Empurro o carrinho colina acima, digo ao Dioguinho que se encoste para trás e tapo-o com o cobertorzinho. Se tudo correr bem, adormece pouco antes de chegarmos ao meu café favorito e terei uma hora de esplanada só para mim. Peço um sumo de cenoura, deixo um fundinho para quando ele acordar e permito-me a batota na minha dieta desintoxicante: um descafeinado cheio.
O ruído é quase nenhum quando ele adormece e eu tenho um caderno nas mãos e uma lista na cabeça. Os meus planos mais importantes e ambiciosos, como publicar o próximo livro, agendar uma sessão de yoga, arrumar o meu guarda-roupa, cumprir as resoluções de ano novo... isto sou eu a tentar reconstruir o meu ego, pedacinho a pedacinho, cada caco em busca dum encaixe. Cola nos dedos, nas mãos, por todo o lado. Uma doente mental em recuperação contínua.
Mas ali na esplanada, diante de mim e a tornar impossível a simples tarefa de fazer uma lista estão três mães. Cada uma munida de seu bebé rechonchudo e vivaço. Eu agarrada aos meus cacos, tento concentrar-me (já só tenho menos de uma hora) e da mesa delas vem uma conversa que me é tão familiar que é impossível não ouvir. Falam do sono, das mamadas noturnas, da papa que dão, da marca da papa, das lentilhas em puré, da mama e do biberão, da roupa, daquela vez em que a bebé fez cocó até às costas e durante a muda de fralda vomitou e ficou toda suja de cocó e vomitado. Fazem muitas perguntas umas às outras e tentam fazê-lo de forma descontraída e casual. Pelo meio riem-se e falam com os bebés naquele tom típico, pedem desculpa às mesas vizinhas porque eles palram alto e têm tanta coisa importante para dizer. Acho que se conhecem há pouco tempo. Tentam mudar de assunto mas não conseguem. Resvala sempre para o mesmo. Não se calam por um segundo e eu ao fim de trinta já não estou só entediada, estou com muita pena de não ter trazido o ipod do Faneca. Olho à volta e pergunto-me se as outras pessoas sentem uma repulsa tão grande quanto eu. Se o facto de eu também já ter tido um bebé de oito meses me faz mais tolerante, ou pelo contrário. Acho que pelo contrário. Mas de repente apercebo-me porque me incomoda tanto aquilo tudo. E a repulsa que sinto dá lugar a uma enorme compaixão e faz-se-me um nó na garganta. Nenhuma fala de si própria. Nenhuma sabe falar de mais nada. O ruído que ouço para além do riso e alegria e luz do sol e bebés é um estilhaçar contínuo, um ranger, um esmigalhar dos cacos delas. Dos egos soterrados delas.
Volto aos meus cacos e à minha lista. Já consigo pensar e escrever. Já consigo ver-me outra vez. Rio-me para elas e para os bebés lindos que têm ao colo. Acabo a lista antes do meu bebé acordar.
31 de julho de 2015
28 de junho de 2015
tu
Fez há uns dias 32 anos que nasceste. Do alto do meu egoísmo, senti-me muito grata a esta vida e aos teus pais por teres nascido, te ter um dia encontrado e todos os dias dos últimos cinco anos e tal acordar ao teu lado. Estava a lavar as mãos (a mão) ao teu filho e a redigir este texto mentalmente, mas comecei a choramingar e tive de parar.
O Diogo caiu daquela altura toda e partiu o braço. Podia ter sido muito pior, como sabemos, e ainda assim, apesar de toda a minha culpa, da tua boca só vêm palavras de tolerância e carinho. É assim desde sempre. Lembro-me de comer uma litrada de gelado como almoço, e depois bolachas ou chocolate, e sentir que só podia fazer isso ao pé de ti sem sentir o menor constrangimento. Diz o Stephen Fry "You are who you are when nobody's watching." e sendo assim, eu sou tão eu, quando estou contigo. A comer merdas há uns anos atrás, a comer alfaces e sementes hoje. A ter crises existenciais sem fim. A perder a paciência e gritar com o nosso filhinho. Nestes dias ainda mais difíceis em que tenho de ouvir as perguntas e comentários das pessoas preocupadas com o bracinho do Diogo, refugio-me no teu silêncio tão sábio. Ensinas-me tanto sobre a importância de não dizer nada. Quando estava grávida e redonda e todos à minha volta me diziam para parar quieta e me sentar, tu eras único que me deixava completamente em paz. E era o teu bebé que eu carregava no meu corpo desassossegado. Tento aprender contigo a ser boa companheira e rezo para que sejas tão tu quando eu estou presente, como quando estás sozinho, porque isso é profundamente libertador. Acontece é que sinto que contigo eu sou melhor que eu própria.
Uma das melhores coisas desta vida é ver o 8 out of 10 cats contigo e passam-se minutos de silêncio até que um deles lança uma piada que nos faz gargalhar ao mesmo tempo. Para mim, a gargalhada é o que melhor nos une. Quando o cansaço já é tal que eu sinto que vou ter um colapso, mas não posso porque há um bebé a pedir-me mais um sorriso e mais um colinho e quando por fim ele adormece e então eu posso colapsar, ou quando a dor de costas é da nuca aos calcanhares, sinto que não é justo não ter uma réstia de energia para demonstrar melhor o que sinto por ti. És o melhor que a vida me deu. Fica aqui esta lição de português, está bem? Quando eu te disser que te amo muito, não é só isso que eu quero dizer. É isto tudo.
O Diogo caiu daquela altura toda e partiu o braço. Podia ter sido muito pior, como sabemos, e ainda assim, apesar de toda a minha culpa, da tua boca só vêm palavras de tolerância e carinho. É assim desde sempre. Lembro-me de comer uma litrada de gelado como almoço, e depois bolachas ou chocolate, e sentir que só podia fazer isso ao pé de ti sem sentir o menor constrangimento. Diz o Stephen Fry "You are who you are when nobody's watching." e sendo assim, eu sou tão eu, quando estou contigo. A comer merdas há uns anos atrás, a comer alfaces e sementes hoje. A ter crises existenciais sem fim. A perder a paciência e gritar com o nosso filhinho. Nestes dias ainda mais difíceis em que tenho de ouvir as perguntas e comentários das pessoas preocupadas com o bracinho do Diogo, refugio-me no teu silêncio tão sábio. Ensinas-me tanto sobre a importância de não dizer nada. Quando estava grávida e redonda e todos à minha volta me diziam para parar quieta e me sentar, tu eras único que me deixava completamente em paz. E era o teu bebé que eu carregava no meu corpo desassossegado. Tento aprender contigo a ser boa companheira e rezo para que sejas tão tu quando eu estou presente, como quando estás sozinho, porque isso é profundamente libertador. Acontece é que sinto que contigo eu sou melhor que eu própria.
Uma das melhores coisas desta vida é ver o 8 out of 10 cats contigo e passam-se minutos de silêncio até que um deles lança uma piada que nos faz gargalhar ao mesmo tempo. Para mim, a gargalhada é o que melhor nos une. Quando o cansaço já é tal que eu sinto que vou ter um colapso, mas não posso porque há um bebé a pedir-me mais um sorriso e mais um colinho e quando por fim ele adormece e então eu posso colapsar, ou quando a dor de costas é da nuca aos calcanhares, sinto que não é justo não ter uma réstia de energia para demonstrar melhor o que sinto por ti. És o melhor que a vida me deu. Fica aqui esta lição de português, está bem? Quando eu te disser que te amo muito, não é só isso que eu quero dizer. É isto tudo.
ontem, no facebook
Dioguinho, meu filho. Hoje o facebook encheu-se de arco-iris porque nos EUA o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado. Eu só soube porque vi os tais arco-iris. Não vejo as notícias, não leio os jornais e nem acho, como muita gente, que os EUA são o centro do mundo. O centro do meu mundo neste momento és tu. E eu desejo que tenhas a sorte de encontrar alguém como eu encontrei o teu pai. Alguém que à medida que conheceres, penses "isto é bom demais para ser verdade" e que se revele ainda melhor do que isso. Te faça ir às lágrimas de tanto rir, que seja cúmplice, que te faça sentir mais feliz e seguro de ti próprio do que se estivesses sozinho. Mas sobretudo alguém que ames, que ames muito muito muito. Que possas abraçar e beijar muito, com toda a liberdade que o amor merece. E se quiseres casar (eu e o teu pai até nisso somos parecidos - não temos o sonho de casar), então casa, querido. O amor tem de ser celebrado. É urgente que se celebre e ridículo que se "legalize" o amor.
Escrevo-te aqui e agora porque se um dia eu ficar mais parva do que sou hoje e me insurgir contra ti por expressares o que és, e calhar de não seres um "comum" heterossexual, então ignora-me. E já agora perdoa-me.
Hoje gritei contigo porque a minha paciência, infelizmente, é finita. Se há uns anos me dissessem que eu seria uma mãe que grita, eu não acreditaria. Hoje digo que nunca discriminarei um filho pela sua orientação sexual. E sinto uma paz profunda por teres nascido na segurança duma família que te ama e tolera, te acolhe no teu todo. Mas se alguém um dia te fizer sentir desajustado ou inferior por expressares algo que no teu íntimo sentes que é verdadeiro e bom, se alguém alguma vez tentar convencer-te de que a natureza não te fez perfeito e que o teu corpo não é só teu, mesmo que essa pessoa seja eu, por favor ignora os insultos e protege-te. E se quiseres casar, meu filhinho, casa!
Escrevo-te aqui e agora porque se um dia eu ficar mais parva do que sou hoje e me insurgir contra ti por expressares o que és, e calhar de não seres um "comum" heterossexual, então ignora-me. E já agora perdoa-me.
Hoje gritei contigo porque a minha paciência, infelizmente, é finita. Se há uns anos me dissessem que eu seria uma mãe que grita, eu não acreditaria. Hoje digo que nunca discriminarei um filho pela sua orientação sexual. E sinto uma paz profunda por teres nascido na segurança duma família que te ama e tolera, te acolhe no teu todo. Mas se alguém um dia te fizer sentir desajustado ou inferior por expressares algo que no teu íntimo sentes que é verdadeiro e bom, se alguém alguma vez tentar convencer-te de que a natureza não te fez perfeito e que o teu corpo não é só teu, mesmo que essa pessoa seja eu, por favor ignora os insultos e protege-te. E se quiseres casar, meu filhinho, casa!
23 de junho de 2015
caiu do escorrega
Caiu de uma altura de mais de um metro, desamparado. A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Há uns tempos uma blogger lançou um livro sobre todas as coisas que nunca ninguém lhe disse sobre a maternidade e as mães histéricas cairam-lhe em cima. Haja pachorra para as mães histéricas. O meu filho tem 21 meses e ainda mama, passa mais de metade da noite na nossa cama, isto e tantas outras coisas que vou partilhando no facebook com os meus amigos (parto humanizado, parto na água, parto sem drogas, parto parto parto) fariam de mim uma dessas mães extremosas e histéricas, não fosse o eu saber o que é ser criticada quando me desfaço em mil para dar o meu melhor e isso nunca, mas nunca ser suficiente. Se há coisa que a maternidade me trouxe foi tolerância. Para com o meu filho, para comigo mesma, para com as outras mães. As que pariram anestesiadas num bloco operatório, as que não quiseram dar de mamar, as que deixaram o bebé chorar no escuro, as que gritam no supermercado, as que ameaçam castigar, as que ameaçam bater, as que batem. Falar é tão fácil, teclar é facílimo.
Disse-me uma vez uma amiga que quando somos mães de um, somos mães de todos, e isso é cada vez mais verdade para mim. Caiu do escorrega e eu nem sequer fui a primeira a lá chegar, nem a segunda, que as mães voam quando um bebé cai. Passaram-mo para as mãos, revistei-o e abracei-o e ali ficámos no meio do chão, ele aos prantos e eu a tremer. Nenhuma mãe histérica se aproximou de mim, ora pois, que o anonimato não é possível num parque infantil. Pelo contrário, só vi olhares de compreensão, só recebi palavras de conforto. Mães de um, mães de todos. Mães desfeitas em mil. E mil não é suficiente.
Vivo 24 horas por dia com o meu filho. Tenho muitas vezes a certeza que quem inventou a tortura do sono foi uma mãe. E quem inventou as creches também. Digam-me o que quiserem. Neste momento só acredito que as creches e infantários foram inventados por pais à beira dum ataque de nervos a precisarem desesperadamente de um momento sem filhos. Só é pena que não o admitam. A culpa levou-os a defender que os meninos precisam de socializar, de brincar com outros meninos, de ser independentes. Sim, sim. Como se tudo isso não fosse possível com os pais por perto. O que os pais precisam é de se recompor. É isto que eu vejo e sinto. Vejo-me fragmentada. Já várias vezes na minha vida passei por isto de me sentir desfeita. Desfeita (pulverizada) com o maior desgosto de amor da minha vida. Desfeita mentalmente com um esgotamento. Desfeita emocionalmente com uma depressão. Mas isto de ser mãe é permanente. É olhar para o espelho e ele estar todo estilhaçado. É ver-me em mil pedacinhos e não saber qual deles sou eu, qual é o meu filho. O Diogo é um pedaço de mim que vive cá fora e isso é tão confuso que às vezes tenho muita dificuldade em pensar. Em me concentrar. Em me ver. A gravidez prepara-nos para este abalo sísmico do ego. O ser dois em um. Outra teoria que cá guardo é que não é por acaso que carregamos o bebé nas entranhas. E não é por acaso que esse invólucro sagrado se abre e rasga com carne viva, sangue, suor e lágrimas à mistura. Porque isso é só um vislumbre do que se avizinha.
Ninguém nos diz das muitas coisas horríveis de ser mãe ou pai. Ninguém diz porque na verdade não vale a pena. Pensávamos que seria difícil, e na verdade é quase impossível. Pensávamos que seria bom, e na verdade é muito melhor. É maravilhoso e compensador de formas que nunca imaginámos. É olhar para o espelho todo estilhaçado e na maioria das vezes ele ter o encanto hipnotizante dum caleidoscópio.
Há uns tempos uma blogger lançou um livro sobre todas as coisas que nunca ninguém lhe disse sobre a maternidade e as mães histéricas cairam-lhe em cima. Haja pachorra para as mães histéricas. O meu filho tem 21 meses e ainda mama, passa mais de metade da noite na nossa cama, isto e tantas outras coisas que vou partilhando no facebook com os meus amigos (parto humanizado, parto na água, parto sem drogas, parto parto parto) fariam de mim uma dessas mães extremosas e histéricas, não fosse o eu saber o que é ser criticada quando me desfaço em mil para dar o meu melhor e isso nunca, mas nunca ser suficiente. Se há coisa que a maternidade me trouxe foi tolerância. Para com o meu filho, para comigo mesma, para com as outras mães. As que pariram anestesiadas num bloco operatório, as que não quiseram dar de mamar, as que deixaram o bebé chorar no escuro, as que gritam no supermercado, as que ameaçam castigar, as que ameaçam bater, as que batem. Falar é tão fácil, teclar é facílimo.
Disse-me uma vez uma amiga que quando somos mães de um, somos mães de todos, e isso é cada vez mais verdade para mim. Caiu do escorrega e eu nem sequer fui a primeira a lá chegar, nem a segunda, que as mães voam quando um bebé cai. Passaram-mo para as mãos, revistei-o e abracei-o e ali ficámos no meio do chão, ele aos prantos e eu a tremer. Nenhuma mãe histérica se aproximou de mim, ora pois, que o anonimato não é possível num parque infantil. Pelo contrário, só vi olhares de compreensão, só recebi palavras de conforto. Mães de um, mães de todos. Mães desfeitas em mil. E mil não é suficiente.
Vivo 24 horas por dia com o meu filho. Tenho muitas vezes a certeza que quem inventou a tortura do sono foi uma mãe. E quem inventou as creches também. Digam-me o que quiserem. Neste momento só acredito que as creches e infantários foram inventados por pais à beira dum ataque de nervos a precisarem desesperadamente de um momento sem filhos. Só é pena que não o admitam. A culpa levou-os a defender que os meninos precisam de socializar, de brincar com outros meninos, de ser independentes. Sim, sim. Como se tudo isso não fosse possível com os pais por perto. O que os pais precisam é de se recompor. É isto que eu vejo e sinto. Vejo-me fragmentada. Já várias vezes na minha vida passei por isto de me sentir desfeita. Desfeita (pulverizada) com o maior desgosto de amor da minha vida. Desfeita mentalmente com um esgotamento. Desfeita emocionalmente com uma depressão. Mas isto de ser mãe é permanente. É olhar para o espelho e ele estar todo estilhaçado. É ver-me em mil pedacinhos e não saber qual deles sou eu, qual é o meu filho. O Diogo é um pedaço de mim que vive cá fora e isso é tão confuso que às vezes tenho muita dificuldade em pensar. Em me concentrar. Em me ver. A gravidez prepara-nos para este abalo sísmico do ego. O ser dois em um. Outra teoria que cá guardo é que não é por acaso que carregamos o bebé nas entranhas. E não é por acaso que esse invólucro sagrado se abre e rasga com carne viva, sangue, suor e lágrimas à mistura. Porque isso é só um vislumbre do que se avizinha.
Ninguém nos diz das muitas coisas horríveis de ser mãe ou pai. Ninguém diz porque na verdade não vale a pena. Pensávamos que seria difícil, e na verdade é quase impossível. Pensávamos que seria bom, e na verdade é muito melhor. É maravilhoso e compensador de formas que nunca imaginámos. É olhar para o espelho todo estilhaçado e na maioria das vezes ele ter o encanto hipnotizante dum caleidoscópio.
3 de junho de 2015
um ano e nove meses
Vinte e um meses, hoje.
Perco a paciência e levanto a voz (às vezes grito, raramente, mas grito) mais vezes do que queria. Culpo o facto de estarmos juntos vinte e quatro horas por dia há 21 meses. Às vezes dava-me muito jeito ter alguém com deixar o Dioguinho nem que fosse por uma hora, para o bem de ambos. De resto, fascina-me isto de ser mãe e de ver de perto um bebé tornar-se gente. Não trocava o que tenho por nada. Só pelo mesmo com um pouco de babysitting.
Não é correcto chamar filhos da puta aos dentes do meu filho, mas é isso que lhes chamo. Desde que começou esta coisa rara (pelos vistos é raro sofrer-se tanto como o Diogo sofre com a vinda dos dentes) que as nossas noites sossegadas passaram a um número de circo executado por dois adultos exaustos e um bebé desesperado de dores, entre uma cama de casal e um berço, uma mama de fora, ou as duas e - rufam os tambores - respeitável público, até à data, ninguém caiu ao chão!
Como dizia, os molares do meu filho estão a caminho. No dia em que ele tiver todos vinte dentinhos de fora, faço a festa que não fiz no aniversário de um ano.
Não sabe o que é bolacha maria. Nem comida processada. Quer sempre provar o que eu estou a comer. Come quando quer, o quanto quiser, de maneira que quando tem fome, come como um adulto. E graças aos dentes de que tanto me queixo, come coisas que nunca pensei que gostaria, como uvas passas, tâmaras, bagas goji e figos secos. São as guloseimas dele. Continua a adorar bróculos e legumes em geral. Um dia quis provar salada e até eu fiquei pasma quando pediu para repetir. Era couve roxa, aipo, cebola, cenoura, salsa... tudo marcha. E não engorda. Abacate com outras frutas, batidos e papas com leite de amêndoa e sementes de chia, sumo verde cheio de couve, pepino, salsa e coentros. Uma coisa boa de ser ver. A não ser que estejam para vir os dentes, claro. Aí quer é o xarope para as dores e mamar de hora em hora. E morder todo e qualquer objecto.
Já várias vezes achei que ia enlouquecer. Mas a Natureza é sábia e dotou-nos duma amnésia selectiva muito eficaz. A mesma que nos faz desejar parir outro filho quando ainda nem os pontos levámos.
Fala e faz-se entender tão bem. Só começou a apontar com o dedo indicador há pouco mais de um mês. Tem amigos em todas as lojas que frequentamos no bairro. Pessoas favoritas de quem sabe e diz os nomes e repete-os vezes e vezes sem conta, a pedir-nos que o levemos até elas. Conhece as rotinas, os caminhos, as portas das lojas e do nosso prédio sem hesitação. Percebe tudo o que dizemos, sabe o que pode e não pode fazer. Faz o que não pode e vem confessar-se a dizer né né né. Também diz iá num tom tão holandês que chega a ser cómico. Sempre que vê passar um avião diz "avi" e recentemente descobriu a lua.
Dança. Canta. Finge que espirra. É loucamente apaixonado pelos avós. Não faz daquelas birras típicas (ainda) mas quando é contrariado é capaz de nos morder ou bater. Depois diz né né né.
Não sei o que seriam os momentos difíceis de não tivesse este livro.
Como precisávamos dum degrau para chegar à pia, comprámos um conjunto que já traz potinho e assento para a sanita. Deixámos o potinho aqui na sala, para ele já se ir familiarizando e sentando. Em vez disso, finge que cozinha - potinho debaixo do braço, colher a mexer vigorosamente, prova a comida imaginária e a delicia-se com huuuuuuuuuuums estridentes. E se olharmos duas vezes pergunta-nos se somos servidos.
Damos beijinhos à esquimó. Digo-lhe ao ouvido "amo-te tanto tanto tanto tanto" e peço-lhe que me diga também. Sussurra "titititi".
Perco a paciência e levanto a voz (às vezes grito, raramente, mas grito) mais vezes do que queria. Culpo o facto de estarmos juntos vinte e quatro horas por dia há 21 meses. Às vezes dava-me muito jeito ter alguém com deixar o Dioguinho nem que fosse por uma hora, para o bem de ambos. De resto, fascina-me isto de ser mãe e de ver de perto um bebé tornar-se gente. Não trocava o que tenho por nada. Só pelo mesmo com um pouco de babysitting.
Não é correcto chamar filhos da puta aos dentes do meu filho, mas é isso que lhes chamo. Desde que começou esta coisa rara (pelos vistos é raro sofrer-se tanto como o Diogo sofre com a vinda dos dentes) que as nossas noites sossegadas passaram a um número de circo executado por dois adultos exaustos e um bebé desesperado de dores, entre uma cama de casal e um berço, uma mama de fora, ou as duas e - rufam os tambores - respeitável público, até à data, ninguém caiu ao chão!
Como dizia, os molares do meu filho estão a caminho. No dia em que ele tiver todos vinte dentinhos de fora, faço a festa que não fiz no aniversário de um ano.
Não sabe o que é bolacha maria. Nem comida processada. Quer sempre provar o que eu estou a comer. Come quando quer, o quanto quiser, de maneira que quando tem fome, come como um adulto. E graças aos dentes de que tanto me queixo, come coisas que nunca pensei que gostaria, como uvas passas, tâmaras, bagas goji e figos secos. São as guloseimas dele. Continua a adorar bróculos e legumes em geral. Um dia quis provar salada e até eu fiquei pasma quando pediu para repetir. Era couve roxa, aipo, cebola, cenoura, salsa... tudo marcha. E não engorda. Abacate com outras frutas, batidos e papas com leite de amêndoa e sementes de chia, sumo verde cheio de couve, pepino, salsa e coentros. Uma coisa boa de ser ver. A não ser que estejam para vir os dentes, claro. Aí quer é o xarope para as dores e mamar de hora em hora. E morder todo e qualquer objecto.
Já várias vezes achei que ia enlouquecer. Mas a Natureza é sábia e dotou-nos duma amnésia selectiva muito eficaz. A mesma que nos faz desejar parir outro filho quando ainda nem os pontos levámos.
Fala e faz-se entender tão bem. Só começou a apontar com o dedo indicador há pouco mais de um mês. Tem amigos em todas as lojas que frequentamos no bairro. Pessoas favoritas de quem sabe e diz os nomes e repete-os vezes e vezes sem conta, a pedir-nos que o levemos até elas. Conhece as rotinas, os caminhos, as portas das lojas e do nosso prédio sem hesitação. Percebe tudo o que dizemos, sabe o que pode e não pode fazer. Faz o que não pode e vem confessar-se a dizer né né né. Também diz iá num tom tão holandês que chega a ser cómico. Sempre que vê passar um avião diz "avi" e recentemente descobriu a lua.
Dança. Canta. Finge que espirra. É loucamente apaixonado pelos avós. Não faz daquelas birras típicas (ainda) mas quando é contrariado é capaz de nos morder ou bater. Depois diz né né né.
Não sei o que seriam os momentos difíceis de não tivesse este livro.
Como precisávamos dum degrau para chegar à pia, comprámos um conjunto que já traz potinho e assento para a sanita. Deixámos o potinho aqui na sala, para ele já se ir familiarizando e sentando. Em vez disso, finge que cozinha - potinho debaixo do braço, colher a mexer vigorosamente, prova a comida imaginária e a delicia-se com huuuuuuuuuuums estridentes. E se olharmos duas vezes pergunta-nos se somos servidos.
Damos beijinhos à esquimó. Digo-lhe ao ouvido "amo-te tanto tanto tanto tanto" e peço-lhe que me diga também. Sussurra "titititi".
22 de abril de 2015
epifanias no parque
Quando olho para o meu filho a caminhar no parque e me vejo a orientá-lo, me ouço a dizer "vamos" mais vezes do que desejo e a impedi-lo de largar a correr relva fora, desviando-se do caminho, não consigo não sentir tristeza. Todos os dias desejo que seja adiado o dia em que o espírito selvagem do Diogo seja ferido, e enquanto isso sou eu quem já o vai domando.
Lá íamos, à volta do lago, ele a fazer pausas para apanhar algo do chão, ou mexer numa planta, ou cumprimentar alguém, ou se agachar e esfregar o chão de terra batida cheio de pedrinhas. Fica com as palmas cinzentas, apanha um grão que lá lhe saltou ao tacto e traz-mo. Deixar que se suje à vontade e meta as mãos na boca são tarefas fáceis, comparadas com conter o apressar quando na verdade não há pressa nenhuma, deixá-lo parar quantas vezes quiser. A minha intenção de o "treinar" no parque para que um dia possa andar no passeio sabendo que a estrada é perigosa até pode ser muito boa, mas o que se torna óbvio para mim é a minha ansiedade quase crónica, a necessidade de controlo, o impulso de o proteger e sobretudo a formatação que sofri ao longo desta minha vida, e que por mais que não queira, teimo em já impor ao meu bebé.
Lá estava ele, agachado, tão pequenino, tão frágil no meio da imensidão do parque. Olhei e contive o "vamos?", vi-o a ele e a um plátano centenário, e o meu bebé era feito do mesmo que tudo o resto. Tinha nele a mesma sabedoria centenária do simplesmente existir no momento presente, de tocar no chão e nas pedrinhas porque o chão e as pedrinhas estão ali, o caminho e o relvado formam uma mesma superfície sem limites, e o ir para casa ou ver os patos não existem ainda. Para ele tudo é possilidades, tudo é permitido até que eu lhe diga que não, tudo é limpo e puro até que eu lhe diga que é sujo, tudo é trepável até que eu o avise que pode cair. Parece que à medida que lhe vou roubando esta visão inocente e animal da energia que gere a Terra, transfiro para ele e preencho esses vazios com os meus medos, as minhas regras, os meus limites e limitações. E parece-me tudo tão cruel e injusto, porque na verdade ele é o meu professor, quando volta a agachar-se sem pressa para apanhar mais uma pedrinha.
Lá íamos, à volta do lago, ele a fazer pausas para apanhar algo do chão, ou mexer numa planta, ou cumprimentar alguém, ou se agachar e esfregar o chão de terra batida cheio de pedrinhas. Fica com as palmas cinzentas, apanha um grão que lá lhe saltou ao tacto e traz-mo. Deixar que se suje à vontade e meta as mãos na boca são tarefas fáceis, comparadas com conter o apressar quando na verdade não há pressa nenhuma, deixá-lo parar quantas vezes quiser. A minha intenção de o "treinar" no parque para que um dia possa andar no passeio sabendo que a estrada é perigosa até pode ser muito boa, mas o que se torna óbvio para mim é a minha ansiedade quase crónica, a necessidade de controlo, o impulso de o proteger e sobretudo a formatação que sofri ao longo desta minha vida, e que por mais que não queira, teimo em já impor ao meu bebé.
Lá estava ele, agachado, tão pequenino, tão frágil no meio da imensidão do parque. Olhei e contive o "vamos?", vi-o a ele e a um plátano centenário, e o meu bebé era feito do mesmo que tudo o resto. Tinha nele a mesma sabedoria centenária do simplesmente existir no momento presente, de tocar no chão e nas pedrinhas porque o chão e as pedrinhas estão ali, o caminho e o relvado formam uma mesma superfície sem limites, e o ir para casa ou ver os patos não existem ainda. Para ele tudo é possilidades, tudo é permitido até que eu lhe diga que não, tudo é limpo e puro até que eu lhe diga que é sujo, tudo é trepável até que eu o avise que pode cair. Parece que à medida que lhe vou roubando esta visão inocente e animal da energia que gere a Terra, transfiro para ele e preencho esses vazios com os meus medos, as minhas regras, os meus limites e limitações. E parece-me tudo tão cruel e injusto, porque na verdade ele é o meu professor, quando volta a agachar-se sem pressa para apanhar mais uma pedrinha.
18 de abril de 2015
doem-me as costas até aos pés
As palavras acumulam-se-me na garganta, e volta e meia transbordam em forma de post.
Tenho umas saudades de trabalhar que às vezes dá-me vontade de chorar. Trabalhar no sentido de ir para o trabalho, fazer cafés (as saudades que tenho de fazer flat whites e desenhar coraçõezinhos com a espuma do leite chegam a ser doentias), clientes e colegas com quem conversar sobre nada de muito profundo, ter horas marcadas e intervalos e metros à pinha para regressar a casa. Porque trabalhar assim parece férias, comparado com ser mãe a tempo inteiro.
Há uns meses vi a minha vizinha de baixo sair para o trabalho uns quantos dias seguidos. Acho que ao terceiro dia senti inveja. Isto só faz sentido para quem tem filhos, imagino. Essa saudade da vida passada, dos tempos em que eu era só eu, tão mas tão livre que nem tinha noção do mundo de possibilidades que tinha nas mãos. Perguntem-me se queria voltar atrás, ou ter adiado o ter um filho, se me arrependo do que quer que seja e a resposta é não, não, não. Não há como imaginar a vida sem o Diogo. A vida é tão melhor com um filho que até o nosso passado parece mais feliz. Parece que as saudades me toldam a razão e só me lembro de coisas boas. As viagens com o Faneca. Vejo-me em esplanadas a tomar cafés, a comer azeitonas e a beber vinho, vejo fins de tarde rodeada de amigos e gargalhadas, e todos esses dias me parecem Verão. Tudo me parece morno e vejo-me com a minha prima no mar de Carreço a nadar, vejo-me deitada na areia a observar conchas tão pequenas que pareciam grãos de areia também... de cores que nunca imaginei. Cansaço? Sabia lá eu o que era cansaço. Frustração? Sabia lá eu. Não dormir bem uma noite? UMA NOITE? Ahahahhahahhahaha!
A minha vizinha um dia voltou do trabalho e encontrámo-nos lá em baixo, eu a tentar domar a minha cria, o carrinho, as bolachas, gorros, cachecóis, toalhitas e fraldas. Ela toda livre, toda só ela, chave de casa na mão, bolsa ao ombro, quando me diz "I'm expecting" e mostra-me o crachá "baby on board". E foi como se me tivesse dito que tinha ganho a lotaria. Melhor, que eu tinha ganho a lotaria! Arrepiei-me toda, agradeci-lhe tanto por me contar, vim para casa e fui buscar dois dos meus livros sobre gravidez e bebés, pus-lhes um grande laço vermelho. A vida da minha vizinha já podia ser boa, mas o melhor está para vir, não tenho dúvidas.
14 de março de 2015
chamam-lhes buskers
Ali num dos túneis junto ao rio Tamisa, se não é no da oxo tower é outro ao pé de Blackfriars, há um violinista talentoso mas muito zangado com a vida, que assim que alguém pára para o ouvir, pára de tocar. A primeira vez que parei, tão feliz de expor meu rico filho a tão belo som, o homem parou e olhou para nós. Retomou. Eu, inocente e um pouco parva, nem sequer percebi do que se tratava. Fui ao porta moedas e deparo-me com uma nota de 20 libras e umas moedinhas pretas. Virei costas para ir ao café da esquina e trocar a nota, e eis que o senhor pára de tocar outra vez e começa a praguejar aos berros na língua dele. Fascinante como não é preciso ser poliglota para perceber quando nos estão a chamar puta. Se não tivesse um filho pequeno e não tivesse imaginado o homem enlouquecido a bater-nos com o violino, ter-lhe-ia não só dado aquela moeda de uma libra (que dei), e agradecido (que agradeci), mas também perguntado se aqueles gritos eram comigo (e desejado que dias melhores lhe acontecessem). Quanta amargura, quanta raiva.
Isto para dizer que aqui no nosso bairro há um rapaz a tocar guitarra e a cantar à porta do supermercado que é talento em estado puro. Sempre que o vejo estaciono o carrinho a dois metros dele e o Diogo fica ali na primeira fila, hipnotizado. Tão humilde quanto tímido. Desfaz-se em sorrisos e já nos reconhece. Canta versões mas tem a própria banda com quem toca e canta músicas originais. Só desejo que o sucesso lhe chegue depressa, porque inocente e um pouco parva que sou, acredito com muita força que a sorte se faz com as nossas próprias mãos, e quem carrega boas energias e põe amor naquilo que faz (por mais adversas que sejam as condições), merece viver disso e prosperar em todas as direcções.
Isto para dizer que aqui no nosso bairro há um rapaz a tocar guitarra e a cantar à porta do supermercado que é talento em estado puro. Sempre que o vejo estaciono o carrinho a dois metros dele e o Diogo fica ali na primeira fila, hipnotizado. Tão humilde quanto tímido. Desfaz-se em sorrisos e já nos reconhece. Canta versões mas tem a própria banda com quem toca e canta músicas originais. Só desejo que o sucesso lhe chegue depressa, porque inocente e um pouco parva que sou, acredito com muita força que a sorte se faz com as nossas próprias mãos, e quem carrega boas energias e põe amor naquilo que faz (por mais adversas que sejam as condições), merece viver disso e prosperar em todas as direcções.
achado nos rascunhos 05/08/2014
Um dia vou olhar para trás e rir-me (não é que não me ria agora, mas vou rir-me com mais vontade) desta fase em que os meus dias eram passados com um bebé que quando não estava a rastejar pela sala, estava pendurado em mim, e que nos poucos minutos entre uma coisa e outra eu estaria a pintar móveis, vender livros, contactar lojas, ouvir nãos, ouvir talvezes e agarrar-me aos sins com a força da necessidade (essa força maior que a força de vontade, porque o que tem de ser tem muita força) de quem não tem alternativa. Há sempre alternativas, claro, mas no meu caso eu enlouqueceria se não fizesse (ou tentasse fazer) outra coisa para além de ser mãe. O que roça a loucura, porque ser mãe a tempo inteiro é trabalhar 24 horas por dia, mas é assim que eu sou e sinto e penso.
Voltou a acontecer. Sonhei que ganhava a lotaria e no meu sonho comprava aquela lojinha que ando a cobiçar há meses (que já foi um café vegan e por isso tem bom karma), estava a planear a decoração e já me via a vender os móveis, as ilustrações, os bolinhos caseiros, já me via com o Faneca a tratar de toda a parte administrativa e burocrática e sentia esta alegria profunda de me ver na minha lojinha, livre do medo de não fazer dinheiro porque afinal de contas tinha ganho a lotaria.
Voltou a acontecer. Sonhei que ganhava a lotaria e no meu sonho comprava aquela lojinha que ando a cobiçar há meses (que já foi um café vegan e por isso tem bom karma), estava a planear a decoração e já me via a vender os móveis, as ilustrações, os bolinhos caseiros, já me via com o Faneca a tratar de toda a parte administrativa e burocrática e sentia esta alegria profunda de me ver na minha lojinha, livre do medo de não fazer dinheiro porque afinal de contas tinha ganho a lotaria.
3 de março de 2015
um ano e meio
Um ano e meio de Diogo cá fora. Há dias sentia o coraçãozinho dele a bater acelerado e dizia-lhe que aquele coração já bate sem parar há mais de dois anos.
Não sei para onde foram as horas e os dias. Sei que todas as certezas que tinha antes de ter um filho cairam por terra, e chego a ter vergonha das coisas que já pensei e disse sobre bebés. A única certeza que tenho hoje é que cada casal deve fazer aquilo que funciona para si e para o seu bebé, o que os faz feliz. Tudo o resto que dizem os profissionais de saúde, os livros, os sites, os palpites bem intencionados de quem não faz parte deste trio, se não nos soa a certo, é pura e simplesmente ignorado.
Se pudesse voltar atrás no tempo e dar um conselho a mim própria antes de sequer engravidar seria, sem dúvida, que ouvisse o meu instinto sem hesitar. Ter-me-ia poupado muita angústia.
Temos um filho à espera de projectar e moldar nele todos os nossos ideais, e quando nos damos conta ele está é a agir como nós, a gesticular como nós, a falar como nós. Só que tudo é exagerado com requinte de caricatura, incluindo os nossos defeitos e tudo o que achámos omitir.
Um ano e meio e percebe tudo o que dizemos, em português e holandês. Estamos constantemente sob escuta. Adora animais, sobretudo cães. Gosta de pessoas em geral e do pai em particular, com quem joga às escondidas e às perseguições e com quem dá longos passeios pela casa de mão dada. Aspira o chão e pára para dar beijos no aspirador. Dá beijos em tudo, diz olá a objectos e pessoas e se o quisermos fazer feliz é só levá-lo à estação, ver passar uns quantos comboios e depois entrar num.
Ainda mama e desde que começou o martírio dos dentes acorda vezes sem conta durante a noite. Adora ajudar a fazer a comida, gosta de comer o que cozinhou tépido (não há comida de que não goste) e de sopa fria. Anda há mais de um mês mas ainda não corre. Faz-se entender muito bem com a sua linguagem gestual acompanhada de bás, pás, cãs e umas quantas palavras com mais de uma sílaba.
Nunca pára quieto.
Quanto a mim, nunca cheguei a sentir aquele amor maior e arrebatador, talvez porque já me sentia capaz de o amar assim, já o amava quando saiu de dentro de mim naquela piscina. O que me surpreende é onde esse amor me leva. Transforma-me e revolve-me as entranhas, abala até o que eu achava ser inabalável em mim. Os limites da paciência, da frustração e do cansaço esticam-se, rompem-se e redefinem-se todos os dias. Tantas coisas perderam a importância e tantas ficaram em pausa, para que eu seja hoje uma mãe a tempo inteiro e ilustradora nos minutos vagos.
Há dias o sol brilhou e entrou quente pelas janelas da sala. Eu imaginei-me imediatamente a tomar um café e ler um livro sentada no sofá, mas o que aqueles raios de sol revelaram é que não há superfície desta casa que não tenha pó, ou dedadas de comida, ou ambos. Dei comigo a praguejar enquanto limpava freneticamente o que podia e a rezar a todos os santinhos para que já que sou uma incompetente duma dona de casa, ao menos que seja boa mãe.
19 de novembro de 2014
24 de julho de 2014
dioguinho
Quase onze meses de vida. Onze mais nove meses duma existência tão pura, tão inocente. Vejo nitidamente porque é que nós, seres humanos, nascemos animais perfeitos e depois nos transformamos em gente. Projecto no meu filho aquilo que li nos livros, nos sites, aquilo que ouvi dizer, que me aconselharam. Tantas expectativas em cima dum serzinho que nem sabe o que é ser outro. Ele é ele próprio e vê o mundo somente (ainda) através da sua própria existência. Quase onze meses e quase seis dentes. Nada do que li ou ouvi me preparou para isto dos dentes, que só é comparável aos primeiros meses com um recém-nascido, em que se desejarmos poder tomar um banho descansadas e ainda lavar os nossos dentes (sem ser no banho) várias vezes por dia estamos a ser ambiciosas. Seis dentes. Ainda não anda. Ainda não gatinha. Ainda não se senta sozinho. Só duplicou o peso com que nasceu com mais de oito meses e começou a segurar bem a cabeça sozinho com cinco. Ainda não dorme a noite toda sozinho. Sempre que me perguntam o que é que ele já faz desta lista, apetece-me engoli-lo e voltar a tê-lo só meu, dentro de mim, onde tudo era perfeito. Ninguém se atreve a perguntar a uma grávida "Então o teu filho já tem pernas e braços? E dedos? E o coração bate?" porque se sabe que tudo vem a seu tempo, porque a natureza é muito maior que os livros e sites e conselhos e sobretudo é maior que os homens, e porque a uma grávida não se deve dizer indelicadezas.
Pois a uma mãe deve-se pensar duas, três, quatro vezes antes de questionar o desenvolvimento, o ritmo ou o que quer que seja do seu filho. Porque o filho nasceu mas continua a ser feito dela, um pedaço que dela saiu e que agora está cá fora a pulsar, vivo e exposto ao mundo, aos outros, aos olhos dos outros que querem, que teimam em moldá-lo.
Não engulo o meu filho. Digo simplesmente que não, ainda não. Tem uma vida inteira pela frente, para se sentar sozinho, andar e correr, cair sozinho. Levantar-se sozinho. Uma vida inteira para comer sozinho e sim, ele há-de largar as minhas mamas e eu hei-de morrer de saudades disso. Poderia dizer, para compensar, que já diz mamã e papa, que entende holandês e português e que faz um sem número de gracinhas que nos derretem. Sabe como nos arrancar uma gargalhada e o que mais me comove é que olha para todas as pessoas com quem se cruza nesta cidade (todas as culturas e raças, todos os feitios e idades, todos os extractos sociais) e demonstra por elas o mesmo interesse. Olha as pessoas nos olhos, profunda e demoradamente com uma tolerância e curiosidade típica de bicho selvagem que nunca foi ferido. Se o olhar e interesse forem retribuidos, sai-se com uma das suas gracinhas infalíveis.
Algures na cronologia do Diogo alguém vai conseguir fazer um comentário bem intencionado ou uma pergunta inocente que não passará pela minha censura e pela minha vontade de o engolir, e há-de ofender, há-de magoar o meu bebé. Um dia ele vai deixar de olhar, confiante de que é perfeito e único, nos olhos de toda a gente que com ele se cruzar. Resta-me fazer tudo o que sei para que esse dia nunca chegue, e continuar muito atenta a tudo o que o meu filho tem para me ensinar.
Pois a uma mãe deve-se pensar duas, três, quatro vezes antes de questionar o desenvolvimento, o ritmo ou o que quer que seja do seu filho. Porque o filho nasceu mas continua a ser feito dela, um pedaço que dela saiu e que agora está cá fora a pulsar, vivo e exposto ao mundo, aos outros, aos olhos dos outros que querem, que teimam em moldá-lo.
Não engulo o meu filho. Digo simplesmente que não, ainda não. Tem uma vida inteira pela frente, para se sentar sozinho, andar e correr, cair sozinho. Levantar-se sozinho. Uma vida inteira para comer sozinho e sim, ele há-de largar as minhas mamas e eu hei-de morrer de saudades disso. Poderia dizer, para compensar, que já diz mamã e papa, que entende holandês e português e que faz um sem número de gracinhas que nos derretem. Sabe como nos arrancar uma gargalhada e o que mais me comove é que olha para todas as pessoas com quem se cruza nesta cidade (todas as culturas e raças, todos os feitios e idades, todos os extractos sociais) e demonstra por elas o mesmo interesse. Olha as pessoas nos olhos, profunda e demoradamente com uma tolerância e curiosidade típica de bicho selvagem que nunca foi ferido. Se o olhar e interesse forem retribuidos, sai-se com uma das suas gracinhas infalíveis.
Algures na cronologia do Diogo alguém vai conseguir fazer um comentário bem intencionado ou uma pergunta inocente que não passará pela minha censura e pela minha vontade de o engolir, e há-de ofender, há-de magoar o meu bebé. Um dia ele vai deixar de olhar, confiante de que é perfeito e único, nos olhos de toda a gente que com ele se cruzar. Resta-me fazer tudo o que sei para que esse dia nunca chegue, e continuar muito atenta a tudo o que o meu filho tem para me ensinar.
15 de junho de 2014
o que eu não sabia
Dizem que quando se tem um filho se descobre um amor maior. Que se ama um filho mais do que se imaginava ser capaz. Eu fiquei à espera disso. No entanto nunca apanhei a tal surpresa.
Veio antes o instinto, uma coisa tão esmagadora que me deixou irracional durante semanas. Incapaz de verbalizar, de escrever, de não chorar. Imaginar que alguma coisa de mal pudesse acontecer ao meu bebé, assim como ouvi-lo chorar por mais de um minuto, causava-me a sensação física e dolorosa de ter engolido um garrafão de ácido e sentir as minhas entranhas corroerem-se. Corroerem-me de dentro para fora. Quando vi o meu corpo deitar leite sempre que o meu filho chorava, ou pensava nele, ou já se tivessem passado três horas, apercebi-me de que sou um animal como os outros animais, sem metáforas. Um mamífero tão munido de instinto como de útero, de mamas, de leite. E que se eu sentia aquela angústia, aquele chamamento incessante e ensurdecedor que na minha opinião pouco tem a ver com amor, então muitas outras mães o sentem, sobretudo as mães chamadas de animais irracionais. Também eu irracional, senti no meu corpo a dor dos animais que exploramos. Passei a gravidez a comer queijo porque como a maioria das pessoas conseguia visualizar uma vaca feliz nos alpes suíços a ser ordenhada manualmente. De repente a indústria do queijo assombrava o meu dia-a-dia e era a história de terror mais cruel e retorcida de todas, porque eu participei dela durante mais de trinta anos com a minha ignorância, o meu corpo, a minha gula e o meu dinheiro. A minha hipocrisia.
Depois chegou o amor. E tal como eu estava à espera, apaixonei-me ainda mais pelo meu bebé, todos os dias mais um bocadinho, e todos os dias são melhores e todos os clichés sobre ter um filho fazem sentido. Amo o meu filho tal como imaginei, fascinada com cada feito, babada de orgulho, desfeita em sorrisos, toda eu colo e mimo e paciência.
O que eu não sabia é que esse amor transbordaria. Que o amor maior que a maternidade trouxe é o meu amor-próprio, para surpresa das surpresas. Que aquele estado de graça em que estive era só o começo e que entraria nesta casa um mestre espiritual de três quilos e meio, pronto para viver comigo vinte e quatro horas por dia e me dar lições a cada minuto. Todos os dias desejo gostar de mim como o Diogo gosta dele mesmo. Todos os dias admiro o entusiasmo e optimismo com que ele vê o mundo. Como se nada de mal pudesse acontecer, numa existência em que se é alegria e tolerância puras, em que se expressa o que se sente simples e honestamente. Todos os dias aspiro a cuidar da minha saúde e a olhar por mim como cuido e olho por ele. Gostava de viver para sempre, para poder continuar esta caminhada com vista privilegiada para o que é um amor que transborda e se espalha em todas as direcções, em que não sei onde acabo eu e começa o meu filho, o meu namorado, a nossa família e todos os que fazem parte da nossa vida.
Veio antes o instinto, uma coisa tão esmagadora que me deixou irracional durante semanas. Incapaz de verbalizar, de escrever, de não chorar. Imaginar que alguma coisa de mal pudesse acontecer ao meu bebé, assim como ouvi-lo chorar por mais de um minuto, causava-me a sensação física e dolorosa de ter engolido um garrafão de ácido e sentir as minhas entranhas corroerem-se. Corroerem-me de dentro para fora. Quando vi o meu corpo deitar leite sempre que o meu filho chorava, ou pensava nele, ou já se tivessem passado três horas, apercebi-me de que sou um animal como os outros animais, sem metáforas. Um mamífero tão munido de instinto como de útero, de mamas, de leite. E que se eu sentia aquela angústia, aquele chamamento incessante e ensurdecedor que na minha opinião pouco tem a ver com amor, então muitas outras mães o sentem, sobretudo as mães chamadas de animais irracionais. Também eu irracional, senti no meu corpo a dor dos animais que exploramos. Passei a gravidez a comer queijo porque como a maioria das pessoas conseguia visualizar uma vaca feliz nos alpes suíços a ser ordenhada manualmente. De repente a indústria do queijo assombrava o meu dia-a-dia e era a história de terror mais cruel e retorcida de todas, porque eu participei dela durante mais de trinta anos com a minha ignorância, o meu corpo, a minha gula e o meu dinheiro. A minha hipocrisia.
Depois chegou o amor. E tal como eu estava à espera, apaixonei-me ainda mais pelo meu bebé, todos os dias mais um bocadinho, e todos os dias são melhores e todos os clichés sobre ter um filho fazem sentido. Amo o meu filho tal como imaginei, fascinada com cada feito, babada de orgulho, desfeita em sorrisos, toda eu colo e mimo e paciência.
O que eu não sabia é que esse amor transbordaria. Que o amor maior que a maternidade trouxe é o meu amor-próprio, para surpresa das surpresas. Que aquele estado de graça em que estive era só o começo e que entraria nesta casa um mestre espiritual de três quilos e meio, pronto para viver comigo vinte e quatro horas por dia e me dar lições a cada minuto. Todos os dias desejo gostar de mim como o Diogo gosta dele mesmo. Todos os dias admiro o entusiasmo e optimismo com que ele vê o mundo. Como se nada de mal pudesse acontecer, numa existência em que se é alegria e tolerância puras, em que se expressa o que se sente simples e honestamente. Todos os dias aspiro a cuidar da minha saúde e a olhar por mim como cuido e olho por ele. Gostava de viver para sempre, para poder continuar esta caminhada com vista privilegiada para o que é um amor que transborda e se espalha em todas as direcções, em que não sei onde acabo eu e começa o meu filho, o meu namorado, a nossa família e todos os que fazem parte da nossa vida.
15 de abril de 2014
de volta
Mais cem exemplares, numerados e assinados com amor e carinho. O preço é 12 euros, o que inclui o envio em correio azul nacional. Para comprar e para mais informações, aqui fica o endereço do costume: natachapintas@gmail.com.
Entretanto, o regresso às tintas compensou. Muito, muito obrigada por todos os comentários e apoio!
Já não me lembro há quantos anos não pegava na tralha com que me sinto mais à vontade. Pincéis, lixas, martelo e pregos, chave de fendas e parafusos, cola para madeira, fita crepe, verniz, a minha paleta... Esta sala transformou-se em oficina e cada minuto em que o Diogo não precisou de mim (agora com os dentes a caminho precisa de mim vinte e cinco horas por dia) foi passado ou a pensar na cómoda, ou a tratar da cómoda. E porque este é um bairro onde se vende móveis velhos a preços altos, dei corda aos sapatos e fiz-me às lojas. E mais uma vez sinto que a minha gratidão é sempre superada pela generosidade de quem me rodeia... na segunda loja não só recebi um sim imediato, como rasgados elogios e ainda ajuda para divulgar o meu trabalho. Decorem o nome Papagaio, porque é lá que o meu regresso às pinturas está a acontecer. Estou tão entusiasmada!
9 de abril de 2014
a simbologia das coisas
Voltei às tintas. Devagar. Tão devagarinho quanto arrastei o saco do material (que veio naquela mala) de debaixo da cama. Porque na cama estava um bebé a dormir, o bebé que me tem preenchido os dias e que é a desculpa ideal para que eu não pinte mais.
Só um verniz é que não sobreviveu a estes três anos, tudo o resto, coberto de pó, estava à minha espera.
Pintei uma cómoda que encontrei no lixo daqui do prédio. Ainda não está terminada mas mal posso esperar por a pôr à venda, porque viver do que se gosta de fazer é das melhores coisas que há.
Só um verniz é que não sobreviveu a estes três anos, tudo o resto, coberto de pó, estava à minha espera.
Pintei uma cómoda que encontrei no lixo daqui do prédio. Ainda não está terminada mas mal posso esperar por a pôr à venda, porque viver do que se gosta de fazer é das melhores coisas que há.
18 de março de 2014
este post é antigo mas podia ter sido escrito hoje
Uma batata doce e quatro cenouras depois.
Gostava que houvesse uma boa desculpa para a maneira como esta minha cabeça funciona. Esta falta de ordem, esta sopa de letras, esta incapacidade crónica de fazer uma coisa de cada vez.
O bebé adormeceu e eu fui à despensa buscar o aspirador, que este chão desta casa está tão sujo, mas tão sujo, que já passou do ponto da vergonha e tornou-se comédia. Para haver ilustrações nesta casa, outras coisas não acontecem. Ora é a louça por lavar, ora é o chão por aspirar, ora é ir à rua e ver o céu. Hoje vimos o céu, e também haveria um chão aspirado se eu não tivesse chegado à despensa para pegar no aspirador e dado de caras com um saco de batatas doces, e o que é bom na vida é batata doce e cenoura cozidas e salteadas em azeite e muito alho e coentros, então toca a cozinhar a olhar para o chão imundo. Como pode alguém ter tanta fome? Podia dizer que é por dar de mamar, mas é mentira. Eu sou uma comedora emocional e a culpa é do não-desenhar.
Isto para dizer que eu gostava de ser daqueles artistas que não pensam em mais nada do que em desenhar e pintar. Aliás, que não fazem mais nada do que desenhar e pintar, porque pensar penso eu. Passo mais tempo preocupada em desenhar do que a desenhar de facto. Houve um tempo em que eu passava os dias a desenhar, mas mesmo esses dias requeriam de mim um enorme esforço e disciplina. Queria ter tanta vontade de desenhar como tenho de comer. Queria ser tão eficiente no trabalho criativo como sou na cozinha (dêem-me um ovo e chocolate em pó e eu faço um bolo. E como-o).
Uma batata doce e quatro cenouras depois, o chão continua imundo, o bebé acordou e eu nem aspirei, nem desenhei. Enfim.
Gostava que houvesse uma boa desculpa para a maneira como esta minha cabeça funciona. Esta falta de ordem, esta sopa de letras, esta incapacidade crónica de fazer uma coisa de cada vez.
O bebé adormeceu e eu fui à despensa buscar o aspirador, que este chão desta casa está tão sujo, mas tão sujo, que já passou do ponto da vergonha e tornou-se comédia. Para haver ilustrações nesta casa, outras coisas não acontecem. Ora é a louça por lavar, ora é o chão por aspirar, ora é ir à rua e ver o céu. Hoje vimos o céu, e também haveria um chão aspirado se eu não tivesse chegado à despensa para pegar no aspirador e dado de caras com um saco de batatas doces, e o que é bom na vida é batata doce e cenoura cozidas e salteadas em azeite e muito alho e coentros, então toca a cozinhar a olhar para o chão imundo. Como pode alguém ter tanta fome? Podia dizer que é por dar de mamar, mas é mentira. Eu sou uma comedora emocional e a culpa é do não-desenhar.
Isto para dizer que eu gostava de ser daqueles artistas que não pensam em mais nada do que em desenhar e pintar. Aliás, que não fazem mais nada do que desenhar e pintar, porque pensar penso eu. Passo mais tempo preocupada em desenhar do que a desenhar de facto. Houve um tempo em que eu passava os dias a desenhar, mas mesmo esses dias requeriam de mim um enorme esforço e disciplina. Queria ter tanta vontade de desenhar como tenho de comer. Queria ser tão eficiente no trabalho criativo como sou na cozinha (dêem-me um ovo e chocolate em pó e eu faço um bolo. E como-o).
Uma batata doce e quatro cenouras depois, o chão continua imundo, o bebé acordou e eu nem aspirei, nem desenhei. Enfim.
28 de fevereiro de 2014
em modo babyblog
Há um ano vimo-lo pela primeira vez. Nada: nenhum livro, video ou poema me poderiam preparar para ver o que vi, sentir o que senti. 6 cm de gente. Um coraçãozinho acelerado, um cordão umbilical a bombar imparável, dois hemisférios do cérebro, estômago cheio de líquido, mãos e pés cheios de dedinhos. Uma pessoinha que não se fazia sentir ou notar cá fora, mas que parecia já tão à vontade na sua pequena gruta. Ora levantava as pernas, ora os braços, abriu e fechou a boca, mexeu-se sempre que eu me ri. Não tirei os olhos do ecran, não larguei a mão do meu amor, não consegui parar de chorar.
Um ano depois, está prestes a começar a comer outras coisas que não o meu leite, e eu sinto um misto de entusiasmo e melancolia. Até hoje, desde o momento em que foi feito, aquele corpinho só precisou de se alimentar do meu corpo. Esta ilusão egoísta e constante de que os nossos filhos são nossos. Cresce tão depressa que já o estou a imaginar adolescente. Quero parar no tempo estes dias em que os olhos dele brilham fascinados com tudo o que se lhes apresenta, estes dias em que ele ainda acha que eu sou a pessoa mais interessante do mundo, a melhor cantora, a comediante mais engraçada. Tudo na existência dele é amor e confiança. Cabe-nos num braço e não se cansa dos nossos beijos. Ri e gargalha com "o mar enrola na areia", pára de chorar se imitarmos os sons dos animais. Ser feliz com pouco não é só possível, é o ideal, e os bebés estão cá para o comprovar.
Um ano depois, está prestes a começar a comer outras coisas que não o meu leite, e eu sinto um misto de entusiasmo e melancolia. Até hoje, desde o momento em que foi feito, aquele corpinho só precisou de se alimentar do meu corpo. Esta ilusão egoísta e constante de que os nossos filhos são nossos. Cresce tão depressa que já o estou a imaginar adolescente. Quero parar no tempo estes dias em que os olhos dele brilham fascinados com tudo o que se lhes apresenta, estes dias em que ele ainda acha que eu sou a pessoa mais interessante do mundo, a melhor cantora, a comediante mais engraçada. Tudo na existência dele é amor e confiança. Cabe-nos num braço e não se cansa dos nossos beijos. Ri e gargalha com "o mar enrola na areia", pára de chorar se imitarmos os sons dos animais. Ser feliz com pouco não é só possível, é o ideal, e os bebés estão cá para o comprovar.
29 de janeiro de 2014
9/1/2014
Acorda desfeito em sorrisos, junta as mãozinhas como quem bate palmas e dá pontapés de emoção. Chegou o momento alto do dia dele: acordar e ver-nos. Damos-lhe a cara e pedimos beijinhos e ele faz o melhor que consegue, ora chucha, ora nos lambe. O meu filho acredita que a vida é uma festa, e celebra-a todos os dias. Quando me desoriento um bocadinho lá está ele para me lembrar que uma existência onde há colo, elogios, sorrisos e muitos, tantos beijos, é só. É tudo.
24 de janeiro de 2014
27/8/2013
Quem a vê andar a passo rápido pelos corredores da Waterloo Station, a ler o jornal em pé sem pedinchar um lugar sentado, não sabe nem sonha o que é ter um menino às marradas no colo do útero, 13 kg extra em cima de dois pés de elefante, perder o fôlego porque a barriga se faz pedra até às costelas e que o que ela quer mesmo é chegar depressa a casa, arrancar as roupas, ser toda mamas e barriga, andar como um pinguim e ignorar todo e qualquer objecto que lhe caia ao chão.
Um charme de moça.
13/8/2013
O meu filho ainda não nasceu mas já tem mais roupa e mais estilo que eu. Não sei se ria, se chore.
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