29 de abril de 2013

da espera

Este blog está em modo babyblog porque o meu livro ainda não me chegou às mãos. Isto sim, é um parto difícil, e como ainda não chegou a parte boa em que me encontrarei com os primeiros 50 exemplares, não me vou queixar deste longo processo e da espera, e da minha tão curta paciência. Portanto em breve (?), quando todo o suor, lágrimas e espera mostrarem ter valido muito muito muito a pena, escrevo.

Entretanto o bebé na barriga mostrou-se menino (porque é que parece não ter importância absolutamente nenhuma? mesmo quando se confirmou o que eu sempre imaginei, um filho menino) e perfeito, na última ecografia. É verdade o que se diz, não há como explicar o que se sente quando se vê e se sente um ser humano desenvolver-se e viver dentro de nós. Há qualquer coisa de tão superior, e como eu não acredito no deus dos homens, não faz sentido dizer isto, mas sim. É um milagre. A natureza apodera-se e encarrega-se do meu corpo, a mim resta-me encarregar desta minha mente, mantê-la saudável, lúcida, que é daí que eu sigo feliz. De nada me vale, de absolutamente nada me vale ficar ansiosa ou impaciente, de nada me vale preocupar-me ou ter medo. O medo e a preocupação, como em tudo na vida, não fazem diferença nenhuma. Dão-nos uma falsa sensação de controlo.

De maneira que aqui espero, pelo bebé, pelo livro, e enquanto espero respiro e olho para o que já está concretizado e presente na minha vida e que é tão bom e tão precisoso.

Há dias muito raros de sol em Londres. Dias de céu limpo, essa coisa tão frequente em Lisboa que chega a ser aborrecida. Um dia de céu limpo aqui é motivo de celebração. Agora apeteceu-me dizer isto...

24 de abril de 2013

20 semanas

Estar grávida longe da minha família e dos meus melhores amigos é dar muito, mas muito mais valor ao meu companheiro de vida, que já era minha família antes de sermos três, que é o meu melhor amigo e que me dá a mão nos momentos bons, nos momentos maus, e quando menos se esperaria que me desse a mão também.
Este bebé que ainda pouco se faz notar no que respeita a pontapés, faz-me crescer a barriga todos os dias um pouco mais, faz-me pensar duas, três, quatro vezes antes de pôr alguma coisa na boca, estica e muda a cor da minha pele. Atrai para mim muitas atenções e muito carinho por parte dos colegas de trabalho, que exageram ao ponto de me fazerem chorar de tanto rir. Este bebé ainda não ouviu música clássica mas todos os dias é embalado pelas minhas gargalhadas. Não sei como um dia vou agradecer a estas pessoas pelo que fazem por mim. Sem se darem conta, consolam o meu coração de emigrante, o meu corpo grávido e a minha cria de quatro meses e meio.

31 de março de 2013

toda eu mamas (rascunho de 2/2/2013)

De um dia para o outro deixei de caber nos soutiens. Tanto eu como o fanequinha olhamos para elas com um misto de choque e admiração... embora algo me diga que a admiração que ele sente é diferente da minha. Eu vejo-as como máquinas de vida, a funcionar a todo o gás, sintonizadas com o meu útero, com o que por lá vai mas que ainda não é óbvio. Nunca tive tanta consciência de que sou um mamífero, e nunca pensei tanto (e com tanta culpa) nas minhas amigas vacas a quem arrancamos os seus bebés (que comemos e cujos estômagos usamos para fazer queijo) e a quem roubamos o leite, que devoramos sofregamente... enfim. Ontem fui comprar soutiens à H&M e tive um ataque de frustração ao ver que não cabia no 36D, e o 38D não aparecia em nenhum modelo. Eu odeio experimentar roupas, transpiro, canso-me, perco a paciência ao fim de duas provas. Fiquei tão zangada, sobretudo porque as mamas me doem e pesam, e eu só queria encontrar a porra do soutien certo, agarrar em dois e vir para casa. Mas não, tive de ir pedir ajuda e felizmente uma menina muito despachada encontrou-mos logo. Apeteceu-me beijar-lhe os pés e dizer-lhe que me tirou um peso do peito.

25 de março de 2013

milionária

Perguntei ao faneca o que faria se ganhasse milhares de milhões de libras. Disse que me dava metade (é tão fofo), que dava aos pais tudo o que precisassem, que depois ia só viajar, ver o mundo comigo, passar a vida de férias. Eu disse-lhe que bastava dar-me um milhão, pois isso chegar-me-ia para o resto da vida. Que também queria passear, mas não o tempo todo. Então o que fazias, perguntou-me. E a minha resposta saiu sem sequer hesitar. Abria o meu café/loja. Que eu preciso de trabalhar e de ver gente. Ilustrações, cafés, bolos caseiros e pratos vegetarianos. Isto sou eu milionária.

24 de março de 2013

neve

Para haver drama basta pegar num coração emigrante e deitar-lhe uma pitada de hormonas.
O frio que se sente na rua e o vento que vem como lâminas tira-me o prazer de brincar com a neve. Talvez porque sobrevivi a um Inverno no mercado (não é possível explicar sem palavrões o que se sente ao fim de oito horas exposta ao grau zero), a uma gripe fortíssima que me pôs aos tremeliques na cama, dores de garganta e tosse, cieiro. Se a neve tivesse vindo em Dezembro talvez eu a visse (a sentisse) de outra maneira, mas sendo Março, e sendo que nesta ilha raramente se vê o sol, nesta altura só me lembro de Lisboa, a Lisboa amena que me acolheu. Que saudades de não ter frio. Que saudades da Primavera.

20 de março de 2013

desabafos de fim de tarde

Chegam-nos da Holanda emails, pacotes e postais amorosos, de primos que ainda nem conheço, a agradecer pela partilha, a desejar-nos as maiores felicidades.
De Portugal, de algumas das pessoas que me são mais próximas, nem uma resposta ao email emocionado que lhes enviei no dia em que fomos à ecografia. É para eu aprender. Se não for para aprender que nem toda a gente se emociona com bebés como eu, que seja para aprender a não ficar magoada, pois o mundo não gira em torno de mim, muito embora eu tenha o rei na barriga.

avó



Tu, que te esqueces que vais ser bisavó em menos de dois minutos. Não faz mal. Tu estás em mim mais do que nunca, no meu coração e no meu útero.


"Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."

19 de março de 2013

british humour

Comecei a contar que estou grávida aos colegas no trabalho. Muitos deles são mesmo de cá, alguns nascidos em Londres. Ontem perguntei a um "queres ver a minha mais recente obra de arte?" ao que ele disse logo que sim, à espera de ver uma ilustração. Mostrei-lhe a imagem da ecografia, olhou para ela com admiração durante dois segundos e as primeiras palavras que lhe sairam da boca foram:

"But we only did it once!"

16 de março de 2013

estatisticamente (rascunho de 27/01/2013)

Estatisticamente, o risco de perder o bebé bastante alto, no início da gravidez. Eu estou mentalizada, preparada para o pior, como em tudo na minha vida. Preparo-me para o pior, mas sobretudo preparo-me para o melhor, depois vivo e gozo os minutos como se o pior não pudesse acontecer. Normalmente resulta. Vivo feliz e contente e, no caso de dar para o torto, choro um bocadinho (ou baba e ranho se preciso for) e sigo para bingo.
Quando a Babá engravidou pela primeira vez eu fiquei apaixonada pelo feijãozinho, quis comprar-lhe uns sapatinhos, fui a uma loja no shopping em Viana e quando, feliz e babada disse ao que ia, a funcionária e um senhor amigo que lá estava com ela perguntaram-me "Mas de quantos meses está ela grávida?", ao que eu respondi dois ou três, já não me lembro (e o que é que me interessava? era um bebé dentro da Babá!) e eles, só lhes faltou correrem comigo da loja. Que era muito cedo, que tudo pode acontecer, que depois é um desgosto, que lhes desse antes uma garrafa de champanhe e a senhora ainda me disse que teve um aborto aos sete meses. Saí da loja e desatei a chorar. A minha mãe consolou-me e disse que comprasse os sapatinhos sim. A Babá recebeu-os e agradeceu e riu e eu dei mais beijos na barriga dela nessa gravidez do que em qualquer uma das outras. Tudo correu bem e os meus sapatinhos não mataram o feijãozinho.
Agora que eu tenho um feijãozinho e que a minha mãe já compra roupas e malha para tricotar, pergunto-me qual é o mal. Claro que há um risco acrescido, mas é a natureza, e claro que é triste tricotar e imaginar um bebé filho do amor da minha vida, e depois o bebé não nascer. Mais triste será comunicar a todas as pessoas que já celebram comigo e connosco e me tocam na barriga, que afinal a festa terá de ser adiada. Mas estatisticamente falando, as probabilidades de tragédia não aumentam proporcionalmente ao número de pessoas com quem se partilha a notícia, assim como não aumentam se as pessoas desatarem a comprar roupinhas e sapatinhos. Portanto cá estamos.
O faneca acha que devemos é aproveitar, imaginar que vai correr tudo bem e gozar o momento. Eu concordo. Mas não deixo de pensar. Vinte por cento. Se eu pensar num grupo de amigas que engravidaram, posso ser eu a uma em cinco. Mas até lá, vou continuar a festejar. Ontem fomos para os copos com os meus colegas do eat e contei-lhes, um por um, metade deles estava bêbeda, o que torna tudo ainda mais engraçado, porque os estrangeiros bêbedos perdem o inglês e as emoções vêm ao de cima então o que fazem é rir muito, rir com lágrimas nos olhos, muitos abraços e muitos beijos e tanto amor, tanto carinho que eles têm por mim. Para quê adiar estes momentos? Para quê adiar a celebração do facto de eu e o meu amor termos decidido dar um grito de optimismo e esperança a este mundo que às vezes é tão cruel. E todos os dias as tragédias acontecem, mas eu sempre preferi pensar que todos os dias os milagres acontecem também.

15 de março de 2013

um bebé

(guardado nos rascunhos: 26/01/2013)

Vinda de Portugal, o fanequinha foi buscar-me ao aeroporto, cheguei a casa e fui directa para a casa de banho com o teste de gravidez que me restava. Descontraidíssma, até ao momento em que apareceu uma linha muito ténue. Chamei-o e começámos a rir-nos muito, incrédulos. Ele dizia que aquilo não era nada, eu dizia que aquilo era tudo, que eu já tinha perdido a conta aos testes negativos que vi e que ali não havia engano. Àquela hora estava tudo fechado aqui por perto, então tive mesmo de inventar coisas para fazer quando o outro progenitor já não conseguia aturar-me mais e foi dormir. Fiz uma sopa de cogumelos, comi-a, fiquei acordada até muito tarde e por fim adormeci. De manhã fui de pijama à farmácia e ao super mercado. Chovia horrores. E eu a segurar o primeiro chichi da manhã. Cheguei a casa e fiz três dos cinco testes que trouxe da rua. Continuámos incrédulos, mesmo depois de eu segurar os quatro resultados positivos todos juntos perto da janela, para ver melhor. Não sinto nada, não sinto nenhum sintoma. Ele dizia para esperarmos pelo dia do período, e esperámos e não veio. Começámos a acreditar, eu a imaginar um bebé dodot, porque bebé dodot foi o que eu e a Di chamámos ao faneca quando o conhecemos. Imaginar um bebé dentro de mim, um bebé que ainda  era do tamanho de uma semente de papoila, não soa a bebé, muito menos parece ter força suficiente para me causar sintomas. Queixei-me da ausência de sintomas durante dias até ser atacada por umas cólicas intestinais das quais nunca tinha ouvido falar até a preocupação me levar aos livros, artigos na internet e por fim a uma querida amiga parteira. Se neste momento tenho barriga, é simplesmente ar. Mas já nada é o mesmo. Olho para o homem dos meus sonhos e pergunto-lhe "Um bebé?!" e ele ri-se e diz que sim, todas as vezes.

26 de fevereiro de 2013

londres estranha-se... depois entranha-se

Coisas que estranhei quando cheguei a esta terra:

Egg mayo. Egg mayo ao pequeno almoço.
O preço dos vegetais frescos.
A quantidade de frascos de molhos no supermercado.
O não se reciclar.
A ausência de caixotes de lixo na rua.
O preço de um expresso.
O café de merda.
Que se beba café com leite a acompanhar a comida.
As sopas.
O desperdício.
A quantidade de gente.
Não haver cães vadios.
Os cafés, supermercados e mercados que vendem bolos, bolachinhas e pães sem os cobrir com nada. Ficam ali ao ar e à tosse e ao perdigoto. Canojo.
A falta de higiene nos cafés e bares. O funcionário pegar na sanduiche com a mesma mãozinha que recebe o dinheiro e que coça a cabecinha. Ca. Nojo.
O não haver uma ASAE como a portuguesa, portanto os mercados de comida (e tudo o que eles implicam) prosperam e são adorados.
O tamanho e a população desta cidade.
A hora de ponta no metro na central line.
As casas minúsculas com rendas absurdas.


6 de fevereiro de 2013

freedom

No dia em que o Marcelo casou com o Tim e eu fui menina das alianças, fomos celebrar a um bar no Soho chamado Freedom. Acho que foi a primeira vez que fui a um bar gay, e lá estive a dançar com o meu amor, rodeados de pessoas apaixonadas, apaixonantes, tudo a dançar e a divertir-se, muitos beijos na boca e muitos abraços, incluindo nós dois, que ficámos inspirados por tanta alegria, e por existir um lugar neste planeta onde é seguro expressar-se o que se sente, o que se é. Em que ninguém discrimina ninguém e onde cinco homens podem competir à vontade por um varão na pista de dança para simularem as suas pole dances ao som da Rihanna.

4 de fevereiro de 2013

quase

Não sei quantas horas depois, tanto e tanto palavrão meu deus (quando um holandês pragueja que se farta e cem por cento das vezes é em português do norte, há que desconfiar que exite nesta casa uma gaja malcriadona), o ficheiro do livro seguiu mais uma vez para imprimir. Aquela gente da gráfica já deve estar pelos cabelos comigo. Enfim, seguiu, pagarei adiantado metade do que lhes devo e resta-me esperar. Esperar pela prova que há-de chegar por correio. Esperar que esteja tudo bem, que fique como imaginei, que depois venham os primeiros cinquenta, que os venda depressa, que eu adoro trabalhar no café mas às vezes só sonho ter o meu próprio negócio. Estou muito feliz. Está quase...




30 de janeiro de 2013

ele

Eu acho que tenho bom feitio, mas nos dias (como hoje) em que estou com o toco, apercebo-me que bom feitio tem o holandês com quem eu vivo. Uma vez embebedei-me com chardonnay, sozinha aqui em casa, pus-me a ouvir fadinhos que me lembram de Alfama e quando ele chegou agarrei-me a ele a chorar. "Gosto tanto de ti. Gosto tanto de ti."

*suspiro*

ser posta à prova

A terminar a paginação do meu livro, a enviar e receber emails da empresa que mo vai imprimir. Podia ser bonito mas não é.
A única coisa que me é fácil (e não é sempre) é o papel, o lápis, a tinta. No momento em que as coisas passam ao suporte digital, o processo de trabalho torna-se um teste de resistência. Desenrasco-me no photoshop e, de resto, tudo me estica a  tolerância à frustração, os meus limites, a minha paciência. A minha dificuldade em manipular documentos e utilizar as ferramentas mais básicas de qualquer programa de computador é, no mínimo, uma vergonha. E quando me zango, como não sou pessoa de atirar coisas pelos ares ou bater no computador (também não é meu), farto-me de foda-ses e chego a dizer a mim própria que tenho uma deficiência mental qualquer, que não é possível. Depois há a minha incapacidade de me concentrar numa coisa só. Isso dava um livro.
Estou a ser posta à prova. Quanto queres este livro? Quanto queres vê-lo e vendê-lo? Quanto queres ser ilustradora quando fores grande? Quantos anos tens de viver até seres grande?

Está quase. Com muitos tropeções e muito palavrão. Mas está quase. Bear with me...

26 de janeiro de 2013

que bonitas são as metáforas

Comprei uma vez um kit na poundland, um saquinho de terra com sementes de salsa. Semeei a salsa, vi-a crescer, mostrei ao faneca que lindos os rebentinhos, olha que linda é a natureza e ele, claro, revirou os olhos. Escusado será dizer que fui incapaz de a comer, portanto ficou ali na janela, no lado de fora, a ver se crescia mais um bocadinho. Há uma semana nevou e nevou bem, quando dei por ela já a salsa estava debaixo dum bloco de neve, já a desfalecer-se-me e então resgatei-a, falei com ela e cortei-a quase rente. Ao menos que não morresse em vão. Fiz molho verde e a minha boca teve um orgasmo quando o devorei aos montes com batatas cozidas. Pus a salsa no lado de dentro da janela, a ver a neve que quase a matou. E não é que em uma semana ela me duplicou de tamanho?
Quer-me parecer que de vez em quando todos nós, humanos e vegetais, precisamos é de apanhar um valente susto e um corte radical, para nos apercebermos do quão vivinhos estávamos.

21 de dezembro de 2012

a escrever o meu livro


Escrever sobre amizade é percorrer mentalmente a enorme lista de pessoas que amo, e me amam. A enorme lista de pessoas em quem penso diariamente, cujos abraços e beijos e vozes são a melhor coisa que existe. A quantidade de pessoas que fazem de mim uma pessoa melhor. O que seria de mim sem as pessoas?
Lavada em lágrimas de saudades.

18 de dezembro de 2012

o colar

Este blog ajuda-me a observar-me. A registar-me e a partilhar-me. Escrevi aqui coisas das quais já nem me lembro. Ficou registado o medo, e espero que nem eu, nem ninguém que tenha acesso ao meu relato do medo, esqueçamos: o medo é talvez a coisa mais perigosa que pode assolar alguém. Deixei-me consumir até ao limite. Nunca me esquecerei do dia em que me sentei em frente ao neurologista e desatei num pranto. Olhei para baixo e vi o colar que tinha escolhido para esse dia, muito colorido, feito de rolhas e trapilho. Fiz o esforço de me pôr bonita no dia em que despejaria para cima de alguém aquilo que de mais feio e assustador me preenchia. Pareceu-me tudo tão irónico. Tive fé de que o médico não se assustaria mas houve um momento em que também ele mostrou horror.

O colar veio comigo para Londres e nunca o usei, em quase dois anos. Hoje lavei-o. 26 de Junho de 2009 é a data que me prende a ele. Para nunca me esquecer. Talvez um dia o deite fora. Lembro-me de conhecer o faneca e ter medo que ele se assustasse um bocadinho quando eu lhe dissesse por que motivo não podia beber muito vinho, o que eram os comprimidos que tomava religiosamente, o que era "não sentir nada". Lembro-me de um dia ele me fazer uma pergunta à qual eu evitei responder e ver nos olhos dele a sensatez de mudar de assunto. Disse a mim mesma  Este rapaz é especial, não é só um holandês que gargalha, come chocolate como eu e adora gatos...
Vim para Londres com menos medo, mas ainda amedrontada. Tinha medo que vários factores despoletassem uma recaída. Vim para cá já desmamada. Tive medo da chuva, do céu cinzento, do primeiro dia em que anoitecesse às quatro e meia da tarde, tive medo de não arranjar emprego, tive medo da língua, tive medo de desenhar, tive medo das prateleiras do supermercado repletas de frascos desconhecidos, tive medo de mim própria. Há dias meti-me no autocarro e quando rumava à Trafalgar Square no meio dum trânsito absurdo, debaixo do céu cinzento, senti-me tão apaixonada por esta cidade. Como me senti em Lisboa na fase euforia-da-medicação. Não é a cidade em si, é o que trago dentro de mim. Vejo a depressão como qualquer outra doença que nos fica alojada e que simplesmente controlamos. Aprendi a viver com ela, com a ameaça da recaída como, imagino eu, um diabético vive com o controlo da alimentação. Há um momento em que se vive tão bem com o que se teve, que o medo desaparece.

17 de dezembro de 2012

ben

Antes de me ir embora do eat escrevi a dez dos meus clientes favoritos. Aqueles de quem iria mesmo ter saudades. Cortei um pedaço de cartão e fiz quadradinhos de 4x4cm. Num lado escrevi esta citação. Do outro lado uma dedicatória pequenina a dizer-lhes individualmente porque me fariam falta. Não consegui entregar os cartões a todos.
O Ben fez a contagem decrescente dos dias comigo. Pouco sabia dele para além de que é advogado, bebe americano ou double espresso, tem um sorriso muito matreiro e sempre olhou para mim nos olhos e me perguntou como estava. No último dia disse-me "So this is it." e eu fiquei com um nó na garganta, ofereci-lhe um último americano, dei-lhe dois bombons de chocolate e o cartãozinho. Ele ficou tão tocado que me entregou um cartão de visita e me disse para mantermos contacto. E que sentiria a minha falta. Eu não consegui dizer mais nada e fugi de perto dele para não chorar.
Hoje escrevi-lhe um email com o link para as minhas ilustrações. Em poucas horas recebi resposta. Disse que tem o cartãozinho na secretária e que o lê quase todos os dias, que sente a minha falta mas que fica muito contente por eu estar feliz. Que adorou as ilustrações e que comprará o meu livro assim que estiver pronto. E por fim disse que me punha em contacto com a prima que trabalhou numa editora.

Também no meu último dia escrevi aos meus colegas e pendurei na parede do staff room um recado. Escrevi que se formos generosos e gentis com todas as pessoas com quem nos cruzamos, todas sem excepção, e não esperarmos nada em troca, descobriremos um dos segredos para se encontrar felicidade e amor-próprio. E é verdade.

14 de dezembro de 2012

chris

Não sei se é a felicidade no presente que me torna tão optimista em relação ao futuro, se vice-versa.

Hoje fui ao eat ver os meus colegas. Estava sentada com dois deles quando um cliente habitual (que lá vai três vezes por dia, todos os dias e nos trata pelo nome) me viu do outro lado da loja. A vida é muito boa quando alguém a quem servimos meias de leite durante meses se lança na nossa direcção para nos abraçar e encher a cara de beijos.

10 de dezembro de 2012

oração

Que nunca me falte saúde para me erguer,
disciplina para me concentrar
criatividade para desenhar
e força, para continuar.


6 de dezembro de 2012

restarting

Fui a uma entrevista ontem, numa casa de chás. Eu e mais três raparigas, entrevistadas em grupo. Não sei quantas perguntas matreiras depois, senti-me safa e exclui mentalmente duas das minhas "adversárias". Foi muito constrangedor ver outra portuguesa acabadinha de chegar a Londres a não conseguir expressar-se, não perceber o sotaque do rapaz que nos entrevistou, ficar confusa e desesperançada. Foi excluida e eu só queria poder ter-lhe dito uma palavrinha de apoio. A outra era húngara. Lá foi ela de vela. Lost in translation como eu há quase dois anos. Há um ano e dez meses. Felizmente em Londres há emprego para quem mal fala inglês, desde que queira trabalhar e nunca deixe de sorrir. E a estaleca que um emprego desses nos dá, meu deus que estaleca. A meio da entrevista o rapaz disse que se passássemos à fase seguinte teríamos que ir para a banquinha deles no mercado em Camden. E que só seríamos bem sucedidas se fizéssemos 150 libras até ao final do dia. Em chás? pensei eu - 150 libras em pacotes de chás?
Depois de uma breve introdução ao produto lá fui eu para a banquinha vender os 40 diferentes chás que eles vendem em embalagens de 100g por 5.20 libras. Parecia impossível mas fiz mais de 160 libras a fazer-me de entendida em chás e a meter conversa com toda a alma viva que me passou pela frente. Tudo é tão relativo quando nos apercebemos que nada é mais importante do que ser feliz e saudável. Nada me preocupa, nada me chateia, digo a mim mesma. Nada me abala enquanto me sentir tão bem. O frio que faz nesta cidade chegou-me aos joelhos e congelou-mos ao fim de seis horas em pé.
Passado o "stall trial", fui hoje para uma das 3 lojas que eles têm no norte de Londres. Isso sim foi um desafio. Como é que se desce do cargo de "trainer" para principiante? Despi-me de tudo o que sei, fingi que não sofri uma lavagem cerebral em higiene e segurança no trabalho nos últimos vinte meses, tentei não julgar, não discordar e segurei a vontade de corrigir as pessoas que me estavam a treinar, sobretudo uma menina pouco paciente e muito mandona que me orientou durante o dia. Saí de uma empresa com mais de 120 lojas e entrei numa com 3. Tentei concentrar-me em tudo o que era novo e tudo em que eu sou, de facto, uma principiante. Tentei não limpar e desinfectar tudo o que sei que lhes garantiria muito maus resultados numa auditoria.
Entretanto veio-me o período, vim para casa, consumi uma dose incalculável de chocolate, ouvi músicas lamechas e chorei de saudades da minha antiga equipa. Digo a mim mesma por que razão saí do eat, por que me candidatei a um part-time, por que motivos é que eu voo livre de medos. Eu já vivi consumida pelo medo. Parei de conjugar o meu futuro no futuro. Hoje digo a mim própria e aos outros que sou ilustradora e que estou a escrever e ilustrar um livro. Esse é o meu outro part-time. Por enquanto.

30 de novembro de 2012

em cada fim um recomeço

Foi pouco depois de ir à Holanda, talvez tenha sido mesmo lá. Conheci a família do meu holandês e de repente vi-me. Também houve um dia em que fomos ver vacas no meio dum parque e eu conversei com elas. A Holanda redefiniu-me. Penso muitas vezes no faneca como sendo uma metade minha que encontrei. Uma metade que eu não sabia que me faltava. Quando olho para ele e penso no que ele me faz sei perfeitamente porque é que as pessoas fazem juras de amor eterno, se pedem em casamento, casam. Olho para ele e para o que ele causa em mim e entendo tão bem porque é que se escrevem músicas de amor lamechas. E poesia. Não lhe digo estas coisas porque sei que ele vai revirar os olhos e gozar comigo, mas até esse revirar de olhos, esse nunca me levar demasiado a sério faz dele a minha outra metade. Eu acredito que uma relação (qualquer relação) só faz sentido se nos fizer melhores indivíduos do que se estivéssemos sozinhos.
Voltámos e aos poucos fui-me vendo. Veio uma alegria de ser, de ser eu mesma, de não fazer mal a ninguém, de na maioria das vezes fazer bem. Isso passou para o trabalho, para os colegas, para os clientes, para todas as pessoas que amo e para as que não amo também.

Há duas semanas a minha gerente mentiu-me e tentou manipular-me. E aquilo que inicialmente se manifestou como revolta dentro de mim, rapidamente se tornou nítido, tão nítido quanto tudo o resto que ultimamente eu andava a ver e sentir. Ela estava, a empresa estava a empurrar-me para o meu limite. De todas as coisas a que me adaptei, todas as coisas que fiz durate um ano e oito meses no eat que não tinham de todo a ver com aquilo em que acredito, uma nunca deixei que fosse corrompida. Quando ela me empurrou para o limite entre o amor e o medo, eu vi nitidamente o que fazer. Demiti-me.
Foi como se ela me estivesse a empurrar e no precipício se me abrissem umas asas. E para surpresa dela, minha e de todos, eu voei tão livre e tão segura que só isso, e mais nada, fez sentido.

18 de julho de 2012

foi buscar-nos ao aeroporto

Eu estava sem óculos e já era quase meia noite quando chegámos lá fora. Não consegui vê-la no escuro porque faz praia desde Maio e está mulata, só ouvia os gritos e via um vestidinho azul voar na minha direcção. Depois vi o sorriso e depois já a tinha enrolada nos meus braços, eu gigante e ela tão franzina comparada comigo, quando a abraço parece que se esconde na minha caixa torácica e lá fica guardada. De repente deixou de existir o ano inteiro que passamos sem nos abraçar. A minha irmã.

17 de junho de 2012

sonho de um holandês num domingo de manhã

Ele acabadinho de acordar, eu aqui no computador há horas.

"Eu sonhei que estávamos sentados aí à mesa e que ouvíamos movimento na cama. Eu olhava e eras tu. Então pensei, ah, como é que estás aqui comigo e na cama ao mesmo tempo? Estou a sonhar. Ah, se estou a sonhar vou fazer um teste e voar um pouquito. E então eu voava como Jesus, tipo a 20cm do chão. E pensei epá, foda-se, estou a sonhar!"

portugal dos pequeninos

Já o disse antes. Quanto mais longe de Portugal, melhor lhe vejo as coisas boas. Podia ter um qualquer trauma relacionado com as últimas experiências que vivi em terras tugas, como a depressão, ou as dificuldades financeiras, ou o facto de ser tão difícil ser artista hoje em dia, renhonhó... e a crise. Mas não.
A verdade é que quando me projecto no futuro, vejo-me em Portugal. Felizmente o holandês também nos projecta lá, e é por isso que eu me vejo ainda mais nitidamente em Lisboa. Nós, um bebé, um cão (weeeeeeeeeeeeee! who cares about children?), um gato. E relva para nos rebolarmos, que eu estou em Londres há mais de um ano e isto dos espaços verdes entranha-se-nos.

No dia em que o meu pai me perguntou (agoniado com a visão da sua filha fugir para Londres sem nada planeado) vais fazer o quê, lavar pratos? eu disse sim, que se for para lavar pratos e servir às mesas, ao menos que seja noutra cidade, noutra rotina, a ver outras coisas. E assim é. Não por mágoa do meu país, simplesmente porque assim precisei que as coisas acontecessem. Londres é um retiro, um processo de amadurecimento. Cada dia que passa gosto mais do T. e às vezes isso surpreende-me a mim própria. De onde vem tanto amor? Estarei eu ainda embriagada, depois de dois anos e meio? Não há ninguém no mundo com quem eu me dê tão bem.

Agora que já descambei para a lamechada (sou uma blogger muito enferrujada), volto ao que me fez escrever hoje. Tantas vezes me referi a Portugal como portugal dos pequeninos. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa que só quando estamos assim longe podemos observar com clareza. Hoje senti uma alegria profunda porque estou a planear as férias e só me apetece esbanjar em Portugal o que amealho a trabalhar aqui, com a intenção sincera de investir na economia do meu país. Comprar só 100% português. Comer gaspacho em Faro com a minha Di. Chegar a Alfama e embebedar-me com sangria, pagar para ouvir cantar o fado, comprar um trapinho na loja da Pipoca ou uns speedos na loja do Jacob e do Bruno (porque há gente que tem tomates para abrir negócio em tempo de crise).

Ontem comecei a escrever e arquivar os meus projectos para quando voltar a Portugal.


11 de março de 2012

um ano. o tempo voa

Há um ano eu ainda não tinha emprego. Procurava diariamente e respondi a anúncios que somente o desespero justifica, de quando cada euro convertido em libra parece desaparecer, e cada libra desaparece ao fim de uma viagem de autocarro ou um café de merda. Uma libra e meia por um expresso, e não conseguir tomá-lo. Houve momentos em que a minha zona de conforto me parecia estar tão longe, mais propriamente na máquina da Delta que tínhamos na cozinha em Alfama.
Em Março, ao fim de quase dois meses, a terceira entrevista de emprego deu frutos. Comecei a trabalhar no dia 28.
Hoje sou kitchen leader. Há um mês vi pela primeira vez cairem-me mil libras limpas na conta bancária. Londres é a minha casa e a minha vida é vivida de mão dada com o meu melhor amigo e meu amor.
Na loja somos dez pessoas. Conseguimos dar-nos muito bem e apesar de todos os momentos lost in translation, sinto que me conhecem. Sabem muito bem o que significa, e preparam-se para o meu mau humor quando me ouvem um "tenho muita fome" no meio de um turno em que não há tempo sequer para beber água. O trabalho é duro. Fisicamente exigente e desgastante psicologicamente. Neste tipo de empresa só se safa quem tem muito bom humor e resistência. Os "fracos" desistem ao fim de quinze dias, porque há coisas que podem ser vistas como desumanas. Apesar de tudo, gosto do eat. Mas não é lá que me vejo daqui a um ano. Tento absorver tudo o que este emprego me tem proporcionado de bom, e desviar-me agilmente das coisas más que se me dirigem. O desperdício é uma coisa com a qual eu nunca estarei confortável... o desperdício e todos os recantos escuros e muito sujos que o capitalismo esconde.
Começo a sentir, quase um ano depois, que já aprendi tudo o que havia para aprender nesta empresa, e que subir de cargo só me embrenhará mais na teia hierárquica que tão bem a sustenta.

Um ano depois. Já tenho a tão importante experiência de trabalho no Reino Unido que a maioria dos postos de trabalho exige. Sinto-me em casa e sinto-me inquieta porque começo a perguntar-me demasiadas vezes o que se segue. E aqui as possibilidades são tantas.

25 de fevereiro de 2012

todos os dias

O despertador toca às 4h45. Há dias em que acordo pouco antes dele tocar, há dias em que não acredito que já está na hora, desejo desistir de tudo e a única coisa que parece fazer sentido na minha vida é voltar para a cama. Visto-me em frente ao aquecedor.
Saio de casa entre as 5h10 e as 5h13. Se sair mais tarde posso perder o autocarro, o que significa chegar à loja às 6h02. Normalmente chego às 5h43. Mesmo antes de atravessar a passadeira, dou um toque para o telefone da loja. O William está no escritório a pôr dinheiro nas caixas registadoras, vem de lá de baixo com duas ou três gavetas nas mãos, pousa-as no balcão e vem abrir-me a porta. Todos os dias me dá um sorrisinho, apesar do sono.
Ligo a vitrine quente. Sou a responsável pela comida quente na nossa loja. Faço um chá e vou para baixo. Entro na cozinha, ligo a música, ligo o forno a 190 graus, ligo a enorme panela de água quente onde aquecemos a papa de aveia, as sopas, o puré, o arroz, os caldos. Pego em três tabuleiros de levar ao forno. Tiro do congelador os croissants, os croissants de amêndoa, os croissants de chocolate, os folhados de canela, os folhados de nozes. Ponho-os no forno com cerca de dez baguetes. 19 minutos. Vou vestir o uniforme. Volto a vestir o casaco e o cachecol. Entro no frigorífico e rezo para que os sacos de papa de aveia estejam num dos cestos de cima. Todos os dias verifico o que foi entregue durante a madrugada. Pilhas de cestos de comida, pacotes, caixas. Menos de cinco graus no frigorífico. Onde está a papa. Porridge, porridge, porridge. Levanto e transfiro os cestos de um lado para o outro em busca do saco branco e do saco azul. Tudo é frio e húmido e pesado e eu já tenho músculos visíveis nos braços e nos abdominais graças a esta tortura diária. Todos os dias o meu colega que faz os cafés vai lá a baixo buscar leite e dá de caras comigo dentro do frigorífico. Natachinha, diz ele. Muitos me chamam Natachinha porque é assim que eu falo de mim na terceira pessoa.
Encontro a porra da papa e meto-a na ketle. Posso finalmente tirar o casaco e o cachecol. As minhas mãos cheiram a congelados (peixe). Lavo-as pela já segunda vez. Passo o dia a lavar as mãos. Vou ao escritório onde a lista da entrega já está na impressora à minha espera. Os folhados já estão cozidos. Por essa altura já chegou uma quarta pessoa que os leva para cima. O café abre às 6h30. Eu terei de voltar ao frigorífico, mas antes preparo o acompanhamento para a papa. Às 7h a papa tem de estar acima de 80 graus. Faço as porções. Um saco dá para 8 grandes e 8 pequenas. Há um cliente que todos os dias chega às sete para pegar no seu small plain porridge and a small skinny latte. Reutiliza o saco, e não precisa de colher. Gosto dele.
Todos os dias. De segunda a sexta, todos os dias.

12 de fevereiro de 2012

o escaravelho

Lembro-me de nas profundezas da depressão, um dia olhar para um escaravelho que estava a apanhar sol numa das plantas da minha mãe. Os dias de sol e as coisas bonitas são como ácido para quem está na escuridão da doença, porque multiplicam a dor e a culpa de não se conseguir gozá-los. Senti um sincero desejo de ser aquele escaravelho. De simplesmente existir, de não ter consciência e de apenas apanhar sol, numa folha verde. Depois disse à minha mãe "Algo está muito errado no meu mundo, quando sinto inveja dum escaravelho".
Um dia, para o meu próprio e único bem, perguntei-me por que não. E decidi ser escaravelho.
O que é que era tão importante, tão mais importante que o meu próprio bem-estar, a minha própria saúde, a minha própria vida? Tentei recordar-me de como tudo começou, onde é que eu estava a ir mesmo, antes de cair no poço fundo em que me via. Para me libertar e voar dali para fora, despi-me do pesado e pegajoso cobertor do socialmente correcto. Apercebi-me de que nenhum mal vem ao mundo se eu decidir ignorar todos os padrões pelos quais os outros (e eu própria) me medem e julgam. Simplesmente ser. Porque sim.

9 de fevereiro de 2012

ele estava a ver os simpsons

Soltou uma gargalhada. E depois outra. Estava sozinho na sala e eu estava na cozinha. Ainda não vivíamos juntos. Mas foi nesse dia que eu desejei viver com ele para o resto da minha vida.

24 de janeiro de 2012

note to self

Sorrir.
Dar beijos e abraços. Se não há família e melhores amigos por perto, há colegas de trabalho receptivos.
Fazer alguém rir.
Brincar e gargalhar.
Celebrar as mais pequenas coisas.
Tomar um bom pequeno almoço.
Passear e ver coisas.
Ouvir música.
A felicidade pode estar mais perto do que se imagina.

17 de janeiro de 2012

cream tea

Cream tea. Ou "a ignorância emagrece".
Ninguém viveu a sério até comer um scone carregado de natas coalhadas e compota de morango, acompanhado de chá. Eu comi o primeiro aqui, e desde então é ver-me fazê-los em casa e devorá-los às dúzias. Este país está a entranhar-se-me no sangue (as análises di-lo-iam, se acaso as fizesse). Até já prescindo do café, e tomo um chai com leite.
Se não fossem as escadas do trabalho e as trezentas vezes que as subo e desço diariamente, não sei... não sei não.

Acho que já estão cozidos. Adeus.

11 de janeiro de 2012

onze de janeiro de dois mil e doze

Choro baba e ranho de saudades da minha avó.

6 de janeiro de 2012

dia a dia

O despertador toca e eu não sou eu. Às 4h45 acorda uma parte de mim que é pessimista, que quer fazer birra de sono e de frio. Que quer demitir-se e que tem inveja do holandês que ainda vai dormir mais três horas. Às cinco da manhã sou branca como cal. Em 2011 este corpo não viu praia. As olheiras têm cor e relevo. A viagem de autocarro é tão rápida, quando se tem sono. Depois chego ao café vou directa para o frigorífico...

O resto de mim acorda por volta das nove. Todos os dias me sinto grata por trabalhar com pessoas amorosas, e por ninguém se chatear com as minhas palhaçadas. Todos os dias faço um esforço consciente por ser gentil com todas as pessoas com quem me cruzo.
O meu inglês é fraco. É incrível como noutro país, noutra língua, somos outras pessoas. Os meus colegas concordam comigo. Um colombiano, um francês, uma costa-riquenha, uma checa, uma polaca, um italiano, um espanhol. Enrolar os Rs, fazer soar os Hs. Distinguir beach de bitch, sheet de shit. Em Portugal i é i. Expresso-me mais do que nunca por imagens, por gestos, porque as palavras não me vêm à cabeça, muito menos à boca. O meu sotaque é outro, a minha voz, provavelmente também. Pareço ainda mais estúpida. Ainda assim, sinto que as pessoas gostam de mim. Tenho conhecido pessoas maravilhosas. Delicio-me com a disponibilidade que a maioria das pessoas tem para sorrir. Para falar descontraidamente com estranhos, para dizer uma graçola. Hipócritas ou não, dizem muitas muitas vezes desculpe, com licença, por favor, obrigada. Adoram filas. Nunca vi nada assim. O londrino adora uma fila e respeita-a religiosamente, e às suas regras intrínsecas, às variações, às filas duplas, à ordem de chegada. Nesta cidade, quem vê uma fila, mete-se nela (!). Diz a minha amiga Paz que podemos começar uma fila para lado nenhum, a qualquer momento, que com certeza alguém se vai meter nela sem saber para que é.
Há coisas de Portugal que se vêem muito melhor ao longe. Todos deveríamos experimentar sair de casa, de país, de língua. Para depois voltar, ou não. Mas para ver melhor. Para dar o devido valor às coisas.
Sou muito feliz em Londres.

6 de dezembro de 2011

o que eu gosto de mim

Quando penso nas coisas que já fiz a mim mesma, e que permiti que me fizessem. Quando penso no lugar escuro em que já estive e da força que foi preciso para me reerguer e proteger. Quando penso na falta de esperança. E no optimismo que um dia quase se me sumiu. Tudo aquilo de que precisei para aprender que o primeiro item na minha lista, a coisa mais preciosa que tenho, sou eu mesma. A minha mente, a minha alma, o meu ser. O meu corpo e a minha saúde. Nada se compara à riqueza de simplesmente ser. De decidir livremente e sem medo de julgamentos, o que fazer para ser feliz. Sinto um profundo orgulho do que sou hoje. Todos os dias me esforço por ser gentil e tolerante para todos aqueles com que me cruzo, mas sobretudo e sem hesitação, para comigo mesma.

7 de junho de 2011

rotina

Eight. To. Oxford Circus.

globe road
bethnal green station
barnet grove
brick lane
shoreditch high street station
primrose street (alight here for old spitalfields market)
liverpool street
poultry bank station
bread street
saint paul's station
city thameslink station
holborn circus
holborn circus fetter lane
chancery lane station

Um dia vou saber de cor todas as paragens que o meu autocarro faz. O oito. Trabalho há dois meses e meio numa das muitas lojas do Eat. A 113ª, para ser mais precisa. Um negócio milionário ao qual ainda me estou a adaptar. Onde não há tempo para reciclar a maior parte do lixo, onde o desperdício de comida é assustador, e ainda assim compensa. Mas onde a minha boa disposição e energia são valorizadas desde o primeiro dia, o fraco inglês perdoado, a palhaçada e o tom de voz alto incentivados. Não me posso queixar... adoro. Divirto-me todos os dias. Fui convidada a subir de cargo ao fim de um mês e meio, o que me deixou tão chocada quanto orgulhosa. Vou ser trainer, ao que parece.

Os clientes são incrivelmente simpáticos e muito bem educados. Pouco me importa se há cinismo nos constantes yes please, thank you very much, cheers! E como sorriem! Sorriem, riem, chegam a gargalhar. Talvez a maioria dos portugueses nunca se tenha apercebido de como somos sisudos, até se ver atrás de um balcão a encarar clientes. Depois há o sentido de humor britânico que se pode observar apenas de vez em quando, pois a maioria das pessoas nesta cidade é estrangeira. Pode-se apontar muitos defeitos aos londrinos, mas nunca vi pessoas tão tolerantes em relação à imigração. No nosso café apenas um dos dez funcionários é inglês.

Todos os funcionários são treinados para fazer tudo. Sobreviver ao stress, reagir depressa. Expor artigos, preparar iogurtes, breakfast muffins, cozer pão, bolos e tartes, fazer sanduiches, embalar sanduiches, etiquetar sanduiches a uma velocidade desumana. Desinfectar tudo. Varrer, lavar, esfregar. Restock. First in first out. Pôr sopa a fazer, carregar a sopa para a loja, servir sopa. Gritar hot soup! Verificar a temperatura de tudo o que é alimento. Etiquetar embalagens, operar a caixa registadora, tratar cada cliente como se fosse o único, dar trocos em libras. Fazer cafés. Todos os tipos de cafés, e estamos numa terrinha em que quem bebe espresso só pode ser italiano, espanhol, francês ou (obviamente) português. Aqui bebe-se muito leite (gordo). E chá, de manhã até à noite.

Às vezes tenho saudades de pintar. Especialmente quando vou a museus. Mas é muito bom ser bom noutra coisa, tentar outra coisa e ser-se bem sucedido. Arejar os neurónios, não pressionar a criatividade, não depender da criatividade para pagar as contas, não me preocupar (tanto) com as contas. Apanhar o oito, pensar em inglês, chegar a casa e ter dois amores comigo. O loiro e a morena. Uma família disfuncional na ala Este de Londres, entre muitos homens de turbante, mulheres de burca, alguns esquilos, corvos e a raposa que eu vejo todos os dias às cinco e meia da manhã, no parque da biblioteca.


30 de maio de 2011

Acredito cada vez mais que o que nos define enquanto individuos não requer esforço algum. Não é preciso contar anos de vida, dinheiro, conquistas, memórias. Não é preciso sequer autoconsciência.
A minha avó está a perder a memória. O que começou por ser engraçado, agora é assustador para ela e para nós. O que ela foi, o que ela conquistou, a sua vida e memórias vão-se esfumando. A minha avó desaparece em si própria. Faço-lhe perguntas sobre histórias que ela própria me contou e vejo-a pensar, fuçar no meio do pó da sua mente, angustiada e confusa, até encontrar a resposta.
No dia em que cheguei a Londres com a vida resumida a vinte quilos de mala e me vi numa multidão de 10 milhões de habitantes, comecei a pensar diariamente no que me define. O que é que me define, o que é que me distingue dos milhares de pessoas que também todos os dias chegam aqui com vinte quilos de vida numa mala. Quando retirada do contexto habitual, das minhas pessoas, dos meus objectos, só eu e a minha mente, fico a sós comigo mesma e observo-me com uma nitidez impressionante. Apercebo-me que sou um emaranhado de todas as marcas que me foram feitas por outras pessoas. Sou um emaranhado de gente. Surpreendentemente não me vejo a mim, vejo todos os que por mim passaram e em mim vivem. Sei hoje que a minha avó não é a velhinha confusa que fala comigo no Skype e pergunta a cada minuto se eu estou em Londres. Todos os dias. Todos os dias sou a minha avó. Tudo o que ela já nem se lembra que foi surge em mim em gestos e em expressões que teimosamente vêm ao de cima e dos quais só me apercebo quando já é tarde. E encho-me de amor e vida e esperança, porque sei que a minha avó nunca vai morrer. Está mais viva que nunca, à medida que eu envelheço.
Não sou as minhas convicções, as minhas ideias, os meus projectos, muito menos sou o que gostaria de ser. Sou o que faço aos outros, o que digo aos outros, o que marco de bom e de mau nas minhas pessoas, nas pessoas com quem contacto. Resta-me esperar até me ver definida.


25 de março de 2011

o blog dramático da pintora alérgica a tinta

Londres. Dissemos a nós próprios. Londres, está decidido. Pegámos no recheio da casa, vendêmo-lo, emprestámo-lo, demo-lo. Uma mala de vinte de quilos para cada e voar para Londres, sobreviver em Londres, viver Londres. Porque sim.
Nem toda a gente é abençoada como eu sou, e eu devia lembrar-me disto ainda mais vezes, e agradecer. Não só porque tenho amigos e família que me dizem vai, pais moídos de saudades que ainda assim se oferecem para patrocinar a minha aventura, um namorado que me dá sempre a mão independentemente dos meus delírios, e que todos, mas todos os dias me embala com as suas gargalhadas. Mas porque ainda me restam forças e egoísmo suficiente para perseguir os meus sonhos.
Podia ser em Portugal, em Lisboa, em Viana? Provavelmente. Mas mais provável ainda seria eu ter continuado inerte, sufocada pelas possibilidades, pelas muitas ideias, pelos poucos gestos, pelas perguntas (meu deus se eu parasse de fazer perguntas por um momento), pela incerteza e pelo medo. Haja pachorra para os dramas da vida. Ainda estou para me convencer de que a minha capacidade de adaptação às adversidades é uma qualidade.

Que bom é ter um cérebro. E um corpo saudável que responde, que reage. E que bom é ainda ter energia e juventude para me mexer, para me esforçar e para aprender tanto quanto preciso, enquanto existo. A qualquer momento tudo pode evaporar-se.

Londres é o meu novo amor. E ainda estou na fase do êxtase.

6 de dezembro de 2010

olhoooooo'tocolante!

autocolantes blog 1
O tempo e' de crise e se ha coisa em que as pessoas sabiamente comecam por poupar (ou cortar radicalmente) e' na decoracao do lar. E e' nesse momento que os decoradores em geral e as pintoras de paredes em particular comecam a ouvir a crise a bater-lhes 'a porta.

autocolantes parede

Por isso, queridas pessoas, aqui esta' uma versao muito mais acessivel (mas ainda assim no tamanho original e mesmissimas cores fofas) dos meus bonecos primaveris! Um conjunto de autocolantes que aderem 'a maioria dos suportes - nao so paredes! - e que visualmente causam o mesmo efeito. Estou muito contente com o resultado. Experimentei estas flores na parede (ultra rugosa) do escritorio de ca de casa so para fotografar. Coisa mai linda...

Estao a venda aqui.

1 de dezembro de 2010

o senhor cego do metro

Todos os dias, por volta das 8h da manha, ele entra na mesma estacao de metro que eu. Vejo-o todos os dias. Ouco-o todos os dias com a mesma ladainha. Olho para a janela e vejo o reflexo dele a passar entre as pessoas. Leva uma mochila as costas e parece-me um menino. Como e' que uma pessoa cega escolhe a roupa? Sera que ele sabe - que alguem lhe disse - de que cor e' a mochila dele?
O senhor cego da linha verde pede, sem parar. Troca de carruagem. Continua. Faca chuva ou sol, la esta ele. No metro vazio dos feriados ou 'a pinha, em hora de ponta. Nao tem uma mao e e' com esse mesmo braco que ele segura o copinho das esmolas. Uma vez observei como as pessoas se afastam dele na plataforma, mesmo as que estao sentadas e em quem ele inevitavelmente tocaria com a bengala (um cabo de vassoura) ao passar. Levantam-se, ele passa pelo banco vazio, e voltam a sentar-se. Parece um jogo. A cabra cega mais cruel de sempre, em que o cego nunca desvendara' os olhos e, ao passar por tanta gente que se desvia, parece estar sozinho na estacao do Martim Moniz.

Ouco-o a repetir "O deficiente agradece a quem possa auxiliar..." e so penso meu deus, se me cansa tanto ouvi-lo durante um minuto (e sinto que o meu cerebro mirra nesse interminavel minuto em que ele percorre a carruagem) imagino o que e' dize-lo e ouvi-lo o dia todo. Como e' que ele nao desiste? Como e' que ele esta la todos os dias? Sera que houve um dia em que se meteu na cama a comer, como eu faco? E eu tenho as duas maos e os dois olhos. Escolho a minha roupa na loja, no armario. Escolho o meu lugar no metro. Mas nao tenho a forca de vontade que ele tem, a concentracao e o empenho em alcancar um objectivo a que me proponha.

Ja ha mais de uma semana que nao faco um desenho. Sinto-me culpada por isso. E ainda mais por, em vez de desenhar, me apetecer meter na cama a comer.

13 de novembro de 2010

pediu um copo de leite e uma torrada

Esperou e desesperou pela torrada, porque a tostadeira do cafe onde eu trabalho deixa os mais calmos impacientes. Depois disse "Tire-me um cafe por favor, menina." e ao pagar, no mesmo tom serio e educado, disse-me "Posso dizer-lhe uma coisa? Nao me leva a mal?" e eu logo "Oh meu deus, sim." Leite azedo? Torrada horrivel? Cafe caro? Tchan tchan tchaaaaan...

"A menina tem um sorriso maravilhoso. Parece que esta sempre feliz, sempre a rir. Tem um sorriso maravilhoso. Maravilhoso."

25 de outubro de 2010

mijn jongen

Tu, coisinha constipada que ressona no sofa. Nao revires os olhos quando leres isto. Ik hou van jou.

23 de setembro de 2010

as capas da revista happy deprimem-me

Aquelas mulheres de 2 metros de altura com pernas de alicate, ombros para dentro, caras de absoluto tedio e, a coroa-las, as letras garrafais: HAPPY. E ainda bem que esta escrito que e' para a gente gorda mas feliz entender. Imagino a sessao fotografica. Encolhe a barriga, esses bracinhos mais ao pendurao, verga-te so um bocadinho mais, encolhe encolhe encolhe... ja esta!

E' por isso que eu vejo a vocalista dos The Gossip toda nua numa capa de revista e deliro. Ela faz por mim e por todas as mulheres reais (mais ou menos felizes) muito, mas muito mais que qualquer revista dirigida a gajas modernas. Muito, mas muito mais que qualquer ideal de beleza feminia, numa infeliz capa da Happy.

26 de julho de 2010

como ousais duvidar de minha palavra?

Para quem ainda não acredita que eu participei no SYTYCD, aqui fica a minha mais recente actuação:



E caso o video não seja suficiente, é favor perguntar a quem me conhece se não é verdade que quando eu não estou a pintar ou a tirar cafés, estou a fazer três piruetas seguidinhas.
E sim, sou mulata!

22 de julho de 2010

se esta rua fosse minha

No proximo Sabado, a partir das 14h, estarei com a Helena a divulgar o nosso muito querido projecto: Desenhar Sorrisos. Aparecam faz favor!

a minha vida e as voltas que a vida da

Estou em Alfama. O meu amor nao e' portugues mas creio que me entende e me ve melhor assim. Sem acentos e sem cedilhas, como o teclado do seu computador. Compreende-me melhor que milhoes de portugueses.

Em Alfama as pessoas falam alto. E dizem palavroes. Escusado sera dizer que me sinto em casa.
Alfama nao e' a Lisboa por onde eu entrei. Subo de electrico, aos trambolhoes. Digo bom dia aos vizinhos. Ha bebedos. E caes e gatos. E muitos turistas.

Sou das poucas pessoas que gostam de pombos.

O ceu de Lisboa tem qualquer coisa. Nao entendo o que tem de tao diferente de Viana que faz com que as nuvens se formem a milhas do chao. Isso da-me a estranha sensacao de que o ceu nunca esteve tao alto.
A estacao de Santa Apolonia e' azul bebe'. Dum azul bebe' tao bebe' que eu acho que foi um acto de coragem mandar pinta-la daquela cor. E' linda. E tem um pingo doce que so fecha as 23h.

Um dia eu ia no carro com a minha prima, decidida a tornar-me mais ilustradora e menos pintora de quartos. Tive um pequeno ataque de ansiedade e choro quando vi que tinha de tomar decisoes e passar ao ataque. Passar ao ataque, concluimos, implicava arranjar um trabalho qualquer em part-time. De manha. Qualquer coisa que nao me exigisse esforco nenhum e do qual eu gostasse, que e' para depois eu chegar a casa e ser ilustradora durante o resto do dia. Assim fizemos.

Trabalho num cafezinho amoroso. Um cafe sossegado onde a coisa mais dificil que tenho de fazer e' servir bebidas e chegar com elas 'as mesas sem entornar nada. De resto, exploro os meus talentos: dar de comer a quem tem fome, conversar e rir. Sonho com um cafezinho meu onde havera apenas sobremesas, cafe e sumos. Nunca pensei que dar de comer e beber a pessoas (fora de casa) me fizesse sentir tao feliz.
Os clientes falam baixo. Pedem italianas, cafes sem inicio e cupinhos de agua. Sussuram os pedidos, o que faz de mim a funcionaria surda do estabelecimento. A maioria e' muito gentil. Diz "ola como esta?", "por favor" e "obrigado". Olham-me nos olhos e sorriem. Ha dias uma senhora fez-me uma festinha no braco.

No proximo Sabado vou estar em Viana. A divulgar este projecto.

21 de junho de 2010

ai jasus bora votareeeeeee

Sim, eu que nunca gostei de desporto porque odeio competição, e que nunca gostei de concursos em geral, quero ganhar o concurso Mundo Funny! Sim, preciso da vossa ajuda e paciência porque a minha honestidade não me permite fazer batota. Mas já votei! E pode-se votar em várias ilustrações, o que é fixe. Primeiro faz-se o favor à Natachinha, depois vota-se na ilustração de que realmente se gostar mais.

Para votar no elefante-borboleta (votar é dar estrelinhas!!!) clicar aqui.

Para votar na girafa-borboleta (com estrelinhas faz favor) clicar aqui.

Obrigada irmãos!!!!!!!!!!

19 de junho de 2010

concurso mundo funny

Irmãos! Votai, irmãos. Uma vez apenas e sem batotas. Votai em mim a partir da próxima segunda-feira, dia 21. Registai-vos em mundofunny.com e votai numa das minhas ilustrações, para que eu ganhe 300 euroooooooooooooos e para que milhões de t-shirts saiam à rua com um dos meus bonecos lamechas.

Obrigada.

girafa-borboleta

elefante-borboleta

18 de junho de 2010

eu e os elefantinhos

Se tudo correr bem, a partir do dia 21 esta minha ilustração vai a votos no site Mundo Funny da Throttleman.
Registem-se, por favorzinho, e BOTEM EM MINHEEEEEEEEEE!

14 de junho de 2010

didi

Enches-me de orgulho.

9 de junho de 2010

a minha avó desmemoriada

Pergunta mil vezes as mesmas coisas. Como se chama o meu namorado, se é português, se eu durmo com ele. A minha avó só se lembra do essencial. Que eu sou a Natacha e que em 90% das vezes estou a gozar com ela. "Eu cá não durmo com ninguém, sou uma mulher séria!" - respondo-lhe.

A minha avó é apaixonada pelo Rui Veloso e já foi falar com ele para lhe pedir um autógrafo. Quando lhe digo que o meu namorado mandou beijos para ela, responde "Quem é esse?" mas se lhe ponho esta música ela sabe a letra todinha. E canta!

30 de maio de 2010

valha-nos um domingo de sol


Bom dia! :)

28 de maio de 2010

O meu blog anda careca. Meio despido.
Eu estou cansada de ser plagiada. E de ver plágios. Estou farta de gente que tem imaginação a menos e lata a mais. Perdi a vontade de pôr aqui as coisas que crio e de que mais gosto. É só fazer uma pequena pesquisa e encontram-se facilmente as cópias mal amanhadas do meu trabalho à venda. Puta que os pariu. É o que eu digo cá em casa. Mas no meu blog cor-de-rosa não posso.
Eu sei que não deveria ser assim. Há tanta gente que gosta do que eu faço, que me apoia e me respeita. Tenho de aprender a lidar com isto. Estou cansada. Ser artista e tentar viver do que se cria pode ser uma valente merda. Sinto que poucos entendem o que é passar uma vida toda a desenhar, a estudar, a aprender, a gastar dinheiro aos pais para pintar e desenhar mais, a desenhar e a pintar para poder juntar dinheiro e assim continuar a desenhar e pintar. A criar. A ser minimamente honesta. A recusar fazer cópias de outros sem a devida autorização. Deixem-me em paz com o Winnie e a Kitty, que eu gostava tanto deles e agora já nem os posso ver.
Quem, como eu, escolhe o caminho difícil da originalidade, recebe como recompensa o roubo por parte dos que escolheram o caminho fácil. Puta que os pariu. Era o que eu diria agora se não estivesse a escrever no meu blog cor-de-rosa.

11 de maio de 2010

uma aventura no gatil

Segunda-feira:
Os dois elementos humanos dirigem-se a Monsanto para adoptar duas gatas.
Ultrapassam com alguma dificuldade a terrível prova das jaulas, em que são assediados por vários animais de rua/abandonados.
O elemento humano do sexo feminino é derrotado ao fim de minutos, por 5 gatos adultos de olhar vazio e 1 cachorrinho que lhe lambe a mão num golpe baixo e certeiro através das grades. Desconcentra-se totalmente do objectivo da sua equipa e chora como se não tomasse antidepressivos.
Escolhidos os elementos da equipa felina e limpas as lágrimas, os quatro jogadores dirigem-se a Alvalade.

A equipa humana joga com os conhecimentos da casa:
- Anos de experiência com gatos
- Paciência em doses generosas
- Teimosia q.b.
- Amor e carinho infinitos

A equipa felina joga com os conhecimentos da rua:
- Toda a comida é bem-vinda e deve ser devorada enquanto existir
- Toda a caixa com areia não passa de um elemento decorativo inútil que pode e deve ser ignorado
- Todo o ser humano deve ser evitado

Terça-feira:
A equipa felina apanha-se a sós com o elemento humano do sexo feminino.

Resultado actual do jogo:
Gatos alimentados - 2
Gatos hidratados - 1
Gatos visíveis - 1
Gatos evaporados - 1

Chichis na caixa - 2
Chichis na sanita - 1
Cocós na caixa - 0
Cocós no tapete da casa de banho - 1
Cocós debaixo do sofá - 2
Vómito felino no chão - 2
Vómito felino no sofá - 1
Experiência de quase-vómito humano - 1

Incensos queimados - 2
Máquinas cheias de roupa cagada e vomitada - 2

6 de maio de 2010

ao ataaaaaaaaaaqueeeeee!

ao ataque!

Tenho saudades dos meus alunos e do meu enteado. Das brincadeiras típicas de rapazinho, em que tudo é horrível e assustador e assassino e eles são os super-heróis mais corajosos que já se viu.


Na loja. :)


Quero escrever histórias e ser ilustradora. Quero sim.

íamos no metro

Às vezes nem me apercebo do que é ter de lidar com alguém que (sobre)vive da própria criatividade.

Ultimamente eu sinto que ando mergulhada entre elefantes, ratos e molduras. E algo me diz que arrasto para dentro da minha mente-sopa-de-letras aqueles de quem mais gosto.
Íamos no metro e o T. deu-me esta ideia de pôr um elefante no quadrinho de baixo, a fazer qualquer coisa com a tromba no quadrinho de cima.

elefante

Agora estou tão apaixonada por esta ilustração que já só penso em pintá-la numa parede, ou escrever uma história, ou qualquer coisa que leve a outras tantas ilustrações do género. Quero que o meu trabalho seja só isto, porque isto faz-me sentir muito feliz.

O original estará aqui brevemente, e vai custar-me muito largá-lo. O meu professor Paulo Almeida chamava a isso lamber a cria - "Natacha, não lambas a cria...".

coisas que eu gostaria de pôr no meu blog

Isto e isto.

5 de maio de 2010

hehehehehe!

elefantes em molduras

Mais um díptico pateta. O que eu me divirto sozinha...
O quadrinho de cima é para ficar mesmo inclinado! Coisa mai fofa.

E agora, ainda alguém me leva a sério?


Mais pormenores aqui.

4 de maio de 2010

eu e as moldurinhas

ratinhos

pormenor

oh não.

Hoje o meu café não estava bom para beber mas esteve óptimo para pintar.

Há dias em que tenho a certeza de que quando for grande vou ser ilustradora de histórias muito tontas.

Estes dois ratinhos também estão na loja. E a minha mente fervilha com mais ideias para dípticos.

3 de maio de 2010

ainda um elefantinho

pormenor
Vou fazer um postal de aniversário com esta imagem. Mas a colagem original já está numa moldurinha, pronta para viajar até às mãos de quem a quiser comprar.
Adoro pensar que de um desenho tão pequenino, onde se vai rabiscando uma ideia conforme ela surge, poderá um dia nascer um postal impresso nas mesmas dimensões, ou uma pintura mural centenas de vezes maior.

na mão

moldura

Parabéns a quem fizer anos hoje! :)

29 de abril de 2010

então foi assim

Eu subi a Rua do Salvador a pé, cheguei à Travessa do Açougue, atravessei cuidadosamente a estrada e a carrinha que vi lá ao longe e cujo condutor me viu também - que eu sou grande e colorida pelo menos ao sol da manhã - desce a acelerar na minha direcção, passa-me uma tangente (secante) e acerta-me com uma pranchada no ombro quando eu já estava a pôr o pé no passeio.

Ouviu-se um baque que ecoou em toda a Alfama.
Eu vi estrelas e ouvi sininhos até que me apercebi de que o espelho lateral da viatura tinha acabado de me atingir violentamente. E se eu medisse menos 20cm, neste momento estaria morta e decapitada.
Fiquei a choramingar de mão no ombro e a ver a carrinha assassina sumir ao longe.

Se eu gosto de Lisboa? Adoro.
Se eu gosto do trânsito de Lisboa? Odeio com todo o fervor.
Se eu tenho carta de condução? Tenho.
Se eu pudesse o que é que fazia ao sacana que quase me amputou o meu braço direito, coisa mais rechonchudinha e branca do mundo, fonte dos meus rendimentos? Seguia-o com um tractor e fazia dele pizza antes mesmo de chegar ao Largo das Portas do Sol.

Se eu sei os nomes de todas as ruas e largos de Lisboa? Não. Estou só a armar-me.

vai passar

Para mim um bom colo não é fácil de arranjar - e não me refiro a tamanhos, que os meus melhores colos vêm de pessoas pequeninas.
Apesar da tristeza que me possa trazer, é tão bom saber que há quem recorra ao meu colo para se refugiar e chorar à vontade.

vai passar

moldura

pormenor

Ultimamente tenho-me visto a reconfortar pessoas de quem gosto tanto, que têm sofrido daquilo que é para mim a pior das dores.
Chorar ajuda, mas o melhor para aliviar a dor da alma é acreditar que vai passar. Porque passa.

Este desenho nasceu no meio de muitos rabiscos mas acabou por ficar como eu queria. Agora está numa moldurinha e vai directo para a loja.

27 de abril de 2010

primavera

orelhitas

meio de transporte

primavera

A Primavera vem cheia de bebés. Eu fico particularmente emocionada com as folhinhas que nascem nas árvores, mais do que com as flores que desabrocham por todo o lado.
Há um mês vi uma mãe pata com 11 bebés e tive um ataquinho de nostalgia...
De Dezembro até Março pintei cinco quartos de bebés que conheci somente em forma de barriguitas. Hoje já estão quase todos cá fora.
Pintar quartos de bebés e contactar com pais grávidos é maravilhoso. É como se fosse Primavera mais vezes.

25 de abril de 2010

a pintora e o rímel

A pintora observa que o seu rímel passou do prazo há mais de quatro anos e desconfia que é por isso que a textura da tinta já é de tal modo pastosa que as suas pestanas não ficam pintadas, ficam aglomeradas por uma camada de crude.

A pintora resolve facilmente o problema, diluindo a tinta pastosa com a de um outro rímel também expirado mas ainda líquido.

A pintora mexe mexe, testa a elasticidade da tinta e conclui que tem razão. Uma tinta só passou do prazo quando já tem bolor e cheira incrivelmente mal.

A pintora deseja secreta e ardentemente que nada de mal aconteça aos seus dois olhinhos verdes, que são pitosgas mas muito estimados.

eu ontem chorei

Eu,
que desde o dia em que me desfiz em lágrimas na frente dum neurologista horrorizado,
que quase me enfiou as drogas pela boca a baixo,
que me acalmaram e me deixaram pedrada durante meses,
que me anestesiaram de tal maneira,
que nunca mais chorei.

Assim de chorar e sentir as lágrimas a descerem pela cara,
a percorrerem o maxilar e a caírem no peito.
Independentemente dos dramas,
dos horrores por que passei no último ano,
os químicos que me correm nas veias impedem-me de chorar a sério.

Ontem chorei um bocadinho ao ouvir esta música, que tem a letra mais bonita que já ouvi na vida.



:)

24 de abril de 2010

ratinhos radicais


pormenor


ratinho mergulhador


equipamento de mergulho xxs

Para dois gémeos que ainda estão juntinhos a crescer no forno. O Diogo e o André têm o quarto mais fofo do mundo e até eu fiquei surpreendida ao ver que uma pintura tão simples funcionou como a cereja no topo do bolo.
Vou fazer uma coisa especial com estes dois ratinhos. E está para breve!

futebóle




chuta p'a golo


guarda-redes


Futebóle é como os meninos do interior de Biana (os meus alunos) dizem futebol. Ainda hoje uso expressões deles e ainda hoje a Di diz Tenho caluore, preciso de bento! graças ao meu aluno Zé Pedro.

Estes dois futebolistas tiveram um parto muito difícil. Se eu fosse a Ana, não teria a paciência que ela teve comigo. As minhas vidas pessoal e profissional atropelam-se mais vezes do que eu gostaria... Ana, muito obrigada. E beijinhos :)

22 de abril de 2010

a razão da minha ausência

Fui aos EUA participar no So You Think You Can Dance com o meu amor.
Eis-nos:

18 de abril de 2010

pinturas (e não só) em lisboa

Eu fugi para Lisboa. Primeiro porque precisava, segundo porque o meu irmão me deu abrigo, e terceiro porque em Lisboa há mais trabalho. É o êxodo rural.

Em Lisboa encontrei luz, calor, muitos sotaques, pouquíssimos palavrões, uma rede de transportes públicos que fascina qualquer saloia como eu, família, velhos e novos amigos e uma paixoneta que se transformou em amor palpitante.

Moramos na rota dos aviões - as janelas lá de casa abanam quando há aterragens. Abanam de tal maneira que nem nos apercebemos do sismo.
Enquanto fui digerindo a mudança o tempo passou. Ainda não estou totalmente lá, mas quando venho cá a cima faz-me falta aquilo tudo.

Então é isto. Vivo na capital mas venho ao norte e vou ao sul. E pinto, como sempre, onde houver paredes a precisar de histórias.

purpurina

na lua

fadinhas no jardim

magia


Estas fadinhas foram pintadas para três irmãs. Lindas lindas lindas. Pequeninas, rechonchudas e que faziam perguntas (e afirmações) deliciosas sobre o meu trabalho. A bebé riu-se de mim com sarcasmo quando lhe mostrei a tinta verde dentro da lata.
:)

estou biba

Quando até a nossa mãe reclama porque o blog está parado e a nossa irmã algarvia nos pergunta se o blog morreu para sempre, é o momento de tentar uma reanimaçãozinha.

Os últimos meses foram de mudanças.

Ontem fui oradora (uau) numa palestra (uaaau) sobre percursos académicos e realidades profissionais, dirigida a alunos de artes da escola secundária onde eu andei há 12 anos.
Depois de muito falar sobre os meus bonecos e de me aperceber que se calhar o meu futuro é na stand up comedy, acabei por dizer o que me parece ser a minha lição de vida:

"Quando fazes algo de que gostas mesmo, os piores momentos são suportáveis."

Voltarei brevemente com pinturas e palermices. Prometo.
Beijocas

12 de fevereiro de 2010

1 de fevereiro de 2010

escala de dor da natachinha

1. Entalar o dedo médio numa janela de guilhotina
2. Queimar todo o polegar com caramelo acabado de fazer
3. Injecção de penicilina
4. Depilação a laser nas virilhas*
5. Enxaqueca com E maiúsculo
6. Depilação com cera nas virilhas

*As meninas da Clínica do Pêlo que tiveram o prazer de me torturar com uma arma do Star Wars agradecem e dizem que a sua ambição é alcançar o pódio.

20 de janeiro de 2010

eu também já vi o Avatar

... duas vezes. Na primeira adormeci e babei o ombro da mi primi. Dormir e sonhar com os óculos 3D não é para quem quer, é para quem pode. Na segunda vi tudo e quando encostei a cabeça ao ombro do meu belo acompanhante (tão romântica... na teoria resulta) ele empurrou-me e disse "Nem pensar, não vais dormir outra vez!"... E eu respeito um homem que usa óculos escuros no cinema.

Como toda a gente, eu também quero ter um avatar. Mas qual floresta e comunhão com todos os seres vivos? Qual arco e flechas? Eu quero é aquelas maminhas azuis aqui em cima. E correr feita louca sem soutien.

9 de janeiro de 2010

eu e o meu psiquiatra

Naquele ambiente sério. O consultório tem uma decoração sóbria e aconchegante. O meu psiquiatra tem barba branca e eu gosto dele. A iluminação é suave, parece que estamos ao pé duma lareira. Não fosse o tema das nossas conversas (a minha mente-sopa-de-letras) e até me atrevia a sentar no colo dele. "Pai Natal, és tão fofinho... já te disse que odeio o Natal e alucino contigo enforcado em tudo o que é janela e varanda deste nosso Portugal?"

A Di veio comigo à última consulta. Ficou lá fora à espera e quando eu saí disse-me "Nat, ouve-se tudo. Quer dizer, não se entende o que se diz mas tu falas muito alto..."

Minutos antes, no consutório:
- Blá blá blá...
- Blá...
- Então e como vai a sua vida sentimental?
- Muitobemobrigada!!!
- ...
- Ihihihihihihihihihi!
- Não me quer contar?
- QUERO! Uhuhuhuhuhuhuhuh!
- Se não me quiser contar não há problema, só acho que é uma parte import...
- Mas eu quero!
- ... eu não sou curioso. Já imaginou um psiquiatra curioso, que quer saber ainda mais da vida das pessoas quando já sabe tanto?...
- Ahahahahahahahah!
- Então?...
- Blá blá blá blá blá blá blá blá ahahahahahahahah blá blá blá blá blá ihihihihihhi blá blá blá... ai ai... blá blá blá uhuhuhuhuh!

29 de dezembro de 2009

querido continente (parte 358)

Meus parabéns. €1,49 já é muito bom. E tendo em conta que a música dele é das coisas mais traumatizantes que já ouvi na vida, se calhar volto a frequentar-te...

E que tal baixares o preço do polvilho para os €1,o9 de antigamente? É que já tenho saudades de comer pão de queijo...
Obrigados.

18 de dezembro de 2009

e um referendo sobre os referendos? nom?

Não há pachorra. Perguntar ao zé povinho (que inclui gente para quem ser homem-sexual é violar criancinhas) o que pensa do casamento alheio é aquilo a que eu chamo gastar papel à toa.
Tanta árvore a morrer em vão.

8 de dezembro de 2009

se acaso eu morrer

Se acaso eu morrer e ficar desfigurada.
Se não sobrar o maxilar com os parafusos, nem o polegar com a cicatriz, nem coisa nenhuma que me identifique facilmente.
Não percam tempo com amostras de ADN.
É abrir o cadáver e ver o conteúdo do estômago e intestinos.
Se tiver no mínimo 55% de cacau.
Sou eu.

E descansem.
Morri feliz.

27 de novembro de 2009

pedido de ajuda

Ainda há pessoas boas. Esta cadelinha, a Maya, arranjou um dono na Alemanha. Já tem boleia do Porto até Lisboa e também quem a leve de avião até à sua nova casa. Só não tem quem lhe dê abrigo e muito mimo nos dias 30, 1 e 2.

Alguém pode ajudar?

26 de novembro de 2009

apetece-me dizer duas coisas

Primeira coisa:

Nunca se deve dizer a alguém que engordou, seja meio quilo, seja trinta quilos. "Ah estás tão gordo!" ou "Ehehehe, engordaste um bocadinho..." ou "Ai que gorda!!!" ou "Estás com uns quilinhos a mais?!" ou "Ai o que te aconteceu!!!?"

Sim, porque isto existe. Existe e - pasmem-se- normalmente quem engorda (seja meio quilo, seja trinta quilos) é a primeira pessoa a notar e não precisa que lhe digam. Muito menos em voz alta, muito menos com tom de asco, muito menos quando não se via a pessoa há séculos e haveria tantas outras coisas para dizer primeiro. Meu deus.
Eu recentemente voltei ao mundo da normalidade (alerta ironia). Posso comprar roupa em lojas de gente. Os números normais servem-me. E quanto mais me observo neste mundo mais horror sinto ao lembrar-me de quando tinha 15 anos e ouvi coisas inimagináveis da boca de pessoas conhecidas. Porque subitamente engordei dez quilos. E os outros têm direitos sobre o nosso corpo e sobre a nossa aparência e sobre a nossa saúde. Eu não sabia disto, aos 15 anos, portanto fiquei surpreendida e sem reacção, de todas as vezes. E muito magoada. Mas é assim. Os magros mandam no mundo. Os normais. Mesmo que não sejam pessoas próximas, mesmo que não saibam o que se passa na nossa vida, mesmo que não nos vejam há mais de cinco anos. Ai que gorda!!! "Põe os olhos na tua mãe!", disse-me um médico. Já estávamos nós a sair do consultório. Eu tinha 15 anos. Não sei quantas pessoas estavam na sala de espera. Mas ouviram com certeza. E eu gigante ao lado da minha mãe, sempre pequenina e elegante. Saí dali do tamanho de uma formiga. A minha auto-estima ficou pelo caminho.
Se eu soubesse o nome desse ortopedista escrevia-o agora aqui.


E por falar em médicos. Segunda coisa:

Ontem fui ao meu novo-e-para-sempre-amado-ginecologista. E, mais uma vez chegada ao mundo normal, onde as coisas acontecem como deve ser, saio horrorizada com o meu passado. E agora posso encher a boca para dizer que o último ginecologista onde fui, no hospital particular em Viana é um incompetente. Ignorante, retrógrado, insensível e preconceituoso. Ainda bem que não lhe contei da minha faceta sado-masoquista ou do fetiche com animais de grande porte. Acho que ele teria chamado a polícia.
Eu já nem exijo que a pessoa que calça as luvas e nos enfia instrumentos estranhos nos países baixos seja delicada. Mas não é suposto confiarmos no nosso médico? Não é suposto ele esclarecer-nos e deixar-nos minimamente à vontade para falar de (oh meu deus oh meu deus) sexo? Da nossa vida íntima, sem medo ou vergonha. Assim como eu faço com o meu Dr R... assim como deveria ser com um... como é que se diz? Ah! MÉDICO!

25 de novembro de 2009

ai jasus que começam as reclamações

Estou viva! Que mania esta de se manterem informados sobre a minha vida através do blog... se soubessem o que eu sei telefonavam-me a perguntar pelas novidades, vos garanto. Há coisas que não se publicam na tia net, minha gente forreta.
Posso adiantar que estou óptima. Feliz da bida. Não posso deixar de reparar que daqui a um mês é o dia N, é verdade... e que já está tudo TUDÓ decorado e iluminado. Náuseas. É o que sinto. Náuseas. Mas o doutor não me vai deixar ficar mal e vai dar-me colinho antes da depressão sazonal sequer se aproximar dos meus neurónios guerreiros.
Agora vou voltar ao trabalho está bem?
Beijos na boca.


*momento imensamente lúdico no vermelho devagarinho (oba oba)*
Curiosidade que ninguém sabe sobre mim (coisas do fei sbuc oh meu deus oh meus deus):
Apenas uma destas cinco coisas me dá vontade de rir. Qual é?
1. comunicar a alguém que alguém morreu
2. pessoas a cair
3. alguém muito mal vestido
4. cócegas nos pés
5. mentir

8 de novembro de 2009

postais de natal

A minha amiga Raquelita (minha bruxinha adorada cá beijinho ai que saudades) fez uns postais de Natal que quase me fizeram chorar de tão lindos que são. Babo-me de orgulho...
Tenho a honra de os pôr à venda aqui!

clicar na imagem para ampliar

Conjunto de 5 postais + envelopes | 10x15cm
preço: €6 (inclui portes de envio)

Para comprar basta contactar a autora através do email
rfelgueiras@gmail.com

30 de outubro de 2009

my heart beats too loud*

Andei tanto tempo apagada, quase extinta.
Agora não caibo em mim.
Não é justo ter de se conter as coisas boas que se sente. Não é. O meu coração às vezes bate tão alto que se torna ensurdecedor. Não posso, não consigo fingir que não o ouço.
Não dou nome às coisas que sinto, só sei que as sinto intensamente. Cheguei a pensar que seria realmente bipolar. Porque já me vi tão intensamente no outro lado. Mas quando o médico me perguntou se eu pensava em pôr um fim a isto, até eu fiquei chocada.

A verdade é que eu sinto coisas boas, na maioria das vezes. Ora, estatisticamente, eu não passo de uma pessoa feliz. Sincera e desavergonhada.
Não caibo em mim.

É por isso que eu vou para a Guiné. O meu pai vai ter um ataque. Mas tem de ser. Por mim.
Não tenho muito juízo, não tenho dinheiro e às vezes não tenho norte. Mas no dia em que vi aqueles bebés todos de braços estendidos para o ar, a competirem por aquilo que a mim me sobra, tive a certeza de que existe pelo menos um lugar na Terra onde eu não serei mal interpretada.

*

28 de outubro de 2009

algures na selva


A savana e a floresta tropical só se cruzam na fantasia, não é?... Se até eu fico confusa, imagino as crianças.
A não ser que façamos por investigar, somos permanentemente aldrabados acerca da vida dos outros animais. Depois é natural que ninguém se choque ao ver elefantes em contacto com cimento, chimpanzés em contacto com grades e golfinhos em contacto com vidro. Mas isso ficará para um dos meus posts mega-vegetarianos-ultra-radicais-e-super-moralistas... ou não.

Eu decidi que nunca mais iria a um jardim zoológico, quando era ainda pequena. Tinha talvez 12 anos. Estávamos no Zoo de Lisboa e eu fiquei muito tempo a olhar para os olhos dum gorila. E ele para os meus. Também dei de comer a um tucano através da rede que o separava de mim. Achei que dar amendoins e bolachas aos animais me faria sentir melhor. Mas nada me aliviou tanto como ver-me dali para fora. E não, obrigada, eu não quero visitar o novo zoo de lisboa. Não por enquanto.

O conceito de selva em que todas as espécies se reunem é muito humano. Mas gosto dele. Algures nos livros, nos filmes, nas salas de aula, nos sonhos, nas pinturas. Onde toda a informação se cruza e (nos) confunde. Algures, muito longe da verdade, os animais juntam-se e riem-se. Felizes em comunhão uns com os outros e, já agora, connosco também.

Algures, no quarto dum bebé de um mês e meio. Que se riu para mim com todas as gengivas que tem.
:)

antes

liana

à espreita

cucu