19 de junho de 2016

rosácea

Se um dia um dermatologista te disser que o que comes não tem nada a ver com o estado da tua saúde em geral, e da pele em particular, FOGE!

Antes e depois de cortar completamente com o açúcar e óleos refinados. Toneladas de fruta e litradas de sumos de vegetais depois... é ver para crer: a rosácea tem cura. Custa é assumir a responsabilidade pelo que pomos na boca e pela nossa saúde.

Um ano e meio de distância entre as duas fotografias. Tantos avanços e recuos na minha dieta, e tantos confrontos com os meus vícios alimentares e relação emocional com a comida. Deixar o açúcar foi como abandonar um companheiro de longa data. Mas um companheiro que se revelou venenoso.
Olha eu no meu pior. Esta fotografia foi o Luís que me tirou numa altura em que eu já não me permitia fotografar há muito tempo. Lembro-me de pensar horrorizada Ai que isto só pode ser da luz! mas depois olhei para a pele do meu filho. Pois.

Há que tempos ando para escrever isto. Vou deixar aqui toda a informação que não tinha quando a minha cara estava naquele estado ali do lado esquerdo.
Tudo começou quando decidi engravidar e deixei de tomar a pílula. Umas borbulhinhas mínimas, que não reagiam ao creme para acne como borbulhas comuns. Tipo uma ferida que não sara, perto do olho esquerdo. Simplesmente não desapareciam, e não desapareceram. Foram-se multiplicando e espalhando. Desceram para a bochecha como se algo se passeasse pela minha cara e fosse deixando um rasto vermelho. Depois passaram pelo nariz e para a outra bochecha. Entretanto engrevidei e entrei na minha bolha de hormonas e quis lá saber das borbulhas. E elas, pernas para vos quero, começaram a aparecer em força na testa, agora como acne de adolescente. Umas em cima das outras, enormes, pus, vermelhidão, enfim. Depois o queixo. Coisa pouca mas sim, estavam lá também as tais feridinhas que não saravam. Uma médica que vi durante a gravidez disse-me que já tinha visto várias grávidas com a cara assim, mas fosse o que fosse, não podia usar os cremes apropriados durante a gravidez, por isso era deixar estar.

O meu filho nasceu e as minhas borbulhas continuaram a ser só borbulhas até eu  ir à consulta das seis semanas pós-parto. Foi aí que a médica de família deu um nome ao que eu tinha. Rosácea. Prescreveu-me um creme que usei mas não fez absolutamente nada. Mas comecei a pesquisar sobre o assunto. Lembro-me que quando o Diogo tinha seis meses e introduzimos a comida sólida ele ficou com uma prisão de ventre terrível e eu fiquei num estado de nervos que me rebentou a cara toda. Já só não me restava pele limpa na cara. Por esta altura já sentia também comichão e sensibilidade extrema. Comecei a pesquisar sobre o assunto e comprei um creme 100% natural cujo ingrediente activo era tea tree oil. Porque aparentemente - e aqui tive o momento TCHAN TCHAN TCHAN TCHAAAAAN - este óleo essencial é muito eficaz a matar os ácaros que habitam a nossa pele e que são responsáveis pela rosácea.

Ácaros? Mas ninguém me falou de ácaros, car@$%&! Então pus-me à procura e deparei-me com isto e isto, que são imagens das quais nunca mais me esqueci. E foi aí que a minha abordagem mudou. Comecei por perceber como vivem e se reproduzem estes bichos e resumidamente, é isto:
Vivem no folículo do pêlo e alimentam-se da sua gordura. Não têm ânus e acumulam dentro de si tudo o que comem. Quando morrem, entram em decomposição dentro da pele, pelo que ela fica em estado permanente de inflamação. Se quem está a ler isto já se estiver a coçar e preferir não saber mais, é melhor parar por aqui porque a coisa piora muito. Então vá, beijinhos e até breve!

Os ácaros demodex são foto-sensíveis. Saem dos poros à noite e andam vários centímetros por noite. Procuram com quem acasalar e depois voltam ao aconchego do seu lar, que é onde põem os ovos. Também arrastam a sujidade da pele para dentro do poro, o que não ajuda.
Este vídeo é bastante elucidativo e dá um ar de graça a esta nojeira:



É portanto à noite que se quer lavar muito bem a cara e enchê-la de creme com tea tree. Mas no meu caso a perseguição nocturna com creme transformou-se num filme de terror.
A sobrepopulação já era de tal ordem que as "borbulhas " começaram a aparecer noutros sítios. Agora que já sabemos que a origem das borbulhas tinha mesmo vida própria e se deslocava alegremente pela minha cara, não admira que depois de eu pôr creme num sítio, as borbulhas aparecessem noutro, dias depois. Talvez alguns ácaros morressem, mas os sobreviventes simplesmente fugiam e, dentro duns dias morriam e eu tinha borbulhas novas em mares nunca antes navegados. Creme nas bochechas? Borbulhas nas têmporas. Creme nas têmporas? Borbulhas nas orelhas. Creme nas orelhas? Borbulhas atrás das orelhas. Creme atrás das orelhas? Borbulhas na entrada no ouvido.

Borbulhas dentro do nariz.

Borbulhas no pescoço.

Na nuca.

Nos ombros.

Sim.

Uma vez migrados até aos meus ombros, foi uma festa. Até durante o dia se deslocavam debaixo das alças do soutien. A dada altura tinha desenhadas duas alças de borbulhas vermelhas e dolorosas.
Quando depilava o buço e sobrancelhas ficava cheia de borbulhas dois dias depois. Porque seria?...
Um dia atingi o meu limite e enchi a cara de um produto poderoso cheio de tea tree oil. Sem alternativa, os meus amigos fugiram para os folículos das pestanas. Fiquei linda.

Este pesadelo só  acabou quando eu mudei a minha dieta. Já há meses que tinha visto o documentário Heal Yourself, Heal the World e vivia em sofrimento com a ideia de que podia pelo menos experimentar mudar a minha alimentação, mas sentia-me absolutamente incapaz. E a palavra-chave aqui é AÇÚCAR.

Para começar cortei completamente com o café. Não vi diferenças. Eliminei completamente o glúten, perdi peso e deixei de ter gases. A pele? Nada. Cortei com o vinho, com a comida picante... Nada. Tinha a cara assim há dois anos. Descobri um dente podre e saí do dentista 200 libras mais pobre. Somente quando descobri um nódulo tão grande numa mama que fui encaminhada com urgência para as consultas onde se diagnostiam cancros e afins é que o abanão foi forte o suficiente.
Talvez deva referir que já duas vezes tinha tentado cortar com o açúcar e, talvez mais importante ainda seja dizer que eu não comia um docinho de vez em quando. Eu comia muitos, muitos doces todos os dias. E o que aconteceu das duas primeiras vezes que tentei não comer doces foi que, ao terceiro dia, devorei tudo o que havia de doce cá em casa. Aspirei os armários e senti a saciedade de quem passou por uma sede quase fatal e a quem foi dada uma garrafa de água. Somente à terceira vez consegui libertar-me. Atravessei a pior das ressacas enquanto estava em casa com o meu filho e senti um mal-estar que não desejo a ninguém. Palpitações, dores, cansaço, irritabilidade, desespero. Um desconforto permanente em que os minutos parecem horas. Mas a inflamação da pele reduziu significativamente. Valeram-me os doces veganos feitos com tâmaras, cacau e frutos secos.

Em Abril do ano passado (já há três meses sem açúcar) dei o passo seguinte, quando me comprometi a experimentar uma dieta vegana crudívora, durante um mês. O bem-estar, energia e clareza mental que senti fizeram com que esse mês se transformasse em três, e também a minha pele se transformou.
Entretanto descobri este creme, que ajudou bastante, assim como ajudou mudar a fronha da almofada de dois em dois dias, deixar a camisola do pijama no aquecedor durante o dia e lavar os soutiens a altas temperaturas.
Nos meses que se seguiram tive muitos avanços e recuos, tanto em termos alimentares (sem nunca voltar às guloseimas) como no aspecto da pele. Muitas vezes fiquei extremamente confusa e frustrada por não entender o que fazia com que a pele voltasse a ficar inflamada. Somente há uns meses é que se fez luz.

Numa semana de mais stress comi um saco de amendoins salgados, um frasco de gelado de leite de côco, duas tabletes de chocolate preto (adoçado com stevia) e uma caixa de popadoms. Lembro-me de pensar que depois desses deslizes todos seguidos, alguma coisa aconteceria. E aconteceu. Mesmo usando o creme chinês, a pele de toda a cara ficou irritada, vermelha e cheia de comichão. Se já não era óbvio que a gordura desempenha aqui um papel muito importante, essa semana de catástrofes alimentares pôs tudo às claras. Agora até me parece ingénuo que não tenha visto logo que quando deixei de comer nutella às colheradas directamente do frasco, bolos e chocolates, deixei de consumir não só açúcar, mas também óleo. Foi então que fiz a experiência de cortar em absoluto com o azeite e óleo de côco, abacate e, com muito esforço, os meus amados frutos secos e sementes. Zero gordura durante quase uma semana. E quem me dera dizer que a diferença foi pouca, porque eu sofri tanto para deixar o açúcar, e na verdade o que teve um efeito quase instantâneo foi o deixar (também) as gorduras. A minha pele respirou de alívio. A vermelhidão desapareceu e os poros fecharam. Como é que eu não vi isto antes? Porque não queria ver. Estava confortavelmente alapada nos meus vícios e no facto de a rosácea ser considerada incurável. E, já agora, também nunca tinha ouvido falar da relação entre a cândida (aquele fungozinho da candidíase) e os problemas de pele. Oh mundo novo que se me surgiu! Aqui fica uma breve explicação:



Há pouco mais de um mês deu-se outro acontecimento: comprámos uma centrifugadora e eu inaugurei-a em grande com dois dias de sumos de vegetais e alguns batidos de fruta. Atenção que eu já bebia sumo verde há mais de um ano. Agora estamos a falar de litros de sumo de cenoura, aipo, beterraba, pepino, alface romana, coentros, etc.
Seguiram-se outros três dias a sumos mas também saladas e fruta inteira. Só posso dizer que é preciso experimentar para entender o que nos acontece a nível físico, mental e emocional quando nos metemos numa coisa destas. Desta vez a minha cara ficou completamente limpa e uniforme. Mas assim que reintroduzi o abacate e frutos secos, o nariz voltou a ficar ligeiramente vermelho e passados uns dias, apareceu a primeira ferida, o que obviamente indica que ainda não estou completamente recuperada. É preciso uma enorme motivação para seguir um plano destes. É preciso encontrar outras formas de prazer, de relaxamento, de conforto. E eu neste momento estou prestes a regressar a Portugal, com toda a antecipação que isso implica, mais o desafio de criar um menino de dois anos e meio e todos os comportamentos típicos da idade.

Sinto-me a fazer um percurso em que muitas vezes dou dois passos em frente e um atrás. Há tanta, mas tanta coisa que ainda preciso de observar e mudar. Mas o que isto tudo me tem mostrado é que o que temos como garantido pela medicina tradicional pode, e deve, ser questionado. O nosso corpo tem uma capacidade extraordinária de se regenerar e curar de dentro para fora.

Em defesa dos gordos e preguiçosos, deixo aqui um vídeo muito interessante sobre o consumo de açúcar e o conceito de vício.



E já agora esta entrevista muito interessante com a Fully Raw Kristina, muito famosa na comunidade vegan crudívora, em que ela conta a sua história.



Para quem ficar curioso em relação a este estilo de vida, recomendo vivamente as minhas duas gurus:

A Natacha do Pura Vida

e

a Zlati do Vida em Estado Cru

22 de fevereiro de 2016

sua cabra

Parece que foi noutra vida mas foi só há dez anos. Eu ia à Haagen-Dazs do Norte Shopping e almoçava meio litro de gelado. Dizia que era a morte ideal. Entrar lá e comer directamente da vitrine, até cair para o lado. O melhor alimento do mundo: gelado. Qualquer gelado.

Amanhã faz duas semanas que o meu filho mamou pela última vez. Nem eu sabia que aquela seria a última vez. Mas decidi dizer-lhe, na vez seguinte que me pediu "mai titá" que a titá tinha dói-dói e estava a dormir. Não lhe menti. Na verdade eu estava particularmente cansada e nesse dia tinha os mamilos doridos. Amamentar pode não ser um mar de rosas mas ao fim de quase dois anos e meio parece que somos um. Eu, o meu filho e as minhas mamas somos um e entendemo-nos tão bem. Com esta idade ele já percebe e aceita que eu não queira dar-lhe de mamar porque estamos no autocarro, ou porque bebi um copo de vinho, ou porque simplesmente não me apetece. Assim como é possível ele próprio se colocar em posição no meu colo, levantar-me a camisola, "servir-se", depois dizer que quer a outra, mudar de posição e enroscar-se mais um bocadinho em mim. E ali ficamos. Ele é a personificação do conforto, como diz a Mayim Bialik nesta entrevista. Eu, muitas vezes, sou a personificação do cansaço. Não só por amamentar há dois anos e meio, mas também.

A verdade é que nada mudou para melhor desde há duas semanas. A única diferença é que o meu bebé continua a pedir "mai titá" e eu continuo a dizer que ela está a dormir. "Tem dói-dói?" - pergunta-me. Digo-lhe que não, já está boa, mas está a dormir. Então pede-me colo e abraços de dez em dez minutos, para se consolar.  Come muito mais do que comia há duas semanas. Bebe litros de batidos e sumos de vegetais e água. Pede "mai titá" mais uma vez e eu sinto uma enorme vontade de lhe dar de mamar. Deixá-lo voltar ao seu ritual, ao colinho em que encaixava sem esforço e de olhos fechados, à minha pele e calor, à vacina diária. Tudo aquilo que nunca lhe faltou desde que nasceu. A única realidade que conhecia e que não sabia, até há duas semanas, que acabaria. Eu sempre soube mas ele não fazia ideia. Tirei-lhe a titá, para meu bem. Ele aceitou a justificação e repetiu, sem birras ou desespero, "tem dói-dói". E como sempre, mais nobre que eu, o meu filhinho respeita a minha decisão e atira-se, confiante mas muito carente, para o desconhecido. Um mundo onde ele pede titá e ela não vem. O desmame foi gradual mas o corte foi radical porque me parece desumano abrir uma excepção hoje e amanhã não. Decidir sozinha algo que também é tão dele, confundi-lo, torturá-lo com a expectativa.

Quanto ao meu corpo cansado, ao fim de duas semanas verifico a medo se ainda tem leite. Claro que tem. O meu corpo extraordinário não respirou de alívio e fechou a fábrica. Pelo contrário, parece estar tão confuso quanto o Diogo e parece manter a esperança de reaver o seu bebé, de o nutrir, de voltar a fazer o que fez ao longo de tanto tempo que parece já não saber fazer outra coisa.
Parece que precisamos os três de mais tempo para nos adaptarmos à nova realidade.

Poucas pessoas compreenderão o que sinto. Sofrer com o desmame dum menino já grande. O que tenho atravessado desde que decidi engravidar é outra dimensão. É viver e experienciar a Natureza da forma mais básica e elementar, em cada célula do meu corpo. É vê-lo expandir-se e sentir-me ramificar em todas as direcções e, quando me permito pensar menos e sentir mais, é ser bicho. Ser tão bicho como outro bicho qualquer.

O canal de televisão para bebés que deixo o meu filho ver mostra muitas vezes vacas e cabras a serem ordenhadas. Tal como eu via na Rua Sésamo. "De onde vem o leite?" - perguntam, ao que o coro de vozinhas inocentes responde "das vaaaaaaaaaaacas". Hoje vi uma cabra ser ordenhada e quando olhei para o conteúdo do balde de metal embrulhou-se-me o estômago. Só me ocorria Onde está o bebé? Onde está o bebé? Aquele leite é para um filho que foi tirado à sua mãe. E na ausência do filho, aquele leite é dela. Feito do corpo dela, do corpo confuso daquela mãe que o Mr. Bloom ordenha.
O meu sogro ridiculariza o meu recém-horror ao leite. Passei-me de vez. Ter pena das vacas. Do sofrimento das vacas. Ter pena das cabras, daquela cabra que vi hoje no Cbeebies. Consigo ver-me da perspectiva dele porque há dez anos eu sonhava em me afogar num mar de gelado. Mas dez anos depois vejo-me da perspectiva oposta, por mais ridículo que pareça: da pele duma mamífera. E hoje, quase duas semanas depois, a ver o Cbeebies, vejo-me na pele daquela cabra.


27 de janeiro de 2016

perdoa-me, Dioguinho


Quantas cartas de amor já te escrevi mentalmente e quase nenhuma foi materializada. Não sei bem que tipo de mãe sou eu, que não fiz um album catita a relatar os marcos importantes da tua vida desde que nasceste, mas há com toda a certeza mães mais compostinhas.

Há dias os vizinhos de baixo desataram aos murros no tecto (quem é que chega com o punho ao tecto? O nosso vizinho que mede mais de dois metros) porque já não aguentam mais ouvir as tuas correrias. Várias vezes. Eu senti-me como se os murros tivessem acertado em cheio no meu estômago. Primeiro pela incredulidade, depois pelo choque de alguém decidir que essa é a forma mais eficaz de se dirigir a nós, mas sobretudo pela incompreensão e solidão que senti. Dez minutos depois cruzaram-se connosco na entrada do prédio e enquanto se preparavam para fugir sem nos cumprimentarem, eu e o teu pai demos-lhes uma lição de cidadania e boa educação.

Tive de lhes dizer que tu não páras. Tu não andas - corres. Sempre. Não sossegas e já tentámos tudo e é assim que tu és. Eles têm a infelicidade de viver debaixo desses teus pezinhos que parecem martelos nos nosso chão de madeira e tábuas soltas com mais de 100 anos. Pode parecer que não, quando o prédio todo abana com os teus passos, mas nós tentamos e esforçamo-nos constantemente para que faças pouco barulho. Acontece que tu tens dois anos e uma energia inesgotável. Há crianças que se sentam e brincam sossegadas. Tu não.
Quando a vizinha abriu a boca pela segunda vez para dizer a palavra "consistency" no que se referia à tua educação eu entrei em modo "surdez selectiva". Também eu já fui uma mulher sem filhos que via a super nanny e achava que a educação dum filho estava no papo. Firmeza e pronto. Disse sobretudo que também nós estamos exaustos, também nós queremos dormir e que lamentamos muito por eles também não conseguirem, mas que tu, de nós os cinco, és o único que não sabe ainda expressar-se de forma sofisticada, e que o que temos de fazer é procurar soluções realistas, juntos.

O que eu não disse aos vizinhos, além de que na minha terrinha são uns filhos da puta cobardes e malcriados, é que eles nem sabem nem sonham que todas as nossas certezas caem por terra quando nos nasce um filho. E primeiro achei que desejar que um dia tivessem um filho como tu (para engolirem a seco todos os julgamentos que fizeram) era uma espécie de praga - e isso é feio - mas não. Ter um filho como tu é um desafio maior do que alguma vez imaginámos, mas por incrível que pareça, no meio do cansaço e frustração, eu e o teu pai descobrimos e maravilhamo-nos coisas que nunca imaginámos, sempre. Ter um filho como tu é uma dádiva. Por isso sim, se um dia os nossos vizinhos decidirem ter um bebé, desejo que aprendam, para começar, a ser humildes, e que depois se encham de amor e paciência de sobra. E aí sim, possam ver que assim como não se pode impedir um recém nascido de chorar, não se pode impedir um menino de dois anos de correr. Não se pode forçar um menino como tu a estar sossegado quando bem nos convém, da mesma maneira que não se pode convencer um menino sossegado a começar a correr às seis e meia da manhã e parar às oito horas da noite. Que é o que tu fazes, com um intervalo de uma hora para sesta tua e recomposição minha.

Também não disse aos vizinhos nenhum daqueles clichés que todos ouvimos mas só fazem sentido depois de se ter um filho. Um deles é que aprendemos muito mais do que ensinamos. Nesse dia, depois da conversa acesa com eles no hall de entrada, tu foste dormir a sesta muito mais tarde do que era suposto. Estavas tão cansado e ansioso com o estado em que eu fiquei, que não conseguias adormecer. E eu só queria que dormisses. Fomos pela rua fora comigo a torcer para que adormecesses no carrinho antes de chegarmos ao café, mas não. Tentei manter-me calma e paciente mas não consegui ficar a dar-te mais beijinhos nas mãos quando me pediste que continuasse, e quando deste um grito de frustração e exaustão, eu dei-te um grito também e deitei-te à bruta, e fiz-te chorar ali no café, e foi o teu pai que teve de te pôr a dormir. Quando acordaste, ainda mal tinhas aberto os olhos, eu aproximei a minha cara da tua para te dizer que te queria pedir desculpas, e antes sequer de o fazer, tu já me estavas a dar um beijo. E quando te perguntei, para confirmar, se me perdoavas, respondeste depressa e baixinho: ja.

Obrigada, meu filhinho. E perdoa-me, por favor, por eu não conseguir ser tão nobre como tu. Perdoa os meus gritos e impaciência. Nunca tenho a certeza se te digo mais vezes que te amo e como és maravilhoso do que as vezes que ralho. Sei que provavelmente os nossos vizinhos vão ter um filho mais calmo que tu e vão continuar cheios de razão e verdades absolutas. Mas vão perder a oportunidade de ver o mundo e se ver a si próprios duma perspectiva que tem tanto de assustadora como de encantadora. Vão viver sem saber o que é ouvir para além do barulho irritante das correrias, amar para além da raiva, sorrir para além das lágrimas. Azar o deles, meu amor querido. E sorte a nossa.

23 de setembro de 2015

Agradecer: dia 23

Super Papa de folga = um dia mais doce.

Anunciar a um menino de dois anos que vai andar de comboio e ver o que é ser feliz no caminho todo até à estação.

Mafalda + Dinis = Amor

Rir às gargalhadas com os postais numa papelaria e achar que não vou sobreviver sem o humor britânico, no dia em que nos formos embora. Comprar três.

Fazer um bolo quase vegan (não fosse a margarina) para a Emma. Amanhã levo-lho, com um dos postais.

O desodorizante caseiro funciona!

22 de setembro de 2015

Agradecer: dia 22

Falámos com a minha mãe no skype.

A chuva parou e fomos sair. No parque apareceu uma nuvem preta e recomeçou a chover e, mais uma vez, quando eu estou aflita a tentar pôr a capa de plástico no carrinho e salvar as compras o mais depressa possível, o meu filho ensina-me que chuva também é água, com aquele sorriso de orelha a orelha e a cara molhada.

Fiz este desodorizante e amanhã começo a usá-lo.

em defesa dos não-veganos

Entrei para pedir um café e me sentar na esplanada enquanto o filhote dormia. No balcão havia amostras de brownies, aos pedacinhos, e eu pus uma na boca imediatamente. Só depois de engolir me passou pela cabeça que aquilo não teria só açúcar, que era o ingrediente terrível que eu me estaria a permitir ao fim de meses de restrição. Manteiga, ovos, tudo o que também não como há meses, mais por amor aos bichos que a mim própria, também ali estavam e isso nem me passou pela cabeça. Porque um brownie é um brownie. É chocolate. Um brownie indefeso em pedacinhos ali em cima do balcão, de graça, não pode esconder o rasto de sangue dos milhões de animais que morrem diariamente às nossas mãos e bocas. Ou pode?

Nesse momento arrependi-me um bocadinho dos anos em que fui uma vegetariana zangada, cheia de pedras na mão, cheia de razão. Mas a maioria das vezes em que compreendo o que os não-veg(etari)anos-que-também-gostam-de-animais passam não tem a ver com comida. Tem a ver com sentir. Aliás, com não sentir.

Se ando pela internet e vejo fotos de Lisboa faz-se-me um nó no estômago. Basta-me ver casas de cores pastel. Ou uma ruela com portas tipo Alfama. Saio da página, minimizo, faço o que for preciso para não ver. Não sentir. As saudades que sinto de Portugal são indizíveis. E se eu mas permitisse sentir, viveria a chorar e a inventar outras razões para voltarmos o mais depressa possível. Não me permito. Recalco-as para as profundezas da minha alma, onde o coração não sente. Ocupam, comprimidas, o espaço dum grão de areia, no meu cérebro caótico. Volta e meia uma lembrança faz-me tropeçar nelas, e é como se abrisse um armário gigante onde enfiei à bruta todo o meu amor pelo meu país, pela Lisboa que me adoptou, pela minha Alfama. Resvala tudo para cima de mim. Agora o nó é na garganta.
Fascinam-me estas coisas da mente humana. Estas coisas que descrevo por imagens porque sou pintora e que me inquietam porque já fui uma doente mental. Como é que a nossa mente é tão incrivelmente capaz de apagar o que nos causa desconforto? É aqui que quero chegar. Da mesma maneira que também eu já vi num bife apenas um bife, e não uma vaca (alguma vez eu comeria um dos meus animais favoritos?!), da mesma maneira que comi aquele pedacinho de brownie e não os ovos e manteiga, dessa mesma maneira que o que era comida e não podia ser outra coisa, hoje, as saudades são só uma palavra. Não as penso e não as quero sentir. Dessa mesma maneira que não quis sentir durante anos que os ovos e os lacticínios são tão maus ou piores que a carne e peixe. Recalquei e comprimi para aquele mesmo cantinho escuro do meu cérebro a visão daqueles animais e a informação, os factos, os vídeos disponíveis que rebentam pelas costuras da internet e que estão à distância de um só clique, para que qualquer pessoa que se quiser permitir ver, se permita também sentir.

Sempre que me passa pelos olhos uma imagem de Lisboa, toda céu azul e luz, lembro-me dos dias em que comia gelados e gelados eram só isso mesmo. Até que em vez de pensar duas vezes, senti.

olha como chove, Dioguinho

E chove, caralho, como chove! - é o que penso.

Há dias fiz uma sessão de yoga puxadinha. De que me vale a flexibilidade herdada da dança e ser pseudo-espiritual, se durante aqueles trinta minutos não consegui respirar direito uma vez e o único mantra que consegui repetir foi foooooda-se?

A minhota que há em mim não morre, nem sequer adormece, quase cinco anos depois de pôr os pés em Londres.
Não, os meus pais nunca falaram assim lá em casa. Acho que os palavrões vêm nos genes. E assim sendo, temo por meu rico filho, porque se há palavrões e insultos feios, são os holandeses.

21 de setembro de 2015

Agradecer: dia 21

Sumo verde em jejum.

Todos os dias escovo a pele a seco e orgulho-me de manter esse hábito.

Fiz a depilação. Hidratei a pele dos braços com óleo de côco. Senti-me muito gaja.

Conseguimos manter o bom humor, eu e a cria, apesar da chuva que nos manteve em casa até às seis da tarde.

Começou a chover e o Diogo adorou. Aliás, o Diogo adora tudo: chuva, sol, vento. Tento aprender com ele.


Agradecer: dia 20

O meu filho cresce a cada minuto que passa.

Fazer planos com o meu amor.

Falar com a família no skype.

Terminar o dia a ouvir uma mensagem de voz vinda do outro lado do mundo, em que a Paz nos diz que vêm cá em Novembro.

19 de setembro de 2015

Agradecer: dia 19

Mercadinho do costume. Kale e swiss chard para o sumo verde.

Cria adormecida no carrinho = progenitora a esplanar e desenhar = ideias frescas.

Passear com os meus dois amores no parque e no bairro. Rir-me deles.

Sushi cru sushi cru sushi cruuuuuuuuuuuuu!

Agradecer: dia 18

Ir à estação a pé com o Diogo. Pára para cumprimentar um menino, dança para ele, faz rir um senhor que os vê mais à frente. Dança para o senhor. Diz olá a mais pessoas, feliz da vida porque sabe que vai ver comboios.

Que bom é ir ilustrando mentalmente o novo livro.

Ir para a cama cedo.

17 de setembro de 2015

Agradecer: dia 17

Almoçar com o meu amor.

Desenhar durante a sesta do filhote. sentada numa esplanada com o sol possível, a beber o melhor cappucino da minha vida. Foi tão bom ter aquele momento a sós com a minha criatividade, mais o café (que nos dias que correm já não é um hábito ou necessidade diários, mas sim um prazer que me permito de vez em quando, o que lhe dá todo um novo sabor), mais o solinho. As ideias florescem a uma velocidade alucinante. É dar-lhes espaço e atenção, e ramificam-se. Ganhm vida própria.

Sentir dores por todo o corpo, que me lembram que este mesmo corpo tem 33 anos e meia hora de yoga é suficiente para despertar partes dele de que já não me lembrava.

Pensar cada vez mais no meu livro novo.

Agradecer: dia 16

Fiz yoga!

Falámos no skype com a minha mãe, a Bibinha, a Lu e a Gabi. Ver a adoração que o Diogo tem por elas.

Sumo verde do meu coração.

15 de setembro de 2015

Agradecer: dia 15

Beber spirulina e já não ter vómitos.

Rir-me muito com as danças que o meu filho faz quando está feliz.

Encontrar um site em que é facílimo escolher calçado vegetariano. Comprar umas botas.

14 de setembro de 2015

Agradecer: dia 14

Não ler ou ver notícias traz mais vantagens que desvantagens.

Fiz um mini donativo para a iniciativa da Pipoca.

Bebi sumo verde em jejum. Parei para olhar para uma folha de yellow chard e achá-la digna de uma fotografia, antes de a cortar. Susurrei-lhe um obrigada.

O Faneca meteu meia folga para irmos ao hospital com o Diogo, à consulta do bracinho. Fomos atendidos imediatamente, tudo bem com o bracinho, Papa só para nós para o resto do dia.

Fiz sushi cru e cada vez mais acho que sou das melhores cozinheiras que este planeta já viu.

Sumo de vegetais ao final da tarde, desta vez com beterraba e kale, que o transformaram em sumo tinto. Ouvi o meu bebé repetir "hummnham-mai!" várias vezes.

Penso no meu próximo livro.

Agradecer: dia 13

Ver o Diogo a falar com a minha mãe e a minha avó no skype.

Namorar.

Acabar de cortar o meu cabelo. Tinha começado há mais de um mês.

Quando já só tinha intenção de vegetar em frente à televisão, ri-me até ir às lágrimas com um "Come Dine With Me" com jogadores de rugby famosos.

13 de setembro de 2015

Agradecer: dia 12

Um Sábado em que o Faneca não trabalha é sempre um Sábado melhor.

Desenhei um bocadinho.

Sol no parque. Babyfaneca descalço.

Descobrir uma esplanada nova, linda. Almoçar com o meu amor enquanto a cria dorme. Pedir para trocarem o feta da salada por hummus e ouvir um sim.

Vegetais do farmers' market. Pepino com casca.

Receber uma prenda da Marta.

11 de setembro de 2015

Agradecer: dia 11

Grata pelos dias que começam maus mas acabam bons.

Sol.

A minha melhor amiga ainda me conta segredos.

Sentir a alegria dos outros como minha.

Encontrar-me com a Mafalda e o Dinis e não ver o tempo passar.

Todas as coisas novas que o Diogo diz e me fazem sorrir. Há uns tempos ouviu-me dizer foda-se e repetiu muito bem. Felizmente o choque impediu-me de repetir a proeza por tempo suficiente para que ele esquecesse o sucedido. E a palavra.


Agradecer: dia 10

Sol, sol, sol. Sol quente que nos obrigou a tirar os casacos quando estávamos a ver comboios.

Ver o Diogo a brincar com outros meninos (ao sol) na areia. Aprender com as crianças e com a forma como são firmes mas gentis.

Bananas bananas bananas. 20 bananas maduras por uma libra.


9 de setembro de 2015

Agradecer: dia 9

Finalmente estou em dia com os posts de gratidão.
Hoje almoçámos com o Faneca. O Dioguinho viu a sua amada Lili, a funcionária portuguesa do café do costume. Passa o almoço todinho a chamar por ela.

No regresso a minha cria adormeceu. Quando chegámos ao nosso bairro estava sol e sentei-me numa esplanada onde tomei o melhor single-shot-soya-cappuccino de todos os tempos.

Chegada a casa ainda tive tempo de fazer uma sobremesinha , comê-la e sentar-me a desenhar para o próximo livro.

No parque infantil estava um casal amoroso a brincar com a filha de cerca de 3 anos. Nenhum deles tinha um smartphone na mão. Estavam inteiramente com ela e com os dois peluches cor de rosa que ela carregava para todo o lado e que atirava escorrega abaixo, antes de se lançar também, ao som das celebrações dos pais.

Apanhei urtigas e pu-las no sumo verde. Baby Faneca bebeu imenso.

Germinei trigo e sementes de abóbora e girassol. Pu-las numa caminha de terra e aguardo que cresçam.