19 de setembro de 2015

Agradecer: dia 18

Ir à estação a pé com o Diogo. Pára para cumprimentar um menino, dança para ele, faz rir um senhor que os vê mais à frente. Dança para o senhor. Diz olá a mais pessoas, feliz da vida porque sabe que vai ver comboios.

Que bom é ir ilustrando mentalmente o novo livro.

Ir para a cama cedo.

17 de setembro de 2015

Agradecer: dia 17

Almoçar com o meu amor.

Desenhar durante a sesta do filhote. sentada numa esplanada com o sol possível, a beber o melhor cappucino da minha vida. Foi tão bom ter aquele momento a sós com a minha criatividade, mais o café (que nos dias que correm já não é um hábito ou necessidade diários, mas sim um prazer que me permito de vez em quando, o que lhe dá todo um novo sabor), mais o solinho. As ideias florescem a uma velocidade alucinante. É dar-lhes espaço e atenção, e ramificam-se. Ganhm vida própria.

Sentir dores por todo o corpo, que me lembram que este mesmo corpo tem 33 anos e meia hora de yoga é suficiente para despertar partes dele de que já não me lembrava.

Pensar cada vez mais no meu livro novo.

Agradecer: dia 16

Fiz yoga!

Falámos no skype com a minha mãe, a Bibinha, a Lu e a Gabi. Ver a adoração que o Diogo tem por elas.

Sumo verde do meu coração.

15 de setembro de 2015

Agradecer: dia 15

Beber spirulina e já não ter vómitos.

Rir-me muito com as danças que o meu filho faz quando está feliz.

Encontrar um site em que é facílimo escolher calçado vegetariano. Comprar umas botas.

14 de setembro de 2015

Agradecer: dia 14

Não ler ou ver notícias traz mais vantagens que desvantagens.

Fiz um mini donativo para a iniciativa da Pipoca.

Bebi sumo verde em jejum. Parei para olhar para uma folha de yellow chard e achá-la digna de uma fotografia, antes de a cortar. Susurrei-lhe um obrigada.

O Faneca meteu meia folga para irmos ao hospital com o Diogo, à consulta do bracinho. Fomos atendidos imediatamente, tudo bem com o bracinho, Papa só para nós para o resto do dia.

Fiz sushi cru e cada vez mais acho que sou das melhores cozinheiras que este planeta já viu.

Sumo de vegetais ao final da tarde, desta vez com beterraba e kale, que o transformaram em sumo tinto. Ouvi o meu bebé repetir "hummnham-mai!" várias vezes.

Penso no meu próximo livro.

Agradecer: dia 13

Ver o Diogo a falar com a minha mãe e a minha avó no skype.

Namorar.

Acabar de cortar o meu cabelo. Tinha começado há mais de um mês.

Quando já só tinha intenção de vegetar em frente à televisão, ri-me até ir às lágrimas com um "Come Dine With Me" com jogadores de rugby famosos.

13 de setembro de 2015

Agradecer: dia 12

Um Sábado em que o Faneca não trabalha é sempre um Sábado melhor.

Desenhei um bocadinho.

Sol no parque. Babyfaneca descalço.

Descobrir uma esplanada nova, linda. Almoçar com o meu amor enquanto a cria dorme. Pedir para trocarem o feta da salada por hummus e ouvir um sim.

Vegetais do farmers' market. Pepino com casca.

Receber uma prenda da Marta.

11 de setembro de 2015

Agradecer: dia 11

Grata pelos dias que começam maus mas acabam bons.

Sol.

A minha melhor amiga ainda me conta segredos.

Sentir a alegria dos outros como minha.

Encontrar-me com a Mafalda e o Dinis e não ver o tempo passar.

Todas as coisas novas que o Diogo diz e me fazem sorrir. Há uns tempos ouviu-me dizer foda-se e repetiu muito bem. Felizmente o choque impediu-me de repetir a proeza por tempo suficiente para que ele esquecesse o sucedido. E a palavra.


Agradecer: dia 10

Sol, sol, sol. Sol quente que nos obrigou a tirar os casacos quando estávamos a ver comboios.

Ver o Diogo a brincar com outros meninos (ao sol) na areia. Aprender com as crianças e com a forma como são firmes mas gentis.

Bananas bananas bananas. 20 bananas maduras por uma libra.


9 de setembro de 2015

Agradecer: dia 9

Finalmente estou em dia com os posts de gratidão.
Hoje almoçámos com o Faneca. O Dioguinho viu a sua amada Lili, a funcionária portuguesa do café do costume. Passa o almoço todinho a chamar por ela.

No regresso a minha cria adormeceu. Quando chegámos ao nosso bairro estava sol e sentei-me numa esplanada onde tomei o melhor single-shot-soya-cappuccino de todos os tempos.

Chegada a casa ainda tive tempo de fazer uma sobremesinha , comê-la e sentar-me a desenhar para o próximo livro.

No parque infantil estava um casal amoroso a brincar com a filha de cerca de 3 anos. Nenhum deles tinha um smartphone na mão. Estavam inteiramente com ela e com os dois peluches cor de rosa que ela carregava para todo o lado e que atirava escorrega abaixo, antes de se lançar também, ao som das celebrações dos pais.

Apanhei urtigas e pu-las no sumo verde. Baby Faneca bebeu imenso.

Germinei trigo e sementes de abóbora e girassol. Pu-las numa caminha de terra e aguardo que cresçam.

8 de setembro de 2015

Agradecer: dia 8

Fui com o baby Faneca a uma sessão de música e brincadeira no centro comunitário da nossa freguesia. Descobri que afinal o meu filho não é um selvagem. No máximo é silvestre.
À saída descobri o que eles chamam de "swap shop". Prateleiras e mais prateleiras de roupa e calçado de criança. É só pegar e trazer. E deixar lá algo, se quisermos. Adorei, adorei, adorei.

Aceitei que é Outono e isso trouxe-me uma paz profunda, quando me vi no parque infantil quase vazio, o Diogo de casaco de inverno e mãos geladas, mas ainda assim muito feliz e ocupado a brincar com a areia.
Aceitei que o aquecimento central de cá de casa já se ligou quatro vezes e agradeço por ter uma casa que está sempre quentinha.

Como não agradecer por, todos os dias em que vou comprar fruta, vir de lá carregada com as bananas super maduras que ninguém quer, de borla, ou por uma libra?

Agradecer: dia 7

Fui ao hospital tirar sangue. Avisaram-me que teria de esperar mais de uma hora, então fomos para o parque que há mesmo ali ao lado, onde o Diogo encontrou uma "paddling pool". O sol esteve solidário e permitiu que o meu filho chapinhasse à vontade, sem calças e descalço, enquanto o resto da roupa secava no chão.

O meu filho parece um comediante, na forma como ouve e imita na perfeição o que as crianças inglesas dizem. Ri-me para dentro com a imitação duma menina a chorar, e para fora com um "mummy mummy mummy".

Todas as pessoas com quem me cruzei no hospital foram simpáticas.

Agradecer: dia 6

Um dia de Verão! Começou com 8 graus, mas aqueceu e fomos esplanar.
Lugar na esplanada favorita. Bebé adormeceu no carrinho e os pais puderam morenar (o pai grelhou) e almoçar ao sol.
Fomos ao parque e rimo-nos com o Diogo a tentar levantar a camisola de outro menino para lhe ver a barriga e costas. Os pais do menino também se riram.

Agradecer: dia 5

Fomos ao mercado comprar vegetais orgânicos para o sumo verde. Tudo merece gratidão nesta simples frase. Termos um "farmers' market" aqui no bairro todos os sábados, podermos comprar folhas verdes escurinhas, o meu filhote adorar sumo verde e bebermos uma litrada quase todos os dias.
No regresso passámos no Jared e ele deu uma banana e uma nectarina ao Diogo.

A Anna, a nossa funcionária favorita do café favorito, ficou nossa amiga. Derrete-se com o babyfaneca e ele tem uma adoração por ela ainda maior que pelo Jared.
A Anna enviou-nos uma mensagem meiguinha e doce, como sempre, a despedir-se antes de ir de férias.

Falei com a miPrimi ao telefone e agendámos uma sessão de skype.


7 de setembro de 2015

Agradecer: dia 4

Fui à Dra. Payne pedir análises. Maravilhosa como sempre. Elogiou-me por ainda amamentar o meu bezerro, disse que eu estava com óptimo aspecto, ouviu horrorizada e sem me despachar a história da rosácea e os ácaros e ainda ouviu sem cair da cadeira que eu me tenha tornado crudívora, mesmo havendo dias em que como 10 bananas. Haverá médico tradicional que consiga aceitar isto? Sim! A maravilhosa Dra. Payne.

Continuar por email as conversas que tinha com Ana no facebook.

Ouvir a voz da Di.

Ao passear com o Dioguinho no parque, neste Outono que se faz sentir, o sol aparecer glorioso vindo de trás das nuvens pretas, por uns segundos.

5 de setembro de 2015

Agradecer: dia 3

Faz dois anos que o Diogo nasceu. O dia mais feliz da minha vida. Recebemos telefonemas, mensagens, emails, postais, pacotes. Sentir que não estamos sozinhos nesta ilha em que é Outono.
O Faneca esteve de folga para passarmos o dia a fazer as coisas favoritas do Dioguinho:
1. Ir à estação e ficar na plataforma a ver comboios passar até se fartar.
2. Ir ao parque, calçar as galochas e voltar com lama até aos olhos.
3. Ir ao supermercado e ser empurrado pelo pai no carrinho a alta velocidade pelos corredores fora (enquanto eu sou a única dos três que se comporta civilizadamente a comprar vegetais e fruta). Um dia o segurança vem falar com eles. Nesse dia eu enterro-me no meio dos bróculos.
4. Encontrar no supermercado a prenda ideal: um conjunto de duas tendas com um túnel a uni-las do filme Frozen, que nunca viu mas cujo video e música "let it go" ele adora e sabe de cor e salteado.
5. Ir ao bairro ver os amigos das lojas do costume. Enchem-no de mimo.
6. Falar numa cabine telefónica com o pai. O Faneca liga para a cabine e o Diogo atende.
7. Ver o Jared (o rapaz da fruta), receber uma banana de prenda, colinho para tirar uma fotografia com o amigo e despedir-se com um beijinho.
8. Cantar os parabéns com bolinho gelado de fruta, decorado com bagas goji.
9. Vestir a bata e comer o bolinho sozinho.
10. Falar no skype com a família.

4 de setembro de 2015

Agradecer: dia 2

Receber (montes de) fruta de borla sempre que vamos comprar fruta. E ver o rapaz da fruta e o meu filho nas suas conversas do costume, cheios de um carinho e duma cumplicidade que derrubam a barreira da língua.

Falar com a Raquelita no skype ir gargalhar como quando estamos juntas.

Agradecer: dia 1

Desliguei o facebook. A conta pessoal. Sinto muitas vezes que a minha maneira de ser, de pensar e de sentir são diferentes da maioria das pessoas. A minha mente é compartimentada e o espaço disponível é limitado. Vejo-a com caixas, gavetas, prateleiras. Se libertar o espaço que o pasmar na internet durante cinco minutos (duas horas?) ocupava, o que é que acontece?
Perguntei-me para onde olharia eu se parasse de olhar para o monitor deste computador ao longo do dia. Se simplesmente pusesse música ou uma palestra ou um comediante a falar. O facebook anestesia-me da mesma maneira que um chocolate me anestesia. Na quantidade certa é um prazer. Para além do prazer é tentar preencher um vazio que coisa nenhuma preenche. E eu andava a ficar pegajosamente colada ao facebook, sobretudo nos momentos de maior frustração, nervos, aborrecimento, medo. Distrair-me o mais possível do problema, em vez de o resolver.
Desligar-me do facebook é parar e olhar à volta. Peguei num espelhinho e vi as minhas sobrancelhas por depilar. E o cabelo por pintar. Depois desses assuntos resolvidos a minha mente esvaziada cheira menos a mofo e há mais luz. Há espaço para pensar no próximo livro. Há espaço e energia para fazer yoga. Há nitidez porque há menos pó no ar.
Uma das minhas resoluções de ano novo era agradecer (por escrito) todos os dias. É Setembro e ainda não o tinha feito. Nem mesmo no facebook.

Dia 1.
A Cila ligou-me. Contou-me dela e eu contei-lhe de mim. Falou com o Diogo no alta-voz. Rimo-nos. Trocámos declarações de amor antes de desligar.

8 de agosto de 2015

ele tem uns olhos azuis...

... disse o avô Martin. A frase que ouço desde sempre. Tentei explicar que não os vejo azuis. Não vejo esse bebé dodot que as pessoas tanto me descrevem, que quando era pequenino e íamos no metro vinham pelo menos três senhoras dizer-me como ele era lindo, lindo, que lindo bebé. Uma vez disseram-me que ele era divino(!?). Percebo a intenção e agradeço de coração, mas e as mães de bebés feios? Que sentem elas quando vêem e ouvem isto? Só entendi mais de um ano depois. Foi ao ver fotos dele que vi isso. Aquela cara e olhos, aqueles olhos azuis.
Disse ao avô que eu não os vejo azuis e deixei-o a pensar se serei daltónica. Expliquei que quando olho para ele é como se olhasse para mim. Não olho para o espelho e penso "os meus olhos são verdes"- simplesmente olho. Só isso, e o facto de não ser muito boa da cabeça, pode explicar que ontem no parque infantil e ao sol eu tenha olhado para a multidão e pensado "Irra quanta criança loira! Onde está o meu filho?" como se ele fosse moreno. Depois vi a juba a reluzir.

31 de julho de 2015

esplanar

Empurro o carrinho colina acima, digo ao Dioguinho que se encoste para trás e tapo-o com o cobertorzinho. Se tudo correr bem, adormece pouco antes de chegarmos ao meu café favorito e terei uma hora de esplanada só para mim. Peço um sumo de cenoura, deixo um fundinho para quando ele acordar e permito-me a batota na minha dieta desintoxicante: um descafeinado cheio.
O ruído é quase nenhum quando ele adormece e eu tenho um caderno nas mãos e uma lista na cabeça. Os meus planos mais importantes e ambiciosos, como publicar o próximo livro, agendar uma sessão de yoga, arrumar o meu guarda-roupa, cumprir as resoluções de ano novo... isto sou eu a tentar reconstruir o meu ego, pedacinho a pedacinho, cada caco em busca dum encaixe. Cola nos dedos, nas mãos, por todo o lado. Uma doente mental em recuperação contínua.
Mas ali na esplanada, diante de mim e a tornar impossível a simples tarefa de fazer uma lista estão três mães. Cada uma munida de seu bebé rechonchudo e vivaço. Eu agarrada aos meus cacos, tento concentrar-me (já só tenho menos de uma hora) e da mesa delas vem uma conversa que me é tão familiar que é impossível não ouvir. Falam do sono, das mamadas noturnas, da papa que dão, da marca da papa, das lentilhas em puré, da mama e do biberão, da roupa, daquela vez em que a bebé fez cocó até às costas e durante a muda de fralda vomitou e ficou toda suja de cocó e vomitado. Fazem muitas perguntas umas às outras e tentam fazê-lo de forma descontraída e casual. Pelo meio riem-se e falam com os bebés naquele tom típico, pedem desculpa às mesas vizinhas porque eles palram alto e têm tanta coisa importante para dizer. Acho que se conhecem há pouco tempo. Tentam mudar de assunto mas não conseguem. Resvala sempre para o mesmo. Não se calam por um segundo e eu ao fim de trinta já não estou só entediada, estou com muita pena de não ter trazido o ipod do Faneca. Olho à volta e pergunto-me se as outras pessoas sentem uma repulsa tão grande quanto eu. Se o facto de eu também já ter tido um bebé de oito meses me faz mais tolerante, ou pelo contrário. Acho que pelo contrário. Mas de repente apercebo-me porque me incomoda tanto aquilo tudo. E a repulsa que sinto dá lugar a uma enorme compaixão e faz-se-me um nó na garganta. Nenhuma fala de si própria. Nenhuma sabe falar de mais nada. O ruído que ouço para além do riso e alegria e luz do sol e bebés é um estilhaçar contínuo, um ranger, um esmigalhar dos cacos delas. Dos egos soterrados delas.

Volto aos meus cacos e à minha lista. Já consigo pensar e escrever. Já consigo ver-me outra vez. Rio-me para elas e para os bebés lindos que têm ao colo. Acabo a lista antes do meu bebé acordar.