Gente gente, atençom!
Pretendo passar o mês de Dezembro nos Açores.
A pintar, claro está.
É espalhar a notícia faz favor!
S. Miguel aqui vou iêue!
15 de outubro de 2009
14 de outubro de 2009
o melhor do mundo são os velhinhos
Avó e neta, mais uma vez à mesa. Mais uma vez pedem anonimato. E a gente respeita.
- Vais fazer 28 anos não é?
- Sim...
- Eu com 28 anos já era casada e estava grávida.
- Olha que bem.
- E tu nem namorado tens.
- Que desprezo é esse no teu tom de voz?!
- Não é desprezo! É pena...
- Devias era preocupar-te com a minha felicidade, isso sim. Perguntar-me se sou feliz.
- E és feliz? Sem namorado?!
- Claro que sou!
- ...
- ...
- Vais fazer 28 anos não é?
- Sim...
- Eu com 28 anos já era casada e estava grávida.
- Olha que bem.
- E tu nem namorado tens.
- Que desprezo é esse no teu tom de voz?!
- Não é desprezo! É pena...
- Devias era preocupar-te com a minha felicidade, isso sim. Perguntar-me se sou feliz.
- E és feliz? Sem namorado?!
- Claro que sou!
- ...
- ...
juro que a intenção é a melhor
É verdade que em Lisboa não se diz palavrões como cá em cima? Tipo... entre amigos? Em casa ou no café, quando se está à vontade? Por favor alguém de Lisboa me esclareça.
É verdade que um "filho da puta" em Lisboa pode chocar os mais susceptíveis? E um "foda-se caralho" quando a pessoa se queima ou entala um dedo ou vê a conta da luz? Não é costume?...
Então o que é que se diz?
Diacho?
Estou fod... estou lixada.
É verdade que um "filho da puta" em Lisboa pode chocar os mais susceptíveis? E um "foda-se caralho" quando a pessoa se queima ou entala um dedo ou vê a conta da luz? Não é costume?...
Então o que é que se diz?
Diacho?
Estou fod... estou lixada.
7 de outubro de 2009
posts em rascunho: 06/02/2009
às vezes lembro-me de coisas
Eu e a Carlita tínhamos gravura na faculdade. Acho que toda a gente devia experimentar fazer gravura, é tão interessante... e acredito que exercita imenso o cérebro.
Então. Saíamos da oficina com as mãos imundas. As unhas pretas, apesar do diluente, do gel tira-nódoas, do sabão, da água, da escovinha. Às oito horas da noite íamos para casa cozinhar e comer e rir muito (uma das melhores coisas que me aconteceram na vida: morar com alguém que se ri tanto quanto eu). Antes passávamos pelo supermercado Tomita, ao lado do café Cifrão. Tenho esta imagem das minhas mãos sujas em contacto com as da menina da caixa, de pensar no que ela pensaria.
Com o passar dos dias a tinta ia desaparecendo (íamos quase todos os dias ao Tomita da Rodrigues de Freitas), até à aula seguinte.
Foram meses com as unhas pretas. Que saudades.
Eu e a Carlita tínhamos gravura na faculdade. Acho que toda a gente devia experimentar fazer gravura, é tão interessante... e acredito que exercita imenso o cérebro.
Então. Saíamos da oficina com as mãos imundas. As unhas pretas, apesar do diluente, do gel tira-nódoas, do sabão, da água, da escovinha. Às oito horas da noite íamos para casa cozinhar e comer e rir muito (uma das melhores coisas que me aconteceram na vida: morar com alguém que se ri tanto quanto eu). Antes passávamos pelo supermercado Tomita, ao lado do café Cifrão. Tenho esta imagem das minhas mãos sujas em contacto com as da menina da caixa, de pensar no que ela pensaria.
Com o passar dos dias a tinta ia desaparecendo (íamos quase todos os dias ao Tomita da Rodrigues de Freitas), até à aula seguinte.
Foram meses com as unhas pretas. Que saudades.
6 de outubro de 2009
querido continente (continuação) II
Os Bran Flakes do Pingo Doce custam €1,49.
Temos vencedor, querido Continente.
Lamento...
Não te preocupes com o meu intestino, ele sobreviverá sem ti.
Foi bom enquanto durou. E não digas que não te dei oportunidades.
Beijinhos,
Nat
Mas quando puder compro do teu leitinho de soja, que é ao mesmo preço do dele, está bem?
Temos vencedor, querido Continente.
Lamento...
Não te preocupes com o meu intestino, ele sobreviverá sem ti.
Foi bom enquanto durou. E não digas que não te dei oportunidades.
Beijinhos,
Nat
Mas quando puder compro do teu leitinho de soja, que é ao mesmo preço do dele, está bem?
4 de outubro de 2009
do cérebro
Quando cheguei ao 9º ano não sabia bem o que queria ser. Queria ser cirurgiã plástica. Reconstruir caras e corpos estropiados. Ou então pintora.
A psicóloga a que a minha mãe me levou analisou os resultados dos testes e disse, sem hesitar, "temos artista".
Eu não gosto de matemática. Tenho horror a química. Física é gira por causa da inércia e do movimento uniformemente acelerado (sempre gostei de imaginar coisas em queda livre) e das forças centrífugas e... mais nada. Organização e pensamento abstracto? Zero. Cálculo mental? Zero. Estudar coisas que me parecem inúteis? Zero. Memorizar tabelas e símbolos e nomes estranhos? Zero. Mas para decorar a letra e melodia de uma música pimba à primeira contem comigo.
Adiante. Quando uma psicóloga nos "diz" que o caminho a seguir é o caminho que nos parece mais fácil, segue-se em frente sem se olhar para trás. Foi o que eu fiz. Adeus ciências exactas e pensamento abstracto, adeus horas de estudo e exercícios estúpidos estúpidos estúpidos (seno traço fracção xis igual a ípsilon mais fórmula resolvente fechar parêntesis - e é escusado apedrejarem-me, a minha adorada mãe é professora de matemática e gosta de mim apesar disto). Olá vintes a geometria descritiva, visualização no espaço, uso da imaginação, desenho, pintura e história da arte. Um mar de rosas.
O facto de ter reprovado a Desenho mal cheguei à faculdade foi um aviso a que não prestei atenção. Estava habituada a ouvir aaaaaahs desde a primeira classe sempre que fazia um rabisco. Alguma armadilha me haveria de surgir no caminho luminoso e verdejante que a psicóloga me indicou. Ou, no mínimo, alguma surpresa me esperaria no final do caminho.
O meu cérebro pifou.
Acabei sentada em frente a um psiquiatra. Que não me indica caminhos. Ensina-me a pôr tudo em causa. Diz-me que os meus pensamentos mais assustadores não passam de ideias disparatadas. Que as pessoas criativas são mesmo assim, têm mais ideias que a maioria das pessoas e também acreditam mais facilmente naquilo que os seus cérebros produzem. Diz uma e outra vez, para que eu não me esqueça. Diz-me que mude de estratégia, de caminho, se necessário for. E eu adoro esta nova visão. Esta busca de um novo norte. Começo a ficar cada vez mais fascinada por aquilo que o meu cérebro (e suas patologias) me tem ensinado. Chego a pensar em tirar outra licenciatura, quem sabe, um dia. Qualquer coisa que me aproxime ainda mais da mente e do comportamento humanos. Qualquer coisa que (eu sei eu sei não digam!) passe por estudar física, química e matemática.
Quase "recuperada" mas ainda muito dependente do comprimido mágico e do senhor de barba que ridiculariza os meus dramas, vejo-me livre. Livre de todos os pesos com que me fui carregando ao longo dos anos. Tão livre e leve que chego a prever onde me levam os caminhos, de uma perspectiva aérea, privilegiada. Com uma confiança e optimismo quase irresponsáveis.
PS: hoje sonhei com uma gaivota.
A psicóloga a que a minha mãe me levou analisou os resultados dos testes e disse, sem hesitar, "temos artista".
Eu não gosto de matemática. Tenho horror a química. Física é gira por causa da inércia e do movimento uniformemente acelerado (sempre gostei de imaginar coisas em queda livre) e das forças centrífugas e... mais nada. Organização e pensamento abstracto? Zero. Cálculo mental? Zero. Estudar coisas que me parecem inúteis? Zero. Memorizar tabelas e símbolos e nomes estranhos? Zero. Mas para decorar a letra e melodia de uma música pimba à primeira contem comigo.
Adiante. Quando uma psicóloga nos "diz" que o caminho a seguir é o caminho que nos parece mais fácil, segue-se em frente sem se olhar para trás. Foi o que eu fiz. Adeus ciências exactas e pensamento abstracto, adeus horas de estudo e exercícios estúpidos estúpidos estúpidos (seno traço fracção xis igual a ípsilon mais fórmula resolvente fechar parêntesis - e é escusado apedrejarem-me, a minha adorada mãe é professora de matemática e gosta de mim apesar disto). Olá vintes a geometria descritiva, visualização no espaço, uso da imaginação, desenho, pintura e história da arte. Um mar de rosas.
O facto de ter reprovado a Desenho mal cheguei à faculdade foi um aviso a que não prestei atenção. Estava habituada a ouvir aaaaaahs desde a primeira classe sempre que fazia um rabisco. Alguma armadilha me haveria de surgir no caminho luminoso e verdejante que a psicóloga me indicou. Ou, no mínimo, alguma surpresa me esperaria no final do caminho.
O meu cérebro pifou.
Acabei sentada em frente a um psiquiatra. Que não me indica caminhos. Ensina-me a pôr tudo em causa. Diz-me que os meus pensamentos mais assustadores não passam de ideias disparatadas. Que as pessoas criativas são mesmo assim, têm mais ideias que a maioria das pessoas e também acreditam mais facilmente naquilo que os seus cérebros produzem. Diz uma e outra vez, para que eu não me esqueça. Diz-me que mude de estratégia, de caminho, se necessário for. E eu adoro esta nova visão. Esta busca de um novo norte. Começo a ficar cada vez mais fascinada por aquilo que o meu cérebro (e suas patologias) me tem ensinado. Chego a pensar em tirar outra licenciatura, quem sabe, um dia. Qualquer coisa que me aproxime ainda mais da mente e do comportamento humanos. Qualquer coisa que (eu sei eu sei não digam!) passe por estudar física, química e matemática.
Quase "recuperada" mas ainda muito dependente do comprimido mágico e do senhor de barba que ridiculariza os meus dramas, vejo-me livre. Livre de todos os pesos com que me fui carregando ao longo dos anos. Tão livre e leve que chego a prever onde me levam os caminhos, de uma perspectiva aérea, privilegiada. Com uma confiança e optimismo quase irresponsáveis.
PS: hoje sonhei com uma gaivota.
3 de outubro de 2009
posts em rascunho: 26/04/2009
do humor negro
Quando o gato foi atropelado em frente a casa e se arrastou e morreu no passeio, ficou lá a mancha de sangue. Os trajectos desenhados na estrada. O do carro que seguiu caminho e o do gato que ficou a uns metros. Tanto sangue. Escondi o corpo e decidi contar à minha mãe só na manhã seguinte. Madruguei, para garantir que ela não veria a estrada naquele estado. Aproximei-me dela, segurei-lhe os dois braços e disse, sem conseguir parar de chorar:
"Aconteceu uma coisa."
Depois peguei num balde com água, numa vassoura e no Blanka Oxi Action e fui lavar a estrada. E enquanto me desviava dum carro que passava e via a espuma vermelha a descer a rua, disse para mim mesma:
Isto sim dava um anúncio. Este detergente é mesmo bom.
Quando o gato foi atropelado em frente a casa e se arrastou e morreu no passeio, ficou lá a mancha de sangue. Os trajectos desenhados na estrada. O do carro que seguiu caminho e o do gato que ficou a uns metros. Tanto sangue. Escondi o corpo e decidi contar à minha mãe só na manhã seguinte. Madruguei, para garantir que ela não veria a estrada naquele estado. Aproximei-me dela, segurei-lhe os dois braços e disse, sem conseguir parar de chorar:
"Aconteceu uma coisa."
Depois peguei num balde com água, numa vassoura e no Blanka Oxi Action e fui lavar a estrada. E enquanto me desviava dum carro que passava e via a espuma vermelha a descer a rua, disse para mim mesma:
Isto sim dava um anúncio. Este detergente é mesmo bom.
posts em rascunho: 21/06/2009
cacos
Há dias vi-me numa cena típica de desenho animado. Tom & Jerry talvez... Quando uma pilha de louça se desmorona e as peças voam em várias direcções, numa cascata elástica que desafia as leis da física do mundo real. E a personagem, num esforço sobrenatural, consegue amparar-lhes a queda. Usa as mãos, os pés, a boca, a cauda para agarrar a última chaveninha a um centímetro do chão.
Tive esta visão. Eu era a personagem e a louça eram os outros, os problemas dos outros, a vida dos outros, as lágrimas, as necessidades dos outros.
A amortecer-lhes a queda e a impedir o pior, lá estava eu, no meio do chão. Estatelada.
Há dias vi-me numa cena típica de desenho animado. Tom & Jerry talvez... Quando uma pilha de louça se desmorona e as peças voam em várias direcções, numa cascata elástica que desafia as leis da física do mundo real. E a personagem, num esforço sobrenatural, consegue amparar-lhes a queda. Usa as mãos, os pés, a boca, a cauda para agarrar a última chaveninha a um centímetro do chão.
Tive esta visão. Eu era a personagem e a louça eram os outros, os problemas dos outros, a vida dos outros, as lágrimas, as necessidades dos outros.
A amortecer-lhes a queda e a impedir o pior, lá estava eu, no meio do chão. Estatelada.
posts em rascunho: 11/06/2009
hoje ia ao volante e pensei
... enquanto esfregava o braço em busca de imperfeições. Isto do tempo quente obriga-nos a expor as carnes que normalmente andam escondidas. E expô-las ao olhar dos outros traz muitas vezes baixas de auto-estima, independentemente de quem sejam os outros e independentemente da atenção com que nos olham. Pensei:
Que bom seria se alguém gostasse das imperfeições da minha pele. Então parei de esfregar o braço e em vez disso afaguei-o. O meu braço direito, gosto tanto dele, para quê procurar-lhe irregularidades epidérmicas? Que bom seria se alguém me tratasse mesmo bem, incondicionalmente. Me acarinhasse e me sorrisse, independentemente do humor com que acordo, dos números na roupa e na balança, das crises existenciais (e já agora do penteado) na cabeça, da celulite exposta ao sol (e aos olhos dos outros) e, acima de tudo, independentemente dos meus erros. Seria tão bom que existisse alguém que me tratasse bem e me tolerasse, acima de tudo e de qualquer falha minha. Então pensei:
Essa pessoa posso ser eu.
E fiz mais festinhas no meu braço direito.
... enquanto esfregava o braço em busca de imperfeições. Isto do tempo quente obriga-nos a expor as carnes que normalmente andam escondidas. E expô-las ao olhar dos outros traz muitas vezes baixas de auto-estima, independentemente de quem sejam os outros e independentemente da atenção com que nos olham. Pensei:
Que bom seria se alguém gostasse das imperfeições da minha pele. Então parei de esfregar o braço e em vez disso afaguei-o. O meu braço direito, gosto tanto dele, para quê procurar-lhe irregularidades epidérmicas? Que bom seria se alguém me tratasse mesmo bem, incondicionalmente. Me acarinhasse e me sorrisse, independentemente do humor com que acordo, dos números na roupa e na balança, das crises existenciais (e já agora do penteado) na cabeça, da celulite exposta ao sol (e aos olhos dos outros) e, acima de tudo, independentemente dos meus erros. Seria tão bom que existisse alguém que me tratasse bem e me tolerasse, acima de tudo e de qualquer falha minha. Então pensei:
Essa pessoa posso ser eu.
E fiz mais festinhas no meu braço direito.
1 de outubro de 2009
29 de setembro de 2009
ai c'agradável
Ainda estou em estado de choque.
Eu e mi primi estávamos no carro a ter uma das nossas conversas sérias. Nós ou temos conversas muito sérias ou conversas muito parvas, já reparaste mi primi? Eu falava falava falava, o semáforo ficou vermelho, mi primi abrandou, parou, eu continuei a falar sobre o assunto sério e de repente só ouço uma explosão e sinto o meu corpo a ser abanado como se de um bonequinho de trapos se tratasse. Caixas de CDs a voarem e a partirem-se, as minhas palavras a darem lugar a um grito* e os meus dentes a baterem violentamente. Abri os olhos e ainda demorei um bocado até perceber que tínhamos um jipe enfiado pelo nosso carro adentro. Um jipe que vinha a, vá lá, vinte, no máximo trinta km por hora e me fez tomar uma decisão para o resto da vida:
Pessoa que andar comigo, seja no meu carro, seja no próprio carro, seja em que assento for e independentemente da duração da viagem ou da velocidade a que formos,
Eu e mi primi estávamos no carro a ter uma das nossas conversas sérias. Nós ou temos conversas muito sérias ou conversas muito parvas, já reparaste mi primi? Eu falava falava falava, o semáforo ficou vermelho, mi primi abrandou, parou, eu continuei a falar sobre o assunto sério e de repente só ouço uma explosão e sinto o meu corpo a ser abanado como se de um bonequinho de trapos se tratasse. Caixas de CDs a voarem e a partirem-se, as minhas palavras a darem lugar a um grito* e os meus dentes a baterem violentamente. Abri os olhos e ainda demorei um bocado até perceber que tínhamos um jipe enfiado pelo nosso carro adentro. Um jipe que vinha a, vá lá, vinte, no máximo trinta km por hora e me fez tomar uma decisão para o resto da vida:
Pessoa que andar comigo, seja no meu carro, seja no próprio carro, seja em que assento for e independentemente da duração da viagem ou da velocidade a que formos,
VAI DE CINTO DE SEGURANÇA POSTO.
Nós estávamos paradas. Quietinhas e inocentes.
O jipe ficou intacto.
O miprimi mobile ficou com o porta-bagagens todo metido para dentro.
As nossas caras não estão metidas para dentro também porque obviamente tínhamos o cinto posto.
Fiquei a pensar na quantidade de pessoas que conheço (incluindo eu própria, ainda que raramente) que não usam o cinto de segurança atrás.
Obrigada, senhor iluminado. Obrigada obrigada obrigada, que só quase arranquei a minha própria língua à dentada e fracturei uma clavícula e fiquei sem uma mama e esmaguei o esterno. Mas estou biba! Cá beijinho, senhor inventor do cinto que salvou esta minha carinha laroca.
* o grito foi uma espécie de balido. Em duas palavras: ri dículo.
Depois da declaração amigável estar feita e os tremeliques terem acabado, passámos o resto da viagem numa conversa parva sobre o senhor que conduzia o jipe: a sua atitude correcta e amigável, a sua amigável aparência física, estado civil, profissão, local de trabalho, número de telefone, trocadilhos obscenos sobre a posição relativa das viaturas... enfim. As conversas que as pessoas acidentadas têm habitualmente.
(Amanhã dou notícias da minha caixa torácica.)
O jipe ficou intacto.
O miprimi mobile ficou com o porta-bagagens todo metido para dentro.
As nossas caras não estão metidas para dentro também porque obviamente tínhamos o cinto posto.
Fiquei a pensar na quantidade de pessoas que conheço (incluindo eu própria, ainda que raramente) que não usam o cinto de segurança atrás.
Obrigada, senhor iluminado. Obrigada obrigada obrigada, que só quase arranquei a minha própria língua à dentada e fracturei uma clavícula e fiquei sem uma mama e esmaguei o esterno. Mas estou biba! Cá beijinho, senhor inventor do cinto que salvou esta minha carinha laroca.
* o grito foi uma espécie de balido. Em duas palavras: ri dículo.
Depois da declaração amigável estar feita e os tremeliques terem acabado, passámos o resto da viagem numa conversa parva sobre o senhor que conduzia o jipe: a sua atitude correcta e amigável, a sua amigável aparência física, estado civil, profissão, local de trabalho, número de telefone, trocadilhos obscenos sobre a posição relativa das viaturas... enfim. As conversas que as pessoas acidentadas têm habitualmente.
(Amanhã dou notícias da minha caixa torácica.)
28 de setembro de 2009
estão abertas as inscrições
... para o concurso sou pintor e tenho uma grande lata!!!
Ontem fui avisada por uma colega chamada Sandra Colaço de que isto estava a acontecer. Vede, vede com vossos próprios olhos. VEDE! Esta aldrabona sim, foi mais inteligente do que outros que andam por aí e apagou a assinatura da foto como deve ser. E provavelmente achou que nunca seria apanhada.
Sandra, muito obrigada. Escusado será dizer que sempre que eu me aperceber de que algum espertinho anda a fazer o mesmo com o teu trabalho, ponho a boca no trombone. Assim como fiz em relação ao Paulo Galindro.
Vamos deixar um comentariozinho à pintora The Art Dream? Eu já deixei o meu. A ver quanto tempo dura...
Muito obrigada a todos pelo apoio.
Ontem fui avisada por uma colega chamada Sandra Colaço de que isto estava a acontecer. Vede, vede com vossos próprios olhos. VEDE! Esta aldrabona sim, foi mais inteligente do que outros que andam por aí e apagou a assinatura da foto como deve ser. E provavelmente achou que nunca seria apanhada.
Sandra, muito obrigada. Escusado será dizer que sempre que eu me aperceber de que algum espertinho anda a fazer o mesmo com o teu trabalho, ponho a boca no trombone. Assim como fiz em relação ao Paulo Galindro.
Vamos deixar um comentariozinho à pintora The Art Dream? Eu já deixei o meu. A ver quanto tempo dura...
Muito obrigada a todos pelo apoio.
25 de setembro de 2009
actualização
O senhor cujo trabalho publicitei ali em baixo telefonou-me. Não quer que eu lhe faça link e sente-se profundamente caluniado. Também quer que eu desminta o que disse sobre ele e que as minhas amigas parem de o insultar porque afinal ele não é nada do que me disse ser, nunca teve intenção de plagiar o meu trabalho, pediu desculpa e até aproveitou para me dar umas dicas de desenho.
Concluindo, eu errei. Errei tanto que hoje nem vou dormir bem. E como os meus extraordinários poderes telepático-hipnotizantes levaram o senhor a fazer e dizer tudo o que fez e disse, agora tenho a obrigação de me retractar.
...
...
...
Vou só ali retirar o link e rir-me mais um bocadinho.
Concluindo, eu errei. Errei tanto que hoje nem vou dormir bem. E como os meus extraordinários poderes telepático-hipnotizantes levaram o senhor a fazer e dizer tudo o que fez e disse, agora tenho a obrigação de me retractar.
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...
Vou só ali retirar o link e rir-me mais um bocadinho.
24 de setembro de 2009
london ou mai god
Ingredientes para umas férias divertidíssimas em Londres:
Companhia louca e bem humorada;
Dinheiro suficiente apenas para comer barato mas bem;
Sapatilhas ultra confortáveis com bolsa de ar na sola e palmilhas de silicione à prova de impacto;
Máquina fotográfica;
Mapa da cidade;
Muita facilidade em dirigir a palavra (em inglês) a desconhecidos;
Pouca vergonha na cara;
Ter como objectivo ver apenas o Big Ben, a London Bridge e, claro, um esquilo.
Acreditar que tudo o que vier para além disto é uma dádiva dos céus e de sua majestade a rainha. O que inclui degraus, bancos de jardim, relvados limpos e esplanadas para sentar e fazer alongamentos, tap water, entradas gratuitas em museus e o Chris Martin a cantar a dois quilómetros da nossa vista (já tinha mencionado o facto de o Chris medir um centímetro e meio? Coisa mais fofa!).
Um dia ponho aqui as fotos. Agora vou pintar.
Avé psipax cheio de fluoxetina,
Um copo de água convosco,
Bendito sois vós entre as massas cinzentas,
Bendito é o fruto da vossa toma diária - bom humor.
Calar-me-ei para não ser acusada de blasfémia. É só para dizer que estou cheia de energia e me sinto muito muito muito bem.
Companhia louca e bem humorada;
Dinheiro suficiente apenas para comer barato mas bem;
Sapatilhas ultra confortáveis com bolsa de ar na sola e palmilhas de silicione à prova de impacto;
Máquina fotográfica;
Mapa da cidade;
Muita facilidade em dirigir a palavra (em inglês) a desconhecidos;
Pouca vergonha na cara;
Ter como objectivo ver apenas o Big Ben, a London Bridge e, claro, um esquilo.
Acreditar que tudo o que vier para além disto é uma dádiva dos céus e de sua majestade a rainha. O que inclui degraus, bancos de jardim, relvados limpos e esplanadas para sentar e fazer alongamentos, tap water, entradas gratuitas em museus e o Chris Martin a cantar a dois quilómetros da nossa vista (já tinha mencionado o facto de o Chris medir um centímetro e meio? Coisa mais fofa!).
Um dia ponho aqui as fotos. Agora vou pintar.
Avé psipax cheio de fluoxetina,
Um copo de água convosco,
Bendito sois vós entre as massas cinzentas,
Bendito é o fruto da vossa toma diária - bom humor.
Calar-me-ei para não ser acusada de blasfémia. É só para dizer que estou cheia de energia e me sinto muito muito muito bem.
23 de setembro de 2009
momento publicitário sado-maso-surreal
Já conversei com o senhor que faz as minhas pinturas melhor que eu própria. Já lhe disse que não estou interessada nos serviços dele, que me chamo Natachinha e que o número com que lhe estava a telefonar é o que está escarrapachado no site que assina as fotos que ele, ingenuamente, enviou à potencial cliente.
Também lhe disse outras coisas menos agradáveis de se ouvir, por isso ele acabou por me dizer que eu tinha era inveja dele. Ora, em forma de agradecimento, deixo aqui o contacto do senhor. Meus caros, é ligar-lhe e pedir as pinturas enquanto a agenda está livre! Ele diz que é de confiança e que faz um bom trabalho. E mostra-se mais disponível do que eu para negociar preços.
Bom trabalho, meu rico colega.
Também lhe disse outras coisas menos agradáveis de se ouvir, por isso ele acabou por me dizer que eu tinha era inveja dele. Ora, em forma de agradecimento, deixo aqui o contacto do senhor. Meus caros, é ligar-lhe e pedir as pinturas enquanto a agenda está livre! Ele diz que é de confiança e que faz um bom trabalho. E mostra-se mais disponível do que eu para negociar preços.
Bom trabalho, meu rico colega.
pois que fui a londres
É verdade, fui arejar os neurónios sobreviventes.
Há uns meses a Andreia (com quem andei na escola entre os 10 e os 15 anos) comentou comigo este vídeo do meu amado Chris porque também a fez rir muito. E aproveitou para (ó Andreia obrigada obrigada obrigada), décadas depois de nos termos visto pela última vez, me convidar para ir ver os Coldplay a Wembley. Assim ah e tal se quiseres ficas a dormir aqui em casa. Eu comentei isso com o meu irmão, que não tem mais nada, compra uma data de bilhetes e leva-nos (sim, um grupo de cinco pessoas apanhadas da mona) a Londres.
Ora eu, se não tivesse amigas em Londres e um irmão que me pagou metade das despesas, simplesmente não poderia ter ido. E teria perdido quatro dias de gargalhadas contínuas (ao ponto de eu, doutorada em riso, ter ficado com dores nas costelas ao final do segundo dia) e emoções fortes - tudo em inglês.
Antes de arranjar tempo para fazer um post decente sobre a viagem, aqui fica o meu agradecimento público ao Bruno Santos, que apesar do seu feitiozinho (Nataixa! Nataixa! Hum!) foi uma óptima companhia, assim como à Sari que também me hospedou e encheu de mimos e, claro, à Andreia. Se não fosses tu Andreia... já biste? Snif.
Beijos enormes também à Rita, à Rita, ao Mauro, ao Nuno, à Ju, à Mushi e ao Pastor. Foi uma pena não termos ficado mais uns dias. Londres está no meu coração.
E a Starbucks também.
Há uns meses a Andreia (com quem andei na escola entre os 10 e os 15 anos) comentou comigo este vídeo do meu amado Chris porque também a fez rir muito. E aproveitou para (ó Andreia obrigada obrigada obrigada), décadas depois de nos termos visto pela última vez, me convidar para ir ver os Coldplay a Wembley. Assim ah e tal se quiseres ficas a dormir aqui em casa. Eu comentei isso com o meu irmão, que não tem mais nada, compra uma data de bilhetes e leva-nos (sim, um grupo de cinco pessoas apanhadas da mona) a Londres.
Ora eu, se não tivesse amigas em Londres e um irmão que me pagou metade das despesas, simplesmente não poderia ter ido. E teria perdido quatro dias de gargalhadas contínuas (ao ponto de eu, doutorada em riso, ter ficado com dores nas costelas ao final do segundo dia) e emoções fortes - tudo em inglês.
Antes de arranjar tempo para fazer um post decente sobre a viagem, aqui fica o meu agradecimento público ao Bruno Santos, que apesar do seu feitiozinho (Nataixa! Nataixa! Hum!) foi uma óptima companhia, assim como à Sari que também me hospedou e encheu de mimos e, claro, à Andreia. Se não fosses tu Andreia... já biste? Snif.
Beijos enormes também à Rita, à Rita, ao Mauro, ao Nuno, à Ju, à Mushi e ao Pastor. Foi uma pena não termos ficado mais uns dias. Londres está no meu coração.
E a Starbucks também.
22 de setembro de 2009
contado ninguém acredita
Comecei hoje a pintar um quarto cá em Viana. A cliente, amorosa, contou-me que um outro pintor a quem pediu informações lhe enviou fotos das minhas pinturas como sendo exemplos do que ele faz.
Ora lá vou eu fazer-me de cliente também, não é? E telefono ao senhor, e digo que quero as ovelhinhas e o barco com os animais. Diz que faz sem problema. Pergunto se são dele. Diz que sim. Pergunto outra vez. Diz que são de um amigo. Pergunto se faz igual. Diz que faz até melhor. E ri-se. Diz que faz qualquer imagem, qualquer cópia, sem problemas. Que é só escolher. Eu faço aham. Aham. Que quero ver fotos da cópia. Que não tem aqui mas que eu não me preocupe, que já fez várias vezes. Pergunto quem é o amigo que fez a pintura original. Diz-me um nome de homem, mas que não está cá. Mas que ele faz. E até me envia o desenho igual por correio, para eu ficar mais segura.
Bendito prozac. Louvado seja. Bendito e abençoado seja entre os meus neurónios.
Ora lá vou eu fazer-me de cliente também, não é? E telefono ao senhor, e digo que quero as ovelhinhas e o barco com os animais. Diz que faz sem problema. Pergunto se são dele. Diz que sim. Pergunto outra vez. Diz que são de um amigo. Pergunto se faz igual. Diz que faz até melhor. E ri-se. Diz que faz qualquer imagem, qualquer cópia, sem problemas. Que é só escolher. Eu faço aham. Aham. Que quero ver fotos da cópia. Que não tem aqui mas que eu não me preocupe, que já fez várias vezes. Pergunto quem é o amigo que fez a pintura original. Diz-me um nome de homem, mas que não está cá. Mas que ele faz. E até me envia o desenho igual por correio, para eu ficar mais segura.
Bendito prozac. Louvado seja. Bendito e abençoado seja entre os meus neurónios.
14 de setembro de 2009
outro
Mais um desta série. Parece que estou preparada para deixar partir alguns dos meus quadros mais queridos.
Este foi o último trabalho que fiz após cinco anos de Desenho na faculdade.
Eu reprovei no primeiro ano de Desenho. Tive um 9. É irónico... em dezassete anos de escola, reprovei a uma única disciplina. Físico-química? Matemática? Não. Àquela em que aprendi e explorei aquilo que é hoje o que mais gosto de fazer. Desenhar.


Trabalhei exaustivamente a cara da Nhocas. Desenhava e apagava, desenhava e apagava, até me cansar. Já me sentia capaz de a desenhar de memória, então a necessidade de apagar o que tinha levado minutos ou horas a fazer já não me assustava. Pelo contrário. O acto de apagar tornou-se uma forma de expressão tão importante como o de riscar. Pude assim concentrar-me muito mais na importância do suporte - a colagem - e do espaço vazio na composição. Há coisas que só se aprende fazendo e repetindo dezenas de vezes.
Lembro-me que neste quadro o retrato esteve "concluído". Todos os pormenores da cara definidos. A orelha e parte do cabelo também. Depois peguei na borracha e apaguei sem medo (fascina-me a ideia de olhar para um papel em branco sabendo que já lá esteve gravado um desenho demorado - pois), até ao momento em que me senti confortável. Dei-o por terminado. Mas quando me apercebi do que restara pensei: Apaguei quase tudo. O professor vai matar-me.
Na avaliação final destes meus trabalhos o professor (ironicamente, o mesmo que me reprovou quatro anos antes) parou de falar quando olhou para este. Eu congelei por dentro. E ele disse: "Este é o melhor."
Deu-me um 17. E eu suspirei de alívio e muito orgulho.
O "Autobiografia 2" está pronto a partir para outra casa que não a minha. Aqui.
:)
Este foi o último trabalho que fiz após cinco anos de Desenho na faculdade.
Eu reprovei no primeiro ano de Desenho. Tive um 9. É irónico... em dezassete anos de escola, reprovei a uma única disciplina. Físico-química? Matemática? Não. Àquela em que aprendi e explorei aquilo que é hoje o que mais gosto de fazer. Desenhar.


Trabalhei exaustivamente a cara da Nhocas. Desenhava e apagava, desenhava e apagava, até me cansar. Já me sentia capaz de a desenhar de memória, então a necessidade de apagar o que tinha levado minutos ou horas a fazer já não me assustava. Pelo contrário. O acto de apagar tornou-se uma forma de expressão tão importante como o de riscar. Pude assim concentrar-me muito mais na importância do suporte - a colagem - e do espaço vazio na composição. Há coisas que só se aprende fazendo e repetindo dezenas de vezes.
Lembro-me que neste quadro o retrato esteve "concluído". Todos os pormenores da cara definidos. A orelha e parte do cabelo também. Depois peguei na borracha e apaguei sem medo (fascina-me a ideia de olhar para um papel em branco sabendo que já lá esteve gravado um desenho demorado - pois), até ao momento em que me senti confortável. Dei-o por terminado. Mas quando me apercebi do que restara pensei: Apaguei quase tudo. O professor vai matar-me.
Na avaliação final destes meus trabalhos o professor (ironicamente, o mesmo que me reprovou quatro anos antes) parou de falar quando olhou para este. Eu congelei por dentro. E ele disse: "Este é o melhor."
Deu-me um 17. E eu suspirei de alívio e muito orgulho.
O "Autobiografia 2" está pronto a partir para outra casa que não a minha. Aqui.
:)
9 de setembro de 2009
e você, já abandonou um animal este ano?
Este era o Dunga. Tirei esta fotografia um dia depois de o encontrar moribundo no meio de lixo.O Dunga sabia sentar, dar a pata, conter as necessidades para fazer na rua e não podia ver um carro de porta aberta, tentava imediatamente entrar.
Tinha um tumor num testículo, provavelmente provocado por um traumatismo (entenda-se pontapé bem dado).
Em vez de morrer no dia em que comecei a cuidar dele, morreu cerca de um ano (e muito mimo) depois. Gordinho e medicado.
Nunca perdoei os donos dele. Às vezes pergunto-me como serão essas pessoas. E se sabem usar a internet.
Para quem não viu este debate há uns meses, é espreitar a partir do minuto 17:00.
autobiografia

Ando a (des)arrumar a casa. A quantidade de tralha que uma pessoa junta, meu deus. No meio da tralha estão alguns quadros que fiz na faculdade. Este tocou-me especialmente. Voltar a olhar para ele. Pertence a uma série intitulada "Autobiografia", feita nas cadeiras de Pintura e Desenho, inspirada no poema homónimo de António Gedeão.
Depois de uma depressão não se pode ler este poema com o mesmo tom. Assim como eu não posso ver este quadro com os mesmos olhos. Em 2004 tentei ilustrar aquilo que para mim, hoje, não precisa de ilustração, de explicação ou termos científicos. A doença (como o neurologista se lhe referiu) é um poço. E a pessoa doente cai algures dentro de si. Perde-se. Começa a apagar-se, a desaparecer, à medida que perde a consciência de si mesma e das fronteiras entre o que se passa por dentro dela e a realidade.
O mais assustador na depressão é o facto de poder ser invisível. Ninguém pode imaginar, até experimentar, o que é estar aparentemente presente. Conversar, ouvir, falar, comer. Tudo aparentemente, enquanto por dentro se vive um inferno.

A minha modelo foi a Nhocas. Gostei tanto de reencontrar o quadro que decidi pô-lo à venda aqui. O poema é este:
Autobiografia
Enquanto comia
num gesto tranquilo,
comia e ouvia
falar-se daquilo.
Comia e ouvia
solicitamente,
como se presente
presente estaria.
E enquanto comia,
comia e ouvia,
a frágil menina
que no fundo habita,
que chora e que grita
saía de mim.
Saía de mim
correndo e chorando
num gesto revolto,
cabelinho solto,
roupa esvoaçando.
Ia como louca,
chorava e corria,
enquanto eu metia
comida na boca.
Fugia-lhe a estrada
debaixo dos pés,
a estrada pisada
que o luzeiro doira,
serpentina loira
que vai ter ao mar.
Corria a menina
de braços erguidos,
seus brancos vestidos
pareciam luar.
Por dentro ia a noite,
por fora ia o dia.
A vida estuava,
a maré subia.
Caiu a menina
na praia amarela,
logo um molho de algas
se apoderou dela.
Se apoderou dela
carinhosamente,
que as algas são gestos
mas não são de gente.
Caiu e ficou-se
deitada de bruços,
desfeita em soluços
sem forma nem lei.
Ó minha aguazinha
faz com que eu não sinta,
faz com que eu não minta,
faz que eu não odeie!
Aguazinha querida,
compromisso antigo,
dissolve-me a vida,
leva-me contigo.
Leva-me contigo
no berço das algas,
que o sal com que salgas
seja o meu vestido.
Ficou-se a menina
desfeita em soluços,
seu corpo, de bruços,
com o mar a cobri-lo,
enquanto eu, sentado,
sentado comia,
comia e ouvia,
falar-se daquilo.
António Gedeão
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