27 de setembro de 2013

mãe natureza

Foi num programa chamado what not to wear que ouvi isto, esta frase que me ficou gravada e que ecoa até hoje na minha mente. A mulher que não gostava do próprio corpo e que por isso não se "vestia bem", e o apresentador que lhe dizia qualquer coisa como "o teu corpo é uma máquina de vida que trabalha para se manter bem e saudável, devias amá-lo pelo que ele é." Desde daí que vejo o meu corpo com outros olhos. Este corpo que eu já tanto maltratei, que odiei na minha adolescência, este corpo a que família, amigos e estranhos chamaram gordo quando eu não sabia como reagir, este corpo que dá abrigo à minha mente, às vezes mais, às vezes menos perturbada. Nunca me falhou, este corpo. Foi há poucos anos que tive esta espécie de epifania. Que este é o único corpo que terei na vida, saudável e tão forte apesar de tudo, sempre a regenerar-se, sempre. Foi mais do que uma reconciliação, foi como apaixonar-me pela máquina de vida que sou.
Quando engravidei já estava em estado de graça. E no dia (grávida de poucas semanas) em que vi as minhas mamas mudarem de forma e de cor soube que de nada valeria resistir ao poder da mãe natureza. Rendi-me. Encarreguei-me apenas de me manter feliz e fazer uma dieta o mais saudável possível. Sempre tive a certeza de que o mais importante era manter-me cheia de amor e gratidão e desejar que a natureza fosse generosa comigo. Sou um animal, dizia a mim mesma. Sou um animal como qualquer outro e há uma força superior a mim a governar o meu corpo neste momento. Durante os nove meses este foi o meu mantra. Além disso houve vários momentos chave que me prepararam para o parto. Coisas que ouvi ou li e que fui arquivando na minha mente, para que nunca fosse ela a apoderar-se do meu corpo, e sim o contrário. A namorada dum amigo contar-me que a mãe se preparou sozinha com uma cassete de hipnoparto e não usou drogas. O Stephen Fry no QI a dizer que a percepção da dor depende da ansiedade que se sente e a tensão que pomos no nosso corpo. A minha avó, a minha mãe e a minha tia terem tido os seus filhos de parto normal focadas na ideia de que a dor terminaria com um bebé nos seus braços. A aula de yoga que fazia no youtube em que a dor era referida como um sinal de que tudo estará a funcionar bem e que as contracções são o meu corpo a abraçar e empurrar o meu filho até que ele se encontre comigo cá fora. Li muito. Li tudo o que me apareceu e vi muitos, muitos videos. Mentalizei-me de que o parto é algo imprevisível e que tanta coisa pode correr mal, mas só imaginaria o meu a correr na perfeição, o mais natural e livre de químicos possível. Decidi que passaria pouco tempo na cama, que usaria a Gravidade para acelerar as coisas, que manteria as pernas fortes e ágeis para passar horas a pé. Trabalhei até ao final do oitavo mês, rodeada de pessoas a dizerem-me que descansasse, que me sentasse. Só o Faneca é que sempre me deixou fazer o que quisesse. E eu só parava quando o inchaço dos pés já chegava às coxas. No fim já tinha mais de 13 quilos em cima e o meu corpo continuava a pedir acção. Costurei como uma louca, arrastei móveis, montei a nossa cama nova sozinha. Enquanto o meu corpo me pediu para me mexer, eu mexi-me. Há qualquer coisa de primário, de tão animal e tão instintivo na gravidez. Dar ouvidos ao meu corpo foi o melhor que eu podia ter feito.

16 de setembro de 2013

diogo

O Diogo já vivia em mim há mais de oito meses, já o sentia a mexer há cinco, já me conhecia as rotinas, os gestos, e eu os dele. Já éramos cúmplices antes de ele nascer, já gostava dele, muito. Mas quando ele veio para os nossos braços foi como se uma onda do mar me engolisse e me levasse num turbilhão para o que de mais profundo e animal existe em mim. E estar num quarto, numa casa, num planeta onde o Diogo existe é como se uma orquestra tocasse permanentemente uma sinfonia tão bonita quanto ensurdecedora, que não me deixa pensar, que faz de mim um bicho todo irracional, todo instinto. O méu cérebro fundiu-se com o meu útero, o meu coração, as minhas entranhas, e eu deixo-me embalar nas profundezas deste estado em que nem respirar parece ser preciso.

1 de agosto de 2013

gratidão

Quando eu penso que não é possível estar rodeada de pessoas mais generosas e meigas, quando trabalhar parece uma gincana porque os dois colegas com quem estou fazem tudo para me poupar e me obrigam a sentar de hora em hora, me abraçam constantemente, cortam bocadinhos de bolo e escrevem recadinhos para o meu bebé; quando entrar numa carruagem tão quente e tão cheia de gente que a minha barriga e leque não parecem lá caber e de repente se abrem alas até a um lugar sentado e até mãos estranhas me dão apoio e olhares me dão consolo, chego a casa para encontrar o canalizador e a senhoria. E a senhoria traz com ela um carro carregado até ao tecto com tudo o que eu possa precisar para mim e para o bebé. Toneladas de roupa linda linda linda para vestir um menino dos 0 aos 6 meses, alcofa, tapete de actividades, banheira, biberões, bomba de amamentação, esterilizador, compressas, fraldas de pano, uma boia para eu me sentar, um espelho para ver o bebé no carro, mobile para o berço e brinquedos para o carrinho.
Houve uma altura na minha vida em que diria que não mereço tanto. Hoje digo a mim própria que mereço sim, que tento dar não mais do que amor a tudo e todos com que me cruzo, mas a forma como este amor volta multiplicado esmaga-me e parece que a minha gratidão nunca é tão grande como a generosidade daqueles que me rodeiam.

29 de junho de 2013

minha avó

Durante a última semana desejei poder transferir o Dioguinho para a barriga do pai, trocar o meu corpo de 31 anos pelo teu de 87 e passar por tantas camas de hospital, anestesias gerais e cirurgias quanto fosse preciso, só para te poupar à confusão, ao medo e aos riscos que as doenças e os tratamentos implicam. Felizmente já passou.

3 de maio de 2013

mais um bocadinho e ponho o blog azul bebé

Ontem não senti os pontapés do costume, e sou tão previsível quanto os livros descrevem. Será que o bebé está bem? Porque se mexe tão pouco? Será que se mexe? Poderei esmagar a barriga até ele me dar um coice ou é pior? Deverei tomar um café? E chocolate? Ou os dois? Repito para mim o que também li no livro: "Fetuses are only human" e por isso têm dias calmos e dias agitados.
Hoje de manhã acordei e esperei senti-lo, e nada. Tomei o pequeno almoço sentada e quieta e nada. Fui para o trabalho e nada, até que lá senti um sinal de vida mas muito ligeiro. Foi só depois das onze da manhã que me sentei refastelada a comer figos secos com amêndoas e liguei ao Faneca. E basta ouvi-lo para o bebé começar aos pontapés, aliás foi assim que o senti pela primeira vez: refastelada num banco de jardim ao telefone com o pai dos meus filhos.
O bailarico uterino parece ter durado o dia todo, assim como que para me consolar. É indescritível. E como cereja no topo do bolo, duas pessoas cederam-me o lugar no metro. Cheguei a casa e pus música a bombar contra a barriga. Comecei com o Elvis e acabei com os Queen. O babyfaneca ficou louco ao som disto.

29 de abril de 2013

da espera

Este blog está em modo babyblog porque o meu livro ainda não me chegou às mãos. Isto sim, é um parto difícil, e como ainda não chegou a parte boa em que me encontrarei com os primeiros 50 exemplares, não me vou queixar deste longo processo e da espera, e da minha tão curta paciência. Portanto em breve (?), quando todo o suor, lágrimas e espera mostrarem ter valido muito muito muito a pena, escrevo.

Entretanto o bebé na barriga mostrou-se menino (porque é que parece não ter importância absolutamente nenhuma? mesmo quando se confirmou o que eu sempre imaginei, um filho menino) e perfeito, na última ecografia. É verdade o que se diz, não há como explicar o que se sente quando se vê e se sente um ser humano desenvolver-se e viver dentro de nós. Há qualquer coisa de tão superior, e como eu não acredito no deus dos homens, não faz sentido dizer isto, mas sim. É um milagre. A natureza apodera-se e encarrega-se do meu corpo, a mim resta-me encarregar desta minha mente, mantê-la saudável, lúcida, que é daí que eu sigo feliz. De nada me vale, de absolutamente nada me vale ficar ansiosa ou impaciente, de nada me vale preocupar-me ou ter medo. O medo e a preocupação, como em tudo na vida, não fazem diferença nenhuma. Dão-nos uma falsa sensação de controlo.

De maneira que aqui espero, pelo bebé, pelo livro, e enquanto espero respiro e olho para o que já está concretizado e presente na minha vida e que é tão bom e tão precisoso.

Há dias muito raros de sol em Londres. Dias de céu limpo, essa coisa tão frequente em Lisboa que chega a ser aborrecida. Um dia de céu limpo aqui é motivo de celebração. Agora apeteceu-me dizer isto...

24 de abril de 2013

20 semanas

Estar grávida longe da minha família e dos meus melhores amigos é dar muito, mas muito mais valor ao meu companheiro de vida, que já era minha família antes de sermos três, que é o meu melhor amigo e que me dá a mão nos momentos bons, nos momentos maus, e quando menos se esperaria que me desse a mão também.
Este bebé que ainda pouco se faz notar no que respeita a pontapés, faz-me crescer a barriga todos os dias um pouco mais, faz-me pensar duas, três, quatro vezes antes de pôr alguma coisa na boca, estica e muda a cor da minha pele. Atrai para mim muitas atenções e muito carinho por parte dos colegas de trabalho, que exageram ao ponto de me fazerem chorar de tanto rir. Este bebé ainda não ouviu música clássica mas todos os dias é embalado pelas minhas gargalhadas. Não sei como um dia vou agradecer a estas pessoas pelo que fazem por mim. Sem se darem conta, consolam o meu coração de emigrante, o meu corpo grávido e a minha cria de quatro meses e meio.

31 de março de 2013

toda eu mamas (rascunho de 2/2/2013)

De um dia para o outro deixei de caber nos soutiens. Tanto eu como o fanequinha olhamos para elas com um misto de choque e admiração... embora algo me diga que a admiração que ele sente é diferente da minha. Eu vejo-as como máquinas de vida, a funcionar a todo o gás, sintonizadas com o meu útero, com o que por lá vai mas que ainda não é óbvio. Nunca tive tanta consciência de que sou um mamífero, e nunca pensei tanto (e com tanta culpa) nas minhas amigas vacas a quem arrancamos os seus bebés (que comemos e cujos estômagos usamos para fazer queijo) e a quem roubamos o leite, que devoramos sofregamente... enfim. Ontem fui comprar soutiens à H&M e tive um ataque de frustração ao ver que não cabia no 36D, e o 38D não aparecia em nenhum modelo. Eu odeio experimentar roupas, transpiro, canso-me, perco a paciência ao fim de duas provas. Fiquei tão zangada, sobretudo porque as mamas me doem e pesam, e eu só queria encontrar a porra do soutien certo, agarrar em dois e vir para casa. Mas não, tive de ir pedir ajuda e felizmente uma menina muito despachada encontrou-mos logo. Apeteceu-me beijar-lhe os pés e dizer-lhe que me tirou um peso do peito.

25 de março de 2013

milionária

Perguntei ao faneca o que faria se ganhasse milhares de milhões de libras. Disse que me dava metade (é tão fofo), que dava aos pais tudo o que precisassem, que depois ia só viajar, ver o mundo comigo, passar a vida de férias. Eu disse-lhe que bastava dar-me um milhão, pois isso chegar-me-ia para o resto da vida. Que também queria passear, mas não o tempo todo. Então o que fazias, perguntou-me. E a minha resposta saiu sem sequer hesitar. Abria o meu café/loja. Que eu preciso de trabalhar e de ver gente. Ilustrações, cafés, bolos caseiros e pratos vegetarianos. Isto sou eu milionária.

24 de março de 2013

neve

Para haver drama basta pegar num coração emigrante e deitar-lhe uma pitada de hormonas.
O frio que se sente na rua e o vento que vem como lâminas tira-me o prazer de brincar com a neve. Talvez porque sobrevivi a um Inverno no mercado (não é possível explicar sem palavrões o que se sente ao fim de oito horas exposta ao grau zero), a uma gripe fortíssima que me pôs aos tremeliques na cama, dores de garganta e tosse, cieiro. Se a neve tivesse vindo em Dezembro talvez eu a visse (a sentisse) de outra maneira, mas sendo Março, e sendo que nesta ilha raramente se vê o sol, nesta altura só me lembro de Lisboa, a Lisboa amena que me acolheu. Que saudades de não ter frio. Que saudades da Primavera.

20 de março de 2013

desabafos de fim de tarde

Chegam-nos da Holanda emails, pacotes e postais amorosos, de primos que ainda nem conheço, a agradecer pela partilha, a desejar-nos as maiores felicidades.
De Portugal, de algumas das pessoas que me são mais próximas, nem uma resposta ao email emocionado que lhes enviei no dia em que fomos à ecografia. É para eu aprender. Se não for para aprender que nem toda a gente se emociona com bebés como eu, que seja para aprender a não ficar magoada, pois o mundo não gira em torno de mim, muito embora eu tenha o rei na barriga.

avó



Tu, que te esqueces que vais ser bisavó em menos de dois minutos. Não faz mal. Tu estás em mim mais do que nunca, no meu coração e no meu útero.


"Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é."

19 de março de 2013

british humour

Comecei a contar que estou grávida aos colegas no trabalho. Muitos deles são mesmo de cá, alguns nascidos em Londres. Ontem perguntei a um "queres ver a minha mais recente obra de arte?" ao que ele disse logo que sim, à espera de ver uma ilustração. Mostrei-lhe a imagem da ecografia, olhou para ela com admiração durante dois segundos e as primeiras palavras que lhe sairam da boca foram:

"But we only did it once!"

16 de março de 2013

estatisticamente (rascunho de 27/01/2013)

Estatisticamente, o risco de perder o bebé bastante alto, no início da gravidez. Eu estou mentalizada, preparada para o pior, como em tudo na minha vida. Preparo-me para o pior, mas sobretudo preparo-me para o melhor, depois vivo e gozo os minutos como se o pior não pudesse acontecer. Normalmente resulta. Vivo feliz e contente e, no caso de dar para o torto, choro um bocadinho (ou baba e ranho se preciso for) e sigo para bingo.
Quando a Babá engravidou pela primeira vez eu fiquei apaixonada pelo feijãozinho, quis comprar-lhe uns sapatinhos, fui a uma loja no shopping em Viana e quando, feliz e babada disse ao que ia, a funcionária e um senhor amigo que lá estava com ela perguntaram-me "Mas de quantos meses está ela grávida?", ao que eu respondi dois ou três, já não me lembro (e o que é que me interessava? era um bebé dentro da Babá!) e eles, só lhes faltou correrem comigo da loja. Que era muito cedo, que tudo pode acontecer, que depois é um desgosto, que lhes desse antes uma garrafa de champanhe e a senhora ainda me disse que teve um aborto aos sete meses. Saí da loja e desatei a chorar. A minha mãe consolou-me e disse que comprasse os sapatinhos sim. A Babá recebeu-os e agradeceu e riu e eu dei mais beijos na barriga dela nessa gravidez do que em qualquer uma das outras. Tudo correu bem e os meus sapatinhos não mataram o feijãozinho.
Agora que eu tenho um feijãozinho e que a minha mãe já compra roupas e malha para tricotar, pergunto-me qual é o mal. Claro que há um risco acrescido, mas é a natureza, e claro que é triste tricotar e imaginar um bebé filho do amor da minha vida, e depois o bebé não nascer. Mais triste será comunicar a todas as pessoas que já celebram comigo e connosco e me tocam na barriga, que afinal a festa terá de ser adiada. Mas estatisticamente falando, as probabilidades de tragédia não aumentam proporcionalmente ao número de pessoas com quem se partilha a notícia, assim como não aumentam se as pessoas desatarem a comprar roupinhas e sapatinhos. Portanto cá estamos.
O faneca acha que devemos é aproveitar, imaginar que vai correr tudo bem e gozar o momento. Eu concordo. Mas não deixo de pensar. Vinte por cento. Se eu pensar num grupo de amigas que engravidaram, posso ser eu a uma em cinco. Mas até lá, vou continuar a festejar. Ontem fomos para os copos com os meus colegas do eat e contei-lhes, um por um, metade deles estava bêbeda, o que torna tudo ainda mais engraçado, porque os estrangeiros bêbedos perdem o inglês e as emoções vêm ao de cima então o que fazem é rir muito, rir com lágrimas nos olhos, muitos abraços e muitos beijos e tanto amor, tanto carinho que eles têm por mim. Para quê adiar estes momentos? Para quê adiar a celebração do facto de eu e o meu amor termos decidido dar um grito de optimismo e esperança a este mundo que às vezes é tão cruel. E todos os dias as tragédias acontecem, mas eu sempre preferi pensar que todos os dias os milagres acontecem também.

15 de março de 2013

um bebé

(guardado nos rascunhos: 26/01/2013)

Vinda de Portugal, o fanequinha foi buscar-me ao aeroporto, cheguei a casa e fui directa para a casa de banho com o teste de gravidez que me restava. Descontraidíssma, até ao momento em que apareceu uma linha muito ténue. Chamei-o e começámos a rir-nos muito, incrédulos. Ele dizia que aquilo não era nada, eu dizia que aquilo era tudo, que eu já tinha perdido a conta aos testes negativos que vi e que ali não havia engano. Àquela hora estava tudo fechado aqui por perto, então tive mesmo de inventar coisas para fazer quando o outro progenitor já não conseguia aturar-me mais e foi dormir. Fiz uma sopa de cogumelos, comi-a, fiquei acordada até muito tarde e por fim adormeci. De manhã fui de pijama à farmácia e ao super mercado. Chovia horrores. E eu a segurar o primeiro chichi da manhã. Cheguei a casa e fiz três dos cinco testes que trouxe da rua. Continuámos incrédulos, mesmo depois de eu segurar os quatro resultados positivos todos juntos perto da janela, para ver melhor. Não sinto nada, não sinto nenhum sintoma. Ele dizia para esperarmos pelo dia do período, e esperámos e não veio. Começámos a acreditar, eu a imaginar um bebé dodot, porque bebé dodot foi o que eu e a Di chamámos ao faneca quando o conhecemos. Imaginar um bebé dentro de mim, um bebé que ainda  era do tamanho de uma semente de papoila, não soa a bebé, muito menos parece ter força suficiente para me causar sintomas. Queixei-me da ausência de sintomas durante dias até ser atacada por umas cólicas intestinais das quais nunca tinha ouvido falar até a preocupação me levar aos livros, artigos na internet e por fim a uma querida amiga parteira. Se neste momento tenho barriga, é simplesmente ar. Mas já nada é o mesmo. Olho para o homem dos meus sonhos e pergunto-lhe "Um bebé?!" e ele ri-se e diz que sim, todas as vezes.

26 de fevereiro de 2013

londres estranha-se... depois entranha-se

Coisas que estranhei quando cheguei a esta terra:

Egg mayo. Egg mayo ao pequeno almoço.
O preço dos vegetais frescos.
A quantidade de frascos de molhos no supermercado.
O não se reciclar.
A ausência de caixotes de lixo na rua.
O preço de um expresso.
O café de merda.
Que se beba café com leite a acompanhar a comida.
As sopas.
O desperdício.
A quantidade de gente.
Não haver cães vadios.
Os cafés, supermercados e mercados que vendem bolos, bolachinhas e pães sem os cobrir com nada. Ficam ali ao ar e à tosse e ao perdigoto. Canojo.
A falta de higiene nos cafés e bares. O funcionário pegar na sanduiche com a mesma mãozinha que recebe o dinheiro e que coça a cabecinha. Ca. Nojo.
O não haver uma ASAE como a portuguesa, portanto os mercados de comida (e tudo o que eles implicam) prosperam e são adorados.
O tamanho e a população desta cidade.
A hora de ponta no metro na central line.
As casas minúsculas com rendas absurdas.


6 de fevereiro de 2013

freedom

No dia em que o Marcelo casou com o Tim e eu fui menina das alianças, fomos celebrar a um bar no Soho chamado Freedom. Acho que foi a primeira vez que fui a um bar gay, e lá estive a dançar com o meu amor, rodeados de pessoas apaixonadas, apaixonantes, tudo a dançar e a divertir-se, muitos beijos na boca e muitos abraços, incluindo nós dois, que ficámos inspirados por tanta alegria, e por existir um lugar neste planeta onde é seguro expressar-se o que se sente, o que se é. Em que ninguém discrimina ninguém e onde cinco homens podem competir à vontade por um varão na pista de dança para simularem as suas pole dances ao som da Rihanna.

4 de fevereiro de 2013

quase

Não sei quantas horas depois, tanto e tanto palavrão meu deus (quando um holandês pragueja que se farta e cem por cento das vezes é em português do norte, há que desconfiar que exite nesta casa uma gaja malcriadona), o ficheiro do livro seguiu mais uma vez para imprimir. Aquela gente da gráfica já deve estar pelos cabelos comigo. Enfim, seguiu, pagarei adiantado metade do que lhes devo e resta-me esperar. Esperar pela prova que há-de chegar por correio. Esperar que esteja tudo bem, que fique como imaginei, que depois venham os primeiros cinquenta, que os venda depressa, que eu adoro trabalhar no café mas às vezes só sonho ter o meu próprio negócio. Estou muito feliz. Está quase...




30 de janeiro de 2013

ele

Eu acho que tenho bom feitio, mas nos dias (como hoje) em que estou com o toco, apercebo-me que bom feitio tem o holandês com quem eu vivo. Uma vez embebedei-me com chardonnay, sozinha aqui em casa, pus-me a ouvir fadinhos que me lembram de Alfama e quando ele chegou agarrei-me a ele a chorar. "Gosto tanto de ti. Gosto tanto de ti."

*suspiro*

ser posta à prova

A terminar a paginação do meu livro, a enviar e receber emails da empresa que mo vai imprimir. Podia ser bonito mas não é.
A única coisa que me é fácil (e não é sempre) é o papel, o lápis, a tinta. No momento em que as coisas passam ao suporte digital, o processo de trabalho torna-se um teste de resistência. Desenrasco-me no photoshop e, de resto, tudo me estica a  tolerância à frustração, os meus limites, a minha paciência. A minha dificuldade em manipular documentos e utilizar as ferramentas mais básicas de qualquer programa de computador é, no mínimo, uma vergonha. E quando me zango, como não sou pessoa de atirar coisas pelos ares ou bater no computador (também não é meu), farto-me de foda-ses e chego a dizer a mim própria que tenho uma deficiência mental qualquer, que não é possível. Depois há a minha incapacidade de me concentrar numa coisa só. Isso dava um livro.
Estou a ser posta à prova. Quanto queres este livro? Quanto queres vê-lo e vendê-lo? Quanto queres ser ilustradora quando fores grande? Quantos anos tens de viver até seres grande?

Está quase. Com muitos tropeções e muito palavrão. Mas está quase. Bear with me...