e os bebés estão cá para o comprovar.
Um ano depois, está prestes a começar a comer outras coisas que não o meu leite, e eu sinto um misto de entusiasmo e melancolia. Até hoje, desde o momento em que foi feito, aquele corpinho só precisou de se alimentar do meu corpo. Esta ilusão egoísta e constante de que os nossos filhos são nossos. Cresce tão depressa que já o estou a imaginar adolescente. Quero parar no tempo estes dias em que os olhos dele brilham fascinados com tudo o que se lhes apresenta, estes dias em que ele ainda acha que eu sou a pessoa mais interessante do mundo, a melhor cantora, a comediante mais engraçada. Tudo na existência dele é amor e confiança. Cabe-nos num braço e não se cansa dos nossos beijos. Ri e gargalha com "o mar enrola na areia", pára de chorar se imitarmos os sons dos animais. Ser feliz com pouco não é só possível, é o ideal, e os bebés estão cá para o comprovar.
29 de janeiro de 2014
9/1/2014
Acorda desfeito em sorrisos, junta as mãozinhas como quem bate palmas e dá pontapés de emoção. Chegou o momento alto do dia dele: acordar e ver-nos. Damos-lhe a cara e pedimos beijinhos e ele faz o melhor que consegue, ora chucha, ora nos lambe. O meu filho acredita que a vida é uma festa, e celebra-a todos os dias. Quando me desoriento um bocadinho lá está ele para me lembrar que uma existência onde há colo, elogios, sorrisos e muitos, tantos beijos, é só. É tudo.
24 de janeiro de 2014
27/8/2013
Quem a vê andar a passo rápido pelos corredores da Waterloo Station, a ler o jornal em pé sem pedinchar um lugar sentado, não sabe nem sonha o que é ter um menino às marradas no colo do útero, 13 kg extra em cima de dois pés de elefante, perder o fôlego porque a barriga se faz pedra até às costelas e que o que ela quer mesmo é chegar depressa a casa, arrancar as roupas, ser toda mamas e barriga, andar como um pinguim e ignorar todo e qualquer objecto que lhe caia ao chão.
Um charme de moça.
13/8/2013
O meu filho ainda não nasceu mas já tem mais roupa e mais estilo que eu. Não sei se ria, se chore.
20/7/2013
Profundamente apaixonada por este corpo mamífero-grávido e pela pessoinha que nele mora, que faz habilidades quando eu lhe peço e que parece dar pelo nome. Embriagada pelas hormonas e por essa coisa superior que levou o Homem a inventar a religião. Tudo na natureza me fascina.
21/5/2013
Dizem-me que destino dar ao meu talento, pintar e expor, dar aulas, organizar workshops, ser rica no reino unido, quando o que eu sonho é ilustrar livrinhos, servir soya cappuccinos e ser feliz a vida inteira. Doce liberdade.
23/4/2013
Às 20 semanas - Metade.
"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
(...)
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."
"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
(...)
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."
18/4/2013
Não preciso de me informar mais para concluir que o soutien foi inventado por uma mulher grávida. E biba a copa F, sim, F de f#da-se!
6/3/2013
Ir ao mercado ao fim do dia para bem do meu ego (ou como um sorriso arranca mega-descontos): os vendedores (já a empacotarem para irem embora) vendem-me fruta e legumes a metade do preço, oferecem-me coisas sem eu pedir, cedem quando eu regateio e ainda me chamam darling. Coisas fofas.
1/3/2013
A flexibilidade da minha paciência e a minha tolerância à frustração surpreendem-me. Uma lagriminha aqui, um chocolatinho preto ali, e cá estou eu, inteira. E orgulhosa.
26/1/2013
Os gatos dos vizinhos de cima entram-nos em casa pela janela e julgam que a casa é deles. Aliás, julgam que o bairro é deles, e até Londres inteira seria deles, se fossem passear mais longe em vez de se enfiarem na nossa cama. Eu sou a pessoa de estimação, embora só um deles (o macho) me estime e ronrone e me deixe dar-lhe beijinhos na cabeça.
9/1/2013
Ninguém viveu a sério até ter o seu bigode minhoto arrancado com fios por uma senhora impiedosa num cabeleireiro ranhoso, chorar sem parar durante dois minutos e depois de se ver ao espelho decidir que aquilo é a melhor coisa do mondó!
tenho de voltar a este blog
Vou escrevendo pensamentos e desabafos no facebook porque é o que está mais à mão, mas este blog não devia deixar de ser a minha caixinha (pública) de recados para mim mesma. Pelo que vou transferi-los para aqui. O facebook às vezes cansa-me.
Tanta coisa aqui guardada ao longo de sete anos. Algumas coisas já esqueci. Volto lá atrás, encontro fotos que não me lembro de tirar e textos que não me lembro de escrever. Tenho de tirar mais fotos. Tenho de voltar aqui.
Tanta coisa aqui guardada ao longo de sete anos. Algumas coisas já esqueci. Volto lá atrás, encontro fotos que não me lembro de tirar e textos que não me lembro de escrever. Tenho de tirar mais fotos. Tenho de voltar aqui.
26 de dezembro de 2013
eu que nem gosto do natal
Lembro-me de estarmos naquela esplanada em frente à tua casa em São Brás de Alportel, Di. A dona do café chamava-se Rute e fazia umas sobremesas com natas e leite condensado e bolachas oreo e sei lá mais o quê. Já não me lembro do que é sentir um calor assim, como o do Algarve. Eu estava com a mente em farrapos mas sentia optimismo e esperança, como sinto sempre que estou ao teu lado. Lembro-me de lermos revistas de fofocas e lembro-me de sentir que um bom café era um dado adquirido, assim como era ter-te comigo, ir de carro para a praia, abraçar-te. Se nessa altura me dissessem que um dia eu pagaria duas libras e meia por um café intragável e que ficaria mais de um ano e meio sem estar contigo, eu rir-me-ia com desdém.
Eu que nem gosto do Natal, queria só mesmo era aproveitar que a família ia estar toda reunida para lhes mostrar o Diogo. Sobretudo mostrá-lo à minha avó, para ela viver o ser bisavó, que mesmo que ela não saiba, isso ninguém lhe tira. Queria vê-los frente a frente, dois bebés que esquecem o que se passou numa questão de minutos.
Se o mau funcionamento do consulado não nos parou, nem o serviços que contactei e a quem apelei (implorei?) para que me dessem o cartão do cidadão do Diogo (já pronto há mais de um mês) para podermos viajar com ele, parou-nos a tempestade que cortou a electricidade em toda a zona de Gatwick. Quando ouvi que os voos da tarde tinham sido todos cancelados só me deu para rir.
Ainda bem que não ligamos nenhuma ao Natal, porque assim ver o meu filho no colo do pai a ver o Nemo na televisão e a mamar nas mãos foi suficiente para me consolar, assim como as batatas fritas e crepes chineses que jantámos.
Hoje a minha mente está cismada em quem vive em Lisboa e não vai ao largo das Portas do Sol num dia de céu azul, quem tem um café a servir Delta ao lado de casa, quem tem como opção passar o Natal com a família, quem pode abraçar os melhores amigos frequentemente. E pensa que tudo isso são dados adquiridos.
Eu que nem gosto do Natal, queria só mesmo era aproveitar que a família ia estar toda reunida para lhes mostrar o Diogo. Sobretudo mostrá-lo à minha avó, para ela viver o ser bisavó, que mesmo que ela não saiba, isso ninguém lhe tira. Queria vê-los frente a frente, dois bebés que esquecem o que se passou numa questão de minutos.
Se o mau funcionamento do consulado não nos parou, nem o serviços que contactei e a quem apelei (implorei?) para que me dessem o cartão do cidadão do Diogo (já pronto há mais de um mês) para podermos viajar com ele, parou-nos a tempestade que cortou a electricidade em toda a zona de Gatwick. Quando ouvi que os voos da tarde tinham sido todos cancelados só me deu para rir.
Ainda bem que não ligamos nenhuma ao Natal, porque assim ver o meu filho no colo do pai a ver o Nemo na televisão e a mamar nas mãos foi suficiente para me consolar, assim como as batatas fritas e crepes chineses que jantámos.
Hoje a minha mente está cismada em quem vive em Lisboa e não vai ao largo das Portas do Sol num dia de céu azul, quem tem um café a servir Delta ao lado de casa, quem tem como opção passar o Natal com a família, quem pode abraçar os melhores amigos frequentemente. E pensa que tudo isso são dados adquiridos.
14 de dezembro de 2013
6 de dezembro de 2013
ele
Há um ano exactamente começava (ainda sem sabermos) o dia 1 da nossa gravidez. Hoje temos cá em casa um menino que parece ter nascido com um relógio. Que de um momento para o outro começou a querer comer de 4 em 4 horas e que de vez em quando dorme a noite inteira, deixando-me a mim e às minhas amigas leiteiras muito confusas. Aprendeu a diferença entre noite e dia ainda muito pequenino e como de noite é um anjo não me queixo das (também pontualíssimas) birras de sono que faz durante o dia. A birra das 11 da manhã deixa-o irreconhecível por cerca de 20 minutos, com direito a cara lavada em lágrimas, esbracejar, espernear e arranhar. Cai para o lado exausto e aos soluços. 40 minutos depois acorda com as sobrancelhas ainda vermelhas mas muito feliz e cheio de charme, desfaz-se em sorrisos e gracinhas e os dois sofremos duma amnésia que dura até ao dia seguinte, à mesma hora.
27 de novembro de 2013
o meu livro
Foi há um ano que eu me demiti e decidi que seria escritora e ilustradora de livros para crianças. Um ano, novo emprego, muitas lágrimas, muitos muitos risos e um filho depois, aqui estou a pô-lo à venda. Caseirinho como eu o quis, e assim será até ao dia em que uma editora o queira também. Já vai na terceira edição, porque fui contida e mandei fazer pouquinhos de cada vez. Graças à família, amigos, amigos de amigos e ao facebook as duas primeiras edições venderam como pãezinhos quentes. Desta vez é uma série de 100, cada cópia numerada e assinada por mim. Estou tão feliz.
Para comprar ou obter mais informações, por favor enviar-me um email para natachapintas@gmail.com. O Diogo manda beijinhos e agradece a todos pelas mensagens e comentários amorosos.
Para comprar ou obter mais informações, por favor enviar-me um email para natachapintas@gmail.com. O Diogo manda beijinhos e agradece a todos pelas mensagens e comentários amorosos.
15 de novembro de 2013
cartão do cidadão
Ver a foto de passe do meu bebé com as minhas mãos a ampararem-lhe a cabeça, altura 60 cm, estado civil solteiro, ausência de impressões digitais por serem demasiado pequenas para o computador as ler e a frase "não sabe assinar" deu-me vontade de o engolir e voltar a guardá-lo na minha barriga.
12 de novembro de 2013
o parto
Talvez eu recupere da experiência que foi trazer o meu filho ao mundo lá para 2033. Todos os dias olho para ele e custa-me acreditar que haja momentos na vida tão perfeitos. Escrevo este post para nunca me esquecer dos pormenores (talvez isso aconteça lá para 2083), para as minhas pessoas queridas a quem ainda não contei como foi, e sobretudo para que fique relatado e público aquilo que nos aconteceu. Fartei-me de ler sobre partos, ver vídeos e documentários, e parece-me que nunca é demais saber de mais um, porque a experiência de cada mulher que opta por se expor contribui e contribuiu para o que eu decidi (no que estava ao meu alcance) que o meu parto seria. Então aqui fica o meu bocadinho de mãe natureza, que espero que inspire alguém como tantas histórias de partos felizes me inspiraram a mim.
No dia antes de o Diogo nascer a minha barriga ficou mais arrebitada que nunca. No dia do parto o umbigo estava a apontar para baixo. Lembro-me de comentar isso com a minha mãe e ela concordar. Tínhamos andado a ouvir meditações e hipnopartos no youtube e eu estava incrivelmente relaxada. Aprendi no workshop de preparação para o parto que quanto mais tempo estivermos no nosso ninho, mais oxitocina se liberta e mais depressa o trabalho de parto avança. Assim fiz. Comi uma tigelona de guacamole e pensei se deveria carregar no chili, para dar um empurrãozinho ao bebé... não foi preciso.
Às 39 semanas o meu filho lia-me os pensamentos. Se antes ele começava a pontapear esfomeado no momento em que eu preparava uma refeição, nessa altura bastava-me pensar em comer guacamole e o Diogo começava um festival de breakdance.
Costurei a fronha que me faltava para terminar de forrar o sofá, enfiei a almofada lá dentro à (tanta) força e transpirei tanto que tenho a certeza que foi isso que me fez entrar em trabalho de parto. Fui à casa de banho e senti um duplo-clique na minha barriga que me fez parar por um segundo, mas continuei com a minha vidinha. Mal eu sabia que as águas tinham rebentado. Eram 14h30 quando me sentei no chão e a minha mãe tirou as últimas fotografias à barriga. Nesse momento senti água a sair e disse-lhe "não vais acreditar..." e então começou a aventura. Começou uma maratona de pensos higiénicos mas pouco mais do que isso, porque eu achei que só daí a muitas horas é que mais alguma coisa aconteceria. Só telefonei ao Faneca para o informar e disse-lhe que não precisava de vir para casa. Também mandei uma mensagem a uma amiga que vinha a caminho para nos visitar a dizer que não se assustasse mas que o Diogo estava a caminho. Podiamos lanchar juntas na mesma e relaxar, que isso só ajudaria. Mas meia hora depois comecei a ter umas contracções ligeiramente dolorosas, que desciam até às virilhas. Às 15h15 elas pareciam-me tão frequentes que achei melhor começar a cronometrá-las. Às 16h00 apercebi-me de que na teoria estava em trabalho de parto, embora as contracções fossem suportáveis. Tinham-me dito que as contracções de trabalho de parto não nos permitem manter uma conversa, mas eu conversei com a senhora do Birth Centre ao telefone, que me disse que era melhor pôr-me a caminho. Liguei ao Faneca a dizer que viesse para casa depressinha faz favor. Depois seguiu-se um estado "intoxicação alimentar", em que se me deu tal volta à barriga que eu não sabia se corria para o lavatório ou para a sanita. Liguei à minha querida Andreia, que é parteira e me disse que tudo isso era normal. Relaxei e respirei. A minha mãe preparava tudo e tirava fotografias. O Faneca chegou às 16h30 e chamou um taxi. A minha amiga chegou para lancharmos mas qual lanchar qual quê, ao fim de 10 minutos estávamos todos metidos no taxi. Antes mesmo de sairmos eu tive uma contracção a sério. Uma contracção que me fez gemer e que sobretudo me tirou toda a força das pernas. A minha perna direita teve um espasmo e eu pensei "Ora aí está! Agora estou lixada que vai ser meia hora disto metida num carro."
Os longos 40 minutos que passámos no taxi não foram tão maus como eu imaginei. Ir sentada aliviou-me completamente as pernas, que eu insistia em relaxar e concentrei-me em não seguir o impulso constante de me contrair toda e fincar os pés no chão do carro. Relaxar as pernas e a cara. Respirar. Quando chegámos ao hospital estar em pé tornou-se impossível e a cada contracção que se seguiu eu tive de me apoiar em alguma coisa, sem nunca largar a almofada que levei comigo. Foi o taxi mal saímos, foi a parede do elevador, foram os balcões das recepções. Água pelas pernas abaixo, inglês e português e o meu filho, o meu filho que não sabia o que lhe estava a acontecer, não leu livros nem aprendeu a lidar com a dor. Estávamos juntos, estávamos juntos desde há nove meses e estaríamos mais unidos do que nunca naquela coisa primitiva que nos estava a acontecer.
Quando chegámos ao quarto e eu pedi à parteira para usar uma das piscinas ela disse que sim. Pediu-me que fosse fazer chichi, verificou o batimento cardíaco do bebé e depois quis examinar-me, mas eu simplesmente não conseguia estar deitada de costas, a não ser entre contracções. Toda eu era um bicho. Não permiti que ninguém me tocasse. Todos à minha volta tendiam a afagar-me, mas aquelas festinhas pareciam lixa e desconcentravam-me completamente. Pus-me de joelhos em cima da cama sem que ninguém mo sugerisse. Pedi que levantassem o encosto da cama e abracei-me a ele. Também foi sem aviso que saiu de mim um som que eu não reconheci, como se um animal de grande porte tivesse entrado naquele quarto e estivesse também em trabalho de parto. Lembro-me de pensar que aquilo só podia ser eu e lembro-me de sentir que o meu corpo estava a fazer tudo sozinho. Lá ao longe tudo me pareceu tão irónico, especialmente porque a janela do quarto tinha uma vista panorâmica sobre o Tamisa e o Parlamento. O Big Ben marcava 18h15. Eu tinha numa mão o tubo de gas and air e na outra a mão do Faneca. Estava tão feliz quanto incapaz de o verbalizar.
Continuei aquele exercício de relaxamento. Quando a parteira me examinou disse "Estás pronta! De certeza que queres usar a piscina?", ao que eu me lembro de dizer que sim. Ela pôs-se a correr e disse-me que me apressasse também. "Corremos" (porque me recusei a sentar na cadeira de rodas) dentro do possível, a minha mãe de máquina fotográfica na mão, o meu amor a amparar-me a queda quando tive uma contracção no corredor. Meti-me na piscina ainda com menos de um palmo de água. Ajoelhei-me. Duas parteiras à procura do batimento cardíaco do meu bebé sem sucesso. Alguma coisa dentro de mim me impedia de sentir medo. Tinha comigo as duas pessoas com quem mais queria partilhar o parto do Diogo, e sei que foi por isso, por ali estarmos os quatro tão unidos, que eu me mantive tão calma e tão feliz. Tinha a certeza de que o Diogo estava bem. Larguei o gás porque me estava a desconcentrar e numa das tentativas de encontrar o batimento do coração do Diogo pus-me a flutuar de lado, sem nunca largar a mão do Fanequinha. Foi aí que descobri o paraíso. Não me lembro de as contracções se terem tornado menos frequentes mas pelos vistos foi o que aconteceu. Lembro-me de a dor diminuir de tal forma que entre contracções toda eu flutuava naquela água quente. Quando sentia a contracção a chegar voltava a pôr-me de joelhos. As parteiras deixaram-me fazer o que quisesse e senti um bem-estar profundo quando uma delas me disse "ouve o teu corpo". Ouvi. O meu bebé estava a ser espremido e era nele que eu falava entre contracções (urros). Bebi garrafas e garrafas de água. Respirei. De repente voltei a sentir o Diogo e dessa vez era obviamente a cabeça dele a descer.
Eram 19h14 quando apareceu o bebé faneca, todo braços e pernas e mãos e pés. Nadou pouco porque eu trouxe-o logo à superfície, olhei para ele e ele para mim e assim ficámos até ele soltar um chorinho e só aí eu ser capaz de dizer "Olá meu amor! Tu nasceste, querido?"
No dia antes de o Diogo nascer a minha barriga ficou mais arrebitada que nunca. No dia do parto o umbigo estava a apontar para baixo. Lembro-me de comentar isso com a minha mãe e ela concordar. Tínhamos andado a ouvir meditações e hipnopartos no youtube e eu estava incrivelmente relaxada. Aprendi no workshop de preparação para o parto que quanto mais tempo estivermos no nosso ninho, mais oxitocina se liberta e mais depressa o trabalho de parto avança. Assim fiz. Comi uma tigelona de guacamole e pensei se deveria carregar no chili, para dar um empurrãozinho ao bebé... não foi preciso.
Às 39 semanas o meu filho lia-me os pensamentos. Se antes ele começava a pontapear esfomeado no momento em que eu preparava uma refeição, nessa altura bastava-me pensar em comer guacamole e o Diogo começava um festival de breakdance.
Costurei a fronha que me faltava para terminar de forrar o sofá, enfiei a almofada lá dentro à (tanta) força e transpirei tanto que tenho a certeza que foi isso que me fez entrar em trabalho de parto. Fui à casa de banho e senti um duplo-clique na minha barriga que me fez parar por um segundo, mas continuei com a minha vidinha. Mal eu sabia que as águas tinham rebentado. Eram 14h30 quando me sentei no chão e a minha mãe tirou as últimas fotografias à barriga. Nesse momento senti água a sair e disse-lhe "não vais acreditar..." e então começou a aventura. Começou uma maratona de pensos higiénicos mas pouco mais do que isso, porque eu achei que só daí a muitas horas é que mais alguma coisa aconteceria. Só telefonei ao Faneca para o informar e disse-lhe que não precisava de vir para casa. Também mandei uma mensagem a uma amiga que vinha a caminho para nos visitar a dizer que não se assustasse mas que o Diogo estava a caminho. Podiamos lanchar juntas na mesma e relaxar, que isso só ajudaria. Mas meia hora depois comecei a ter umas contracções ligeiramente dolorosas, que desciam até às virilhas. Às 15h15 elas pareciam-me tão frequentes que achei melhor começar a cronometrá-las. Às 16h00 apercebi-me de que na teoria estava em trabalho de parto, embora as contracções fossem suportáveis. Tinham-me dito que as contracções de trabalho de parto não nos permitem manter uma conversa, mas eu conversei com a senhora do Birth Centre ao telefone, que me disse que era melhor pôr-me a caminho. Liguei ao Faneca a dizer que viesse para casa depressinha faz favor. Depois seguiu-se um estado "intoxicação alimentar", em que se me deu tal volta à barriga que eu não sabia se corria para o lavatório ou para a sanita. Liguei à minha querida Andreia, que é parteira e me disse que tudo isso era normal. Relaxei e respirei. A minha mãe preparava tudo e tirava fotografias. O Faneca chegou às 16h30 e chamou um taxi. A minha amiga chegou para lancharmos mas qual lanchar qual quê, ao fim de 10 minutos estávamos todos metidos no taxi. Antes mesmo de sairmos eu tive uma contracção a sério. Uma contracção que me fez gemer e que sobretudo me tirou toda a força das pernas. A minha perna direita teve um espasmo e eu pensei "Ora aí está! Agora estou lixada que vai ser meia hora disto metida num carro."
Os longos 40 minutos que passámos no taxi não foram tão maus como eu imaginei. Ir sentada aliviou-me completamente as pernas, que eu insistia em relaxar e concentrei-me em não seguir o impulso constante de me contrair toda e fincar os pés no chão do carro. Relaxar as pernas e a cara. Respirar. Quando chegámos ao hospital estar em pé tornou-se impossível e a cada contracção que se seguiu eu tive de me apoiar em alguma coisa, sem nunca largar a almofada que levei comigo. Foi o taxi mal saímos, foi a parede do elevador, foram os balcões das recepções. Água pelas pernas abaixo, inglês e português e o meu filho, o meu filho que não sabia o que lhe estava a acontecer, não leu livros nem aprendeu a lidar com a dor. Estávamos juntos, estávamos juntos desde há nove meses e estaríamos mais unidos do que nunca naquela coisa primitiva que nos estava a acontecer.
Quando chegámos ao quarto e eu pedi à parteira para usar uma das piscinas ela disse que sim. Pediu-me que fosse fazer chichi, verificou o batimento cardíaco do bebé e depois quis examinar-me, mas eu simplesmente não conseguia estar deitada de costas, a não ser entre contracções. Toda eu era um bicho. Não permiti que ninguém me tocasse. Todos à minha volta tendiam a afagar-me, mas aquelas festinhas pareciam lixa e desconcentravam-me completamente. Pus-me de joelhos em cima da cama sem que ninguém mo sugerisse. Pedi que levantassem o encosto da cama e abracei-me a ele. Também foi sem aviso que saiu de mim um som que eu não reconheci, como se um animal de grande porte tivesse entrado naquele quarto e estivesse também em trabalho de parto. Lembro-me de pensar que aquilo só podia ser eu e lembro-me de sentir que o meu corpo estava a fazer tudo sozinho. Lá ao longe tudo me pareceu tão irónico, especialmente porque a janela do quarto tinha uma vista panorâmica sobre o Tamisa e o Parlamento. O Big Ben marcava 18h15. Eu tinha numa mão o tubo de gas and air e na outra a mão do Faneca. Estava tão feliz quanto incapaz de o verbalizar.
Continuei aquele exercício de relaxamento. Quando a parteira me examinou disse "Estás pronta! De certeza que queres usar a piscina?", ao que eu me lembro de dizer que sim. Ela pôs-se a correr e disse-me que me apressasse também. "Corremos" (porque me recusei a sentar na cadeira de rodas) dentro do possível, a minha mãe de máquina fotográfica na mão, o meu amor a amparar-me a queda quando tive uma contracção no corredor. Meti-me na piscina ainda com menos de um palmo de água. Ajoelhei-me. Duas parteiras à procura do batimento cardíaco do meu bebé sem sucesso. Alguma coisa dentro de mim me impedia de sentir medo. Tinha comigo as duas pessoas com quem mais queria partilhar o parto do Diogo, e sei que foi por isso, por ali estarmos os quatro tão unidos, que eu me mantive tão calma e tão feliz. Tinha a certeza de que o Diogo estava bem. Larguei o gás porque me estava a desconcentrar e numa das tentativas de encontrar o batimento do coração do Diogo pus-me a flutuar de lado, sem nunca largar a mão do Fanequinha. Foi aí que descobri o paraíso. Não me lembro de as contracções se terem tornado menos frequentes mas pelos vistos foi o que aconteceu. Lembro-me de a dor diminuir de tal forma que entre contracções toda eu flutuava naquela água quente. Quando sentia a contracção a chegar voltava a pôr-me de joelhos. As parteiras deixaram-me fazer o que quisesse e senti um bem-estar profundo quando uma delas me disse "ouve o teu corpo". Ouvi. O meu bebé estava a ser espremido e era nele que eu falava entre contracções (urros). Bebi garrafas e garrafas de água. Respirei. De repente voltei a sentir o Diogo e dessa vez era obviamente a cabeça dele a descer.
Eram 19h14 quando apareceu o bebé faneca, todo braços e pernas e mãos e pés. Nadou pouco porque eu trouxe-o logo à superfície, olhei para ele e ele para mim e assim ficámos até ele soltar um chorinho e só aí eu ser capaz de dizer "Olá meu amor! Tu nasceste, querido?"
27 de setembro de 2013
mãe natureza
Foi num programa chamado what not to wear que ouvi isto, esta frase que me ficou gravada e que ecoa até hoje na minha mente. A mulher que não gostava do próprio corpo e que por isso não se "vestia bem", e o apresentador que lhe dizia qualquer coisa como "o teu corpo é uma máquina de vida que trabalha para se manter bem e saudável, devias amá-lo pelo que ele é." Desde daí que vejo o meu corpo com outros olhos. Este corpo que eu já tanto maltratei, que odiei na minha adolescência, este corpo a que família, amigos e estranhos chamaram gordo quando eu não sabia como reagir, este corpo que dá abrigo à minha mente, às vezes mais, às vezes menos perturbada. Nunca me falhou, este corpo. Foi há poucos anos que tive esta espécie de epifania. Que este é o único corpo que terei na vida, saudável e tão forte apesar de tudo, sempre a regenerar-se, sempre. Foi mais do que uma reconciliação, foi como apaixonar-me pela máquina de vida que sou.
Quando engravidei já estava em estado de graça. E no dia (grávida de poucas semanas) em que vi as minhas mamas mudarem de forma e de cor soube que de nada valeria resistir ao poder da mãe natureza. Rendi-me. Encarreguei-me apenas de me manter feliz e fazer uma dieta o mais saudável possível. Sempre tive a certeza de que o mais importante era manter-me cheia de amor e gratidão e desejar que a natureza fosse generosa comigo. Sou um animal, dizia a mim mesma. Sou um animal como qualquer outro e há uma força superior a mim a governar o meu corpo neste momento. Durante os nove meses este foi o meu mantra. Além disso houve vários momentos chave que me prepararam para o parto. Coisas que ouvi ou li e que fui arquivando na minha mente, para que nunca fosse ela a apoderar-se do meu corpo, e sim o contrário. A namorada dum amigo contar-me que a mãe se preparou sozinha com uma cassete de hipnoparto e não usou drogas. O Stephen Fry no QI a dizer que a percepção da dor depende da ansiedade que se sente e a tensão que pomos no nosso corpo. A minha avó, a minha mãe e a minha tia terem tido os seus filhos de parto normal focadas na ideia de que a dor terminaria com um bebé nos seus braços. A aula de yoga que fazia no youtube em que a dor era referida como um sinal de que tudo estará a funcionar bem e que as contracções são o meu corpo a abraçar e empurrar o meu filho até que ele se encontre comigo cá fora. Li muito. Li tudo o que me apareceu e vi muitos, muitos videos. Mentalizei-me de que o parto é algo imprevisível e que tanta coisa pode correr mal, mas só imaginaria o meu a correr na perfeição, o mais natural e livre de químicos possível. Decidi que passaria pouco tempo na cama, que usaria a Gravidade para acelerar as coisas, que manteria as pernas fortes e ágeis para passar horas a pé. Trabalhei até ao final do oitavo mês, rodeada de pessoas a dizerem-me que descansasse, que me sentasse. Só o Faneca é que sempre me deixou fazer o que quisesse. E eu só parava quando o inchaço dos pés já chegava às coxas. No fim já tinha mais de 13 quilos em cima e o meu corpo continuava a pedir acção. Costurei como uma louca, arrastei móveis, montei a nossa cama nova sozinha. Enquanto o meu corpo me pediu para me mexer, eu mexi-me. Há qualquer coisa de primário, de tão animal e tão instintivo na gravidez. Dar ouvidos ao meu corpo foi o melhor que eu podia ter feito.
Quando engravidei já estava em estado de graça. E no dia (grávida de poucas semanas) em que vi as minhas mamas mudarem de forma e de cor soube que de nada valeria resistir ao poder da mãe natureza. Rendi-me. Encarreguei-me apenas de me manter feliz e fazer uma dieta o mais saudável possível. Sempre tive a certeza de que o mais importante era manter-me cheia de amor e gratidão e desejar que a natureza fosse generosa comigo. Sou um animal, dizia a mim mesma. Sou um animal como qualquer outro e há uma força superior a mim a governar o meu corpo neste momento. Durante os nove meses este foi o meu mantra. Além disso houve vários momentos chave que me prepararam para o parto. Coisas que ouvi ou li e que fui arquivando na minha mente, para que nunca fosse ela a apoderar-se do meu corpo, e sim o contrário. A namorada dum amigo contar-me que a mãe se preparou sozinha com uma cassete de hipnoparto e não usou drogas. O Stephen Fry no QI a dizer que a percepção da dor depende da ansiedade que se sente e a tensão que pomos no nosso corpo. A minha avó, a minha mãe e a minha tia terem tido os seus filhos de parto normal focadas na ideia de que a dor terminaria com um bebé nos seus braços. A aula de yoga que fazia no youtube em que a dor era referida como um sinal de que tudo estará a funcionar bem e que as contracções são o meu corpo a abraçar e empurrar o meu filho até que ele se encontre comigo cá fora. Li muito. Li tudo o que me apareceu e vi muitos, muitos videos. Mentalizei-me de que o parto é algo imprevisível e que tanta coisa pode correr mal, mas só imaginaria o meu a correr na perfeição, o mais natural e livre de químicos possível. Decidi que passaria pouco tempo na cama, que usaria a Gravidade para acelerar as coisas, que manteria as pernas fortes e ágeis para passar horas a pé. Trabalhei até ao final do oitavo mês, rodeada de pessoas a dizerem-me que descansasse, que me sentasse. Só o Faneca é que sempre me deixou fazer o que quisesse. E eu só parava quando o inchaço dos pés já chegava às coxas. No fim já tinha mais de 13 quilos em cima e o meu corpo continuava a pedir acção. Costurei como uma louca, arrastei móveis, montei a nossa cama nova sozinha. Enquanto o meu corpo me pediu para me mexer, eu mexi-me. Há qualquer coisa de primário, de tão animal e tão instintivo na gravidez. Dar ouvidos ao meu corpo foi o melhor que eu podia ter feito.
16 de setembro de 2013
diogo
O Diogo já vivia em mim há mais de oito meses, já o sentia a mexer há cinco, já me conhecia as rotinas, os gestos, e eu os dele. Já éramos cúmplices antes de ele nascer, já gostava dele, muito. Mas quando ele veio para os nossos braços foi como se uma onda do mar me engolisse e me levasse num turbilhão para o que de mais profundo e animal existe em mim. E estar num quarto, numa casa, num planeta onde o Diogo existe é como se uma orquestra tocasse permanentemente uma sinfonia tão bonita quanto ensurdecedora, que não me deixa pensar, que faz de mim um bicho todo irracional, todo instinto. O méu cérebro fundiu-se com o meu útero, o meu coração, as minhas entranhas, e eu deixo-me embalar nas profundezas deste estado em que nem respirar parece ser preciso.
1 de agosto de 2013
gratidão
Quando eu penso que não é possível estar rodeada de pessoas mais generosas e meigas, quando trabalhar parece uma gincana porque os dois colegas com quem estou fazem tudo para me poupar e me obrigam a sentar de hora em hora, me abraçam constantemente, cortam bocadinhos de bolo e escrevem recadinhos para o meu bebé; quando entrar numa carruagem tão quente e tão cheia de gente que a minha barriga e leque não parecem lá caber e de repente se abrem alas até a um lugar sentado e até mãos estranhas me dão apoio e olhares me dão consolo, chego a casa para encontrar o canalizador e a senhoria. E a senhoria traz com ela um carro carregado até ao tecto com tudo o que eu possa precisar para mim e para o bebé. Toneladas de roupa linda linda linda para vestir um menino dos 0 aos 6 meses, alcofa, tapete de actividades, banheira, biberões, bomba de amamentação, esterilizador, compressas, fraldas de pano, uma boia para eu me sentar, um espelho para ver o bebé no carro, mobile para o berço e brinquedos para o carrinho.
Houve uma altura na minha vida em que diria que não mereço tanto. Hoje digo a mim própria que mereço sim, que tento dar não mais do que amor a tudo e todos com que me cruzo, mas a forma como este amor volta multiplicado esmaga-me e parece que a minha gratidão nunca é tão grande como a generosidade daqueles que me rodeiam.
Houve uma altura na minha vida em que diria que não mereço tanto. Hoje digo a mim própria que mereço sim, que tento dar não mais do que amor a tudo e todos com que me cruzo, mas a forma como este amor volta multiplicado esmaga-me e parece que a minha gratidão nunca é tão grande como a generosidade daqueles que me rodeiam.
29 de junho de 2013
minha avó
Durante a última semana desejei poder transferir o Dioguinho para a barriga do pai, trocar o meu corpo de 31 anos pelo teu de 87 e passar por tantas camas de hospital, anestesias gerais e cirurgias quanto fosse preciso, só para te poupar à confusão, ao medo e aos riscos que as doenças e os tratamentos implicam. Felizmente já passou.
3 de maio de 2013
mais um bocadinho e ponho o blog azul bebé
Ontem não senti os pontapés do costume, e sou tão previsível quanto os livros descrevem. Será que o bebé está bem? Porque se mexe tão pouco? Será que se mexe? Poderei esmagar a barriga até ele me dar um coice ou é pior? Deverei tomar um café? E chocolate? Ou os dois? Repito para mim o que também li no livro: "Fetuses are only human" e por isso têm dias calmos e dias agitados.
Hoje de manhã acordei e esperei senti-lo, e nada. Tomei o pequeno almoço sentada e quieta e nada. Fui para o trabalho e nada, até que lá senti um sinal de vida mas muito ligeiro. Foi só depois das onze da manhã que me sentei refastelada a comer figos secos com amêndoas e liguei ao Faneca. E basta ouvi-lo para o bebé começar aos pontapés, aliás foi assim que o senti pela primeira vez: refastelada num banco de jardim ao telefone com o pai dos meus filhos.
O bailarico uterino parece ter durado o dia todo, assim como que para me consolar. É indescritível. E como cereja no topo do bolo, duas pessoas cederam-me o lugar no metro. Cheguei a casa e pus música a bombar contra a barriga. Comecei com o Elvis e acabei com os Queen. O babyfaneca ficou louco ao som disto.
Hoje de manhã acordei e esperei senti-lo, e nada. Tomei o pequeno almoço sentada e quieta e nada. Fui para o trabalho e nada, até que lá senti um sinal de vida mas muito ligeiro. Foi só depois das onze da manhã que me sentei refastelada a comer figos secos com amêndoas e liguei ao Faneca. E basta ouvi-lo para o bebé começar aos pontapés, aliás foi assim que o senti pela primeira vez: refastelada num banco de jardim ao telefone com o pai dos meus filhos.
O bailarico uterino parece ter durado o dia todo, assim como que para me consolar. É indescritível. E como cereja no topo do bolo, duas pessoas cederam-me o lugar no metro. Cheguei a casa e pus música a bombar contra a barriga. Comecei com o Elvis e acabei com os Queen. O babyfaneca ficou louco ao som disto.
29 de abril de 2013
da espera
Este blog está em modo babyblog porque o meu livro ainda não me chegou às mãos. Isto sim, é um parto difícil, e como ainda não chegou a parte boa em que me encontrarei com os primeiros 50 exemplares, não me vou queixar deste longo processo e da espera, e da minha tão curta paciência. Portanto em breve (?), quando todo o suor, lágrimas e espera mostrarem ter valido muito muito muito a pena, escrevo.
Entretanto o bebé na barriga mostrou-se menino (porque é que parece não ter importância absolutamente nenhuma? mesmo quando se confirmou o que eu sempre imaginei, um filho menino) e perfeito, na última ecografia. É verdade o que se diz, não há como explicar o que se sente quando se vê e se sente um ser humano desenvolver-se e viver dentro de nós. Há qualquer coisa de tão superior, e como eu não acredito no deus dos homens, não faz sentido dizer isto, mas sim. É um milagre. A natureza apodera-se e encarrega-se do meu corpo, a mim resta-me encarregar desta minha mente, mantê-la saudável, lúcida, que é daí que eu sigo feliz. De nada me vale, de absolutamente nada me vale ficar ansiosa ou impaciente, de nada me vale preocupar-me ou ter medo. O medo e a preocupação, como em tudo na vida, não fazem diferença nenhuma. Dão-nos uma falsa sensação de controlo.
De maneira que aqui espero, pelo bebé, pelo livro, e enquanto espero respiro e olho para o que já está concretizado e presente na minha vida e que é tão bom e tão precisoso.
Há dias muito raros de sol em Londres. Dias de céu limpo, essa coisa tão frequente em Lisboa que chega a ser aborrecida. Um dia de céu limpo aqui é motivo de celebração. Agora apeteceu-me dizer isto...
Entretanto o bebé na barriga mostrou-se menino (porque é que parece não ter importância absolutamente nenhuma? mesmo quando se confirmou o que eu sempre imaginei, um filho menino) e perfeito, na última ecografia. É verdade o que se diz, não há como explicar o que se sente quando se vê e se sente um ser humano desenvolver-se e viver dentro de nós. Há qualquer coisa de tão superior, e como eu não acredito no deus dos homens, não faz sentido dizer isto, mas sim. É um milagre. A natureza apodera-se e encarrega-se do meu corpo, a mim resta-me encarregar desta minha mente, mantê-la saudável, lúcida, que é daí que eu sigo feliz. De nada me vale, de absolutamente nada me vale ficar ansiosa ou impaciente, de nada me vale preocupar-me ou ter medo. O medo e a preocupação, como em tudo na vida, não fazem diferença nenhuma. Dão-nos uma falsa sensação de controlo.
De maneira que aqui espero, pelo bebé, pelo livro, e enquanto espero respiro e olho para o que já está concretizado e presente na minha vida e que é tão bom e tão precisoso.
Há dias muito raros de sol em Londres. Dias de céu limpo, essa coisa tão frequente em Lisboa que chega a ser aborrecida. Um dia de céu limpo aqui é motivo de celebração. Agora apeteceu-me dizer isto...
24 de abril de 2013
20 semanas
Estar grávida longe da minha família e dos meus melhores amigos é dar muito, mas muito mais valor ao meu companheiro de vida, que já era minha família antes de sermos três, que é o meu melhor amigo e que me dá a mão nos momentos bons, nos momentos maus, e quando menos se esperaria que me desse a mão também.
Este bebé que ainda pouco se faz notar no que respeita a pontapés, faz-me crescer a barriga todos os dias um pouco mais, faz-me pensar duas, três, quatro vezes antes de pôr alguma coisa na boca, estica e muda a cor da minha pele. Atrai para mim muitas atenções e muito carinho por parte dos colegas de trabalho, que exageram ao ponto de me fazerem chorar de tanto rir. Este bebé ainda não ouviu música clássica mas todos os dias é embalado pelas minhas gargalhadas. Não sei como um dia vou agradecer a estas pessoas pelo que fazem por mim. Sem se darem conta, consolam o meu coração de emigrante, o meu corpo grávido e a minha cria de quatro meses e meio.
Este bebé que ainda pouco se faz notar no que respeita a pontapés, faz-me crescer a barriga todos os dias um pouco mais, faz-me pensar duas, três, quatro vezes antes de pôr alguma coisa na boca, estica e muda a cor da minha pele. Atrai para mim muitas atenções e muito carinho por parte dos colegas de trabalho, que exageram ao ponto de me fazerem chorar de tanto rir. Este bebé ainda não ouviu música clássica mas todos os dias é embalado pelas minhas gargalhadas. Não sei como um dia vou agradecer a estas pessoas pelo que fazem por mim. Sem se darem conta, consolam o meu coração de emigrante, o meu corpo grávido e a minha cria de quatro meses e meio.
31 de março de 2013
toda eu mamas (rascunho de 2/2/2013)
De um dia para o outro deixei de caber nos soutiens. Tanto eu como o fanequinha olhamos para elas com um misto de choque e admiração... embora algo me diga que a admiração que ele sente é diferente da minha. Eu vejo-as como máquinas de vida, a funcionar a todo o gás, sintonizadas com o meu útero, com o que por lá vai mas que ainda não é óbvio. Nunca tive tanta consciência de que sou um mamífero, e nunca pensei tanto (e com tanta culpa) nas minhas amigas vacas a quem arrancamos os seus bebés (que comemos e cujos estômagos usamos para fazer queijo) e a quem roubamos o leite, que devoramos sofregamente... enfim. Ontem fui comprar soutiens à H&M e tive um ataque de frustração ao ver que não cabia no 36D, e o 38D não aparecia em nenhum modelo. Eu odeio experimentar roupas, transpiro, canso-me, perco a paciência ao fim de duas provas. Fiquei tão zangada, sobretudo porque as mamas me doem e pesam, e eu só queria encontrar a porra do soutien certo, agarrar em dois e vir para casa. Mas não, tive de ir pedir ajuda e felizmente uma menina muito despachada encontrou-mos logo. Apeteceu-me beijar-lhe os pés e dizer-lhe que me tirou um peso do peito.
25 de março de 2013
milionária
Perguntei ao faneca o que faria se ganhasse milhares de milhões de libras. Disse que me dava metade (é tão fofo), que dava aos pais tudo o que precisassem, que depois ia só viajar, ver o mundo comigo, passar a vida de férias. Eu disse-lhe que bastava dar-me um milhão, pois isso chegar-me-ia para o resto da vida. Que também queria passear, mas não o tempo todo. Então o que fazias, perguntou-me. E a minha resposta saiu sem sequer hesitar. Abria o meu café/loja. Que eu preciso de trabalhar e de ver gente. Ilustrações, cafés, bolos caseiros e pratos vegetarianos. Isto sou eu milionária.
24 de março de 2013
neve
Para haver drama basta pegar num coração emigrante e deitar-lhe uma pitada de hormonas.
O frio que se sente na rua e o vento que vem como lâminas tira-me o prazer de brincar com a neve. Talvez porque sobrevivi a um Inverno no mercado (não é possível explicar sem palavrões o que se sente ao fim de oito horas exposta ao grau zero), a uma gripe fortíssima que me pôs aos tremeliques na cama, dores de garganta e tosse, cieiro. Se a neve tivesse vindo em Dezembro talvez eu a visse (a sentisse) de outra maneira, mas sendo Março, e sendo que nesta ilha raramente se vê o sol, nesta altura só me lembro de Lisboa, a Lisboa amena que me acolheu. Que saudades de não ter frio. Que saudades da Primavera.
O frio que se sente na rua e o vento que vem como lâminas tira-me o prazer de brincar com a neve. Talvez porque sobrevivi a um Inverno no mercado (não é possível explicar sem palavrões o que se sente ao fim de oito horas exposta ao grau zero), a uma gripe fortíssima que me pôs aos tremeliques na cama, dores de garganta e tosse, cieiro. Se a neve tivesse vindo em Dezembro talvez eu a visse (a sentisse) de outra maneira, mas sendo Março, e sendo que nesta ilha raramente se vê o sol, nesta altura só me lembro de Lisboa, a Lisboa amena que me acolheu. Que saudades de não ter frio. Que saudades da Primavera.
20 de março de 2013
desabafos de fim de tarde
Chegam-nos da Holanda emails, pacotes e postais amorosos, de primos que ainda nem conheço, a agradecer pela partilha, a desejar-nos as maiores felicidades.
De Portugal, de algumas das pessoas que me são mais próximas, nem uma resposta ao email emocionado que lhes enviei no dia em que fomos à ecografia. É para eu aprender. Se não for para aprender que nem toda a gente se emociona com bebés como eu, que seja para aprender a não ficar magoada, pois o mundo não gira em torno de mim, muito embora eu tenha o rei na barriga.
De Portugal, de algumas das pessoas que me são mais próximas, nem uma resposta ao email emocionado que lhes enviei no dia em que fomos à ecografia. É para eu aprender. Se não for para aprender que nem toda a gente se emociona com bebés como eu, que seja para aprender a não ficar magoada, pois o mundo não gira em torno de mim, muito embora eu tenha o rei na barriga.
avó
Tu, que te esqueces que vais ser bisavó em menos de dois minutos. Não faz mal. Tu estás em mim mais do que nunca, no meu coração e no meu útero.
"Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."
19 de março de 2013
british humour
Comecei a contar que estou grávida aos colegas no trabalho. Muitos deles são mesmo de cá, alguns nascidos em Londres. Ontem perguntei a um "queres ver a minha mais recente obra de arte?" ao que ele disse logo que sim, à espera de ver uma ilustração. Mostrei-lhe a imagem da ecografia, olhou para ela com admiração durante dois segundos e as primeiras palavras que lhe sairam da boca foram:
"But we only did it once!"
"But we only did it once!"
16 de março de 2013
estatisticamente (rascunho de 27/01/2013)
Estatisticamente, o risco de perder o bebé bastante alto, no início da gravidez. Eu estou mentalizada, preparada para o pior, como em tudo na minha vida. Preparo-me para o pior, mas sobretudo preparo-me para o melhor, depois vivo e gozo os minutos como se o pior não pudesse acontecer. Normalmente resulta. Vivo feliz e contente e, no caso de dar para o torto, choro um bocadinho (ou baba e ranho se preciso for) e sigo para bingo.
Quando a Babá engravidou pela primeira vez eu fiquei apaixonada pelo feijãozinho, quis comprar-lhe uns sapatinhos, fui a uma loja no shopping em Viana e quando, feliz e babada disse ao que ia, a funcionária e um senhor amigo que lá estava com ela perguntaram-me "Mas de quantos meses está ela grávida?", ao que eu respondi dois ou três, já não me lembro (e o que é que me interessava? era um bebé dentro da Babá!) e eles, só lhes faltou correrem comigo da loja. Que era muito cedo, que tudo pode acontecer, que depois é um desgosto, que lhes desse antes uma garrafa de champanhe e a senhora ainda me disse que teve um aborto aos sete meses. Saí da loja e desatei a chorar. A minha mãe consolou-me e disse que comprasse os sapatinhos sim. A Babá recebeu-os e agradeceu e riu e eu dei mais beijos na barriga dela nessa gravidez do que em qualquer uma das outras. Tudo correu bem e os meus sapatinhos não mataram o feijãozinho.
Agora que eu tenho um feijãozinho e que a minha mãe já compra roupas e malha para tricotar, pergunto-me qual é o mal. Claro que há um risco acrescido, mas é a natureza, e claro que é triste tricotar e imaginar um bebé filho do amor da minha vida, e depois o bebé não nascer. Mais triste será comunicar a todas as pessoas que já celebram comigo e connosco e me tocam na barriga, que afinal a festa terá de ser adiada. Mas estatisticamente falando, as probabilidades de tragédia não aumentam proporcionalmente ao número de pessoas com quem se partilha a notícia, assim como não aumentam se as pessoas desatarem a comprar roupinhas e sapatinhos. Portanto cá estamos.
O faneca acha que devemos é aproveitar, imaginar que vai correr tudo bem e gozar o momento. Eu concordo. Mas não deixo de pensar. Vinte por cento. Se eu pensar num grupo de amigas que engravidaram, posso ser eu a uma em cinco. Mas até lá, vou continuar a festejar. Ontem fomos para os copos com os meus colegas do eat e contei-lhes, um por um, metade deles estava bêbeda, o que torna tudo ainda mais engraçado, porque os estrangeiros bêbedos perdem o inglês e as emoções vêm ao de cima então o que fazem é rir muito, rir com lágrimas nos olhos, muitos abraços e muitos beijos e tanto amor, tanto carinho que eles têm por mim. Para quê adiar estes momentos? Para quê adiar a celebração do facto de eu e o meu amor termos decidido dar um grito de optimismo e esperança a este mundo que às vezes é tão cruel. E todos os dias as tragédias acontecem, mas eu sempre preferi pensar que todos os dias os milagres acontecem também.
Quando a Babá engravidou pela primeira vez eu fiquei apaixonada pelo feijãozinho, quis comprar-lhe uns sapatinhos, fui a uma loja no shopping em Viana e quando, feliz e babada disse ao que ia, a funcionária e um senhor amigo que lá estava com ela perguntaram-me "Mas de quantos meses está ela grávida?", ao que eu respondi dois ou três, já não me lembro (e o que é que me interessava? era um bebé dentro da Babá!) e eles, só lhes faltou correrem comigo da loja. Que era muito cedo, que tudo pode acontecer, que depois é um desgosto, que lhes desse antes uma garrafa de champanhe e a senhora ainda me disse que teve um aborto aos sete meses. Saí da loja e desatei a chorar. A minha mãe consolou-me e disse que comprasse os sapatinhos sim. A Babá recebeu-os e agradeceu e riu e eu dei mais beijos na barriga dela nessa gravidez do que em qualquer uma das outras. Tudo correu bem e os meus sapatinhos não mataram o feijãozinho.
Agora que eu tenho um feijãozinho e que a minha mãe já compra roupas e malha para tricotar, pergunto-me qual é o mal. Claro que há um risco acrescido, mas é a natureza, e claro que é triste tricotar e imaginar um bebé filho do amor da minha vida, e depois o bebé não nascer. Mais triste será comunicar a todas as pessoas que já celebram comigo e connosco e me tocam na barriga, que afinal a festa terá de ser adiada. Mas estatisticamente falando, as probabilidades de tragédia não aumentam proporcionalmente ao número de pessoas com quem se partilha a notícia, assim como não aumentam se as pessoas desatarem a comprar roupinhas e sapatinhos. Portanto cá estamos.
O faneca acha que devemos é aproveitar, imaginar que vai correr tudo bem e gozar o momento. Eu concordo. Mas não deixo de pensar. Vinte por cento. Se eu pensar num grupo de amigas que engravidaram, posso ser eu a uma em cinco. Mas até lá, vou continuar a festejar. Ontem fomos para os copos com os meus colegas do eat e contei-lhes, um por um, metade deles estava bêbeda, o que torna tudo ainda mais engraçado, porque os estrangeiros bêbedos perdem o inglês e as emoções vêm ao de cima então o que fazem é rir muito, rir com lágrimas nos olhos, muitos abraços e muitos beijos e tanto amor, tanto carinho que eles têm por mim. Para quê adiar estes momentos? Para quê adiar a celebração do facto de eu e o meu amor termos decidido dar um grito de optimismo e esperança a este mundo que às vezes é tão cruel. E todos os dias as tragédias acontecem, mas eu sempre preferi pensar que todos os dias os milagres acontecem também.
15 de março de 2013
um bebé
(guardado nos rascunhos: 26/01/2013)
Vinda de Portugal, o fanequinha foi buscar-me ao aeroporto, cheguei a casa e fui directa para a casa de banho com o teste de gravidez que me restava. Descontraidíssma, até ao momento em que apareceu uma linha muito ténue. Chamei-o e começámos a rir-nos muito, incrédulos. Ele dizia que aquilo não era nada, eu dizia que aquilo era tudo, que eu já tinha perdido a conta aos testes negativos que vi e que ali não havia engano. Àquela hora estava tudo fechado aqui por perto, então tive mesmo de inventar coisas para fazer quando o outro progenitor já não conseguia aturar-me mais e foi dormir. Fiz uma sopa de cogumelos, comi-a, fiquei acordada até muito tarde e por fim adormeci. De manhã fui de pijama à farmácia e ao super mercado. Chovia horrores. E eu a segurar o primeiro chichi da manhã. Cheguei a casa e fiz três dos cinco testes que trouxe da rua. Continuámos incrédulos, mesmo depois de eu segurar os quatro resultados positivos todos juntos perto da janela, para ver melhor. Não sinto nada, não sinto nenhum sintoma. Ele dizia para esperarmos pelo dia do período, e esperámos e não veio. Começámos a acreditar, eu a imaginar um bebé dodot, porque bebé dodot foi o que eu e a Di chamámos ao faneca quando o conhecemos. Imaginar um bebé dentro de mim, um bebé que ainda era do tamanho de uma semente de papoila, não soa a bebé, muito menos parece ter força suficiente para me causar sintomas. Queixei-me da ausência de sintomas durante dias até ser atacada por umas cólicas intestinais das quais nunca tinha ouvido falar até a preocupação me levar aos livros, artigos na internet e por fim a uma querida amiga parteira. Se neste momento tenho barriga, é simplesmente ar. Mas já nada é o mesmo. Olho para o homem dos meus sonhos e pergunto-lhe "Um bebé?!" e ele ri-se e diz que sim, todas as vezes.
Vinda de Portugal, o fanequinha foi buscar-me ao aeroporto, cheguei a casa e fui directa para a casa de banho com o teste de gravidez que me restava. Descontraidíssma, até ao momento em que apareceu uma linha muito ténue. Chamei-o e começámos a rir-nos muito, incrédulos. Ele dizia que aquilo não era nada, eu dizia que aquilo era tudo, que eu já tinha perdido a conta aos testes negativos que vi e que ali não havia engano. Àquela hora estava tudo fechado aqui por perto, então tive mesmo de inventar coisas para fazer quando o outro progenitor já não conseguia aturar-me mais e foi dormir. Fiz uma sopa de cogumelos, comi-a, fiquei acordada até muito tarde e por fim adormeci. De manhã fui de pijama à farmácia e ao super mercado. Chovia horrores. E eu a segurar o primeiro chichi da manhã. Cheguei a casa e fiz três dos cinco testes que trouxe da rua. Continuámos incrédulos, mesmo depois de eu segurar os quatro resultados positivos todos juntos perto da janela, para ver melhor. Não sinto nada, não sinto nenhum sintoma. Ele dizia para esperarmos pelo dia do período, e esperámos e não veio. Começámos a acreditar, eu a imaginar um bebé dodot, porque bebé dodot foi o que eu e a Di chamámos ao faneca quando o conhecemos. Imaginar um bebé dentro de mim, um bebé que ainda era do tamanho de uma semente de papoila, não soa a bebé, muito menos parece ter força suficiente para me causar sintomas. Queixei-me da ausência de sintomas durante dias até ser atacada por umas cólicas intestinais das quais nunca tinha ouvido falar até a preocupação me levar aos livros, artigos na internet e por fim a uma querida amiga parteira. Se neste momento tenho barriga, é simplesmente ar. Mas já nada é o mesmo. Olho para o homem dos meus sonhos e pergunto-lhe "Um bebé?!" e ele ri-se e diz que sim, todas as vezes.
26 de fevereiro de 2013
londres estranha-se... depois entranha-se
Coisas que estranhei quando cheguei a esta terra:
Egg mayo. Egg mayo ao pequeno almoço.
O preço dos vegetais frescos.
A quantidade de frascos de molhos no supermercado.
O não se reciclar.
A ausência de caixotes de lixo na rua.
O preço de um expresso.
O café de merda.
Que se beba café com leite a acompanhar a comida.
As sopas.
O desperdício.
A quantidade de gente.
Não haver cães vadios.
Os cafés, supermercados e mercados que vendem bolos, bolachinhas e pães sem os cobrir com nada. Ficam ali ao ar e à tosse e ao perdigoto. Canojo.
A falta de higiene nos cafés e bares. O funcionário pegar na sanduiche com a mesma mãozinha que recebe o dinheiro e que coça a cabecinha. Ca. Nojo.
O não haver uma ASAE como a portuguesa, portanto os mercados de comida (e tudo o que eles implicam) prosperam e são adorados.
O tamanho e a população desta cidade.
A hora de ponta no metro na central line.
As casas minúsculas com rendas absurdas.
Egg mayo. Egg mayo ao pequeno almoço.
O preço dos vegetais frescos.
A quantidade de frascos de molhos no supermercado.
O não se reciclar.
A ausência de caixotes de lixo na rua.
O preço de um expresso.
O café de merda.
Que se beba café com leite a acompanhar a comida.
As sopas.
O desperdício.
A quantidade de gente.
Não haver cães vadios.
Os cafés, supermercados e mercados que vendem bolos, bolachinhas e pães sem os cobrir com nada. Ficam ali ao ar e à tosse e ao perdigoto. Canojo.
A falta de higiene nos cafés e bares. O funcionário pegar na sanduiche com a mesma mãozinha que recebe o dinheiro e que coça a cabecinha. Ca. Nojo.
O não haver uma ASAE como a portuguesa, portanto os mercados de comida (e tudo o que eles implicam) prosperam e são adorados.
O tamanho e a população desta cidade.
A hora de ponta no metro na central line.
As casas minúsculas com rendas absurdas.
6 de fevereiro de 2013
freedom
No dia em que o Marcelo casou com o Tim e eu fui menina das alianças, fomos celebrar a um bar no Soho chamado Freedom. Acho que foi a primeira vez que fui a um bar gay, e lá estive a dançar com o meu amor, rodeados de pessoas apaixonadas, apaixonantes, tudo a dançar e a divertir-se, muitos beijos na boca e muitos abraços, incluindo nós dois, que ficámos inspirados por tanta alegria, e por existir um lugar neste planeta onde é seguro expressar-se o que se sente, o que se é. Em que ninguém discrimina ninguém e onde cinco homens podem competir à vontade por um varão na pista de dança para simularem as suas pole dances ao som da Rihanna.
4 de fevereiro de 2013
quase
Não sei quantas horas depois, tanto e tanto palavrão meu deus (quando um holandês pragueja que se farta e cem por cento das vezes é em português do norte, há que desconfiar que exite nesta casa uma gaja malcriadona), o ficheiro do livro seguiu mais uma vez para imprimir. Aquela gente da gráfica já deve estar pelos cabelos comigo. Enfim, seguiu, pagarei adiantado metade do que lhes devo e resta-me esperar. Esperar pela prova que há-de chegar por correio. Esperar que esteja tudo bem, que fique como imaginei, que depois venham os primeiros cinquenta, que os venda depressa, que eu adoro trabalhar no café mas às vezes só sonho ter o meu próprio negócio. Estou muito feliz. Está quase...
30 de janeiro de 2013
ele
Eu acho que tenho bom feitio, mas nos dias (como hoje) em que estou com o toco, apercebo-me que bom feitio tem o holandês com quem eu vivo. Uma vez embebedei-me com chardonnay, sozinha aqui em casa, pus-me a ouvir fadinhos que me lembram de Alfama e quando ele chegou agarrei-me a ele a chorar. "Gosto tanto de ti. Gosto tanto de ti."
*suspiro*
*suspiro*
ser posta à prova
A terminar a paginação do meu livro, a enviar e receber emails da empresa que mo vai imprimir. Podia ser bonito mas não é.
A única coisa que me é fácil (e não é sempre) é o papel, o lápis, a tinta. No momento em que as coisas passam ao suporte digital, o processo de trabalho torna-se um teste de resistência. Desenrasco-me no photoshop e, de resto, tudo me estica a tolerância à frustração, os meus limites, a minha paciência. A minha dificuldade em manipular documentos e utilizar as ferramentas mais básicas de qualquer programa de computador é, no mínimo, uma vergonha. E quando me zango, como não sou pessoa de atirar coisas pelos ares ou bater no computador (também não é meu), farto-me de foda-ses e chego a dizer a mim própria que tenho uma deficiência mental qualquer, que não é possível. Depois há a minha incapacidade de me concentrar numa coisa só. Isso dava um livro.
Estou a ser posta à prova. Quanto queres este livro? Quanto queres vê-lo e vendê-lo? Quanto queres ser ilustradora quando fores grande? Quantos anos tens de viver até seres grande?
Está quase. Com muitos tropeções e muito palavrão. Mas está quase. Bear with me...
A única coisa que me é fácil (e não é sempre) é o papel, o lápis, a tinta. No momento em que as coisas passam ao suporte digital, o processo de trabalho torna-se um teste de resistência. Desenrasco-me no photoshop e, de resto, tudo me estica a tolerância à frustração, os meus limites, a minha paciência. A minha dificuldade em manipular documentos e utilizar as ferramentas mais básicas de qualquer programa de computador é, no mínimo, uma vergonha. E quando me zango, como não sou pessoa de atirar coisas pelos ares ou bater no computador (também não é meu), farto-me de foda-ses e chego a dizer a mim própria que tenho uma deficiência mental qualquer, que não é possível. Depois há a minha incapacidade de me concentrar numa coisa só. Isso dava um livro.
Estou a ser posta à prova. Quanto queres este livro? Quanto queres vê-lo e vendê-lo? Quanto queres ser ilustradora quando fores grande? Quantos anos tens de viver até seres grande?
Está quase. Com muitos tropeções e muito palavrão. Mas está quase. Bear with me...
26 de janeiro de 2013
que bonitas são as metáforas
Comprei uma vez um kit na poundland, um saquinho de terra com sementes de salsa. Semeei a salsa, vi-a crescer, mostrei ao faneca que lindos os rebentinhos, olha que linda é a natureza e ele, claro, revirou os olhos. Escusado será dizer que fui incapaz de a comer, portanto ficou ali na janela, no lado de fora, a ver se crescia mais um bocadinho. Há uma semana nevou e nevou bem, quando dei por ela já a salsa estava debaixo dum bloco de neve, já a desfalecer-se-me e então resgatei-a, falei com ela e cortei-a quase rente. Ao menos que não morresse em vão. Fiz molho verde e a minha boca teve um orgasmo quando o devorei aos montes com batatas cozidas. Pus a salsa no lado de dentro da janela, a ver a neve que quase a matou. E não é que em uma semana ela me duplicou de tamanho?
Quer-me parecer que de vez em quando todos nós, humanos e vegetais, precisamos é de apanhar um valente susto e um corte radical, para nos apercebermos do quão vivinhos estávamos.
Quer-me parecer que de vez em quando todos nós, humanos e vegetais, precisamos é de apanhar um valente susto e um corte radical, para nos apercebermos do quão vivinhos estávamos.
21 de dezembro de 2012
a escrever o meu livro
Escrever sobre amizade é percorrer mentalmente a enorme lista de pessoas que amo, e me amam. A enorme lista de pessoas em quem penso diariamente, cujos abraços e beijos e vozes são a melhor coisa que existe. A quantidade de pessoas que fazem de mim uma pessoa melhor. O que seria de mim sem as pessoas?
Lavada em lágrimas de saudades.
18 de dezembro de 2012
o colar
Este blog ajuda-me a observar-me. A registar-me e a partilhar-me. Escrevi aqui coisas das quais já nem me lembro. Ficou registado o medo, e espero que nem eu, nem ninguém que tenha acesso ao meu relato do medo, esqueçamos: o medo é talvez a coisa mais perigosa que pode assolar alguém. Deixei-me consumir até ao limite. Nunca me esquecerei do dia em que me sentei em frente ao neurologista e desatei num pranto. Olhei para baixo e vi o colar que tinha escolhido para esse dia, muito colorido, feito de rolhas e trapilho. Fiz o esforço de me pôr bonita no dia em que despejaria para cima de alguém aquilo que de mais feio e assustador me preenchia. Pareceu-me tudo tão irónico. Tive fé de que o médico não se assustaria mas houve um momento em que também ele mostrou horror.
O colar veio comigo para Londres e nunca o usei, em quase dois anos. Hoje lavei-o. 26 de Junho de 2009 é a data que me prende a ele. Para nunca me esquecer. Talvez um dia o deite fora. Lembro-me de conhecer o faneca e ter medo que ele se assustasse um bocadinho quando eu lhe dissesse por que motivo não podia beber muito vinho, o que eram os comprimidos que tomava religiosamente, o que era "não sentir nada". Lembro-me de um dia ele me fazer uma pergunta à qual eu evitei responder e ver nos olhos dele a sensatez de mudar de assunto. Disse a mim mesma Este rapaz é especial, não é só um holandês que gargalha, come chocolate como eu e adora gatos...
Vim para Londres com menos medo, mas ainda amedrontada. Tinha medo que vários factores despoletassem uma recaída. Vim para cá já desmamada. Tive medo da chuva, do céu cinzento, do primeiro dia em que anoitecesse às quatro e meia da tarde, tive medo de não arranjar emprego, tive medo da língua, tive medo de desenhar, tive medo das prateleiras do supermercado repletas de frascos desconhecidos, tive medo de mim própria. Há dias meti-me no autocarro e quando rumava à Trafalgar Square no meio dum trânsito absurdo, debaixo do céu cinzento, senti-me tão apaixonada por esta cidade. Como me senti em Lisboa na fase euforia-da-medicação. Não é a cidade em si, é o que trago dentro de mim. Vejo a depressão como qualquer outra doença que nos fica alojada e que simplesmente controlamos. Aprendi a viver com ela, com a ameaça da recaída como, imagino eu, um diabético vive com o controlo da alimentação. Há um momento em que se vive tão bem com o que se teve, que o medo desaparece.
O colar veio comigo para Londres e nunca o usei, em quase dois anos. Hoje lavei-o. 26 de Junho de 2009 é a data que me prende a ele. Para nunca me esquecer. Talvez um dia o deite fora. Lembro-me de conhecer o faneca e ter medo que ele se assustasse um bocadinho quando eu lhe dissesse por que motivo não podia beber muito vinho, o que eram os comprimidos que tomava religiosamente, o que era "não sentir nada". Lembro-me de um dia ele me fazer uma pergunta à qual eu evitei responder e ver nos olhos dele a sensatez de mudar de assunto. Disse a mim mesma Este rapaz é especial, não é só um holandês que gargalha, come chocolate como eu e adora gatos...
Vim para Londres com menos medo, mas ainda amedrontada. Tinha medo que vários factores despoletassem uma recaída. Vim para cá já desmamada. Tive medo da chuva, do céu cinzento, do primeiro dia em que anoitecesse às quatro e meia da tarde, tive medo de não arranjar emprego, tive medo da língua, tive medo de desenhar, tive medo das prateleiras do supermercado repletas de frascos desconhecidos, tive medo de mim própria. Há dias meti-me no autocarro e quando rumava à Trafalgar Square no meio dum trânsito absurdo, debaixo do céu cinzento, senti-me tão apaixonada por esta cidade. Como me senti em Lisboa na fase euforia-da-medicação. Não é a cidade em si, é o que trago dentro de mim. Vejo a depressão como qualquer outra doença que nos fica alojada e que simplesmente controlamos. Aprendi a viver com ela, com a ameaça da recaída como, imagino eu, um diabético vive com o controlo da alimentação. Há um momento em que se vive tão bem com o que se teve, que o medo desaparece.
17 de dezembro de 2012
ben
Antes de me ir embora do eat escrevi a dez dos meus clientes favoritos. Aqueles de quem iria mesmo ter saudades. Cortei um pedaço de cartão e fiz quadradinhos de 4x4cm. Num lado escrevi esta citação. Do outro lado uma dedicatória pequenina a dizer-lhes individualmente porque me fariam falta. Não consegui entregar os cartões a todos.
O Ben fez a contagem decrescente dos dias comigo. Pouco sabia dele para além de que é advogado, bebe americano ou double espresso, tem um sorriso muito matreiro e sempre olhou para mim nos olhos e me perguntou como estava. No último dia disse-me "So this is it." e eu fiquei com um nó na garganta, ofereci-lhe um último americano, dei-lhe dois bombons de chocolate e o cartãozinho. Ele ficou tão tocado que me entregou um cartão de visita e me disse para mantermos contacto. E que sentiria a minha falta. Eu não consegui dizer mais nada e fugi de perto dele para não chorar.
Hoje escrevi-lhe um email com o link para as minhas ilustrações. Em poucas horas recebi resposta. Disse que tem o cartãozinho na secretária e que o lê quase todos os dias, que sente a minha falta mas que fica muito contente por eu estar feliz. Que adorou as ilustrações e que comprará o meu livro assim que estiver pronto. E por fim disse que me punha em contacto com a prima que trabalhou numa editora.
Também no meu último dia escrevi aos meus colegas e pendurei na parede do staff room um recado. Escrevi que se formos generosos e gentis com todas as pessoas com quem nos cruzamos, todas sem excepção, e não esperarmos nada em troca, descobriremos um dos segredos para se encontrar felicidade e amor-próprio. E é verdade.
O Ben fez a contagem decrescente dos dias comigo. Pouco sabia dele para além de que é advogado, bebe americano ou double espresso, tem um sorriso muito matreiro e sempre olhou para mim nos olhos e me perguntou como estava. No último dia disse-me "So this is it." e eu fiquei com um nó na garganta, ofereci-lhe um último americano, dei-lhe dois bombons de chocolate e o cartãozinho. Ele ficou tão tocado que me entregou um cartão de visita e me disse para mantermos contacto. E que sentiria a minha falta. Eu não consegui dizer mais nada e fugi de perto dele para não chorar.
Hoje escrevi-lhe um email com o link para as minhas ilustrações. Em poucas horas recebi resposta. Disse que tem o cartãozinho na secretária e que o lê quase todos os dias, que sente a minha falta mas que fica muito contente por eu estar feliz. Que adorou as ilustrações e que comprará o meu livro assim que estiver pronto. E por fim disse que me punha em contacto com a prima que trabalhou numa editora.
Também no meu último dia escrevi aos meus colegas e pendurei na parede do staff room um recado. Escrevi que se formos generosos e gentis com todas as pessoas com quem nos cruzamos, todas sem excepção, e não esperarmos nada em troca, descobriremos um dos segredos para se encontrar felicidade e amor-próprio. E é verdade.
14 de dezembro de 2012
chris
Não sei se é a felicidade no presente que me torna tão optimista em relação ao futuro, se vice-versa.
Hoje fui ao eat ver os meus colegas. Estava sentada com dois deles quando um cliente habitual (que lá vai três vezes por dia, todos os dias e nos trata pelo nome) me viu do outro lado da loja. A vida é muito boa quando alguém a quem servimos meias de leite durante meses se lança na nossa direcção para nos abraçar e encher a cara de beijos.
Hoje fui ao eat ver os meus colegas. Estava sentada com dois deles quando um cliente habitual (que lá vai três vezes por dia, todos os dias e nos trata pelo nome) me viu do outro lado da loja. A vida é muito boa quando alguém a quem servimos meias de leite durante meses se lança na nossa direcção para nos abraçar e encher a cara de beijos.
10 de dezembro de 2012
oração
Que nunca me falte saúde para me erguer,
disciplina para me concentrar
criatividade para desenhar
e força, para continuar.
disciplina para me concentrar
criatividade para desenhar
e força, para continuar.
6 de dezembro de 2012
restarting
Fui a uma entrevista ontem, numa casa de chás. Eu e mais três raparigas, entrevistadas em grupo. Não sei quantas perguntas matreiras depois, senti-me safa e exclui mentalmente duas das minhas "adversárias". Foi muito constrangedor ver outra portuguesa acabadinha de chegar a Londres a não conseguir expressar-se, não perceber o sotaque do rapaz que nos entrevistou, ficar confusa e desesperançada. Foi excluida e eu só queria poder ter-lhe dito uma palavrinha de apoio. A outra era húngara. Lá foi ela de vela. Lost in translation como eu há quase dois anos. Há um ano e dez meses. Felizmente em Londres há emprego para quem mal fala inglês, desde que queira trabalhar e nunca deixe de sorrir. E a estaleca que um emprego desses nos dá, meu deus que estaleca. A meio da entrevista o rapaz disse que se passássemos à fase seguinte teríamos que ir para a banquinha deles no mercado em Camden. E que só seríamos bem sucedidas se fizéssemos 150 libras até ao final do dia. Em chás? pensei eu - 150 libras em pacotes de chás?
Depois de uma breve introdução ao produto lá fui eu para a banquinha vender os 40 diferentes chás que eles vendem em embalagens de 100g por 5.20 libras. Parecia impossível mas fiz mais de 160 libras a fazer-me de entendida em chás e a meter conversa com toda a alma viva que me passou pela frente. Tudo é tão relativo quando nos apercebemos que nada é mais importante do que ser feliz e saudável. Nada me preocupa, nada me chateia, digo a mim mesma. Nada me abala enquanto me sentir tão bem. O frio que faz nesta cidade chegou-me aos joelhos e congelou-mos ao fim de seis horas em pé.
Passado o "stall trial", fui hoje para uma das 3 lojas que eles têm no norte de Londres. Isso sim foi um desafio. Como é que se desce do cargo de "trainer" para principiante? Despi-me de tudo o que sei, fingi que não sofri uma lavagem cerebral em higiene e segurança no trabalho nos últimos vinte meses, tentei não julgar, não discordar e segurei a vontade de corrigir as pessoas que me estavam a treinar, sobretudo uma menina pouco paciente e muito mandona que me orientou durante o dia. Saí de uma empresa com mais de 120 lojas e entrei numa com 3. Tentei concentrar-me em tudo o que era novo e tudo em que eu sou, de facto, uma principiante. Tentei não limpar e desinfectar tudo o que sei que lhes garantiria muito maus resultados numa auditoria.
Entretanto veio-me o período, vim para casa, consumi uma dose incalculável de chocolate, ouvi músicas lamechas e chorei de saudades da minha antiga equipa. Digo a mim mesma por que razão saí do eat, por que me candidatei a um part-time, por que motivos é que eu voo livre de medos. Eu já vivi consumida pelo medo. Parei de conjugar o meu futuro no futuro. Hoje digo a mim própria e aos outros que sou ilustradora e que estou a escrever e ilustrar um livro. Esse é o meu outro part-time. Por enquanto.
Depois de uma breve introdução ao produto lá fui eu para a banquinha vender os 40 diferentes chás que eles vendem em embalagens de 100g por 5.20 libras. Parecia impossível mas fiz mais de 160 libras a fazer-me de entendida em chás e a meter conversa com toda a alma viva que me passou pela frente. Tudo é tão relativo quando nos apercebemos que nada é mais importante do que ser feliz e saudável. Nada me preocupa, nada me chateia, digo a mim mesma. Nada me abala enquanto me sentir tão bem. O frio que faz nesta cidade chegou-me aos joelhos e congelou-mos ao fim de seis horas em pé.
Passado o "stall trial", fui hoje para uma das 3 lojas que eles têm no norte de Londres. Isso sim foi um desafio. Como é que se desce do cargo de "trainer" para principiante? Despi-me de tudo o que sei, fingi que não sofri uma lavagem cerebral em higiene e segurança no trabalho nos últimos vinte meses, tentei não julgar, não discordar e segurei a vontade de corrigir as pessoas que me estavam a treinar, sobretudo uma menina pouco paciente e muito mandona que me orientou durante o dia. Saí de uma empresa com mais de 120 lojas e entrei numa com 3. Tentei concentrar-me em tudo o que era novo e tudo em que eu sou, de facto, uma principiante. Tentei não limpar e desinfectar tudo o que sei que lhes garantiria muito maus resultados numa auditoria.
Entretanto veio-me o período, vim para casa, consumi uma dose incalculável de chocolate, ouvi músicas lamechas e chorei de saudades da minha antiga equipa. Digo a mim mesma por que razão saí do eat, por que me candidatei a um part-time, por que motivos é que eu voo livre de medos. Eu já vivi consumida pelo medo. Parei de conjugar o meu futuro no futuro. Hoje digo a mim própria e aos outros que sou ilustradora e que estou a escrever e ilustrar um livro. Esse é o meu outro part-time. Por enquanto.
30 de novembro de 2012
em cada fim um recomeço
Foi pouco depois de ir à Holanda, talvez tenha sido mesmo lá. Conheci a família do meu holandês e de repente vi-me. Também houve um dia em que fomos ver vacas no meio dum parque e eu conversei com elas. A Holanda redefiniu-me. Penso muitas vezes no faneca como sendo uma metade minha que encontrei. Uma metade que eu não sabia que me faltava. Quando olho para ele e penso no que ele me faz sei perfeitamente porque é que as pessoas fazem juras de amor eterno, se pedem em casamento, casam. Olho para ele e para o que ele causa em mim e entendo tão bem porque é que se escrevem músicas de amor lamechas. E poesia. Não lhe digo estas coisas porque sei que ele vai revirar os olhos e gozar comigo, mas até esse revirar de olhos, esse nunca me levar demasiado a sério faz dele a minha outra metade. Eu acredito que uma relação (qualquer relação) só faz sentido se nos fizer melhores indivíduos do que se estivéssemos sozinhos.
Voltámos e aos poucos fui-me vendo. Veio uma alegria de ser, de ser eu mesma, de não fazer mal a ninguém, de na maioria das vezes fazer bem. Isso passou para o trabalho, para os colegas, para os clientes, para todas as pessoas que amo e para as que não amo também.
Há duas semanas a minha gerente mentiu-me e tentou manipular-me. E aquilo que inicialmente se manifestou como revolta dentro de mim, rapidamente se tornou nítido, tão nítido quanto tudo o resto que ultimamente eu andava a ver e sentir. Ela estava, a empresa estava a empurrar-me para o meu limite. De todas as coisas a que me adaptei, todas as coisas que fiz durate um ano e oito meses no eat que não tinham de todo a ver com aquilo em que acredito, uma nunca deixei que fosse corrompida. Quando ela me empurrou para o limite entre o amor e o medo, eu vi nitidamente o que fazer. Demiti-me.
Foi como se ela me estivesse a empurrar e no precipício se me abrissem umas asas. E para surpresa dela, minha e de todos, eu voei tão livre e tão segura que só isso, e mais nada, fez sentido.
Voltámos e aos poucos fui-me vendo. Veio uma alegria de ser, de ser eu mesma, de não fazer mal a ninguém, de na maioria das vezes fazer bem. Isso passou para o trabalho, para os colegas, para os clientes, para todas as pessoas que amo e para as que não amo também.
Há duas semanas a minha gerente mentiu-me e tentou manipular-me. E aquilo que inicialmente se manifestou como revolta dentro de mim, rapidamente se tornou nítido, tão nítido quanto tudo o resto que ultimamente eu andava a ver e sentir. Ela estava, a empresa estava a empurrar-me para o meu limite. De todas as coisas a que me adaptei, todas as coisas que fiz durate um ano e oito meses no eat que não tinham de todo a ver com aquilo em que acredito, uma nunca deixei que fosse corrompida. Quando ela me empurrou para o limite entre o amor e o medo, eu vi nitidamente o que fazer. Demiti-me.
Foi como se ela me estivesse a empurrar e no precipício se me abrissem umas asas. E para surpresa dela, minha e de todos, eu voei tão livre e tão segura que só isso, e mais nada, fez sentido.
18 de julho de 2012
foi buscar-nos ao aeroporto
Eu estava sem óculos e já era quase meia noite quando chegámos lá fora. Não consegui vê-la no escuro porque faz praia desde Maio e está mulata, só ouvia os gritos e via um vestidinho azul voar na minha direcção. Depois vi o sorriso e depois já a tinha enrolada nos meus braços, eu gigante e ela tão franzina comparada comigo, quando a abraço parece que se esconde na minha caixa torácica e lá fica guardada. De repente deixou de existir o ano inteiro que passamos sem nos abraçar. A minha irmã.
17 de junho de 2012
sonho de um holandês num domingo de manhã
Ele acabadinho de acordar, eu aqui no computador há horas.
"Eu sonhei que estávamos sentados aí à mesa e que ouvíamos movimento na cama. Eu olhava e eras tu. Então pensei, ah, como é que estás aqui comigo e na cama ao mesmo tempo? Estou a sonhar. Ah, se estou a sonhar vou fazer um teste e voar um pouquito. E então eu voava como Jesus, tipo a 20cm do chão. E pensei epá, foda-se, estou a sonhar!"
"Eu sonhei que estávamos sentados aí à mesa e que ouvíamos movimento na cama. Eu olhava e eras tu. Então pensei, ah, como é que estás aqui comigo e na cama ao mesmo tempo? Estou a sonhar. Ah, se estou a sonhar vou fazer um teste e voar um pouquito. E então eu voava como Jesus, tipo a 20cm do chão. E pensei epá, foda-se, estou a sonhar!"
portugal dos pequeninos
Já o disse antes. Quanto mais longe de Portugal, melhor lhe vejo as coisas boas. Podia ter um qualquer trauma relacionado com as últimas experiências que vivi em terras tugas, como a depressão, ou as dificuldades financeiras, ou o facto de ser tão difícil ser artista hoje em dia, renhonhó... e a crise. Mas não.
A verdade é que quando me projecto no futuro, vejo-me em Portugal. Felizmente o holandês também nos projecta lá, e é por isso que eu me vejo ainda mais nitidamente em Lisboa. Nós, um bebé, um cão (weeeeeeeeeeeeee! who cares about children?), um gato. E relva para nos rebolarmos, que eu estou em Londres há mais de um ano e isto dos espaços verdes entranha-se-nos.
No dia em que o meu pai me perguntou (agoniado com a visão da sua filha fugir para Londres sem nada planeado) vais fazer o quê, lavar pratos? eu disse sim, que se for para lavar pratos e servir às mesas, ao menos que seja noutra cidade, noutra rotina, a ver outras coisas. E assim é. Não por mágoa do meu país, simplesmente porque assim precisei que as coisas acontecessem. Londres é um retiro, um processo de amadurecimento. Cada dia que passa gosto mais do T. e às vezes isso surpreende-me a mim própria. De onde vem tanto amor? Estarei eu ainda embriagada, depois de dois anos e meio? Não há ninguém no mundo com quem eu me dê tão bem.
Agora que já descambei para a lamechada (sou uma blogger muito enferrujada), volto ao que me fez escrever hoje. Tantas vezes me referi a Portugal como portugal dos pequeninos. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa que só quando estamos assim longe podemos observar com clareza. Hoje senti uma alegria profunda porque estou a planear as férias e só me apetece esbanjar em Portugal o que amealho a trabalhar aqui, com a intenção sincera de investir na economia do meu país. Comprar só 100% português. Comer gaspacho em Faro com a minha Di. Chegar a Alfama e embebedar-me com sangria, pagar para ouvir cantar o fado, comprar um trapinho na loja da Pipoca ou uns speedos na loja do Jacob e do Bruno (porque há gente que tem tomates para abrir negócio em tempo de crise).
Ontem comecei a escrever e arquivar os meus projectos para quando voltar a Portugal.
A verdade é que quando me projecto no futuro, vejo-me em Portugal. Felizmente o holandês também nos projecta lá, e é por isso que eu me vejo ainda mais nitidamente em Lisboa. Nós, um bebé, um cão (weeeeeeeeeeeeee! who cares about children?), um gato. E relva para nos rebolarmos, que eu estou em Londres há mais de um ano e isto dos espaços verdes entranha-se-nos.
No dia em que o meu pai me perguntou (agoniado com a visão da sua filha fugir para Londres sem nada planeado) vais fazer o quê, lavar pratos? eu disse sim, que se for para lavar pratos e servir às mesas, ao menos que seja noutra cidade, noutra rotina, a ver outras coisas. E assim é. Não por mágoa do meu país, simplesmente porque assim precisei que as coisas acontecessem. Londres é um retiro, um processo de amadurecimento. Cada dia que passa gosto mais do T. e às vezes isso surpreende-me a mim própria. De onde vem tanto amor? Estarei eu ainda embriagada, depois de dois anos e meio? Não há ninguém no mundo com quem eu me dê tão bem.
Agora que já descambei para a lamechada (sou uma blogger muito enferrujada), volto ao que me fez escrever hoje. Tantas vezes me referi a Portugal como portugal dos pequeninos. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa que só quando estamos assim longe podemos observar com clareza. Hoje senti uma alegria profunda porque estou a planear as férias e só me apetece esbanjar em Portugal o que amealho a trabalhar aqui, com a intenção sincera de investir na economia do meu país. Comprar só 100% português. Comer gaspacho em Faro com a minha Di. Chegar a Alfama e embebedar-me com sangria, pagar para ouvir cantar o fado, comprar um trapinho na loja da Pipoca ou uns speedos na loja do Jacob e do Bruno (porque há gente que tem tomates para abrir negócio em tempo de crise).
Ontem comecei a escrever e arquivar os meus projectos para quando voltar a Portugal.
11 de março de 2012
um ano. o tempo voa
Há um ano eu ainda não tinha emprego. Procurava diariamente e respondi a anúncios que somente o desespero justifica, de quando cada euro convertido em libra parece desaparecer, e cada libra desaparece ao fim de uma viagem de autocarro ou um café de merda. Uma libra e meia por um expresso, e não conseguir tomá-lo. Houve momentos em que a minha zona de conforto me parecia estar tão longe, mais propriamente na máquina da Delta que tínhamos na cozinha em Alfama.
Em Março, ao fim de quase dois meses, a terceira entrevista de emprego deu frutos. Comecei a trabalhar no dia 28.
Hoje sou kitchen leader. Há um mês vi pela primeira vez cairem-me mil libras limpas na conta bancária. Londres é a minha casa e a minha vida é vivida de mão dada com o meu melhor amigo e meu amor.
Na loja somos dez pessoas. Conseguimos dar-nos muito bem e apesar de todos os momentos lost in translation, sinto que me conhecem. Sabem muito bem o que significa, e preparam-se para o meu mau humor quando me ouvem um "tenho muita fome" no meio de um turno em que não há tempo sequer para beber água. O trabalho é duro. Fisicamente exigente e desgastante psicologicamente. Neste tipo de empresa só se safa quem tem muito bom humor e resistência. Os "fracos" desistem ao fim de quinze dias, porque há coisas que podem ser vistas como desumanas. Apesar de tudo, gosto do eat. Mas não é lá que me vejo daqui a um ano. Tento absorver tudo o que este emprego me tem proporcionado de bom, e desviar-me agilmente das coisas más que se me dirigem. O desperdício é uma coisa com a qual eu nunca estarei confortável... o desperdício e todos os recantos escuros e muito sujos que o capitalismo esconde.
Começo a sentir, quase um ano depois, que já aprendi tudo o que havia para aprender nesta empresa, e que subir de cargo só me embrenhará mais na teia hierárquica que tão bem a sustenta.
Um ano depois. Já tenho a tão importante experiência de trabalho no Reino Unido que a maioria dos postos de trabalho exige. Sinto-me em casa e sinto-me inquieta porque começo a perguntar-me demasiadas vezes o que se segue. E aqui as possibilidades são tantas.
25 de fevereiro de 2012
todos os dias
O despertador toca às 4h45. Há dias em que acordo pouco antes dele tocar, há dias em que não acredito que já está na hora, desejo desistir de tudo e a única coisa que parece fazer sentido na minha vida é voltar para a cama. Visto-me em frente ao aquecedor.
Saio de casa entre as 5h10 e as 5h13. Se sair mais tarde posso perder o autocarro, o que significa chegar à loja às 6h02. Normalmente chego às 5h43. Mesmo antes de atravessar a passadeira, dou um toque para o telefone da loja. O William está no escritório a pôr dinheiro nas caixas registadoras, vem de lá de baixo com duas ou três gavetas nas mãos, pousa-as no balcão e vem abrir-me a porta. Todos os dias me dá um sorrisinho, apesar do sono.
Ligo a vitrine quente. Sou a responsável pela comida quente na nossa loja. Faço um chá e vou para baixo. Entro na cozinha, ligo a música, ligo o forno a 190 graus, ligo a enorme panela de água quente onde aquecemos a papa de aveia, as sopas, o puré, o arroz, os caldos. Pego em três tabuleiros de levar ao forno. Tiro do congelador os croissants, os croissants de amêndoa, os croissants de chocolate, os folhados de canela, os folhados de nozes. Ponho-os no forno com cerca de dez baguetes. 19 minutos. Vou vestir o uniforme. Volto a vestir o casaco e o cachecol. Entro no frigorífico e rezo para que os sacos de papa de aveia estejam num dos cestos de cima. Todos os dias verifico o que foi entregue durante a madrugada. Pilhas de cestos de comida, pacotes, caixas. Menos de cinco graus no frigorífico. Onde está a papa. Porridge, porridge, porridge. Levanto e transfiro os cestos de um lado para o outro em busca do saco branco e do saco azul. Tudo é frio e húmido e pesado e eu já tenho músculos visíveis nos braços e nos abdominais graças a esta tortura diária. Todos os dias o meu colega que faz os cafés vai lá a baixo buscar leite e dá de caras comigo dentro do frigorífico. Natachinha, diz ele. Muitos me chamam Natachinha porque é assim que eu falo de mim na terceira pessoa.
Encontro a porra da papa e meto-a na ketle. Posso finalmente tirar o casaco e o cachecol. As minhas mãos cheiram a congelados (peixe). Lavo-as pela já segunda vez. Passo o dia a lavar as mãos. Vou ao escritório onde a lista da entrega já está na impressora à minha espera. Os folhados já estão cozidos. Por essa altura já chegou uma quarta pessoa que os leva para cima. O café abre às 6h30. Eu terei de voltar ao frigorífico, mas antes preparo o acompanhamento para a papa. Às 7h a papa tem de estar acima de 80 graus. Faço as porções. Um saco dá para 8 grandes e 8 pequenas. Há um cliente que todos os dias chega às sete para pegar no seu small plain porridge and a small skinny latte. Reutiliza o saco, e não precisa de colher. Gosto dele.
Todos os dias. De segunda a sexta, todos os dias.
12 de fevereiro de 2012
o escaravelho
Lembro-me de nas profundezas da depressão, um dia olhar para um escaravelho que estava a apanhar sol numa das plantas da minha mãe. Os dias de sol e as coisas bonitas são como ácido para quem está na escuridão da doença, porque multiplicam a dor e a culpa de não se conseguir gozá-los. Senti um sincero desejo de ser aquele escaravelho. De simplesmente existir, de não ter consciência e de apenas apanhar sol, numa folha verde. Depois disse à minha mãe "Algo está muito errado no meu mundo, quando sinto inveja dum escaravelho".
Um dia, para o meu próprio e único bem, perguntei-me por que não. E decidi ser escaravelho.
O que é que era tão importante, tão mais importante que o meu próprio bem-estar, a minha própria saúde, a minha própria vida? Tentei recordar-me de como tudo começou, onde é que eu estava a ir mesmo, antes de cair no poço fundo em que me via. Para me libertar e voar dali para fora, despi-me do pesado e pegajoso cobertor do socialmente correcto. Apercebi-me de que nenhum mal vem ao mundo se eu decidir ignorar todos os padrões pelos quais os outros (e eu própria) me medem e julgam. Simplesmente ser. Porque sim.
9 de fevereiro de 2012
ele estava a ver os simpsons
Soltou uma gargalhada. E depois outra. Estava sozinho na sala e eu estava na cozinha. Ainda não vivíamos juntos. Mas foi nesse dia que eu desejei viver com ele para o resto da minha vida.
24 de janeiro de 2012
note to self
Sorrir.
Dar beijos e abraços. Se não há família e melhores amigos por perto, há colegas de trabalho receptivos.
Fazer alguém rir.
Brincar e gargalhar.
Celebrar as mais pequenas coisas.
Tomar um bom pequeno almoço.
Passear e ver coisas.
Ouvir música.
A felicidade pode estar mais perto do que se imagina.
17 de janeiro de 2012
cream tea
Cream tea. Ou "a ignorância emagrece".
Ninguém viveu a sério até comer um scone carregado de natas coalhadas e compota de morango, acompanhado de chá. Eu comi o primeiro aqui, e desde então é ver-me fazê-los em casa e devorá-los às dúzias. Este país está a entranhar-se-me no sangue (as análises di-lo-iam, se acaso as fizesse). Até já prescindo do café, e tomo um chai com leite.
Se não fossem as escadas do trabalho e as trezentas vezes que as subo e desço diariamente, não sei... não sei não.
Acho que já estão cozidos. Adeus.
11 de janeiro de 2012
6 de janeiro de 2012
dia a dia
O despertador toca e eu não sou eu. Às 4h45 acorda uma parte de mim que é pessimista, que quer fazer birra de sono e de frio. Que quer demitir-se e que tem inveja do holandês que ainda vai dormir mais três horas. Às cinco da manhã sou branca como cal. Em 2011 este corpo não viu praia. As olheiras têm cor e relevo. A viagem de autocarro é tão rápida, quando se tem sono. Depois chego ao café vou directa para o frigorífico...
O resto de mim acorda por volta das nove. Todos os dias me sinto grata por trabalhar com pessoas amorosas, e por ninguém se chatear com as minhas palhaçadas. Todos os dias faço um esforço consciente por ser gentil com todas as pessoas com quem me cruzo.
O meu inglês é fraco. É incrível como noutro país, noutra língua, somos outras pessoas. Os meus colegas concordam comigo. Um colombiano, um francês, uma costa-riquenha, uma checa, uma polaca, um italiano, um espanhol. Enrolar os Rs, fazer soar os Hs. Distinguir beach de bitch, sheet de shit. Em Portugal i é i. Expresso-me mais do que nunca por imagens, por gestos, porque as palavras não me vêm à cabeça, muito menos à boca. O meu sotaque é outro, a minha voz, provavelmente também. Pareço ainda mais estúpida. Ainda assim, sinto que as pessoas gostam de mim. Tenho conhecido pessoas maravilhosas. Delicio-me com a disponibilidade que a maioria das pessoas tem para sorrir. Para falar descontraidamente com estranhos, para dizer uma graçola. Hipócritas ou não, dizem muitas muitas vezes desculpe, com licença, por favor, obrigada. Adoram filas. Nunca vi nada assim. O londrino adora uma fila e respeita-a religiosamente, e às suas regras intrínsecas, às variações, às filas duplas, à ordem de chegada. Nesta cidade, quem vê uma fila, mete-se nela (!). Diz a minha amiga Paz que podemos começar uma fila para lado nenhum, a qualquer momento, que com certeza alguém se vai meter nela sem saber para que é.
Há coisas de Portugal que se vêem muito melhor ao longe. Todos deveríamos experimentar sair de casa, de país, de língua. Para depois voltar, ou não. Mas para ver melhor. Para dar o devido valor às coisas.
Sou muito feliz em Londres.
6 de dezembro de 2011
o que eu gosto de mim
7 de junho de 2011
rotina
Eight. To. Oxford Circus.
bethnal green station
barnet grove
brick lane
shoreditch high street station
primrose street (alight here for old spitalfields market)
liverpool street
poultry bank station
bread street
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Um dia vou saber de cor todas as paragens que o meu autocarro faz. O oito. Trabalho há dois meses e meio numa das muitas lojas do Eat. A 113ª, para ser mais precisa. Um negócio milionário ao qual ainda me estou a adaptar. Onde não há tempo para reciclar a maior parte do lixo, onde o desperdício de comida é assustador, e ainda assim compensa. Mas onde a minha boa disposição e energia são valorizadas desde o primeiro dia, o fraco inglês perdoado, a palhaçada e o tom de voz alto incentivados. Não me posso queixar... adoro. Divirto-me todos os dias. Fui convidada a subir de cargo ao fim de um mês e meio, o que me deixou tão chocada quanto orgulhosa. Vou ser trainer, ao que parece.
Os clientes são incrivelmente simpáticos e muito bem educados. Pouco me importa se há cinismo nos constantes yes please, thank you very much, cheers! E como sorriem! Sorriem, riem, chegam a gargalhar. Talvez a maioria dos portugueses nunca se tenha apercebido de como somos sisudos, até se ver atrás de um balcão a encarar clientes. Depois há o sentido de humor britânico que se pode observar apenas de vez em quando, pois a maioria das pessoas nesta cidade é estrangeira. Pode-se apontar muitos defeitos aos londrinos, mas nunca vi pessoas tão tolerantes em relação à imigração. No nosso café apenas um dos dez funcionários é inglês.
Todos os funcionários são treinados para fazer tudo. Sobreviver ao stress, reagir depressa. Expor artigos, preparar iogurtes, breakfast muffins, cozer pão, bolos e tartes, fazer sanduiches, embalar sanduiches, etiquetar sanduiches a uma velocidade desumana. Desinfectar tudo. Varrer, lavar, esfregar. Restock. First in first out. Pôr sopa a fazer, carregar a sopa para a loja, servir sopa. Gritar hot soup! Verificar a temperatura de tudo o que é alimento. Etiquetar embalagens, operar a caixa registadora, tratar cada cliente como se fosse o único, dar trocos em libras. Fazer cafés. Todos os tipos de cafés, e estamos numa terrinha em que quem bebe espresso só pode ser italiano, espanhol, francês ou (obviamente) português. Aqui bebe-se muito leite (gordo). E chá, de manhã até à noite.
Às vezes tenho saudades de pintar. Especialmente quando vou a museus. Mas é muito bom ser bom noutra coisa, tentar outra coisa e ser-se bem sucedido. Arejar os neurónios, não pressionar a criatividade, não depender da criatividade para pagar as contas, não me preocupar (tanto) com as contas. Apanhar o oito, pensar em inglês, chegar a casa e ter dois amores comigo. O loiro e a morena. Uma família disfuncional na ala Este de Londres, entre muitos homens de turbante, mulheres de burca, alguns esquilos, corvos e a raposa que eu vejo todos os dias às cinco e meia da manhã, no parque da biblioteca.
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