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16 de março de 2007

deles


Nataicha, eu hoje parti um osso!"

"Joana - Natacha, o meu avô foi operado, tirou um rim.
Eu - Oh coitadinho! Mas já está melhor?
Joana - Já mas tem proglemas... e eu também tenho proglemas.
Miguel - O que estás a dizer? O meu tio também cortou a barriga."

"Ai professora que não temos água na escola! Ai que morremos!"

"Natacha a minha irmã hoje de manhã estava um bocadinho doente."

"Natacha Natacha! (chega-se ao pé do meu ouvido) Sabes, eu já ando do futebol!"

"Prufessuora eu consigo cantar como bocê!"

"
As tuas calças são tão grandes!"

"Tens as calças sujas de tinta! (...) Estavas a pintar e caiu uma pinga em cima de bocê."

"Pessessora
! Eu vi-te no supermercado! No Clerc ou lá o que é..."

"Eu - De que é que tu não gostas na minha aula?
Filipa (com uma cara muito feia) - De bichos..."
E recusou-se a desenhá-los (os monstros do quadro).


15 de março de 2007

cláudia, joão, sabrina, juliana

Não podendo trepar por mim a cima, agarram-se à minha volta como lapinhas.
Este desenho ainda não está como quero. Os meninos hão-de ter os pormenores que os caracterizam e eu não vou ter um busto disforme :)

14 de março de 2007

progressos


Hoje a minha melhor turma portou-se muito mal. Eu estava a "atender" um de cada vez numa mesa à parte e isso serviu-lhes de motivo para fazerem de conta que eu já não mandava ali. Pedi várias vezes para sossegarem, dei gritos líricos, fiz alguns dos jogos do silêncio mas nada resultou. Há dias em que só é possível sossegá-los à base de berros, sermão e castigo. E isso eu detesto. Ficaram então sob a ameaça de que se amanhã voltarem a portar-se tão mal como ontem e hoje, ficarão sem o postal do Dia do Pai e irão para lá para fora - dois castigos horríveis: confiscar-lhes a obra de arte e proibi-los de assistir à aula.
Apesar de ter saído de lá triste e de os ter feito ficar todos sentados em silêncio, a olhar para mim enquanto lhes preguei o sermão, vim para casa orgulhosa a pensar nos progressos de cada turma. A turma do monte já não tem cabritos (sim, eles berravam e saltavam como cabritos), a dos 13 já se porta bem melhor e a dos 20 superou as expectativas. Depois de lhes ter mostrado o meu postal do Dia do Pai, alguns meninos foram para casa fazer um igual e trouxeram-mos orgulhosamente. E o melhor: depois de terem levado um ralhete por gastarem papel à toa ("Meninos... blá blá blá blá blá... Pensem que morreram árvores para vocês poderem estar aqui a desenhar!"), hoje o David disse-me, quando passei por ele, "Professora estou a aproveitar o papel!". E disse-mo com tanto orgulho naquele sorriso só dele. O desenho pequenino estava num canto da folha.

12 de março de 2007

sem fotos

Estou perto de ter uma super-máquina-fotográfica-só-minha. Nessa altura nada me escapará e poderei ilustrar todos os posts.
A minha cunhadinha pediu-me fotos dos meus alunos mas eu não me sinto no direito de os expor (ainda mais) aqui. Imagino que dê vontade de conhecer o João ou o Nuno, por isso tive uma ideia. Depois de ter chegado à escola do monte num destes dias de muito calor e ter encontrado todas as meninas em camisola interior metida para dentro da gola, para fazer um top de barriguinha à mostra, decidi que, já que não as podia fotografar e pôr aqui no blog (tive tanta pena de não ter a máquina comigo), as iria desenhar. Estavam tão fofas, todas vaidosas de barriga ao léu. Também me apetece desenhar os nossos abraços de turma, com os meninos todos agarrados a mim e eu a vê-los de cima, tão baixinhos e bochechudos. Os desenhos não tardarão.

6 de março de 2007

não rir!

Hoje na aula, jogo do quem-falar-não-vai-ter-material.
"Meninos, quem falar não vai ter folha! E quem rir também não!"

(Tudo sério e calado.)

"Ai que vou fazer chichi!"
E todos perderam o jogo.

5 de março de 2007

lágrimas deles, lágrimas minhas

Hoje o Miguel de 6 anos fez uma das suas birras que com certeza resultam em casa. Disse-lhe que estava a perder tempo, que não me comovia minimamente, que nunca conseguiria nada de mim dessa maneira e levou um par de berros quando chutou uma cadeira. Chora muito e não pára de argumentar, com voz anasalada e olhos que lhe saltam dos óculos. Eu, coração de pedra, ralho-lhe e elogio de seguida quem se senta ao lado das meninas sem se sentir "menos homem" por isso (que foi o motivo da birra do Miguel).
Já não terei tanto coração de pedra quando eles choram sem ser por birra e às escondidas. A Filipa tem um problema qualquer que não é assumido pela família, mas que tem características de Autismo. Vira um olho para cada lado como um camaleão e viaja num mundo só dela. Tem problemas de concentração e de desenvolvimento mas é muito meiga comigo. Como não tenho de fazer diagnósticos, trato-a simplesmente como aos outros e ela tem progredido imenso. No início nem desenhava e agora faz quase tudo, pinta e vem mostrar-me orgulhosamente as coisas que faz. Mas os meninos não perdoam e sabem que ela é estranha. Um dia chamei-a para vir desenhar ao quadro e o David disse "Oh ela faz tudo mal!", ficando imediatamente proibido de vir também. Entretanto, na mesa, a Patrícia divertia-se a esconder coisas da Filipa para ela ficar confusa e o Pedro, já impaciente por ela desenhar tão mal, desenhava na folha dela. Fiquei possuída. Diante de todos, disse-lhes que quem desenha bem ali sou eu e que nunca gozaria com eles por fazerem coisas fáceis ou desenharem pior do que eu. No fim da aula disse aos três criminosos do dia que não fossem embora porque eu queria falar com eles. O David veio imediatamente pedir-me desculpas mas teve que ouvir tudo até ao fim. Perguntei-lhes se não reparavam que a Filipa é diferente deles e eles disseram que sim. Disse-lhes que ela não faz as coisas mal porque quer, simplesmente não consegue fazer melhor e que não podem tratá-la assim, nunca mais. Nem a ela nem a ninguém e que deveriam pedir-lhe desculpa. Saíram todos a correr e eu fui-me embora triste, alheia ao facto de que ali, como professora, tenho às vezes tanta autoridade como os pais. Lá fora esperava a razão por que eles saíram a correr. Se a professora os segurou no fim da aula, é porque aprontaram das boas!
O David estava sentado no muro a soluçar e o Pedro, assim que chegou ao pé da mãe, começou a contrair-se e a pestanejar como se aí viesse uma chuva de pedras."O QUE É QUE TU FIZESTE!?" E eu caí em mim. Estas pessoas embrutecidas que batem numa criança como quem bate no cão, não sabem que se deve conversar com elas e que há coisas que têm de se ir contrariando porque os meninos não aprendem de repente. Consegui impedir que o Pedro apanhasse na minha frente e quase ordenei à mãe que nunca lhe batesse depois de eu já ter ralhado. Nisto a senhora que estava com o David mostrou-lhe as costas da mão e disse "Pára de chorar! Levas um estalo!" e eu meti-me na frente para perguntar ao David se tinha percebido o que eu tinha dito, ao que ele acenou sem tirar os olhos do chão nem parar de soluçar. "Então pronto. Até amanhã." - disse eu já a fugir para o carro e a tentar conter o choro até ao virar da esquina. Mas não consegui. A mágoa apoderou-se de mim. Tinha de ter feito aquilo. Tinha de proteger a Filipa e de lhes ralhar na hora, sem que ela estivesse a ouvir. Lá fora, as pessoas que me sugerem que dê um par de palmadas aos filhos, estragaram tudo. Tive medo que os meninos ficassem com raiva de mim, mas no dia seguinte já estava tudo bem outra vez. Apenas o meu coração doía, por o mundo não ser perfeito e as crianças pagarem por isso.

28 de fevereiro de 2007

são bebés


Juro que nem eu estava em cima de uma cadeira, nem a Raquel estava de joelhos.
O impulso que têm de fazer confusão é, na verdade, a Infância. A vivacidade, a alegria contagiante, a cumplicidade que têm entre si... é lógico que a má educação aliada a isto tudo, faz desastres e eu fico fora de mim várias vezes. Mas no fundo, sinto pena deles. Pus em prática até hoje, todas as técnicas que conheço e de que me lembrei para tentar sossegá-los e discipliná-los sem eles levarem a mal. Sei que me adoram, até porque não são muito exigentes, mas também porque eu tento falar a língua que eles falam entre si. Para que frases como "CALEM-SE!!!! Mal-criados!", "Queres que mande um recado para a tua casa?", "Estou com vontade de me ir embora e só fico aqui hoje porque me pagam!" não ficarem a latejar na minha cabeça e no inconsciente deles, esforço-me por recorrer a outra frases, outras técnicas que surtem o mesmo efeito e não nos deixam zangados:
  • História de terror. Descrevo uma série de pormenores que alimentam a imaginação e trabalham a visualização e memória. Eles vão trabalhando e eu faço os sumários. No fim faço um concurso para ver quem se lembra dos pormenores todos. "Era uma vez uma lagartixa. Ela chegou a um casarão que tinha uma porta verde de 3 metros de altura e um batente dourado. Alguém sabe o que é um batente? (...) A lagartixa viu uma sombra e pegadas enormes, 20 vezes maiores do que ela, ouviu um som assustador e encostou-se a um canto cheia de medo." Olho para a turma. Tudo em silêncio, no entanto, de boca aberta e olhos esbugalhados, pincel na mão, mas sem pintar. No dia seguinte dizem-me que sonharam com a história mas querem uma pior ainda.
  • Conto até 10, de olhos fechados, depois de anunciar que ao abrir os olhos, quem não estiver sentado vai ter o nome no quadro. Devem associar às escondidinhas, adoram.
  • A boa e velha chantagem. Minha melhor aliada. "Só vem ao quadro quem estiver sentado com as duas perninhas para a frente, calado e concentrado!" Parecem militares.
  • "Quem consegue ficar calado?" Levantam a mão e ficam mudos.
  • Aula de pintura. Cada dois meninos tem direito a um prato de plástico - a nossa paleta. Passo pelas mesas com tinta, mas só dou a quem estiver mesmo mesmo calado. Para aumentar o grau de dificuldade, faço-lhes perguntas, às quais respondem instintivamente (pensando que não faz parte do jogo), ficando então sem tinta. É o delírio. "Não respondas! Não digas nada!!!" (Rui para o colega, depois de ter caído na ratoeira ao responder-me como se chamava).
  • Ópera. Apanham cada susto. Mas depois também querem cantar. Faço de conta que não fui eu quem começou.

27 de fevereiro de 2007

felicidade II

É fácil imaginar porque comprei giz aos meus alunos.

mundo à parte

Turma do monte. Meninos que sabem o nome das couves e se cruzam com as vacas todos os dias na estrada. Digo qualquer coisa sobre um gato.
Rui: "Bato no cu do gato com um pau!"
Risota na sala.
Eu: "Vocês batem nos animais?"
Cláudia: "O meu pai bate no cão porque ele está sempre em cima da mesa."
Carla: "A minha mãe bate na vaca com um pau, quando vai na estrada, assim, para ela andar. Mas devagarinho."
Pedro: "Eu bato nas ovelhas! Não me deixam passar e eu PIMBA no rabo delas! Devagarinho..."

26 de fevereiro de 2007

giz

Hoje tiveram surpresa: giz de todas as cores e direito a ir ao quadro ilustrar uma história. Já tinhamos começado a história na 6ª feira e eu disse que guardassem os desenhos para depois continuarmos. Ora, houve três meninos que perderam os desenhos. Tiveram direito a humilhação pública e castigo. Orgulho-me de fazer da aula uma recompensa. Sempre que se portam muito mal, ficam sem fazer aula. Se vamos pintar, quem não trouxe o material (bata, copo de iogurte e pano velho) já não tem direito a tinta e pinta com marcadores ou lápis de cor. Coitadinhos, é remédio santo.
Hoje os três que perderam o desenho foram proibidos de ir ao quadro pintar com giz e ficaram apenas a copiar para o papel. Expliquei-lhes que daqui a 20 anos terão muita pena de ter perdido estes desenhos, que têm de ser organizados, pôr nome e data nos trabalhos e guardá-los sempre no mesmo sítio. Mas mais tarde, durante a pintura... o Daniel pôs-se de pé com jeitinho, para eu não ralhar e disse baixinho: "Ó Natacha, se nós que nos portámos mal, nos portarmos bem agora, podemos ir ao quadro?". Eu não respondi e tentei fazer cara séria, mas o meu coração partiu-se em bocadinhos e lá deixei os três criminosos irem também pintar, no fim.

deficiente

do Lat. deficiente
adj. 2 gén.,
falho;
imperfeito;
insuficiente.

Trabalho actualmente com duas crianças deficientes (duas e meia, a terceira tem um problema não-assumido pela família, então não se sabe se é autismo, se é deficiência mental, se é não sei o quê). A primeira criança diferente com quem trabalhei tinha Síndrome do Alcoolismo Fetal. Desde aí que os trato como crianças perfeitamente normais, apenas mais novas do que a data de nascimento indica. Quanto mais os conheço, mais gosto deles. Ser criança durante mais tempo que a maioria, não me parece uma desvantagem. Falar mal e ter os olhos tortos, também não, principalmente se se arranjar modos de expressão alternativos. Sei que a maioria das pessoas não pensa assim. Ser diferente é muito duro e ter alguém diferente por perto, pior ainda. O inferno são os outros.
O Duarte tem Síndrome de Down. Não fala, talvez porque nasceu num meio que o considera um caso perdido. Mas percebe tudo. Tem um sentido de humor fantástico e é uma ternura. Infelizmente tenho-o no meio de outras tantas crianças que me sugam toda a atenção e energia. Mas orgulho-me tanto dos seus progressos! Quando fez a pintura simétrica (dobrar a folha e ver o que acontece) tornou-se um ás do pincel e desatou a falar num dialecto que me passou ao lado.
Uma vez dei-lhes caramelos de fruta e o Duarte teve direito a um e a assistência técnica: enquanto mastigava eu amparava a baba, que saía em bica. Estava tão deliciado, tão feliz. Os olhinhos longe e as mãos sujas a querer mexer no que tinha na boca. Na sala de aula ninguém estava preocupado com a baba dele e o Zé até me foi buscar mais papel higiénico. Nesse momento eu desejei que o Mundo fosse feito de gente igual a estas crianças que, apenas a 15 km da chamada civilização, não sabem o que são umas All Star nem imaginam o que é o cromossoma 21, mas sabem o que é tolerância e dão muito valor ao afecto.
O Duarte não gosta de estar ao pé dos outros meninos. Na primeira aula enfiou-se debaixo da mesa e não houve quem o tirasse de lá. Entretanto passou para a minha mesa, onde faz tudo para me distrair e aproveita para tentar apalpar-me e levantar-me a saia (a cara dele quando me vê de saia, não há palavras para descrever...). Há pouco tempo decidi levá-lo ao quadro, depois de todos os outros terem ido. E foi, comigo. E preencheu meio coração a giz, com tanta vontade, tanto afinco e concentração!... E batemos-lhe palmas como a todos os outros.

Deficiente. Que palavra infeliz para se tornar substantivo.

23 de fevereiro de 2007

senhuora prufessuora

Hoje conversei com a turma dos 13 sobre os desenhos de ontem e chegámos à conclusão - para meu desespero - de que alguns até gostam do monstro (o Miguel de 8 anos então, já deu mais que provas) e que as coisas de que menos gostam são o barulho e que eu ralhe. Fico enternecida, apesar de estes meninos serem muito mal-criados (até a professora primária deles, que dá aulas há 30 anos diz que nunca viu nada assim), por ver que não gostam da barulheira que eles próprios fazem. Apesar de se portarem muito mal e às vezes me deixarem possuída, não é essa a intenção.

No monte já é diferente. São 21 e adoram tudo. Mostrar à senhuora prufessuora o que lhes desagrada na aula parecia-lhes absolutamente descabido, mas depois de alguns exemplos lá se libertaram e fizeram uns desenhos incríveis!
Durante o falatório dei um dos meus gritos líricos, que os apanha de surpresa e os deixa calados por uns segundos, num misto de estupefacção, vergonha e vontade de rir da minha figura. Então pus o chapéu de Carnaval de uma das meninas e cantei ópera para o meu público atento. Acho que eles nunca tinham ouvido nada assim, pelo menos de perto. Alguns tapavam os ouvidos mas o melhor foi vê-los absolutamente boquiabertos até ao momento em que eu me calava, para se começarem a rir, envergonhados. Só queria ter fotografado as caras. "Canta mais! Canta outra vez! Oh canta!"

maldito frio do monte

Hoje:
"Ó professora a minha mãe botou-me a máscara* ao lume!"


*máscara de mulher-aranha, feita com amor e carinho e pintada com tinta a pincel ao longo de horas.
Obrigada Mamã, por teres guardado cada gatafunho meu, feito no mais insignificante papel.

22 de fevereiro de 2007

sumário: avaliação

Avaliação da aula através de desenho e/ou texto: "O que gosto e o que não gosto na aula de Expressão Plástica".
Durante a aula, quem se portasse bem poderia ir ao quadro completar o monstro (desenhar o ranho, a cera, as remelas, as minhocas, as moscas, a baba, o fedor, o cabelo, etc.). Alta competição. Todos queriam ir deixar o monstro ainda mais feio. Ficam horrorizados com o resultado final e também se riem muito. Foi o delírio.


Miguel de 8 anos (o mesmíssimo do quadro)
(Não gosto: Professora a ralhar: "CALEM-SE!")


Sabrina
(Gosto: Professora feliz a ensinar, tinta, desenhos e desenhos no quadro feitos pela professora.
Não gosto: Monstro do quadro e professora a ralhar: "Não gosto de barulho!")


Carlos
(Gosto: Professora - devidamente identificada com o sinal no queixo - a desenhar no quadro e o Carlitos na mesa a portar-se bem, concluo.)



Miguel de 8 anos
(Gosto: Professora - devidamente identificada com o sinal no queixo - contente, meninos bem-comportados e ser o monstro do quadro.)

Atenção. E o Oscar vai para... MIGUEL DE 6 ANOS!

Este é o segundo desenho do Miguel. No primeiro desenhou o monstro e uma baba com um Não por cima ("o que não gosto") e encheu o resto da folha com o Berto (o colega que admira muito), a minha casa, o meu pai, o cão e tinta. Então eu disse-lhe para ir desenhar mais coisas de que gosta na minha aula. E ele foi. E voltou, muito satisfeito.

"Está aqui. O meu peito e uma bicicleta."
"Porquê, Miguel?"
"Porque gosto."


Miguel de 6 anos

18 de fevereiro de 2007

amor à Arte

Quando vejo crianças a chorar, não sou como a minha avó: "Oooh!... coitadinho! Que foi? Que foi, minha riqueza?". A maioria das vezes em que percebemos que uma criança está a chorar é quando faz birra (aquele choro no super-mercado que, a mim suscita um ódio visceral pelos pais que não sabem reagir e que criam crianças mal-criadas). Fico tocada sim, quando eles choram por mágoa, por tristeza, porque o choro não é o mesmo. E é esse choro escondido que me corta o coração às fatias.
O David é um dos 20, muito esperto, pequenino e encasacado, com um sorriso de orelha a orelha. É bom aluno e sabe que o é. Muito exigente.
Quando deixam as coisas a secar (máscaras, pinturas, etc.), normalmente sabem reconhecer os seus trabalhos na aula seguinte. Mas às vezes confundem-nos.
Quando um dos 20 chora porque está mesmo triste, ficam em pânico e vem logo alguém a correr dizer-me, para que o socorro seja rápido. Eles distinguem melhor do que eu, a birra da mágoa.

"Professora! O David está a chorar."
Lá vou eu. E lá está ele, roxo.
"Ó professora, eu não sei da minha máscaraaaaa..."
Eu, igual à minha avó (mas sem lhe chamar riqueza), a fazer festas na cara e combatendo o pânico-de-perdi-o-meu-trabalho:
"Tem calma David, que a máscara está aí de certeza. Ninguém iria roubá-la. Alguém pegou por engano."
De repente alguém a encontra.
"Toma David, está aqui."
"É esta."

...

Momentos depois, já recuperados do choque e prontos para começar a trabalhar, vemos o David à cabeceira da mesa, já calmo e concentrado mas ainda a soluçar.

16 de fevereiro de 2007

anti-pedagógico



Este é, de todos, o pior castigo que consigo aplicar aos meus alunos (o mais eficaz). Na sala de aula há uma cana, mas eu nem lhe toco. A minha arma é o giz. E a humilhação pública. Eles adoram e eu, não desgosto.
Como não tenho formação pedagógica, baseio-me nas recordações nítidas que tenho desde os dois anos de idade e no que aprendo (tanto!) com os meninos. Quem falar, quem berrar, quem se levantar, quem fizer confusão, quem se portar mal... tudo sem autorização, é o boneco que está no quadro.
No início desenhava uma castanha podre (inspirada pelo magusto), depois foi o bolo-rei, o ovo de chocolate "da Páscoa do ano passado", um pudim... quem falasse comia a porcaria que estivesse desenhada no quadro. Como eu escrevo o nome do criminoso no quadro, eles acreditam.
"É verdade não é? Quem falar é o boneco!?"
"Claro que é! Então não?" - respondo.
Na turma do cimo do monte basta desenhar a coisa no quadro e a confusão acaba. Ficam mudos.
Adoro-os.

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nuno vestido de hamburguer


Cenário: aula na turma de 13 meninos que se portam muito muito muito mal. Professora furiosa a querer terminar os fatos de Carnaval e tirar as últimas fotografias. Nuno:
"Natacha, posso ir à casa de banho?"
"Não."
"Natacha, posso ir à casa de banho?"
"Não. Já estamos quase a acabar."
"Estou mesmo à rasquinha."
"Vou tirar-te a fotografia, depois tiras o fato, arruma-lo ali esticadinho e vais à casa de banho."

(Nuno vai)

...

(Nuno volta)

"Oh... cheguei lá, já estava mijado."

(Apesar da "pinguinha na cueca", veio dar-me aquele beijo no fim da aula e foi lá para fora pegar-se à batatada com outros meninos no chão.)

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14 de fevereiro de 2007

carnaval



Tenho ao todo 54 alunos nas escolinhas. Aqui estão 20, que se portam bem à base de muita chantagem. "Quem falar é um monstro verde cheio de remelas nos olhos e chulé nos pés!", "O último a entregar o pincel lavado e seco à sábia-professora-maravilhosa-linda-de-morrer, comeu um bolo-rei podre com larvas de mosca."...
Com estes meninos, que consigo organizar graças às boas educadoras e professoras por quem passaram, fiz máscaras de Carnaval "a sério". Fico muito feliz quando consigo convencê-los de que são capazes de concretizar tudo aquilo que imaginarem, com as próprias mãozinhas rechonchudas.

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13 de fevereiro de 2007

joão

O João tem 6 anos. Às vezes parece ter 4. Anda depressinha, arrasta os pés em passos minúsculos, como uma geisha, gesticula como um travesti, o que me enternece profundamente (não enternecerá muita gente na aldeia, imagino). Sempre alegre, sempre aos gritos, uma das lapas que se agarra a mim quando chego e quando vou. Grita por mim sem vergonha nenhuma, com a cara vermelhinha e seca como uma lixa.
Uma vez que se portou muito mal, ralhei-lhe e ficou de castigo: não pôde pintar mais até ao fim da aula. Nesse dia a cara dele desfigurou-se e não lhe voltei a ver o sorriso, mesmo depois de conversar com ele no fim da aula, de lhe dizer que sou amiga dele e que por isso não posso deixá-lo portar-se mal. Dei-lhe a mão para irmos embora mas ele rejeitou-a. Queria era chorar. Quando eu já estava no carro e ele a subir o caminho para casa, olhou para trás e eu sorri. Ele continuou com o seu bico, muito triste e foi-se embora em direcção a quatro vacas que desciam...
No dia seguinte já tinha esquecido a mágoa e voltou com a alegria do costume. Muito exagerado, tudo é um acontecimento, até o lanche ser uma banana. A mandar em tudo e todos, a regatear, a ralhar com os colegas, sempre a fazer queixinhas. E sem dizer os L's.
Hoje, depois de decorarem a sala e a escola com serpentinas e máscaras, veio dizer-me como a sala deles estava linda.
"Natacha! Natacha! Não podes ver! Fecha os olhos! Quando fores uá acima, uá à nossa saua, vais ficar de boca avvverta!!!"

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12 de fevereiro de 2007

"Sôpessora! Toma um desenho!"



Às vezes os meus alunos querem contar-me coisas da vida deles, coisas tão especiais como "já durmo sozinho", "já tenho uma irmã", "fui ao médico", "já estou a tomar medicamentos para me portar bem" (hiperactiva), "caiu-me o dente!", "o meu primo abriu a porta e bateu-me com ela na cara"... Mas eu tenho sempre de contrariar o falatório, obrigá-los a falar um de cada vez, fazê-los compreender que não adianta levantarem-se e virem dizer-me as coisas de perto, só ouço quem levantou a mão, etc. O Nuno emociona-se especialmente a contar-me as coisas. Chega a ser cómico: fala tão alto que até olha para o lado, concentrado em berrar, revira as pestanas, deita perdigotos... "Nataicha isto, Nataicha aquilo... olha fiz isto... blá blá, fiz aquilo." E eu a tentar sossegá-los. Para o Nuno é como se só ele estivesse a falar. "Olha, o meu pai tem uma namorada, mas ela não tem o cabelo assim (exemplificando), como a minha mãe." Claro que não. A mãe do Nuno é muito melhor e foi assim que ele conseguiu dizer-mo.
Hoje, durante a aula:
"Natacha... Natacha... Natacha... tenho o dedo no ar!" (já triste).
"Sim, Nuno."
"Olha, a minha mãe disse que vamos ficar muito tempo na caminha, juntos, agora nas férias."

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