Que nunca me falte saúde para me erguer,
disciplina para me concentrar
criatividade para desenhar
e força, para continuar.
10 de dezembro de 2012
6 de dezembro de 2012
restarting
Fui a uma entrevista ontem, numa casa de chás. Eu e mais três raparigas, entrevistadas em grupo. Não sei quantas perguntas matreiras depois, senti-me safa e exclui mentalmente duas das minhas "adversárias". Foi muito constrangedor ver outra portuguesa acabadinha de chegar a Londres a não conseguir expressar-se, não perceber o sotaque do rapaz que nos entrevistou, ficar confusa e desesperançada. Foi excluida e eu só queria poder ter-lhe dito uma palavrinha de apoio. A outra era húngara. Lá foi ela de vela. Lost in translation como eu há quase dois anos. Há um ano e dez meses. Felizmente em Londres há emprego para quem mal fala inglês, desde que queira trabalhar e nunca deixe de sorrir. E a estaleca que um emprego desses nos dá, meu deus que estaleca. A meio da entrevista o rapaz disse que se passássemos à fase seguinte teríamos que ir para a banquinha deles no mercado em Camden. E que só seríamos bem sucedidas se fizéssemos 150 libras até ao final do dia. Em chás? pensei eu - 150 libras em pacotes de chás?
Depois de uma breve introdução ao produto lá fui eu para a banquinha vender os 40 diferentes chás que eles vendem em embalagens de 100g por 5.20 libras. Parecia impossível mas fiz mais de 160 libras a fazer-me de entendida em chás e a meter conversa com toda a alma viva que me passou pela frente. Tudo é tão relativo quando nos apercebemos que nada é mais importante do que ser feliz e saudável. Nada me preocupa, nada me chateia, digo a mim mesma. Nada me abala enquanto me sentir tão bem. O frio que faz nesta cidade chegou-me aos joelhos e congelou-mos ao fim de seis horas em pé.
Passado o "stall trial", fui hoje para uma das 3 lojas que eles têm no norte de Londres. Isso sim foi um desafio. Como é que se desce do cargo de "trainer" para principiante? Despi-me de tudo o que sei, fingi que não sofri uma lavagem cerebral em higiene e segurança no trabalho nos últimos vinte meses, tentei não julgar, não discordar e segurei a vontade de corrigir as pessoas que me estavam a treinar, sobretudo uma menina pouco paciente e muito mandona que me orientou durante o dia. Saí de uma empresa com mais de 120 lojas e entrei numa com 3. Tentei concentrar-me em tudo o que era novo e tudo em que eu sou, de facto, uma principiante. Tentei não limpar e desinfectar tudo o que sei que lhes garantiria muito maus resultados numa auditoria.
Entretanto veio-me o período, vim para casa, consumi uma dose incalculável de chocolate, ouvi músicas lamechas e chorei de saudades da minha antiga equipa. Digo a mim mesma por que razão saí do eat, por que me candidatei a um part-time, por que motivos é que eu voo livre de medos. Eu já vivi consumida pelo medo. Parei de conjugar o meu futuro no futuro. Hoje digo a mim própria e aos outros que sou ilustradora e que estou a escrever e ilustrar um livro. Esse é o meu outro part-time. Por enquanto.
Depois de uma breve introdução ao produto lá fui eu para a banquinha vender os 40 diferentes chás que eles vendem em embalagens de 100g por 5.20 libras. Parecia impossível mas fiz mais de 160 libras a fazer-me de entendida em chás e a meter conversa com toda a alma viva que me passou pela frente. Tudo é tão relativo quando nos apercebemos que nada é mais importante do que ser feliz e saudável. Nada me preocupa, nada me chateia, digo a mim mesma. Nada me abala enquanto me sentir tão bem. O frio que faz nesta cidade chegou-me aos joelhos e congelou-mos ao fim de seis horas em pé.
Passado o "stall trial", fui hoje para uma das 3 lojas que eles têm no norte de Londres. Isso sim foi um desafio. Como é que se desce do cargo de "trainer" para principiante? Despi-me de tudo o que sei, fingi que não sofri uma lavagem cerebral em higiene e segurança no trabalho nos últimos vinte meses, tentei não julgar, não discordar e segurei a vontade de corrigir as pessoas que me estavam a treinar, sobretudo uma menina pouco paciente e muito mandona que me orientou durante o dia. Saí de uma empresa com mais de 120 lojas e entrei numa com 3. Tentei concentrar-me em tudo o que era novo e tudo em que eu sou, de facto, uma principiante. Tentei não limpar e desinfectar tudo o que sei que lhes garantiria muito maus resultados numa auditoria.
Entretanto veio-me o período, vim para casa, consumi uma dose incalculável de chocolate, ouvi músicas lamechas e chorei de saudades da minha antiga equipa. Digo a mim mesma por que razão saí do eat, por que me candidatei a um part-time, por que motivos é que eu voo livre de medos. Eu já vivi consumida pelo medo. Parei de conjugar o meu futuro no futuro. Hoje digo a mim própria e aos outros que sou ilustradora e que estou a escrever e ilustrar um livro. Esse é o meu outro part-time. Por enquanto.
30 de novembro de 2012
em cada fim um recomeço
Foi pouco depois de ir à Holanda, talvez tenha sido mesmo lá. Conheci a família do meu holandês e de repente vi-me. Também houve um dia em que fomos ver vacas no meio dum parque e eu conversei com elas. A Holanda redefiniu-me. Penso muitas vezes no faneca como sendo uma metade minha que encontrei. Uma metade que eu não sabia que me faltava. Quando olho para ele e penso no que ele me faz sei perfeitamente porque é que as pessoas fazem juras de amor eterno, se pedem em casamento, casam. Olho para ele e para o que ele causa em mim e entendo tão bem porque é que se escrevem músicas de amor lamechas. E poesia. Não lhe digo estas coisas porque sei que ele vai revirar os olhos e gozar comigo, mas até esse revirar de olhos, esse nunca me levar demasiado a sério faz dele a minha outra metade. Eu acredito que uma relação (qualquer relação) só faz sentido se nos fizer melhores indivíduos do que se estivéssemos sozinhos.
Voltámos e aos poucos fui-me vendo. Veio uma alegria de ser, de ser eu mesma, de não fazer mal a ninguém, de na maioria das vezes fazer bem. Isso passou para o trabalho, para os colegas, para os clientes, para todas as pessoas que amo e para as que não amo também.
Há duas semanas a minha gerente mentiu-me e tentou manipular-me. E aquilo que inicialmente se manifestou como revolta dentro de mim, rapidamente se tornou nítido, tão nítido quanto tudo o resto que ultimamente eu andava a ver e sentir. Ela estava, a empresa estava a empurrar-me para o meu limite. De todas as coisas a que me adaptei, todas as coisas que fiz durate um ano e oito meses no eat que não tinham de todo a ver com aquilo em que acredito, uma nunca deixei que fosse corrompida. Quando ela me empurrou para o limite entre o amor e o medo, eu vi nitidamente o que fazer. Demiti-me.
Foi como se ela me estivesse a empurrar e no precipício se me abrissem umas asas. E para surpresa dela, minha e de todos, eu voei tão livre e tão segura que só isso, e mais nada, fez sentido.
Voltámos e aos poucos fui-me vendo. Veio uma alegria de ser, de ser eu mesma, de não fazer mal a ninguém, de na maioria das vezes fazer bem. Isso passou para o trabalho, para os colegas, para os clientes, para todas as pessoas que amo e para as que não amo também.
Há duas semanas a minha gerente mentiu-me e tentou manipular-me. E aquilo que inicialmente se manifestou como revolta dentro de mim, rapidamente se tornou nítido, tão nítido quanto tudo o resto que ultimamente eu andava a ver e sentir. Ela estava, a empresa estava a empurrar-me para o meu limite. De todas as coisas a que me adaptei, todas as coisas que fiz durate um ano e oito meses no eat que não tinham de todo a ver com aquilo em que acredito, uma nunca deixei que fosse corrompida. Quando ela me empurrou para o limite entre o amor e o medo, eu vi nitidamente o que fazer. Demiti-me.
Foi como se ela me estivesse a empurrar e no precipício se me abrissem umas asas. E para surpresa dela, minha e de todos, eu voei tão livre e tão segura que só isso, e mais nada, fez sentido.
18 de julho de 2012
foi buscar-nos ao aeroporto
Eu estava sem óculos e já era quase meia noite quando chegámos lá fora. Não consegui vê-la no escuro porque faz praia desde Maio e está mulata, só ouvia os gritos e via um vestidinho azul voar na minha direcção. Depois vi o sorriso e depois já a tinha enrolada nos meus braços, eu gigante e ela tão franzina comparada comigo, quando a abraço parece que se esconde na minha caixa torácica e lá fica guardada. De repente deixou de existir o ano inteiro que passamos sem nos abraçar. A minha irmã.
17 de junho de 2012
sonho de um holandês num domingo de manhã
Ele acabadinho de acordar, eu aqui no computador há horas.
"Eu sonhei que estávamos sentados aí à mesa e que ouvíamos movimento na cama. Eu olhava e eras tu. Então pensei, ah, como é que estás aqui comigo e na cama ao mesmo tempo? Estou a sonhar. Ah, se estou a sonhar vou fazer um teste e voar um pouquito. E então eu voava como Jesus, tipo a 20cm do chão. E pensei epá, foda-se, estou a sonhar!"
"Eu sonhei que estávamos sentados aí à mesa e que ouvíamos movimento na cama. Eu olhava e eras tu. Então pensei, ah, como é que estás aqui comigo e na cama ao mesmo tempo? Estou a sonhar. Ah, se estou a sonhar vou fazer um teste e voar um pouquito. E então eu voava como Jesus, tipo a 20cm do chão. E pensei epá, foda-se, estou a sonhar!"
portugal dos pequeninos
Já o disse antes. Quanto mais longe de Portugal, melhor lhe vejo as coisas boas. Podia ter um qualquer trauma relacionado com as últimas experiências que vivi em terras tugas, como a depressão, ou as dificuldades financeiras, ou o facto de ser tão difícil ser artista hoje em dia, renhonhó... e a crise. Mas não.
A verdade é que quando me projecto no futuro, vejo-me em Portugal. Felizmente o holandês também nos projecta lá, e é por isso que eu me vejo ainda mais nitidamente em Lisboa. Nós, um bebé, um cão (weeeeeeeeeeeeee! who cares about children?), um gato. E relva para nos rebolarmos, que eu estou em Londres há mais de um ano e isto dos espaços verdes entranha-se-nos.
No dia em que o meu pai me perguntou (agoniado com a visão da sua filha fugir para Londres sem nada planeado) vais fazer o quê, lavar pratos? eu disse sim, que se for para lavar pratos e servir às mesas, ao menos que seja noutra cidade, noutra rotina, a ver outras coisas. E assim é. Não por mágoa do meu país, simplesmente porque assim precisei que as coisas acontecessem. Londres é um retiro, um processo de amadurecimento. Cada dia que passa gosto mais do T. e às vezes isso surpreende-me a mim própria. De onde vem tanto amor? Estarei eu ainda embriagada, depois de dois anos e meio? Não há ninguém no mundo com quem eu me dê tão bem.
Agora que já descambei para a lamechada (sou uma blogger muito enferrujada), volto ao que me fez escrever hoje. Tantas vezes me referi a Portugal como portugal dos pequeninos. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa que só quando estamos assim longe podemos observar com clareza. Hoje senti uma alegria profunda porque estou a planear as férias e só me apetece esbanjar em Portugal o que amealho a trabalhar aqui, com a intenção sincera de investir na economia do meu país. Comprar só 100% português. Comer gaspacho em Faro com a minha Di. Chegar a Alfama e embebedar-me com sangria, pagar para ouvir cantar o fado, comprar um trapinho na loja da Pipoca ou uns speedos na loja do Jacob e do Bruno (porque há gente que tem tomates para abrir negócio em tempo de crise).
Ontem comecei a escrever e arquivar os meus projectos para quando voltar a Portugal.
A verdade é que quando me projecto no futuro, vejo-me em Portugal. Felizmente o holandês também nos projecta lá, e é por isso que eu me vejo ainda mais nitidamente em Lisboa. Nós, um bebé, um cão (weeeeeeeeeeeeee! who cares about children?), um gato. E relva para nos rebolarmos, que eu estou em Londres há mais de um ano e isto dos espaços verdes entranha-se-nos.
No dia em que o meu pai me perguntou (agoniado com a visão da sua filha fugir para Londres sem nada planeado) vais fazer o quê, lavar pratos? eu disse sim, que se for para lavar pratos e servir às mesas, ao menos que seja noutra cidade, noutra rotina, a ver outras coisas. E assim é. Não por mágoa do meu país, simplesmente porque assim precisei que as coisas acontecessem. Londres é um retiro, um processo de amadurecimento. Cada dia que passa gosto mais do T. e às vezes isso surpreende-me a mim própria. De onde vem tanto amor? Estarei eu ainda embriagada, depois de dois anos e meio? Não há ninguém no mundo com quem eu me dê tão bem.
Agora que já descambei para a lamechada (sou uma blogger muito enferrujada), volto ao que me fez escrever hoje. Tantas vezes me referi a Portugal como portugal dos pequeninos. Mas há tanta coisa boa, tanta coisa que só quando estamos assim longe podemos observar com clareza. Hoje senti uma alegria profunda porque estou a planear as férias e só me apetece esbanjar em Portugal o que amealho a trabalhar aqui, com a intenção sincera de investir na economia do meu país. Comprar só 100% português. Comer gaspacho em Faro com a minha Di. Chegar a Alfama e embebedar-me com sangria, pagar para ouvir cantar o fado, comprar um trapinho na loja da Pipoca ou uns speedos na loja do Jacob e do Bruno (porque há gente que tem tomates para abrir negócio em tempo de crise).
Ontem comecei a escrever e arquivar os meus projectos para quando voltar a Portugal.
11 de março de 2012
um ano. o tempo voa
Há um ano eu ainda não tinha emprego. Procurava diariamente e respondi a anúncios que somente o desespero justifica, de quando cada euro convertido em libra parece desaparecer, e cada libra desaparece ao fim de uma viagem de autocarro ou um café de merda. Uma libra e meia por um expresso, e não conseguir tomá-lo. Houve momentos em que a minha zona de conforto me parecia estar tão longe, mais propriamente na máquina da Delta que tínhamos na cozinha em Alfama.
Em Março, ao fim de quase dois meses, a terceira entrevista de emprego deu frutos. Comecei a trabalhar no dia 28.
Hoje sou kitchen leader. Há um mês vi pela primeira vez cairem-me mil libras limpas na conta bancária. Londres é a minha casa e a minha vida é vivida de mão dada com o meu melhor amigo e meu amor.
Na loja somos dez pessoas. Conseguimos dar-nos muito bem e apesar de todos os momentos lost in translation, sinto que me conhecem. Sabem muito bem o que significa, e preparam-se para o meu mau humor quando me ouvem um "tenho muita fome" no meio de um turno em que não há tempo sequer para beber água. O trabalho é duro. Fisicamente exigente e desgastante psicologicamente. Neste tipo de empresa só se safa quem tem muito bom humor e resistência. Os "fracos" desistem ao fim de quinze dias, porque há coisas que podem ser vistas como desumanas. Apesar de tudo, gosto do eat. Mas não é lá que me vejo daqui a um ano. Tento absorver tudo o que este emprego me tem proporcionado de bom, e desviar-me agilmente das coisas más que se me dirigem. O desperdício é uma coisa com a qual eu nunca estarei confortável... o desperdício e todos os recantos escuros e muito sujos que o capitalismo esconde.
Começo a sentir, quase um ano depois, que já aprendi tudo o que havia para aprender nesta empresa, e que subir de cargo só me embrenhará mais na teia hierárquica que tão bem a sustenta.
Um ano depois. Já tenho a tão importante experiência de trabalho no Reino Unido que a maioria dos postos de trabalho exige. Sinto-me em casa e sinto-me inquieta porque começo a perguntar-me demasiadas vezes o que se segue. E aqui as possibilidades são tantas.
25 de fevereiro de 2012
todos os dias
O despertador toca às 4h45. Há dias em que acordo pouco antes dele tocar, há dias em que não acredito que já está na hora, desejo desistir de tudo e a única coisa que parece fazer sentido na minha vida é voltar para a cama. Visto-me em frente ao aquecedor.
Saio de casa entre as 5h10 e as 5h13. Se sair mais tarde posso perder o autocarro, o que significa chegar à loja às 6h02. Normalmente chego às 5h43. Mesmo antes de atravessar a passadeira, dou um toque para o telefone da loja. O William está no escritório a pôr dinheiro nas caixas registadoras, vem de lá de baixo com duas ou três gavetas nas mãos, pousa-as no balcão e vem abrir-me a porta. Todos os dias me dá um sorrisinho, apesar do sono.
Ligo a vitrine quente. Sou a responsável pela comida quente na nossa loja. Faço um chá e vou para baixo. Entro na cozinha, ligo a música, ligo o forno a 190 graus, ligo a enorme panela de água quente onde aquecemos a papa de aveia, as sopas, o puré, o arroz, os caldos. Pego em três tabuleiros de levar ao forno. Tiro do congelador os croissants, os croissants de amêndoa, os croissants de chocolate, os folhados de canela, os folhados de nozes. Ponho-os no forno com cerca de dez baguetes. 19 minutos. Vou vestir o uniforme. Volto a vestir o casaco e o cachecol. Entro no frigorífico e rezo para que os sacos de papa de aveia estejam num dos cestos de cima. Todos os dias verifico o que foi entregue durante a madrugada. Pilhas de cestos de comida, pacotes, caixas. Menos de cinco graus no frigorífico. Onde está a papa. Porridge, porridge, porridge. Levanto e transfiro os cestos de um lado para o outro em busca do saco branco e do saco azul. Tudo é frio e húmido e pesado e eu já tenho músculos visíveis nos braços e nos abdominais graças a esta tortura diária. Todos os dias o meu colega que faz os cafés vai lá a baixo buscar leite e dá de caras comigo dentro do frigorífico. Natachinha, diz ele. Muitos me chamam Natachinha porque é assim que eu falo de mim na terceira pessoa.
Encontro a porra da papa e meto-a na ketle. Posso finalmente tirar o casaco e o cachecol. As minhas mãos cheiram a congelados (peixe). Lavo-as pela já segunda vez. Passo o dia a lavar as mãos. Vou ao escritório onde a lista da entrega já está na impressora à minha espera. Os folhados já estão cozidos. Por essa altura já chegou uma quarta pessoa que os leva para cima. O café abre às 6h30. Eu terei de voltar ao frigorífico, mas antes preparo o acompanhamento para a papa. Às 7h a papa tem de estar acima de 80 graus. Faço as porções. Um saco dá para 8 grandes e 8 pequenas. Há um cliente que todos os dias chega às sete para pegar no seu small plain porridge and a small skinny latte. Reutiliza o saco, e não precisa de colher. Gosto dele.
Todos os dias. De segunda a sexta, todos os dias.
12 de fevereiro de 2012
o escaravelho
Lembro-me de nas profundezas da depressão, um dia olhar para um escaravelho que estava a apanhar sol numa das plantas da minha mãe. Os dias de sol e as coisas bonitas são como ácido para quem está na escuridão da doença, porque multiplicam a dor e a culpa de não se conseguir gozá-los. Senti um sincero desejo de ser aquele escaravelho. De simplesmente existir, de não ter consciência e de apenas apanhar sol, numa folha verde. Depois disse à minha mãe "Algo está muito errado no meu mundo, quando sinto inveja dum escaravelho".
Um dia, para o meu próprio e único bem, perguntei-me por que não. E decidi ser escaravelho.
O que é que era tão importante, tão mais importante que o meu próprio bem-estar, a minha própria saúde, a minha própria vida? Tentei recordar-me de como tudo começou, onde é que eu estava a ir mesmo, antes de cair no poço fundo em que me via. Para me libertar e voar dali para fora, despi-me do pesado e pegajoso cobertor do socialmente correcto. Apercebi-me de que nenhum mal vem ao mundo se eu decidir ignorar todos os padrões pelos quais os outros (e eu própria) me medem e julgam. Simplesmente ser. Porque sim.
9 de fevereiro de 2012
ele estava a ver os simpsons
Soltou uma gargalhada. E depois outra. Estava sozinho na sala e eu estava na cozinha. Ainda não vivíamos juntos. Mas foi nesse dia que eu desejei viver com ele para o resto da minha vida.
24 de janeiro de 2012
note to self
Sorrir.
Dar beijos e abraços. Se não há família e melhores amigos por perto, há colegas de trabalho receptivos.
Fazer alguém rir.
Brincar e gargalhar.
Celebrar as mais pequenas coisas.
Tomar um bom pequeno almoço.
Passear e ver coisas.
Ouvir música.
A felicidade pode estar mais perto do que se imagina.
17 de janeiro de 2012
cream tea
Cream tea. Ou "a ignorância emagrece".
Ninguém viveu a sério até comer um scone carregado de natas coalhadas e compota de morango, acompanhado de chá. Eu comi o primeiro aqui, e desde então é ver-me fazê-los em casa e devorá-los às dúzias. Este país está a entranhar-se-me no sangue (as análises di-lo-iam, se acaso as fizesse). Até já prescindo do café, e tomo um chai com leite.
Se não fossem as escadas do trabalho e as trezentas vezes que as subo e desço diariamente, não sei... não sei não.
Acho que já estão cozidos. Adeus.
11 de janeiro de 2012
6 de janeiro de 2012
dia a dia
O despertador toca e eu não sou eu. Às 4h45 acorda uma parte de mim que é pessimista, que quer fazer birra de sono e de frio. Que quer demitir-se e que tem inveja do holandês que ainda vai dormir mais três horas. Às cinco da manhã sou branca como cal. Em 2011 este corpo não viu praia. As olheiras têm cor e relevo. A viagem de autocarro é tão rápida, quando se tem sono. Depois chego ao café vou directa para o frigorífico...
O resto de mim acorda por volta das nove. Todos os dias me sinto grata por trabalhar com pessoas amorosas, e por ninguém se chatear com as minhas palhaçadas. Todos os dias faço um esforço consciente por ser gentil com todas as pessoas com quem me cruzo.
O meu inglês é fraco. É incrível como noutro país, noutra língua, somos outras pessoas. Os meus colegas concordam comigo. Um colombiano, um francês, uma costa-riquenha, uma checa, uma polaca, um italiano, um espanhol. Enrolar os Rs, fazer soar os Hs. Distinguir beach de bitch, sheet de shit. Em Portugal i é i. Expresso-me mais do que nunca por imagens, por gestos, porque as palavras não me vêm à cabeça, muito menos à boca. O meu sotaque é outro, a minha voz, provavelmente também. Pareço ainda mais estúpida. Ainda assim, sinto que as pessoas gostam de mim. Tenho conhecido pessoas maravilhosas. Delicio-me com a disponibilidade que a maioria das pessoas tem para sorrir. Para falar descontraidamente com estranhos, para dizer uma graçola. Hipócritas ou não, dizem muitas muitas vezes desculpe, com licença, por favor, obrigada. Adoram filas. Nunca vi nada assim. O londrino adora uma fila e respeita-a religiosamente, e às suas regras intrínsecas, às variações, às filas duplas, à ordem de chegada. Nesta cidade, quem vê uma fila, mete-se nela (!). Diz a minha amiga Paz que podemos começar uma fila para lado nenhum, a qualquer momento, que com certeza alguém se vai meter nela sem saber para que é.
Há coisas de Portugal que se vêem muito melhor ao longe. Todos deveríamos experimentar sair de casa, de país, de língua. Para depois voltar, ou não. Mas para ver melhor. Para dar o devido valor às coisas.
Sou muito feliz em Londres.
6 de dezembro de 2011
o que eu gosto de mim
7 de junho de 2011
rotina
Eight. To. Oxford Circus.
bethnal green station
barnet grove
brick lane
shoreditch high street station
primrose street (alight here for old spitalfields market)
liverpool street
poultry bank station
bread street
saint paul's station
city thameslink station
holborn circus
holborn circus fetter lane
chancery lane station
Um dia vou saber de cor todas as paragens que o meu autocarro faz. O oito. Trabalho há dois meses e meio numa das muitas lojas do Eat. A 113ª, para ser mais precisa. Um negócio milionário ao qual ainda me estou a adaptar. Onde não há tempo para reciclar a maior parte do lixo, onde o desperdício de comida é assustador, e ainda assim compensa. Mas onde a minha boa disposição e energia são valorizadas desde o primeiro dia, o fraco inglês perdoado, a palhaçada e o tom de voz alto incentivados. Não me posso queixar... adoro. Divirto-me todos os dias. Fui convidada a subir de cargo ao fim de um mês e meio, o que me deixou tão chocada quanto orgulhosa. Vou ser trainer, ao que parece.
Os clientes são incrivelmente simpáticos e muito bem educados. Pouco me importa se há cinismo nos constantes yes please, thank you very much, cheers! E como sorriem! Sorriem, riem, chegam a gargalhar. Talvez a maioria dos portugueses nunca se tenha apercebido de como somos sisudos, até se ver atrás de um balcão a encarar clientes. Depois há o sentido de humor britânico que se pode observar apenas de vez em quando, pois a maioria das pessoas nesta cidade é estrangeira. Pode-se apontar muitos defeitos aos londrinos, mas nunca vi pessoas tão tolerantes em relação à imigração. No nosso café apenas um dos dez funcionários é inglês.
Todos os funcionários são treinados para fazer tudo. Sobreviver ao stress, reagir depressa. Expor artigos, preparar iogurtes, breakfast muffins, cozer pão, bolos e tartes, fazer sanduiches, embalar sanduiches, etiquetar sanduiches a uma velocidade desumana. Desinfectar tudo. Varrer, lavar, esfregar. Restock. First in first out. Pôr sopa a fazer, carregar a sopa para a loja, servir sopa. Gritar hot soup! Verificar a temperatura de tudo o que é alimento. Etiquetar embalagens, operar a caixa registadora, tratar cada cliente como se fosse o único, dar trocos em libras. Fazer cafés. Todos os tipos de cafés, e estamos numa terrinha em que quem bebe espresso só pode ser italiano, espanhol, francês ou (obviamente) português. Aqui bebe-se muito leite (gordo). E chá, de manhã até à noite.
Às vezes tenho saudades de pintar. Especialmente quando vou a museus. Mas é muito bom ser bom noutra coisa, tentar outra coisa e ser-se bem sucedido. Arejar os neurónios, não pressionar a criatividade, não depender da criatividade para pagar as contas, não me preocupar (tanto) com as contas. Apanhar o oito, pensar em inglês, chegar a casa e ter dois amores comigo. O loiro e a morena. Uma família disfuncional na ala Este de Londres, entre muitos homens de turbante, mulheres de burca, alguns esquilos, corvos e a raposa que eu vejo todos os dias às cinco e meia da manhã, no parque da biblioteca.
30 de maio de 2011
Acredito cada vez mais que o que nos define enquanto individuos não requer esforço algum. Não é preciso contar anos de vida, dinheiro, conquistas, memórias. Não é preciso sequer autoconsciência.
A minha avó está a perder a memória. O que começou por ser engraçado, agora é assustador para ela e para nós. O que ela foi, o que ela conquistou, a sua vida e memórias vão-se esfumando. A minha avó desaparece em si própria. Faço-lhe perguntas sobre histórias que ela própria me contou e vejo-a pensar, fuçar no meio do pó da sua mente, angustiada e confusa, até encontrar a resposta.
No dia em que cheguei a Londres com a vida resumida a vinte quilos de mala e me vi numa multidão de 10 milhões de habitantes, comecei a pensar diariamente no que me define. O que é que me define, o que é que me distingue dos milhares de pessoas que também todos os dias chegam aqui com vinte quilos de vida numa mala. Quando retirada do contexto habitual, das minhas pessoas, dos meus objectos, só eu e a minha mente, fico a sós comigo mesma e observo-me com uma nitidez impressionante. Apercebo-me que sou um emaranhado de todas as marcas que me foram feitas por outras pessoas. Sou um emaranhado de gente. Surpreendentemente não me vejo a mim, vejo todos os que por mim passaram e em mim vivem. Sei hoje que a minha avó não é a velhinha confusa que fala comigo no Skype e pergunta a cada minuto se eu estou em Londres. Todos os dias. Todos os dias sou a minha avó. Tudo o que ela já nem se lembra que foi surge em mim em gestos e em expressões que teimosamente vêm ao de cima e dos quais só me apercebo quando já é tarde. E encho-me de amor e vida e esperança, porque sei que a minha avó nunca vai morrer. Está mais viva que nunca, à medida que eu envelheço.
Não sou as minhas convicções, as minhas ideias, os meus projectos, muito menos sou o que gostaria de ser. Sou o que faço aos outros, o que digo aos outros, o que marco de bom e de mau nas minhas pessoas, nas pessoas com quem contacto. Resta-me esperar até me ver definida.
25 de março de 2011
o blog dramático da pintora alérgica a tinta
Londres. Dissemos a nós próprios. Londres, está decidido. Pegámos no recheio da casa, vendêmo-lo, emprestámo-lo, demo-lo. Uma mala de vinte de quilos para cada e voar para Londres, sobreviver em Londres, viver Londres. Porque sim.
Nem toda a gente é abençoada como eu sou, e eu devia lembrar-me disto ainda mais vezes, e agradecer. Não só porque tenho amigos e família que me dizem vai, pais moídos de saudades que ainda assim se oferecem para patrocinar a minha aventura, um namorado que me dá sempre a mão independentemente dos meus delírios, e que todos, mas todos os dias me embala com as suas gargalhadas. Mas porque ainda me restam forças e egoísmo suficiente para perseguir os meus sonhos.
Podia ser em Portugal, em Lisboa, em Viana? Provavelmente. Mas mais provável ainda seria eu ter continuado inerte, sufocada pelas possibilidades, pelas muitas ideias, pelos poucos gestos, pelas perguntas (meu deus se eu parasse de fazer perguntas por um momento), pela incerteza e pelo medo. Haja pachorra para os dramas da vida. Ainda estou para me convencer de que a minha capacidade de adaptação às adversidades é uma qualidade.
Que bom é ter um cérebro. E um corpo saudável que responde, que reage. E que bom é ainda ter energia e juventude para me mexer, para me esforçar e para aprender tanto quanto preciso, enquanto existo. A qualquer momento tudo pode evaporar-se.
Londres é o meu novo amor. E ainda estou na fase do êxtase.
6 de dezembro de 2010
olhoooooo'tocolante!

O tempo e' de crise e se ha coisa em que as pessoas sabiamente comecam por poupar (ou cortar radicalmente) e' na decoracao do lar. E e' nesse momento que os decoradores em geral e as pintoras de paredes em particular comecam a ouvir a crise a bater-lhes 'a porta.

Por isso, queridas pessoas, aqui esta' uma versao muito mais acessivel (mas ainda assim no tamanho original e mesmissimas cores fofas) dos meus bonecos primaveris! Um conjunto de autocolantes que aderem 'a maioria dos suportes - nao so paredes! - e que visualmente causam o mesmo efeito. Estou muito contente com o resultado. Experimentei estas flores na parede (ultra rugosa) do escritorio de ca de casa so para fotografar. Coisa mai linda...
Estao a venda aqui.
1 de dezembro de 2010
o senhor cego do metro
Todos os dias, por volta das 8h da manha, ele entra na mesma estacao de metro que eu. Vejo-o todos os dias. Ouco-o todos os dias com a mesma ladainha. Olho para a janela e vejo o reflexo dele a passar entre as pessoas. Leva uma mochila as costas e parece-me um menino. Como e' que uma pessoa cega escolhe a roupa? Sera que ele sabe - que alguem lhe disse - de que cor e' a mochila dele?
O senhor cego da linha verde pede, sem parar. Troca de carruagem. Continua. Faca chuva ou sol, la esta ele. No metro vazio dos feriados ou 'a pinha, em hora de ponta. Nao tem uma mao e e' com esse mesmo braco que ele segura o copinho das esmolas. Uma vez observei como as pessoas se afastam dele na plataforma, mesmo as que estao sentadas e em quem ele inevitavelmente tocaria com a bengala (um cabo de vassoura) ao passar. Levantam-se, ele passa pelo banco vazio, e voltam a sentar-se. Parece um jogo. A cabra cega mais cruel de sempre, em que o cego nunca desvendara' os olhos e, ao passar por tanta gente que se desvia, parece estar sozinho na estacao do Martim Moniz.
Ouco-o a repetir "O deficiente agradece a quem possa auxiliar..." e so penso meu deus, se me cansa tanto ouvi-lo durante um minuto (e sinto que o meu cerebro mirra nesse interminavel minuto em que ele percorre a carruagem) imagino o que e' dize-lo e ouvi-lo o dia todo. Como e' que ele nao desiste? Como e' que ele esta la todos os dias? Sera que houve um dia em que se meteu na cama a comer, como eu faco? E eu tenho as duas maos e os dois olhos. Escolho a minha roupa na loja, no armario. Escolho o meu lugar no metro. Mas nao tenho a forca de vontade que ele tem, a concentracao e o empenho em alcancar um objectivo a que me proponha.
Ja ha mais de uma semana que nao faco um desenho. Sinto-me culpada por isso. E ainda mais por, em vez de desenhar, me apetecer meter na cama a comer.
O senhor cego da linha verde pede, sem parar. Troca de carruagem. Continua. Faca chuva ou sol, la esta ele. No metro vazio dos feriados ou 'a pinha, em hora de ponta. Nao tem uma mao e e' com esse mesmo braco que ele segura o copinho das esmolas. Uma vez observei como as pessoas se afastam dele na plataforma, mesmo as que estao sentadas e em quem ele inevitavelmente tocaria com a bengala (um cabo de vassoura) ao passar. Levantam-se, ele passa pelo banco vazio, e voltam a sentar-se. Parece um jogo. A cabra cega mais cruel de sempre, em que o cego nunca desvendara' os olhos e, ao passar por tanta gente que se desvia, parece estar sozinho na estacao do Martim Moniz.
Ouco-o a repetir "O deficiente agradece a quem possa auxiliar..." e so penso meu deus, se me cansa tanto ouvi-lo durante um minuto (e sinto que o meu cerebro mirra nesse interminavel minuto em que ele percorre a carruagem) imagino o que e' dize-lo e ouvi-lo o dia todo. Como e' que ele nao desiste? Como e' que ele esta la todos os dias? Sera que houve um dia em que se meteu na cama a comer, como eu faco? E eu tenho as duas maos e os dois olhos. Escolho a minha roupa na loja, no armario. Escolho o meu lugar no metro. Mas nao tenho a forca de vontade que ele tem, a concentracao e o empenho em alcancar um objectivo a que me proponha.
Ja ha mais de uma semana que nao faco um desenho. Sinto-me culpada por isso. E ainda mais por, em vez de desenhar, me apetecer meter na cama a comer.
13 de novembro de 2010
pediu um copo de leite e uma torrada
Esperou e desesperou pela torrada, porque a tostadeira do cafe onde eu trabalho deixa os mais calmos impacientes. Depois disse "Tire-me um cafe por favor, menina." e ao pagar, no mesmo tom serio e educado, disse-me "Posso dizer-lhe uma coisa? Nao me leva a mal?" e eu logo "Oh meu deus, sim." Leite azedo? Torrada horrivel? Cafe caro? Tchan tchan tchaaaaan...
"A menina tem um sorriso maravilhoso. Parece que esta sempre feliz, sempre a rir. Tem um sorriso maravilhoso. Maravilhoso."
25 de outubro de 2010
mijn jongen
Tu, coisinha constipada que ressona no sofa. Nao revires os olhos quando leres isto. Ik hou van jou.
23 de setembro de 2010
as capas da revista happy deprimem-me
Aquelas mulheres de 2 metros de altura com pernas de alicate, ombros para dentro, caras de absoluto tedio e, a coroa-las, as letras garrafais: HAPPY. E ainda bem que esta escrito que e' para a gente gorda mas feliz entender. Imagino a sessao fotografica. Encolhe a barriga, esses bracinhos mais ao pendurao, verga-te so um bocadinho mais, encolhe encolhe encolhe... ja esta!
E' por isso que eu vejo a vocalista dos The Gossip toda nua numa capa de revista e deliro. Ela faz por mim e por todas as mulheres reais (mais ou menos felizes) muito, mas muito mais que qualquer revista dirigida a gajas modernas. Muito, mas muito mais que qualquer ideal de beleza feminia, numa infeliz capa da Happy.
E' por isso que eu vejo a vocalista dos The Gossip toda nua numa capa de revista e deliro. Ela faz por mim e por todas as mulheres reais (mais ou menos felizes) muito, mas muito mais que qualquer revista dirigida a gajas modernas. Muito, mas muito mais que qualquer ideal de beleza feminia, numa infeliz capa da Happy.
26 de julho de 2010
como ousais duvidar de minha palavra?
Para quem ainda não acredita que eu participei no SYTYCD, aqui fica a minha mais recente actuação:
E caso o video não seja suficiente, é favor perguntar a quem me conhece se não é verdade que quando eu não estou a pintar ou a tirar cafés, estou a fazer três piruetas seguidinhas.
E sim, sou mulata!
E caso o video não seja suficiente, é favor perguntar a quem me conhece se não é verdade que quando eu não estou a pintar ou a tirar cafés, estou a fazer três piruetas seguidinhas.
E sim, sou mulata!
22 de julho de 2010
se esta rua fosse minha
No proximo Sabado, a partir das 14h, estarei com a Helena a divulgar o nosso muito querido projecto: Desenhar Sorrisos. Aparecam faz favor!
a minha vida e as voltas que a vida da
Estou em Alfama. O meu amor nao e' portugues mas creio que me entende e me ve melhor assim. Sem acentos e sem cedilhas, como o teclado do seu computador. Compreende-me melhor que milhoes de portugueses.
Em Alfama as pessoas falam alto. E dizem palavroes. Escusado sera dizer que me sinto em casa.
Alfama nao e' a Lisboa por onde eu entrei. Subo de electrico, aos trambolhoes. Digo bom dia aos vizinhos. Ha bebedos. E caes e gatos. E muitos turistas.
Sou das poucas pessoas que gostam de pombos.
O ceu de Lisboa tem qualquer coisa. Nao entendo o que tem de tao diferente de Viana que faz com que as nuvens se formem a milhas do chao. Isso da-me a estranha sensacao de que o ceu nunca esteve tao alto.
A estacao de Santa Apolonia e' azul bebe'. Dum azul bebe' tao bebe' que eu acho que foi um acto de coragem mandar pinta-la daquela cor. E' linda. E tem um pingo doce que so fecha as 23h.
Um dia eu ia no carro com a minha prima, decidida a tornar-me mais ilustradora e menos pintora de quartos. Tive um pequeno ataque de ansiedade e choro quando vi que tinha de tomar decisoes e passar ao ataque. Passar ao ataque, concluimos, implicava arranjar um trabalho qualquer em part-time. De manha. Qualquer coisa que nao me exigisse esforco nenhum e do qual eu gostasse, que e' para depois eu chegar a casa e ser ilustradora durante o resto do dia. Assim fizemos.
Trabalho num cafezinho amoroso. Um cafe sossegado onde a coisa mais dificil que tenho de fazer e' servir bebidas e chegar com elas 'as mesas sem entornar nada. De resto, exploro os meus talentos: dar de comer a quem tem fome, conversar e rir. Sonho com um cafezinho meu onde havera apenas sobremesas, cafe e sumos. Nunca pensei que dar de comer e beber a pessoas (fora de casa) me fizesse sentir tao feliz.
Os clientes falam baixo. Pedem italianas, cafes sem inicio e cupinhos de agua. Sussuram os pedidos, o que faz de mim a funcionaria surda do estabelecimento. A maioria e' muito gentil. Diz "ola como esta?", "por favor" e "obrigado". Olham-me nos olhos e sorriem. Ha dias uma senhora fez-me uma festinha no braco.
No proximo Sabado vou estar em Viana. A divulgar este projecto.
Em Alfama as pessoas falam alto. E dizem palavroes. Escusado sera dizer que me sinto em casa.
Alfama nao e' a Lisboa por onde eu entrei. Subo de electrico, aos trambolhoes. Digo bom dia aos vizinhos. Ha bebedos. E caes e gatos. E muitos turistas.
Sou das poucas pessoas que gostam de pombos.
O ceu de Lisboa tem qualquer coisa. Nao entendo o que tem de tao diferente de Viana que faz com que as nuvens se formem a milhas do chao. Isso da-me a estranha sensacao de que o ceu nunca esteve tao alto.
A estacao de Santa Apolonia e' azul bebe'. Dum azul bebe' tao bebe' que eu acho que foi um acto de coragem mandar pinta-la daquela cor. E' linda. E tem um pingo doce que so fecha as 23h.
Um dia eu ia no carro com a minha prima, decidida a tornar-me mais ilustradora e menos pintora de quartos. Tive um pequeno ataque de ansiedade e choro quando vi que tinha de tomar decisoes e passar ao ataque. Passar ao ataque, concluimos, implicava arranjar um trabalho qualquer em part-time. De manha. Qualquer coisa que nao me exigisse esforco nenhum e do qual eu gostasse, que e' para depois eu chegar a casa e ser ilustradora durante o resto do dia. Assim fizemos.
Trabalho num cafezinho amoroso. Um cafe sossegado onde a coisa mais dificil que tenho de fazer e' servir bebidas e chegar com elas 'as mesas sem entornar nada. De resto, exploro os meus talentos: dar de comer a quem tem fome, conversar e rir. Sonho com um cafezinho meu onde havera apenas sobremesas, cafe e sumos. Nunca pensei que dar de comer e beber a pessoas (fora de casa) me fizesse sentir tao feliz.
Os clientes falam baixo. Pedem italianas, cafes sem inicio e cupinhos de agua. Sussuram os pedidos, o que faz de mim a funcionaria surda do estabelecimento. A maioria e' muito gentil. Diz "ola como esta?", "por favor" e "obrigado". Olham-me nos olhos e sorriem. Ha dias uma senhora fez-me uma festinha no braco.
No proximo Sabado vou estar em Viana. A divulgar este projecto.
21 de junho de 2010
ai jasus bora votareeeeeee
Sim, eu que nunca gostei de desporto porque odeio competição, e que nunca gostei de concursos em geral, quero ganhar o concurso Mundo Funny! Sim, preciso da vossa ajuda e paciência porque a minha honestidade não me permite fazer batota. Mas já votei! E pode-se votar em várias ilustrações, o que é fixe. Primeiro faz-se o favor à Natachinha, depois vota-se na ilustração de que realmente se gostar mais.
Para votar no elefante-borboleta (votar é dar estrelinhas!!!) clicar aqui.
Para votar na girafa-borboleta (com estrelinhas faz favor) clicar aqui.
Obrigada irmãos!!!!!!!!!!
Para votar no elefante-borboleta (votar é dar estrelinhas!!!) clicar aqui.
Para votar na girafa-borboleta (com estrelinhas faz favor) clicar aqui.
Obrigada irmãos!!!!!!!!!!
19 de junho de 2010
concurso mundo funny
Irmãos! Votai, irmãos. Uma vez apenas e sem batotas. Votai em mim a partir da próxima segunda-feira, dia 21. Registai-vos em mundofunny.com e votai numa das minhas ilustrações, para que eu ganhe 300 euroooooooooooooos e para que milhões de t-shirts saiam à rua com um dos meus bonecos lamechas.
Obrigada.

Obrigada.

18 de junho de 2010
eu e os elefantinhos
Se tudo correr bem, a partir do dia 21 esta minha ilustração vai a votos no site Mundo Funny da Throttleman.Registem-se, por favorzinho, e BOTEM EM MINHEEEEEEEEEE!
14 de junho de 2010
9 de junho de 2010
a minha avó desmemoriada
Pergunta mil vezes as mesmas coisas. Como se chama o meu namorado, se é português, se eu durmo com ele. A minha avó só se lembra do essencial. Que eu sou a Natacha e que em 90% das vezes estou a gozar com ela. "Eu cá não durmo com ninguém, sou uma mulher séria!" - respondo-lhe.
A minha avó é apaixonada pelo Rui Veloso e já foi falar com ele para lhe pedir um autógrafo. Quando lhe digo que o meu namorado mandou beijos para ela, responde "Quem é esse?" mas se lhe ponho esta música ela sabe a letra todinha. E canta!
A minha avó é apaixonada pelo Rui Veloso e já foi falar com ele para lhe pedir um autógrafo. Quando lhe digo que o meu namorado mandou beijos para ela, responde "Quem é esse?" mas se lhe ponho esta música ela sabe a letra todinha. E canta!
30 de maio de 2010
28 de maio de 2010
O meu blog anda careca. Meio despido.
Eu estou cansada de ser plagiada. E de ver plágios. Estou farta de gente que tem imaginação a menos e lata a mais. Perdi a vontade de pôr aqui as coisas que crio e de que mais gosto. É só fazer uma pequena pesquisa e encontram-se facilmente as cópias mal amanhadas do meu trabalho à venda. Puta que os pariu. É o que eu digo cá em casa. Mas no meu blog cor-de-rosa não posso.
Eu sei que não deveria ser assim. Há tanta gente que gosta do que eu faço, que me apoia e me respeita. Tenho de aprender a lidar com isto. Estou cansada. Ser artista e tentar viver do que se cria pode ser uma valente merda. Sinto que poucos entendem o que é passar uma vida toda a desenhar, a estudar, a aprender, a gastar dinheiro aos pais para pintar e desenhar mais, a desenhar e a pintar para poder juntar dinheiro e assim continuar a desenhar e pintar. A criar. A ser minimamente honesta. A recusar fazer cópias de outros sem a devida autorização. Deixem-me em paz com o Winnie e a Kitty, que eu gostava tanto deles e agora já nem os posso ver.
Quem, como eu, escolhe o caminho difícil da originalidade, recebe como recompensa o roubo por parte dos que escolheram o caminho fácil. Puta que os pariu. Era o que eu diria agora se não estivesse a escrever no meu blog cor-de-rosa.
11 de maio de 2010
uma aventura no gatil
Segunda-feira:
Os dois elementos humanos dirigem-se a Monsanto para adoptar duas gatas.
Ultrapassam com alguma dificuldade a terrível prova das jaulas, em que são assediados por vários animais de rua/abandonados.
O elemento humano do sexo feminino é derrotado ao fim de minutos, por 5 gatos adultos de olhar vazio e 1 cachorrinho que lhe lambe a mão num golpe baixo e certeiro através das grades. Desconcentra-se totalmente do objectivo da sua equipa e chora como se não tomasse antidepressivos.
Escolhidos os elementos da equipa felina e limpas as lágrimas, os quatro jogadores dirigem-se a Alvalade.
A equipa humana joga com os conhecimentos da casa:
- Anos de experiência com gatos
- Paciência em doses generosas
- Teimosia q.b.
- Amor e carinho infinitos
A equipa felina joga com os conhecimentos da rua:
- Toda a comida é bem-vinda e deve ser devorada enquanto existir
- Toda a caixa com areia não passa de um elemento decorativo inútil que pode e deve ser ignorado
- Todo o ser humano deve ser evitado
Terça-feira:
A equipa felina apanha-se a sós com o elemento humano do sexo feminino.
Resultado actual do jogo:
Gatos alimentados - 2
Gatos hidratados - 1
Gatos visíveis - 1
Gatos evaporados - 1
Chichis na caixa - 2
Chichis na sanita - 1
Cocós na caixa - 0
Cocós no tapete da casa de banho - 1
Cocós debaixo do sofá - 2
Vómito felino no chão - 2
Vómito felino no sofá - 1
Experiência de quase-vómito humano - 1
Incensos queimados - 2
Máquinas cheias de roupa cagada e vomitada - 2
6 de maio de 2010
ao ataaaaaaaaaaqueeeeee!

Tenho saudades dos meus alunos e do meu enteado. Das brincadeiras típicas de rapazinho, em que tudo é horrível e assustador e assassino e eles são os super-heróis mais corajosos que já se viu.

Na loja. :)
Quero escrever histórias e ser ilustradora. Quero sim.
íamos no metro
Às vezes nem me apercebo do que é ter de lidar com alguém que (sobre)vive da própria criatividade.
Ultimamente eu sinto que ando mergulhada entre elefantes, ratos e molduras. E algo me diz que arrasto para dentro da minha mente-sopa-de-letras aqueles de quem mais gosto.
Íamos no metro e o T. deu-me esta ideia de pôr um elefante no quadrinho de baixo, a fazer qualquer coisa com a tromba no quadrinho de cima.

Agora estou tão apaixonada por esta ilustração que já só penso em pintá-la numa parede, ou escrever uma história, ou qualquer coisa que leve a outras tantas ilustrações do género. Quero que o meu trabalho seja só isto, porque isto faz-me sentir muito feliz.
O original estará aqui brevemente, e vai custar-me muito largá-lo. O meu professor Paulo Almeida chamava a isso lamber a cria - "Natacha, não lambas a cria...".
Ultimamente eu sinto que ando mergulhada entre elefantes, ratos e molduras. E algo me diz que arrasto para dentro da minha mente-sopa-de-letras aqueles de quem mais gosto.
Íamos no metro e o T. deu-me esta ideia de pôr um elefante no quadrinho de baixo, a fazer qualquer coisa com a tromba no quadrinho de cima.

Agora estou tão apaixonada por esta ilustração que já só penso em pintá-la numa parede, ou escrever uma história, ou qualquer coisa que leve a outras tantas ilustrações do género. Quero que o meu trabalho seja só isto, porque isto faz-me sentir muito feliz.
O original estará aqui brevemente, e vai custar-me muito largá-lo. O meu professor Paulo Almeida chamava a isso lamber a cria - "Natacha, não lambas a cria...".
5 de maio de 2010
hehehehehe!

Mais um díptico pateta. O que eu me divirto sozinha...
O quadrinho de cima é para ficar mesmo inclinado! Coisa mai fofa.
E agora, ainda alguém me leva a sério?
Mais pormenores aqui.
4 de maio de 2010
eu e as moldurinhas



Hoje o meu café não estava bom para beber mas esteve óptimo para pintar.
Há dias em que tenho a certeza de que quando for grande vou ser ilustradora de histórias muito tontas.
Estes dois ratinhos também estão na loja. E a minha mente fervilha com mais ideias para dípticos.
3 de maio de 2010
ainda um elefantinho

Vou fazer um postal de aniversário com esta imagem. Mas a colagem original já está numa moldurinha, pronta para viajar até às mãos de quem a quiser comprar.
Adoro pensar que de um desenho tão pequenino, onde se vai rabiscando uma ideia conforme ela surge, poderá um dia nascer um postal impresso nas mesmas dimensões, ou uma pintura mural centenas de vezes maior.


Parabéns a quem fizer anos hoje! :)
29 de abril de 2010
então foi assim
Eu subi a Rua do Salvador a pé, cheguei à Travessa do Açougue, atravessei cuidadosamente a estrada e a carrinha que vi lá ao longe e cujo condutor me viu também - que eu sou grande e colorida pelo menos ao sol da manhã - desce a acelerar na minha direcção, passa-me uma tangente (secante) e acerta-me com uma pranchada no ombro quando eu já estava a pôr o pé no passeio.
Ouviu-se um baque que ecoou em toda a Alfama.
Eu vi estrelas e ouvi sininhos até que me apercebi de que o espelho lateral da viatura tinha acabado de me atingir violentamente. E se eu medisse menos 20cm, neste momento estaria morta e decapitada.
Fiquei a choramingar de mão no ombro e a ver a carrinha assassina sumir ao longe.
Se eu gosto de Lisboa? Adoro.
Se eu gosto do trânsito de Lisboa? Odeio com todo o fervor.
Se eu tenho carta de condução? Tenho.
Se eu pudesse o que é que fazia ao sacana que quase me amputou o meu braço direito, coisa mais rechonchudinha e branca do mundo, fonte dos meus rendimentos? Seguia-o com um tractor e fazia dele pizza antes mesmo de chegar ao Largo das Portas do Sol.
Se eu sei os nomes de todas as ruas e largos de Lisboa? Não. Estou só a armar-me.
Ouviu-se um baque que ecoou em toda a Alfama.
Eu vi estrelas e ouvi sininhos até que me apercebi de que o espelho lateral da viatura tinha acabado de me atingir violentamente. E se eu medisse menos 20cm, neste momento estaria morta e decapitada.
Fiquei a choramingar de mão no ombro e a ver a carrinha assassina sumir ao longe.
Se eu gosto de Lisboa? Adoro.
Se eu gosto do trânsito de Lisboa? Odeio com todo o fervor.
Se eu tenho carta de condução? Tenho.
Se eu pudesse o que é que fazia ao sacana que quase me amputou o meu braço direito, coisa mais rechonchudinha e branca do mundo, fonte dos meus rendimentos? Seguia-o com um tractor e fazia dele pizza antes mesmo de chegar ao Largo das Portas do Sol.
Se eu sei os nomes de todas as ruas e largos de Lisboa? Não. Estou só a armar-me.
vai passar
Para mim um bom colo não é fácil de arranjar - e não me refiro a tamanhos, que os meus melhores colos vêm de pessoas pequeninas.
Apesar da tristeza que me possa trazer, é tão bom saber que há quem recorra ao meu colo para se refugiar e chorar à vontade.



Ultimamente tenho-me visto a reconfortar pessoas de quem gosto tanto, que têm sofrido daquilo que é para mim a pior das dores.
Chorar ajuda, mas o melhor para aliviar a dor da alma é acreditar que vai passar. Porque passa.
Este desenho nasceu no meio de muitos rabiscos mas acabou por ficar como eu queria. Agora está numa moldurinha e vai directo para a loja.
Apesar da tristeza que me possa trazer, é tão bom saber que há quem recorra ao meu colo para se refugiar e chorar à vontade.



Ultimamente tenho-me visto a reconfortar pessoas de quem gosto tanto, que têm sofrido daquilo que é para mim a pior das dores.
Chorar ajuda, mas o melhor para aliviar a dor da alma é acreditar que vai passar. Porque passa.
Este desenho nasceu no meio de muitos rabiscos mas acabou por ficar como eu queria. Agora está numa moldurinha e vai directo para a loja.
27 de abril de 2010
primavera




A Primavera vem cheia de bebés. Eu fico particularmente emocionada com as folhinhas que nascem nas árvores, mais do que com as flores que desabrocham por todo o lado.
Há um mês vi uma mãe pata com 11 bebés e tive um ataquinho de nostalgia...
De Dezembro até Março pintei cinco quartos de bebés que conheci somente em forma de barriguitas. Hoje já estão quase todos cá fora.
Pintar quartos de bebés e contactar com pais grávidos é maravilhoso. É como se fosse Primavera mais vezes.
25 de abril de 2010
a pintora e o rímel
A pintora observa que o seu rímel passou do prazo há mais de quatro anos e desconfia que é por isso que a textura da tinta já é de tal modo pastosa que as suas pestanas não ficam pintadas, ficam aglomeradas por uma camada de crude.
A pintora resolve facilmente o problema, diluindo a tinta pastosa com a de um outro rímel também expirado mas ainda líquido.
A pintora mexe mexe, testa a elasticidade da tinta e conclui que tem razão. Uma tinta só passou do prazo quando já tem bolor e cheira incrivelmente mal.
A pintora deseja secreta e ardentemente que nada de mal aconteça aos seus dois olhinhos verdes, que são pitosgas mas muito estimados.
A pintora resolve facilmente o problema, diluindo a tinta pastosa com a de um outro rímel também expirado mas ainda líquido.
A pintora mexe mexe, testa a elasticidade da tinta e conclui que tem razão. Uma tinta só passou do prazo quando já tem bolor e cheira incrivelmente mal.
A pintora deseja secreta e ardentemente que nada de mal aconteça aos seus dois olhinhos verdes, que são pitosgas mas muito estimados.
eu ontem chorei
Eu,
que desde o dia em que me desfiz em lágrimas na frente dum neurologista horrorizado,
que quase me enfiou as drogas pela boca a baixo,
que me acalmaram e me deixaram pedrada durante meses,
que me anestesiaram de tal maneira,
que nunca mais chorei.
Assim de chorar e sentir as lágrimas a descerem pela cara,
a percorrerem o maxilar e a caírem no peito.
Independentemente dos dramas,
dos horrores por que passei no último ano,
os químicos que me correm nas veias impedem-me de chorar a sério.
Ontem chorei um bocadinho ao ouvir esta música, que tem a letra mais bonita que já ouvi na vida.
:)
que desde o dia em que me desfiz em lágrimas na frente dum neurologista horrorizado,
que quase me enfiou as drogas pela boca a baixo,
que me acalmaram e me deixaram pedrada durante meses,
que me anestesiaram de tal maneira,
que nunca mais chorei.
Assim de chorar e sentir as lágrimas a descerem pela cara,
a percorrerem o maxilar e a caírem no peito.
Independentemente dos dramas,
dos horrores por que passei no último ano,
os químicos que me correm nas veias impedem-me de chorar a sério.
Ontem chorei um bocadinho ao ouvir esta música, que tem a letra mais bonita que já ouvi na vida.
:)
24 de abril de 2010
ratinhos radicais
futebóle

Futebóle é como os meninos do interior de Biana (os meus alunos) dizem futebol. Ainda hoje uso expressões deles e ainda hoje a Di diz Tenho caluore, preciso de bento! graças ao meu aluno Zé Pedro.
Estes dois futebolistas tiveram um parto muito difícil. Se eu fosse a Ana, não teria a paciência que ela teve comigo. As minhas vidas pessoal e profissional atropelam-se mais vezes do que eu gostaria... Ana, muito obrigada. E beijinhos :)
22 de abril de 2010
a razão da minha ausência
Fui aos EUA participar no So You Think You Can Dance com o meu amor.
Eis-nos:
Eis-nos:
18 de abril de 2010
pinturas (e não só) em lisboa
Eu fugi para Lisboa. Primeiro porque precisava, segundo porque o meu irmão me deu abrigo, e terceiro porque em Lisboa há mais trabalho. É o êxodo rural.
Em Lisboa encontrei luz, calor, muitos sotaques, pouquíssimos palavrões, uma rede de transportes públicos que fascina qualquer saloia como eu, família, velhos e novos amigos e uma paixoneta que se transformou em amor palpitante.
Moramos na rota dos aviões - as janelas lá de casa abanam quando há aterragens. Abanam de tal maneira que nem nos apercebemos do sismo.
Enquanto fui digerindo a mudança o tempo passou. Ainda não estou totalmente lá, mas quando venho cá a cima faz-me falta aquilo tudo.
Então é isto. Vivo na capital mas venho ao norte e vou ao sul. E pinto, como sempre, onde houver paredes a precisar de histórias.




Estas fadinhas foram pintadas para três irmãs. Lindas lindas lindas. Pequeninas, rechonchudas e que faziam perguntas (e afirmações) deliciosas sobre o meu trabalho. A bebé riu-se de mim com sarcasmo quando lhe mostrei a tinta verde dentro da lata.
:)
Em Lisboa encontrei luz, calor, muitos sotaques, pouquíssimos palavrões, uma rede de transportes públicos que fascina qualquer saloia como eu, família, velhos e novos amigos e uma paixoneta que se transformou em amor palpitante.
Moramos na rota dos aviões - as janelas lá de casa abanam quando há aterragens. Abanam de tal maneira que nem nos apercebemos do sismo.
Enquanto fui digerindo a mudança o tempo passou. Ainda não estou totalmente lá, mas quando venho cá a cima faz-me falta aquilo tudo.
Então é isto. Vivo na capital mas venho ao norte e vou ao sul. E pinto, como sempre, onde houver paredes a precisar de histórias.




Estas fadinhas foram pintadas para três irmãs. Lindas lindas lindas. Pequeninas, rechonchudas e que faziam perguntas (e afirmações) deliciosas sobre o meu trabalho. A bebé riu-se de mim com sarcasmo quando lhe mostrei a tinta verde dentro da lata.
:)
estou biba
Quando até a nossa mãe reclama porque o blog está parado e a nossa irmã algarvia nos pergunta se o blog morreu para sempre, é o momento de tentar uma reanimaçãozinha.
Os últimos meses foram de mudanças.
Ontem fui oradora (uau) numa palestra (uaaau) sobre percursos académicos e realidades profissionais, dirigida a alunos de artes da escola secundária onde eu andei há 12 anos.
Depois de muito falar sobre os meus bonecos e de me aperceber que se calhar o meu futuro é na stand up comedy, acabei por dizer o que me parece ser a minha lição de vida:
"Quando fazes algo de que gostas mesmo, os piores momentos são suportáveis."
Voltarei brevemente com pinturas e palermices. Prometo.
Beijocas
Os últimos meses foram de mudanças.
Ontem fui oradora (uau) numa palestra (uaaau) sobre percursos académicos e realidades profissionais, dirigida a alunos de artes da escola secundária onde eu andei há 12 anos.
Depois de muito falar sobre os meus bonecos e de me aperceber que se calhar o meu futuro é na stand up comedy, acabei por dizer o que me parece ser a minha lição de vida:
"Quando fazes algo de que gostas mesmo, os piores momentos são suportáveis."
Voltarei brevemente com pinturas e palermices. Prometo.
Beijocas
12 de fevereiro de 2010
1 de fevereiro de 2010
escala de dor da natachinha
1. Entalar o dedo médio numa janela de guilhotina
2. Queimar todo o polegar com caramelo acabado de fazer
3. Injecção de penicilina
4. Depilação a laser nas virilhas*
5. Enxaqueca com E maiúsculo
6. Depilação com cera nas virilhas
*As meninas da Clínica do Pêlo que tiveram o prazer de me torturar com uma arma do Star Wars agradecem e dizem que a sua ambição é alcançar o pódio.
2. Queimar todo o polegar com caramelo acabado de fazer
3. Injecção de penicilina
4. Depilação a laser nas virilhas*
5. Enxaqueca com E maiúsculo
6. Depilação com cera nas virilhas
*As meninas da Clínica do Pêlo que tiveram o prazer de me torturar com uma arma do Star Wars agradecem e dizem que a sua ambição é alcançar o pódio.
20 de janeiro de 2010
eu também já vi o Avatar
... duas vezes. Na primeira adormeci e babei o ombro da mi primi. Dormir e sonhar com os óculos 3D não é para quem quer, é para quem pode. Na segunda vi tudo e quando encostei a cabeça ao ombro do meu belo acompanhante (tão romântica... na teoria resulta) ele empurrou-me e disse "Nem pensar, não vais dormir outra vez!"... E eu respeito um homem que usa óculos escuros no cinema.
Como toda a gente, eu também quero ter um avatar. Mas qual floresta e comunhão com todos os seres vivos? Qual arco e flechas? Eu quero é aquelas maminhas azuis aqui em cima. E correr feita louca sem soutien.
Como toda a gente, eu também quero ter um avatar. Mas qual floresta e comunhão com todos os seres vivos? Qual arco e flechas? Eu quero é aquelas maminhas azuis aqui em cima. E correr feita louca sem soutien.
9 de janeiro de 2010
eu e o meu psiquiatra
Naquele ambiente sério. O consultório tem uma decoração sóbria e aconchegante. O meu psiquiatra tem barba branca e eu gosto dele. A iluminação é suave, parece que estamos ao pé duma lareira. Não fosse o tema das nossas conversas (a minha mente-sopa-de-letras) e até me atrevia a sentar no colo dele. "Pai Natal, és tão fofinho... já te disse que odeio o Natal e alucino contigo enforcado em tudo o que é janela e varanda deste nosso Portugal?"
A Di veio comigo à última consulta. Ficou lá fora à espera e quando eu saí disse-me "Nat, ouve-se tudo. Quer dizer, não se entende o que se diz mas tu falas muito alto..."
Minutos antes, no consutório:
- Blá blá blá...
- Blá...
- Então e como vai a sua vida sentimental?
- Muitobemobrigada!!!
- ...
- Ihihihihihihihihihi!
- Não me quer contar?
- QUERO! Uhuhuhuhuhuhuhuh!
- Se não me quiser contar não há problema, só acho que é uma parte import...
- Mas eu quero!
- ... eu não sou curioso. Já imaginou um psiquiatra curioso, que quer saber ainda mais da vida das pessoas quando já sabe tanto?...
- Ahahahahahahahah!
- Então?...
- Blá blá blá blá blá blá blá blá ahahahahahahahah blá blá blá blá blá ihihihihihhi blá blá blá... ai ai... blá blá blá uhuhuhuhuh!
A Di veio comigo à última consulta. Ficou lá fora à espera e quando eu saí disse-me "Nat, ouve-se tudo. Quer dizer, não se entende o que se diz mas tu falas muito alto..."
Minutos antes, no consutório:
- Blá blá blá...
- Blá...
- Então e como vai a sua vida sentimental?
- Muitobemobrigada!!!
- ...
- Ihihihihihihihihihi!
- Não me quer contar?
- QUERO! Uhuhuhuhuhuhuhuh!
- Se não me quiser contar não há problema, só acho que é uma parte import...
- Mas eu quero!
- ... eu não sou curioso. Já imaginou um psiquiatra curioso, que quer saber ainda mais da vida das pessoas quando já sabe tanto?...
- Ahahahahahahahah!
- Então?...
- Blá blá blá blá blá blá blá blá ahahahahahahahah blá blá blá blá blá ihihihihihhi blá blá blá... ai ai... blá blá blá uhuhuhuhuh!
29 de dezembro de 2009
querido continente (parte 358)
Meus parabéns. €1,49 já é muito bom. E tendo em conta que a música dele é das coisas mais traumatizantes que já ouvi na vida, se calhar volto a frequentar-te...
E que tal baixares o preço do polvilho para os €1,o9 de antigamente? É que já tenho saudades de comer pão de queijo...
Obrigados.
E que tal baixares o preço do polvilho para os €1,o9 de antigamente? É que já tenho saudades de comer pão de queijo...
Obrigados.
18 de dezembro de 2009
e um referendo sobre os referendos? nom?
Não há pachorra. Perguntar ao zé povinho (que inclui gente para quem ser homem-sexual é violar criancinhas) o que pensa do casamento alheio é aquilo a que eu chamo gastar papel à toa.
Tanta árvore a morrer em vão.
Tanta árvore a morrer em vão.
Etiquetas:
desabafos,
maldita ironia que me levas para o inferno
8 de dezembro de 2009
se acaso eu morrer
Se acaso eu morrer e ficar desfigurada.
Se não sobrar o maxilar com os parafusos, nem o polegar com a cicatriz, nem coisa nenhuma que me identifique facilmente.
Não percam tempo com amostras de ADN.
É abrir o cadáver e ver o conteúdo do estômago e intestinos.
Se tiver no mínimo 55% de cacau.
Sou eu.
E descansem.
Morri feliz.
Se não sobrar o maxilar com os parafusos, nem o polegar com a cicatriz, nem coisa nenhuma que me identifique facilmente.
Não percam tempo com amostras de ADN.
É abrir o cadáver e ver o conteúdo do estômago e intestinos.
Se tiver no mínimo 55% de cacau.
Sou eu.
E descansem.
Morri feliz.
27 de novembro de 2009
pedido de ajuda
Alguém pode ajudar?
26 de novembro de 2009
apetece-me dizer duas coisas
Primeira coisa:
Nunca se deve dizer a alguém que engordou, seja meio quilo, seja trinta quilos. "Ah estás tão gordo!" ou "Ehehehe, engordaste um bocadinho..." ou "Ai que gorda!!!" ou "Estás com uns quilinhos a mais?!" ou "Ai o que te aconteceu!!!?"
Sim, porque isto existe. Existe e - pasmem-se- normalmente quem engorda (seja meio quilo, seja trinta quilos) é a primeira pessoa a notar e não precisa que lhe digam. Muito menos em voz alta, muito menos com tom de asco, muito menos quando não se via a pessoa há séculos e haveria tantas outras coisas para dizer primeiro. Meu deus.
Eu recentemente voltei ao mundo da normalidade (alerta ironia). Posso comprar roupa em lojas de gente. Os números normais servem-me. E quanto mais me observo neste mundo mais horror sinto ao lembrar-me de quando tinha 15 anos e ouvi coisas inimagináveis da boca de pessoas conhecidas. Porque subitamente engordei dez quilos. E os outros têm direitos sobre o nosso corpo e sobre a nossa aparência e sobre a nossa saúde. Eu não sabia disto, aos 15 anos, portanto fiquei surpreendida e sem reacção, de todas as vezes. E muito magoada. Mas é assim. Os magros mandam no mundo. Os normais. Mesmo que não sejam pessoas próximas, mesmo que não saibam o que se passa na nossa vida, mesmo que não nos vejam há mais de cinco anos. Ai que gorda!!! "Põe os olhos na tua mãe!", disse-me um médico. Já estávamos nós a sair do consultório. Eu tinha 15 anos. Não sei quantas pessoas estavam na sala de espera. Mas ouviram com certeza. E eu gigante ao lado da minha mãe, sempre pequenina e elegante. Saí dali do tamanho de uma formiga. A minha auto-estima ficou pelo caminho.
Se eu soubesse o nome desse ortopedista escrevia-o agora aqui.
E por falar em médicos. Segunda coisa:
Ontem fui ao meu novo-e-para-sempre-amado-ginecologista. E, mais uma vez chegada ao mundo normal, onde as coisas acontecem como deve ser, saio horrorizada com o meu passado. E agora posso encher a boca para dizer que o último ginecologista onde fui, no hospital particular em Viana é um incompetente. Ignorante, retrógrado, insensível e preconceituoso. Ainda bem que não lhe contei da minha faceta sado-masoquista ou do fetiche com animais de grande porte. Acho que ele teria chamado a polícia.
Eu já nem exijo que a pessoa que calça as luvas e nos enfia instrumentos estranhos nos países baixos seja delicada. Mas não é suposto confiarmos no nosso médico? Não é suposto ele esclarecer-nos e deixar-nos minimamente à vontade para falar de (oh meu deus oh meu deus) sexo? Da nossa vida íntima, sem medo ou vergonha. Assim como eu faço com o meu Dr R... assim como deveria ser com um... como é que se diz? Ah! MÉDICO!
Nunca se deve dizer a alguém que engordou, seja meio quilo, seja trinta quilos. "Ah estás tão gordo!" ou "Ehehehe, engordaste um bocadinho..." ou "Ai que gorda!!!" ou "Estás com uns quilinhos a mais?!" ou "Ai o que te aconteceu!!!?"
Sim, porque isto existe. Existe e - pasmem-se- normalmente quem engorda (seja meio quilo, seja trinta quilos) é a primeira pessoa a notar e não precisa que lhe digam. Muito menos em voz alta, muito menos com tom de asco, muito menos quando não se via a pessoa há séculos e haveria tantas outras coisas para dizer primeiro. Meu deus.
Eu recentemente voltei ao mundo da normalidade (alerta ironia). Posso comprar roupa em lojas de gente. Os números normais servem-me. E quanto mais me observo neste mundo mais horror sinto ao lembrar-me de quando tinha 15 anos e ouvi coisas inimagináveis da boca de pessoas conhecidas. Porque subitamente engordei dez quilos. E os outros têm direitos sobre o nosso corpo e sobre a nossa aparência e sobre a nossa saúde. Eu não sabia disto, aos 15 anos, portanto fiquei surpreendida e sem reacção, de todas as vezes. E muito magoada. Mas é assim. Os magros mandam no mundo. Os normais. Mesmo que não sejam pessoas próximas, mesmo que não saibam o que se passa na nossa vida, mesmo que não nos vejam há mais de cinco anos. Ai que gorda!!! "Põe os olhos na tua mãe!", disse-me um médico. Já estávamos nós a sair do consultório. Eu tinha 15 anos. Não sei quantas pessoas estavam na sala de espera. Mas ouviram com certeza. E eu gigante ao lado da minha mãe, sempre pequenina e elegante. Saí dali do tamanho de uma formiga. A minha auto-estima ficou pelo caminho.
Se eu soubesse o nome desse ortopedista escrevia-o agora aqui.
E por falar em médicos. Segunda coisa:
Ontem fui ao meu novo-e-para-sempre-amado-ginecologista. E, mais uma vez chegada ao mundo normal, onde as coisas acontecem como deve ser, saio horrorizada com o meu passado. E agora posso encher a boca para dizer que o último ginecologista onde fui, no hospital particular em Viana é um incompetente. Ignorante, retrógrado, insensível e preconceituoso. Ainda bem que não lhe contei da minha faceta sado-masoquista ou do fetiche com animais de grande porte. Acho que ele teria chamado a polícia.
Eu já nem exijo que a pessoa que calça as luvas e nos enfia instrumentos estranhos nos países baixos seja delicada. Mas não é suposto confiarmos no nosso médico? Não é suposto ele esclarecer-nos e deixar-nos minimamente à vontade para falar de (oh meu deus oh meu deus) sexo? Da nossa vida íntima, sem medo ou vergonha. Assim como eu faço com o meu Dr R... assim como deveria ser com um... como é que se diz? Ah! MÉDICO!
25 de novembro de 2009
ai jasus que começam as reclamações
Estou viva! Que mania esta de se manterem informados sobre a minha vida através do blog... se soubessem o que eu sei telefonavam-me a perguntar pelas novidades, vos garanto. Há coisas que não se publicam na tia net, minha gente forreta.
Posso adiantar que estou óptima. Feliz da bida. Não posso deixar de reparar que daqui a um mês é o dia N, é verdade... e que já está tudo TUDÓ decorado e iluminado. Náuseas. É o que sinto. Náuseas. Mas o doutor não me vai deixar ficar mal e vai dar-me colinho antes da depressão sazonal sequer se aproximar dos meus neurónios guerreiros.
Agora vou voltar ao trabalho está bem?
Beijos na boca.
*momento imensamente lúdico no vermelho devagarinho (oba oba)*
Curiosidade que ninguém sabe sobre mim (coisas do fei sbuc oh meu deus oh meus deus):
Apenas uma destas cinco coisas me dá vontade de rir. Qual é?
1. comunicar a alguém que alguém morreu
2. pessoas a cair
3. alguém muito mal vestido
4. cócegas nos pés
5. mentir
Posso adiantar que estou óptima. Feliz da bida. Não posso deixar de reparar que daqui a um mês é o dia N, é verdade... e que já está tudo TUDÓ decorado e iluminado. Náuseas. É o que sinto. Náuseas. Mas o doutor não me vai deixar ficar mal e vai dar-me colinho antes da depressão sazonal sequer se aproximar dos meus neurónios guerreiros.
Agora vou voltar ao trabalho está bem?
Beijos na boca.
*momento imensamente lúdico no vermelho devagarinho (oba oba)*
Curiosidade que ninguém sabe sobre mim (coisas do fei sbuc oh meu deus oh meus deus):
Apenas uma destas cinco coisas me dá vontade de rir. Qual é?
1. comunicar a alguém que alguém morreu
2. pessoas a cair
3. alguém muito mal vestido
4. cócegas nos pés
5. mentir
8 de novembro de 2009
postais de natal
A minha amiga Raquelita (minha bruxinha adorada cá beijinho ai que saudades) fez uns postais de Natal que quase me fizeram chorar de tão lindos que são. Babo-me de orgulho...
Tenho a honra de os pôr à venda aqui!
Conjunto de 5 postais + envelopes | 10x15cm
preço: €6 (inclui portes de envio)
Para comprar basta contactar a autora através do email
rfelgueiras@gmail.com
Tenho a honra de os pôr à venda aqui!
Conjunto de 5 postais + envelopes | 10x15cm
preço: €6 (inclui portes de envio)
Para comprar basta contactar a autora através do email
rfelgueiras@gmail.com
30 de outubro de 2009
my heart beats too loud*
Andei tanto tempo apagada, quase extinta.
Agora não caibo em mim.
Não é justo ter de se conter as coisas boas que se sente. Não é. O meu coração às vezes bate tão alto que se torna ensurdecedor. Não posso, não consigo fingir que não o ouço.
Não dou nome às coisas que sinto, só sei que as sinto intensamente. Cheguei a pensar que seria realmente bipolar. Porque já me vi tão intensamente no outro lado. Mas quando o médico me perguntou se eu pensava em pôr um fim a isto, até eu fiquei chocada.
A verdade é que eu sinto coisas boas, na maioria das vezes. Ora, estatisticamente, eu não passo de uma pessoa feliz. Sincera e desavergonhada.
Não caibo em mim.
É por isso que eu vou para a Guiné. O meu pai vai ter um ataque. Mas tem de ser. Por mim.
Não tenho muito juízo, não tenho dinheiro e às vezes não tenho norte. Mas no dia em que vi aqueles bebés todos de braços estendidos para o ar, a competirem por aquilo que a mim me sobra, tive a certeza de que existe pelo menos um lugar na Terra onde eu não serei mal interpretada.
*
Agora não caibo em mim.
Não é justo ter de se conter as coisas boas que se sente. Não é. O meu coração às vezes bate tão alto que se torna ensurdecedor. Não posso, não consigo fingir que não o ouço.
Não dou nome às coisas que sinto, só sei que as sinto intensamente. Cheguei a pensar que seria realmente bipolar. Porque já me vi tão intensamente no outro lado. Mas quando o médico me perguntou se eu pensava em pôr um fim a isto, até eu fiquei chocada.
A verdade é que eu sinto coisas boas, na maioria das vezes. Ora, estatisticamente, eu não passo de uma pessoa feliz. Sincera e desavergonhada.
Não caibo em mim.
É por isso que eu vou para a Guiné. O meu pai vai ter um ataque. Mas tem de ser. Por mim.
Não tenho muito juízo, não tenho dinheiro e às vezes não tenho norte. Mas no dia em que vi aqueles bebés todos de braços estendidos para o ar, a competirem por aquilo que a mim me sobra, tive a certeza de que existe pelo menos um lugar na Terra onde eu não serei mal interpretada.
*
29 de outubro de 2009
28 de outubro de 2009
algures na selva

A savana e a floresta tropical só se cruzam na fantasia, não é?... Se até eu fico confusa, imagino as crianças.
A não ser que façamos por investigar, somos permanentemente aldrabados acerca da vida dos outros animais. Depois é natural que ninguém se choque ao ver elefantes em contacto com cimento, chimpanzés em contacto com grades e golfinhos em contacto com vidro. Mas isso ficará para um dos meus posts mega-vegetarianos-ultra-radicais-e-super-moralistas... ou não.
Eu decidi que nunca mais iria a um jardim zoológico, quando era ainda pequena. Tinha talvez 12 anos. Estávamos no Zoo de Lisboa e eu fiquei muito tempo a olhar para os olhos dum gorila. E ele para os meus. Também dei de comer a um tucano através da rede que o separava de mim. Achei que dar amendoins e bolachas aos animais me faria sentir melhor. Mas nada me aliviou tanto como ver-me dali para fora. E não, obrigada, eu não quero visitar o novo zoo de lisboa. Não por enquanto.
O conceito de selva em que todas as espécies se reunem é muito humano. Mas gosto dele. Algures nos livros, nos filmes, nas salas de aula, nos sonhos, nas pinturas. Onde toda a informação se cruza e (nos) confunde. Algures, muito longe da verdade, os animais juntam-se e riem-se. Felizes em comunhão uns com os outros e, já agora, connosco também.
Algures, no quarto dum bebé de um mês e meio. Que se riu para mim com todas as gengivas que tem.
:)



27 de outubro de 2009
di, o retiro foi assim:
A Mãezé apertou o cerco e eu acabei por me render. Já antes tinha insistido comigo para ir, que era tão bom, que eu ia adorar, que ela gostou tanto e se lembrou tanto de mim, que a comida era toda vegetariana, que as pessoas isto e a filosofia aquilo. Mas eu não fui. Não conseguia ver-me lá. Não conseguia ver-me em mais lado nenhum para além do fosso que cavei.
Há uns meses começou "temos retiro em Outubro" e, com a proximidade da data, foi repetindo com falinhas mansas "não te esqueças que no fim-de-semana de 9, 10 e 11 é o retiro", sem admitir um não como resposta mas ao mesmo tempo sabendo que a mal ninguém me leva a lado nenhum. Amansou como só ela (e tu também...) sabe amansar o bicho ferido que eu tinha aqui dentro. A minha mãe é pequenina e eu sou grande, mas não há colo como o dela.
Fomos. O retiro era um retiro de silêncio, num espaço chamado 4Ventos, em Mafra. Era isto que eu sabia, e pouco mais. Que estaríamos caladas e que haveria meditação. Tenho aprendido que quando a expectativa é zero, a satisfação é garantida. Tudo o que se seguiu veio como uma bênção.
Se falámos? Sim. Se falámos muito? Não.
Falávamos quando nos era permitido. Para partilhar o que sentíamos após cada meditação, para colocar alguma questão, para fazer mantras, para cantar, para agradecer às cozinheiras pela comida e para rir. Rir muito. De resto, o silêncio. O poder do silêncio. Silêncio entre desconhecidos. Sorrisos, gestos, desviares de olhos, tristezas, alegrias, dúvidas, inseguranças e muitas personalidades a virem ao de cima. Em silêncio, pareceu-me que éramos todos transparentes. Para o bem e para o mal. Nunca pensei.
Acordar num sítio como aquela casa, rodeada de pessoas de todas as idades, cores e feitios, e todas, todas em silêncio... Lavar os dentes ao lado dum senhor que faz a barba. Fazer fila para a casa de banho. Cruzar-me com senhoras enroladas na toalha. Tudo em silêncio. Saber que não teria de dizer bom dia sequer. Não esperar nada. Ninguém me dirigiria a palavra. Só olhares e sorrisos cúmplices. Não haveria desbloqueadores de conversa, não haveria constrangimentos.
As refeições em silêncio. Também era um momento de meditação, o de comer. Observar a comida, primeiro no prato e depois na minha boca e depois no meu corpo. Surpreendente. Ficava cheia em menos de nada. Pensei que seria super constrangedor ouvir só talheres e um ou outro alarve a mastigar de boca aberta. Ahahaha! Nada. Não me lembro sequer de ouvir talheres, nem de observar os outros a comer. Quando vi que havia papa de aveia ao pequeno almoço fui para o céu com os pequenos póneis. E bebi imenso café. Uma delícia, Didi.
Das muitas actividades que fizemos e meditações que experimentámos (umas mais e outras menos bem conseguidas - houve momentos em que simplesmente nem consegui manter os olhos fechados, mas tudo bem), houve uma coisa que me marcou. A orientadora estava a falar. Nós ficávamos confortavelmente sentados cada um no seu colchão, com almofadas e mantas. Chá ou água e folhas e caneta para apontamentos. A sala era linda. Chão e tecto em madeira, luzinhas, muitas janelas e uma lareira com recuperador de calor. Mas não estava acesa.
De repente ouve-se um barulhinho e um movimento estranho dentro da lareira. Tinha acabado de descer pela chaminé e aterrado ali dentro um passarinho. Nesse momento quebrou-se o silêncio. Primeiro houve quem apontasse, mas depois falou-se mesmo. "Um pássaro, está um pássaro dentro da lareira!" O tubo da chaminé era tão longo. Que viagem horrível o bicho deve ter feito até finalmente parar e ver novamente luz.
Ninguém se levantou tão rapidamente quanto eu. Foi-me impossível não me identificar imediatamente com aquele pássaro. O susto e o medo de atravessar um túnel escuro, a queda no desconhecido, as asas que não lhe valiam de nada. A prisão em que ficou, o ecrã através do qual via a vida que teve e de que gostava, inacessível. E os sons e a luz toldados. E nenhuma possibilidade de se ver dali para fora. Não sem ajuda.
Quando me aproximei do vidro ele começou a esvoaçar. Via-nos e via a sala e as janelas mas não via saída. Alguém disse para simplesmente abrir a porta da lareira que ele daria logo com a janela aberta. Esta gente não tem gatos siameses, pensei. Quantas vezes já vi passarinhos tão aterrorizados de se verem dentro duma casa que a última coisa que conseguem fazer é rumar à janela aberta...
Abri a porta só um bocadinho. Ele entrou em pânico quando viu a minha mão a aproximar-se para o apanhar. A multidão que deveria meditar em silêncio sofria e gemia e suspirava. Ele resistiu até que o entalei e o agarrei pelas patinhas. Depois veio o melhor. Fui lá fora. A paisagem de Mafra era o azul do amanhecer e as árvores. Mais nada. Ar puro e céu aberto. Silêncio.
Abri as mãos e ele nem hesitou. Voou até o perder de vista.
Obrigada, Mamã.
Há uns meses começou "temos retiro em Outubro" e, com a proximidade da data, foi repetindo com falinhas mansas "não te esqueças que no fim-de-semana de 9, 10 e 11 é o retiro", sem admitir um não como resposta mas ao mesmo tempo sabendo que a mal ninguém me leva a lado nenhum. Amansou como só ela (e tu também...) sabe amansar o bicho ferido que eu tinha aqui dentro. A minha mãe é pequenina e eu sou grande, mas não há colo como o dela.
Fomos. O retiro era um retiro de silêncio, num espaço chamado 4Ventos, em Mafra. Era isto que eu sabia, e pouco mais. Que estaríamos caladas e que haveria meditação. Tenho aprendido que quando a expectativa é zero, a satisfação é garantida. Tudo o que se seguiu veio como uma bênção.
Se falámos? Sim. Se falámos muito? Não.
Falávamos quando nos era permitido. Para partilhar o que sentíamos após cada meditação, para colocar alguma questão, para fazer mantras, para cantar, para agradecer às cozinheiras pela comida e para rir. Rir muito. De resto, o silêncio. O poder do silêncio. Silêncio entre desconhecidos. Sorrisos, gestos, desviares de olhos, tristezas, alegrias, dúvidas, inseguranças e muitas personalidades a virem ao de cima. Em silêncio, pareceu-me que éramos todos transparentes. Para o bem e para o mal. Nunca pensei.
Acordar num sítio como aquela casa, rodeada de pessoas de todas as idades, cores e feitios, e todas, todas em silêncio... Lavar os dentes ao lado dum senhor que faz a barba. Fazer fila para a casa de banho. Cruzar-me com senhoras enroladas na toalha. Tudo em silêncio. Saber que não teria de dizer bom dia sequer. Não esperar nada. Ninguém me dirigiria a palavra. Só olhares e sorrisos cúmplices. Não haveria desbloqueadores de conversa, não haveria constrangimentos.
As refeições em silêncio. Também era um momento de meditação, o de comer. Observar a comida, primeiro no prato e depois na minha boca e depois no meu corpo. Surpreendente. Ficava cheia em menos de nada. Pensei que seria super constrangedor ouvir só talheres e um ou outro alarve a mastigar de boca aberta. Ahahaha! Nada. Não me lembro sequer de ouvir talheres, nem de observar os outros a comer. Quando vi que havia papa de aveia ao pequeno almoço fui para o céu com os pequenos póneis. E bebi imenso café. Uma delícia, Didi.
Das muitas actividades que fizemos e meditações que experimentámos (umas mais e outras menos bem conseguidas - houve momentos em que simplesmente nem consegui manter os olhos fechados, mas tudo bem), houve uma coisa que me marcou. A orientadora estava a falar. Nós ficávamos confortavelmente sentados cada um no seu colchão, com almofadas e mantas. Chá ou água e folhas e caneta para apontamentos. A sala era linda. Chão e tecto em madeira, luzinhas, muitas janelas e uma lareira com recuperador de calor. Mas não estava acesa.
De repente ouve-se um barulhinho e um movimento estranho dentro da lareira. Tinha acabado de descer pela chaminé e aterrado ali dentro um passarinho. Nesse momento quebrou-se o silêncio. Primeiro houve quem apontasse, mas depois falou-se mesmo. "Um pássaro, está um pássaro dentro da lareira!" O tubo da chaminé era tão longo. Que viagem horrível o bicho deve ter feito até finalmente parar e ver novamente luz.
Ninguém se levantou tão rapidamente quanto eu. Foi-me impossível não me identificar imediatamente com aquele pássaro. O susto e o medo de atravessar um túnel escuro, a queda no desconhecido, as asas que não lhe valiam de nada. A prisão em que ficou, o ecrã através do qual via a vida que teve e de que gostava, inacessível. E os sons e a luz toldados. E nenhuma possibilidade de se ver dali para fora. Não sem ajuda.
Quando me aproximei do vidro ele começou a esvoaçar. Via-nos e via a sala e as janelas mas não via saída. Alguém disse para simplesmente abrir a porta da lareira que ele daria logo com a janela aberta. Esta gente não tem gatos siameses, pensei. Quantas vezes já vi passarinhos tão aterrorizados de se verem dentro duma casa que a última coisa que conseguem fazer é rumar à janela aberta...
Abri a porta só um bocadinho. Ele entrou em pânico quando viu a minha mão a aproximar-se para o apanhar. A multidão que deveria meditar em silêncio sofria e gemia e suspirava. Ele resistiu até que o entalei e o agarrei pelas patinhas. Depois veio o melhor. Fui lá fora. A paisagem de Mafra era o azul do amanhecer e as árvores. Mais nada. Ar puro e céu aberto. Silêncio.
Abri as mãos e ele nem hesitou. Voou até o perder de vista.
Obrigada, Mamã.
26 de outubro de 2009
luzboa
A Rita levou-me por Lisboa fora. Que privilégio, ser guiada durante horas por uma alfacinha de Artes que gosta de se rir tanto quanto eu. Andámos quilómetros e só vimos coisas bonitas. Tudo tão lindo. Se os meus neurónios tivessem jeito para nomes eu agora dizia em que ruas e largos e edifícios estivemos, porque são mesmo conhecidos.
Entrámos em várias igrejas. Nunca devo ter estado tão espiritual como estou hoje em dia. O meu sentido crítico em relação às religiões em geral e à fé católica em particular dissipou-se. Não tenho tempo nem paciência para questionar as questões e a fé dos outros. Não tenho moral, aliás, porque eu acredito que os animais vão para o céu. Ponto.
A igreja de S. Domingos deixou-me sem ar. Precisei de me sentar. Acho que se tivesse ficado de pé chorava um bocadinho. A Rita entendeu que eu precisava daquilo. Inspirei e expirei consciente, muitas vezes. Deve ser o que muitas pessoas sentem quando rezam. Um reconforto. Um está tudo bem.
Obrigada, Rita.
À saída havia fila para a ginjinha e castanhas assadas a €2. Fizemos tchintchin com os copinhos de plástico e concordámos: A vida é muito boa e nós merecemos. O senhor da ginjinha perguntou se era com ou sem fruta. E eu "Hã?", a Rita "Não", eu "É bom?" e o senhor nem me deu tempo. Lá vai uma ginjinha para o fundo do meu copinho. E eu tudo bem, que é só um item na lista de milhões e milhões de coisas que eu ainda não fiz antes de morrer. A ginjinha é uma azeitona doce. Gostei. A meio das castanhas assadas já eu estava bêbeda. Rimo-nos muito muito muito. Já era de noite e eu ainda viria a riscar mais um item da lista.
Comer pastéis de Belém.
Um orgasmo digestivo. Como é que se vive vinte e sete anos sem pastéis de Belém?! Doutor, descobri, afinal não era depressão, doutor...
Depois o mosteiro dos Jerónimos.
Quem me dera ver o que há dentro do túmulo do Camões... Adorei o facto de na escultura, em que ele está tão bonito e sereno, o olho direito estar descoberto. Está fechado mas é diferente do esquerdo. A pálpebra tem menos volume.
Espero que o Luís de Camões se tenha sentido tão feliz como eu, em Lisboa. Ele merece.
Entrámos em várias igrejas. Nunca devo ter estado tão espiritual como estou hoje em dia. O meu sentido crítico em relação às religiões em geral e à fé católica em particular dissipou-se. Não tenho tempo nem paciência para questionar as questões e a fé dos outros. Não tenho moral, aliás, porque eu acredito que os animais vão para o céu. Ponto.
A igreja de S. Domingos deixou-me sem ar. Precisei de me sentar. Acho que se tivesse ficado de pé chorava um bocadinho. A Rita entendeu que eu precisava daquilo. Inspirei e expirei consciente, muitas vezes. Deve ser o que muitas pessoas sentem quando rezam. Um reconforto. Um está tudo bem.
Obrigada, Rita.
À saída havia fila para a ginjinha e castanhas assadas a €2. Fizemos tchintchin com os copinhos de plástico e concordámos: A vida é muito boa e nós merecemos. O senhor da ginjinha perguntou se era com ou sem fruta. E eu "Hã?", a Rita "Não", eu "É bom?" e o senhor nem me deu tempo. Lá vai uma ginjinha para o fundo do meu copinho. E eu tudo bem, que é só um item na lista de milhões e milhões de coisas que eu ainda não fiz antes de morrer. A ginjinha é uma azeitona doce. Gostei. A meio das castanhas assadas já eu estava bêbeda. Rimo-nos muito muito muito. Já era de noite e eu ainda viria a riscar mais um item da lista.
Comer pastéis de Belém.
Um orgasmo digestivo. Como é que se vive vinte e sete anos sem pastéis de Belém?! Doutor, descobri, afinal não era depressão, doutor...
Depois o mosteiro dos Jerónimos.
Quem me dera ver o que há dentro do túmulo do Camões... Adorei o facto de na escultura, em que ele está tão bonito e sereno, o olho direito estar descoberto. Está fechado mas é diferente do esquerdo. A pálpebra tem menos volume.
Espero que o Luís de Camões se tenha sentido tão feliz como eu, em Lisboa. Ele merece.
25 de outubro de 2009
querido continente (continuação) III
Golpe baixo, Continente.
Não percebo como pudeste ir tão longe.
Por causa duns cereais, porra?
Ele não tem culpa de ser melhor que tu.
Olha, se queres saber, eu adoro os teus crepes com chocolate! Não há iguais...
Agora faz o favor de retirar aquela música hedionda das rádios e televisões, que já toda a gente acredita que é mesmo do Pingo Doce.
Não percebo como pudeste ir tão longe.
Por causa duns cereais, porra?
Ele não tem culpa de ser melhor que tu.
Olha, se queres saber, eu adoro os teus crepes com chocolate! Não há iguais...
Agora faz o favor de retirar aquela música hedionda das rádios e televisões, que já toda a gente acredita que é mesmo do Pingo Doce.
24 de outubro de 2009
happy birth day
Quando me vi sentada na frente do neurologista a chorar, já vergada sobre a mesa, pensei que aquilo não era de todo o que eu estava à espera de fazer e dizer num consultório. Achava que me iria comportar minimamente bem. Mas eu tinha um pedido de ajuda a fazer. Disse-lhe coisas que nunca disse a ninguém. Ninguém. Ele tinha a voz dos colchões colunex. Ouviu-me como se não houvesse consultas a seguir e tivesse o resto do dia só para mim. Tive de aproveitar.
Disse-lhe do bicho que me engoliu. De como eu andava e parecia que não era eu. Era levada, engolida, estava dentro do bicho. Ouvia os passos mas não era eu que os dava. Via as pessoas mas não via nitidamente. E os sons estavam todos abafados. Ele tomava notas e às vezes acenava. Disse-lhe que uso imagens... Que estava como que num poço. As pessoas e a minha vida lá em cima, e o céu azul e a luz. Às vezes via-me mais perto da superfície, mas nunca capaz de sair.
"E tem vindo a isolar-se?" - perguntou. E eu comecei a chorar outra vez. "Sim. Muito."
E lembrei-me da minha Carlita e do Hugo e da Vânia, e dos amigos deles que me enchem de mimos e me dizem coisas tão queridas. E me convidam a toda a hora para sair. E eu no fundo do poço. Já sem unhas...
Todos os convites e todo o contacto com pessoas me ardiam. Como uma luz muito intensa ao acordar. Ardia por dentro e por fora. "Então como estás? Que fazes?" Cheguei ao ponto de deixar de olhar as pessoas nos olhos. Ardia. A minha mãe encontrou-me em casa, já eu estava a ficar demente. Já nem falar. Já nem pensar. Nem acalmá-la. Dizer-lhe que só estava cansada.
Passei por momentos de não suportar sons, nem luz. Nem conversas, nem raciocínios. Perguntas, nem pensar. Como podia eu querer pintar? Que tonta. Depois veio a medicação, que veio como um ácido por mim adentro. Todos os dias dizia, com as caixas na mão: Os meus remédios fazem-me bem. Os meus químicos. Gosto deles. E dava um beijo numa das caixas. Passei mais de duas semanas com náuseas. Às vezes lutava para não vomitar. De resto eram os picos de humor, esses momentos assustadores em que me ria às gargalhadas e brincava, para depois tudo voltar a arder muito, e eu precisar de me enroscar toda sobre mim mesma novamente. E não vomitar. Manter os químicos cá dentro. Fazem-me bem e eu gosto deles.
Estava no Algarve com a Di, na esplanada, a ler uma revista qualquer. Foi nesse momento, com um café e uma sobremesa, que eu senti qualquer coisa a percorrer-me o corpo. Já não era o bicho. Era mesmo eu a sentir. No meu corpo. Disse-lhe "Acabo de me sentir muito, muito bem."
"Isso é bom", disse a minha enfermeira. Ela sabia que eu ainda tinha muito que me debater até me ver livre do bicho. Aquilo era só eu a tentar respirar pela primeira vez, recém-nascida. Exausta. Mas bem.
O psiquiatra convenceu-me de que ter pensamentos horríveis não faz mal nenhum. É deixá-los passar. Aceitar e deixar passar. São só pensamentos. Assim faço, todos os dias. Também me disse que desconfiava que eu ia ficar ainda melhor, quando eu lhe disse que estava muito bem. Achei que isso já era ser muito ambicioso, mas se ele é dos melhores e eu sou a pessoa doente, resta-me acreditar e ficar caladinha.
Tinha razão.
Agora eu estou em carne viva. O bicho foi-se. Nem vê-lo. A minha pele é a única coisa que me separa do mundo exterior. Os meus sentidos são meus. Os meus passos são meus e eu ando depressa, no meio das pessoas. É para isso que só uso sapatilhas. Não há tempo a perder. Ouço e vejo perfeitamente. E tudo me emociona, como se sentisse - e sinto - as coisas pela primeira vez, depois de muito muito tempo.
Disse-lhe do bicho que me engoliu. De como eu andava e parecia que não era eu. Era levada, engolida, estava dentro do bicho. Ouvia os passos mas não era eu que os dava. Via as pessoas mas não via nitidamente. E os sons estavam todos abafados. Ele tomava notas e às vezes acenava. Disse-lhe que uso imagens... Que estava como que num poço. As pessoas e a minha vida lá em cima, e o céu azul e a luz. Às vezes via-me mais perto da superfície, mas nunca capaz de sair.
"E tem vindo a isolar-se?" - perguntou. E eu comecei a chorar outra vez. "Sim. Muito."
E lembrei-me da minha Carlita e do Hugo e da Vânia, e dos amigos deles que me enchem de mimos e me dizem coisas tão queridas. E me convidam a toda a hora para sair. E eu no fundo do poço. Já sem unhas...
Todos os convites e todo o contacto com pessoas me ardiam. Como uma luz muito intensa ao acordar. Ardia por dentro e por fora. "Então como estás? Que fazes?" Cheguei ao ponto de deixar de olhar as pessoas nos olhos. Ardia. A minha mãe encontrou-me em casa, já eu estava a ficar demente. Já nem falar. Já nem pensar. Nem acalmá-la. Dizer-lhe que só estava cansada.
Passei por momentos de não suportar sons, nem luz. Nem conversas, nem raciocínios. Perguntas, nem pensar. Como podia eu querer pintar? Que tonta. Depois veio a medicação, que veio como um ácido por mim adentro. Todos os dias dizia, com as caixas na mão: Os meus remédios fazem-me bem. Os meus químicos. Gosto deles. E dava um beijo numa das caixas. Passei mais de duas semanas com náuseas. Às vezes lutava para não vomitar. De resto eram os picos de humor, esses momentos assustadores em que me ria às gargalhadas e brincava, para depois tudo voltar a arder muito, e eu precisar de me enroscar toda sobre mim mesma novamente. E não vomitar. Manter os químicos cá dentro. Fazem-me bem e eu gosto deles.
Estava no Algarve com a Di, na esplanada, a ler uma revista qualquer. Foi nesse momento, com um café e uma sobremesa, que eu senti qualquer coisa a percorrer-me o corpo. Já não era o bicho. Era mesmo eu a sentir. No meu corpo. Disse-lhe "Acabo de me sentir muito, muito bem."
"Isso é bom", disse a minha enfermeira. Ela sabia que eu ainda tinha muito que me debater até me ver livre do bicho. Aquilo era só eu a tentar respirar pela primeira vez, recém-nascida. Exausta. Mas bem.
O psiquiatra convenceu-me de que ter pensamentos horríveis não faz mal nenhum. É deixá-los passar. Aceitar e deixar passar. São só pensamentos. Assim faço, todos os dias. Também me disse que desconfiava que eu ia ficar ainda melhor, quando eu lhe disse que estava muito bem. Achei que isso já era ser muito ambicioso, mas se ele é dos melhores e eu sou a pessoa doente, resta-me acreditar e ficar caladinha.
Tinha razão.
Agora eu estou em carne viva. O bicho foi-se. Nem vê-lo. A minha pele é a única coisa que me separa do mundo exterior. Os meus sentidos são meus. Os meus passos são meus e eu ando depressa, no meio das pessoas. É para isso que só uso sapatilhas. Não há tempo a perder. Ouço e vejo perfeitamente. E tudo me emociona, como se sentisse - e sinto - as coisas pela primeira vez, depois de muito muito tempo.
23 de outubro de 2009
lisboa
Uma semana em Lisboa. Adoro tudo. Tudo. O trânsito caótico, a poluição, as multidões, o ritmo acelerado que me embala. Adoro a inércia do rebanho. Lá vou eu sem pressa no meio das pessoas que correm loucas.
Estou sensível a tudo. Estou em carne viva. Até do metro eu gosto. Das pessoas todas. A porcaria da gripe A é um mito. Não querem que a gente se toque. Querem que sintamos muito, muito medo. A maior infecção de todas é a indiferença.
No metro até as pessoas todas apertadas me agradam. Uma vez fui apalpada no metro e detestei. Mas foi ao final do dia e já estava exausta e as pessoas já cheiravam mal. Às oito da manhã as pessoas cheiram bem. Hoje éramos tantos. A minha mão e outras seis ou sete mãos agarradas ao varão no meio da carruagem. Sou mais alta que a maioria das pessoas. O meu pulso colado à cara dum homem que ouvia uma música ensurdecedora. Ainda bem que pus perfume nos pulsos, pensei. Agora ele ouve música pesada aos altos berros e cheira o meu pulso que cheira mesmo bem. No metro joga-se a um jogo de que todos sabem as regras. Chama-se Quanto-tempo-consigo-ficar-sem-olhar-nos-olhos-da-pessoa-que-tenho-a-três-centímetros-de-mim.
Sinto-me profundamente feliz. Hoje chorei de felicidade. Tudo me parece bem. Até a chuva e as minhas calças encharcadas até à canela.
No metro vou a olhar lá para fora e o lá fora é só tudo preto e o reflexo do que se passa dentro da carruagem. Pelo reflexo há quem quebre as regras do jogo. Eu fixo-me na próxima paragem. Porque quando estamos a chegar a Roma, o reflexo é amoR. E eu não posso perder esse momento da linha verde, no metro de Lisboa.
Estou sensível a tudo. Estou em carne viva. Até do metro eu gosto. Das pessoas todas. A porcaria da gripe A é um mito. Não querem que a gente se toque. Querem que sintamos muito, muito medo. A maior infecção de todas é a indiferença.
No metro até as pessoas todas apertadas me agradam. Uma vez fui apalpada no metro e detestei. Mas foi ao final do dia e já estava exausta e as pessoas já cheiravam mal. Às oito da manhã as pessoas cheiram bem. Hoje éramos tantos. A minha mão e outras seis ou sete mãos agarradas ao varão no meio da carruagem. Sou mais alta que a maioria das pessoas. O meu pulso colado à cara dum homem que ouvia uma música ensurdecedora. Ainda bem que pus perfume nos pulsos, pensei. Agora ele ouve música pesada aos altos berros e cheira o meu pulso que cheira mesmo bem. No metro joga-se a um jogo de que todos sabem as regras. Chama-se Quanto-tempo-consigo-ficar-sem-olhar-nos-olhos-da-pessoa-que-tenho-a-três-centímetros-de-mim.
Sinto-me profundamente feliz. Hoje chorei de felicidade. Tudo me parece bem. Até a chuva e as minhas calças encharcadas até à canela.
No metro vou a olhar lá para fora e o lá fora é só tudo preto e o reflexo do que se passa dentro da carruagem. Pelo reflexo há quem quebre as regras do jogo. Eu fixo-me na próxima paragem. Porque quando estamos a chegar a Roma, o reflexo é amoR. E eu não posso perder esse momento da linha verde, no metro de Lisboa.
15 de outubro de 2009
sabem o que é mesmo bonito?
E me deixa profundamente feliz?
É que uma potencial cliente me contacte a pedir informações e orçamentos por recomendação de outro pintor que eu nem sequer conheço. Foi o que me aconteceu ontem. O Atelier Pintarte recomendou o meu trabalho a uma senhora que pretende uma pintura muito específica, que talvez eu consiga executar.
Nem tenho palavras. Só posso agradecer muito muito muito e retribuir a publicidade. Isto compensa todos os episódios de plágio e gracinhas semelhantes que me aconteceram recentemente.
Beijos beijos beijos!
É que uma potencial cliente me contacte a pedir informações e orçamentos por recomendação de outro pintor que eu nem sequer conheço. Foi o que me aconteceu ontem. O Atelier Pintarte recomendou o meu trabalho a uma senhora que pretende uma pintura muito específica, que talvez eu consiga executar.
Nem tenho palavras. Só posso agradecer muito muito muito e retribuir a publicidade. Isto compensa todos os episódios de plágio e gracinhas semelhantes que me aconteceram recentemente.
Beijos beijos beijos!
pintura de quartos de bebé e criança - Açores
Gente gente, atençom!
Pretendo passar o mês de Dezembro nos Açores.
A pintar, claro está.
É espalhar a notícia faz favor!
S. Miguel aqui vou iêue!
Pretendo passar o mês de Dezembro nos Açores.
A pintar, claro está.
É espalhar a notícia faz favor!
S. Miguel aqui vou iêue!
14 de outubro de 2009
o melhor do mundo são os velhinhos
Avó e neta, mais uma vez à mesa. Mais uma vez pedem anonimato. E a gente respeita.
- Vais fazer 28 anos não é?
- Sim...
- Eu com 28 anos já era casada e estava grávida.
- Olha que bem.
- E tu nem namorado tens.
- Que desprezo é esse no teu tom de voz?!
- Não é desprezo! É pena...
- Devias era preocupar-te com a minha felicidade, isso sim. Perguntar-me se sou feliz.
- E és feliz? Sem namorado?!
- Claro que sou!
- ...
- ...
- Vais fazer 28 anos não é?
- Sim...
- Eu com 28 anos já era casada e estava grávida.
- Olha que bem.
- E tu nem namorado tens.
- Que desprezo é esse no teu tom de voz?!
- Não é desprezo! É pena...
- Devias era preocupar-te com a minha felicidade, isso sim. Perguntar-me se sou feliz.
- E és feliz? Sem namorado?!
- Claro que sou!
- ...
- ...
juro que a intenção é a melhor
É verdade que em Lisboa não se diz palavrões como cá em cima? Tipo... entre amigos? Em casa ou no café, quando se está à vontade? Por favor alguém de Lisboa me esclareça.
É verdade que um "filho da puta" em Lisboa pode chocar os mais susceptíveis? E um "foda-se caralho" quando a pessoa se queima ou entala um dedo ou vê a conta da luz? Não é costume?...
Então o que é que se diz?
Diacho?
Estou fod... estou lixada.
É verdade que um "filho da puta" em Lisboa pode chocar os mais susceptíveis? E um "foda-se caralho" quando a pessoa se queima ou entala um dedo ou vê a conta da luz? Não é costume?...
Então o que é que se diz?
Diacho?
Estou fod... estou lixada.
7 de outubro de 2009
posts em rascunho: 06/02/2009
às vezes lembro-me de coisas
Eu e a Carlita tínhamos gravura na faculdade. Acho que toda a gente devia experimentar fazer gravura, é tão interessante... e acredito que exercita imenso o cérebro.
Então. Saíamos da oficina com as mãos imundas. As unhas pretas, apesar do diluente, do gel tira-nódoas, do sabão, da água, da escovinha. Às oito horas da noite íamos para casa cozinhar e comer e rir muito (uma das melhores coisas que me aconteceram na vida: morar com alguém que se ri tanto quanto eu). Antes passávamos pelo supermercado Tomita, ao lado do café Cifrão. Tenho esta imagem das minhas mãos sujas em contacto com as da menina da caixa, de pensar no que ela pensaria.
Com o passar dos dias a tinta ia desaparecendo (íamos quase todos os dias ao Tomita da Rodrigues de Freitas), até à aula seguinte.
Foram meses com as unhas pretas. Que saudades.
Eu e a Carlita tínhamos gravura na faculdade. Acho que toda a gente devia experimentar fazer gravura, é tão interessante... e acredito que exercita imenso o cérebro.
Então. Saíamos da oficina com as mãos imundas. As unhas pretas, apesar do diluente, do gel tira-nódoas, do sabão, da água, da escovinha. Às oito horas da noite íamos para casa cozinhar e comer e rir muito (uma das melhores coisas que me aconteceram na vida: morar com alguém que se ri tanto quanto eu). Antes passávamos pelo supermercado Tomita, ao lado do café Cifrão. Tenho esta imagem das minhas mãos sujas em contacto com as da menina da caixa, de pensar no que ela pensaria.
Com o passar dos dias a tinta ia desaparecendo (íamos quase todos os dias ao Tomita da Rodrigues de Freitas), até à aula seguinte.
Foram meses com as unhas pretas. Que saudades.
6 de outubro de 2009
querido continente (continuação) II
Os Bran Flakes do Pingo Doce custam €1,49.
Temos vencedor, querido Continente.
Lamento...
Não te preocupes com o meu intestino, ele sobreviverá sem ti.
Foi bom enquanto durou. E não digas que não te dei oportunidades.
Beijinhos,
Nat
Mas quando puder compro do teu leitinho de soja, que é ao mesmo preço do dele, está bem?
Temos vencedor, querido Continente.
Lamento...
Não te preocupes com o meu intestino, ele sobreviverá sem ti.
Foi bom enquanto durou. E não digas que não te dei oportunidades.
Beijinhos,
Nat
Mas quando puder compro do teu leitinho de soja, que é ao mesmo preço do dele, está bem?
4 de outubro de 2009
do cérebro
Quando cheguei ao 9º ano não sabia bem o que queria ser. Queria ser cirurgiã plástica. Reconstruir caras e corpos estropiados. Ou então pintora.
A psicóloga a que a minha mãe me levou analisou os resultados dos testes e disse, sem hesitar, "temos artista".
Eu não gosto de matemática. Tenho horror a química. Física é gira por causa da inércia e do movimento uniformemente acelerado (sempre gostei de imaginar coisas em queda livre) e das forças centrífugas e... mais nada. Organização e pensamento abstracto? Zero. Cálculo mental? Zero. Estudar coisas que me parecem inúteis? Zero. Memorizar tabelas e símbolos e nomes estranhos? Zero. Mas para decorar a letra e melodia de uma música pimba à primeira contem comigo.
Adiante. Quando uma psicóloga nos "diz" que o caminho a seguir é o caminho que nos parece mais fácil, segue-se em frente sem se olhar para trás. Foi o que eu fiz. Adeus ciências exactas e pensamento abstracto, adeus horas de estudo e exercícios estúpidos estúpidos estúpidos (seno traço fracção xis igual a ípsilon mais fórmula resolvente fechar parêntesis - e é escusado apedrejarem-me, a minha adorada mãe é professora de matemática e gosta de mim apesar disto). Olá vintes a geometria descritiva, visualização no espaço, uso da imaginação, desenho, pintura e história da arte. Um mar de rosas.
O facto de ter reprovado a Desenho mal cheguei à faculdade foi um aviso a que não prestei atenção. Estava habituada a ouvir aaaaaahs desde a primeira classe sempre que fazia um rabisco. Alguma armadilha me haveria de surgir no caminho luminoso e verdejante que a psicóloga me indicou. Ou, no mínimo, alguma surpresa me esperaria no final do caminho.
O meu cérebro pifou.
Acabei sentada em frente a um psiquiatra. Que não me indica caminhos. Ensina-me a pôr tudo em causa. Diz-me que os meus pensamentos mais assustadores não passam de ideias disparatadas. Que as pessoas criativas são mesmo assim, têm mais ideias que a maioria das pessoas e também acreditam mais facilmente naquilo que os seus cérebros produzem. Diz uma e outra vez, para que eu não me esqueça. Diz-me que mude de estratégia, de caminho, se necessário for. E eu adoro esta nova visão. Esta busca de um novo norte. Começo a ficar cada vez mais fascinada por aquilo que o meu cérebro (e suas patologias) me tem ensinado. Chego a pensar em tirar outra licenciatura, quem sabe, um dia. Qualquer coisa que me aproxime ainda mais da mente e do comportamento humanos. Qualquer coisa que (eu sei eu sei não digam!) passe por estudar física, química e matemática.
Quase "recuperada" mas ainda muito dependente do comprimido mágico e do senhor de barba que ridiculariza os meus dramas, vejo-me livre. Livre de todos os pesos com que me fui carregando ao longo dos anos. Tão livre e leve que chego a prever onde me levam os caminhos, de uma perspectiva aérea, privilegiada. Com uma confiança e optimismo quase irresponsáveis.
PS: hoje sonhei com uma gaivota.
A psicóloga a que a minha mãe me levou analisou os resultados dos testes e disse, sem hesitar, "temos artista".
Eu não gosto de matemática. Tenho horror a química. Física é gira por causa da inércia e do movimento uniformemente acelerado (sempre gostei de imaginar coisas em queda livre) e das forças centrífugas e... mais nada. Organização e pensamento abstracto? Zero. Cálculo mental? Zero. Estudar coisas que me parecem inúteis? Zero. Memorizar tabelas e símbolos e nomes estranhos? Zero. Mas para decorar a letra e melodia de uma música pimba à primeira contem comigo.
Adiante. Quando uma psicóloga nos "diz" que o caminho a seguir é o caminho que nos parece mais fácil, segue-se em frente sem se olhar para trás. Foi o que eu fiz. Adeus ciências exactas e pensamento abstracto, adeus horas de estudo e exercícios estúpidos estúpidos estúpidos (seno traço fracção xis igual a ípsilon mais fórmula resolvente fechar parêntesis - e é escusado apedrejarem-me, a minha adorada mãe é professora de matemática e gosta de mim apesar disto). Olá vintes a geometria descritiva, visualização no espaço, uso da imaginação, desenho, pintura e história da arte. Um mar de rosas.
O facto de ter reprovado a Desenho mal cheguei à faculdade foi um aviso a que não prestei atenção. Estava habituada a ouvir aaaaaahs desde a primeira classe sempre que fazia um rabisco. Alguma armadilha me haveria de surgir no caminho luminoso e verdejante que a psicóloga me indicou. Ou, no mínimo, alguma surpresa me esperaria no final do caminho.
O meu cérebro pifou.
Acabei sentada em frente a um psiquiatra. Que não me indica caminhos. Ensina-me a pôr tudo em causa. Diz-me que os meus pensamentos mais assustadores não passam de ideias disparatadas. Que as pessoas criativas são mesmo assim, têm mais ideias que a maioria das pessoas e também acreditam mais facilmente naquilo que os seus cérebros produzem. Diz uma e outra vez, para que eu não me esqueça. Diz-me que mude de estratégia, de caminho, se necessário for. E eu adoro esta nova visão. Esta busca de um novo norte. Começo a ficar cada vez mais fascinada por aquilo que o meu cérebro (e suas patologias) me tem ensinado. Chego a pensar em tirar outra licenciatura, quem sabe, um dia. Qualquer coisa que me aproxime ainda mais da mente e do comportamento humanos. Qualquer coisa que (eu sei eu sei não digam!) passe por estudar física, química e matemática.
Quase "recuperada" mas ainda muito dependente do comprimido mágico e do senhor de barba que ridiculariza os meus dramas, vejo-me livre. Livre de todos os pesos com que me fui carregando ao longo dos anos. Tão livre e leve que chego a prever onde me levam os caminhos, de uma perspectiva aérea, privilegiada. Com uma confiança e optimismo quase irresponsáveis.
PS: hoje sonhei com uma gaivota.
3 de outubro de 2009
posts em rascunho: 26/04/2009
do humor negro
Quando o gato foi atropelado em frente a casa e se arrastou e morreu no passeio, ficou lá a mancha de sangue. Os trajectos desenhados na estrada. O do carro que seguiu caminho e o do gato que ficou a uns metros. Tanto sangue. Escondi o corpo e decidi contar à minha mãe só na manhã seguinte. Madruguei, para garantir que ela não veria a estrada naquele estado. Aproximei-me dela, segurei-lhe os dois braços e disse, sem conseguir parar de chorar:
"Aconteceu uma coisa."
Depois peguei num balde com água, numa vassoura e no Blanka Oxi Action e fui lavar a estrada. E enquanto me desviava dum carro que passava e via a espuma vermelha a descer a rua, disse para mim mesma:
Isto sim dava um anúncio. Este detergente é mesmo bom.
Quando o gato foi atropelado em frente a casa e se arrastou e morreu no passeio, ficou lá a mancha de sangue. Os trajectos desenhados na estrada. O do carro que seguiu caminho e o do gato que ficou a uns metros. Tanto sangue. Escondi o corpo e decidi contar à minha mãe só na manhã seguinte. Madruguei, para garantir que ela não veria a estrada naquele estado. Aproximei-me dela, segurei-lhe os dois braços e disse, sem conseguir parar de chorar:
"Aconteceu uma coisa."
Depois peguei num balde com água, numa vassoura e no Blanka Oxi Action e fui lavar a estrada. E enquanto me desviava dum carro que passava e via a espuma vermelha a descer a rua, disse para mim mesma:
Isto sim dava um anúncio. Este detergente é mesmo bom.
posts em rascunho: 21/06/2009
cacos
Há dias vi-me numa cena típica de desenho animado. Tom & Jerry talvez... Quando uma pilha de louça se desmorona e as peças voam em várias direcções, numa cascata elástica que desafia as leis da física do mundo real. E a personagem, num esforço sobrenatural, consegue amparar-lhes a queda. Usa as mãos, os pés, a boca, a cauda para agarrar a última chaveninha a um centímetro do chão.
Tive esta visão. Eu era a personagem e a louça eram os outros, os problemas dos outros, a vida dos outros, as lágrimas, as necessidades dos outros.
A amortecer-lhes a queda e a impedir o pior, lá estava eu, no meio do chão. Estatelada.
Há dias vi-me numa cena típica de desenho animado. Tom & Jerry talvez... Quando uma pilha de louça se desmorona e as peças voam em várias direcções, numa cascata elástica que desafia as leis da física do mundo real. E a personagem, num esforço sobrenatural, consegue amparar-lhes a queda. Usa as mãos, os pés, a boca, a cauda para agarrar a última chaveninha a um centímetro do chão.
Tive esta visão. Eu era a personagem e a louça eram os outros, os problemas dos outros, a vida dos outros, as lágrimas, as necessidades dos outros.
A amortecer-lhes a queda e a impedir o pior, lá estava eu, no meio do chão. Estatelada.
posts em rascunho: 11/06/2009
hoje ia ao volante e pensei
... enquanto esfregava o braço em busca de imperfeições. Isto do tempo quente obriga-nos a expor as carnes que normalmente andam escondidas. E expô-las ao olhar dos outros traz muitas vezes baixas de auto-estima, independentemente de quem sejam os outros e independentemente da atenção com que nos olham. Pensei:
Que bom seria se alguém gostasse das imperfeições da minha pele. Então parei de esfregar o braço e em vez disso afaguei-o. O meu braço direito, gosto tanto dele, para quê procurar-lhe irregularidades epidérmicas? Que bom seria se alguém me tratasse mesmo bem, incondicionalmente. Me acarinhasse e me sorrisse, independentemente do humor com que acordo, dos números na roupa e na balança, das crises existenciais (e já agora do penteado) na cabeça, da celulite exposta ao sol (e aos olhos dos outros) e, acima de tudo, independentemente dos meus erros. Seria tão bom que existisse alguém que me tratasse bem e me tolerasse, acima de tudo e de qualquer falha minha. Então pensei:
Essa pessoa posso ser eu.
E fiz mais festinhas no meu braço direito.
... enquanto esfregava o braço em busca de imperfeições. Isto do tempo quente obriga-nos a expor as carnes que normalmente andam escondidas. E expô-las ao olhar dos outros traz muitas vezes baixas de auto-estima, independentemente de quem sejam os outros e independentemente da atenção com que nos olham. Pensei:
Que bom seria se alguém gostasse das imperfeições da minha pele. Então parei de esfregar o braço e em vez disso afaguei-o. O meu braço direito, gosto tanto dele, para quê procurar-lhe irregularidades epidérmicas? Que bom seria se alguém me tratasse mesmo bem, incondicionalmente. Me acarinhasse e me sorrisse, independentemente do humor com que acordo, dos números na roupa e na balança, das crises existenciais (e já agora do penteado) na cabeça, da celulite exposta ao sol (e aos olhos dos outros) e, acima de tudo, independentemente dos meus erros. Seria tão bom que existisse alguém que me tratasse bem e me tolerasse, acima de tudo e de qualquer falha minha. Então pensei:
Essa pessoa posso ser eu.
E fiz mais festinhas no meu braço direito.
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