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29 de abril de 2008

auto-retrato verde

24 de abril de 2008

muda

Quando me calo as pessoas notam. Algumas reclamam. Eu cá canso-me de me ouvir.
Imagino-me muda. Se mesmo podendo falar, faço tantos gestos e caretas, imagino-me muda (eu que nem baixo sei falar). Seria uma muda que gesticula alto.
Aquele azul todo que pintei em Fevereiro deixou-me as fossas nasais em carne viva. Quando o sangue secava, impedia-me de mexer a boca e fazer grandes expressões. Andei uns tempos com cara de botox para não ser apanhada de surpresa por um esticão de ver estrelas. Isto durou demasiado tempo e é bem feita, para nunca mais me esquecer de tomar os anti-alérgicos.
Só na semana passada é que o meu nariz sarou. Mas nestes últimos dias apetece-me só estar calada. Nem escrever. Muda.

16 de abril de 2008

fila indiana




Há uma fila de coisas dentro da minha cabeça. Bichinhos, cores, grafite sobre papel, scanner avariado, meninos e meninas que andam pelas paredes, uma pilha de louça por lavar que ainda não anda pelas paredes mas quase, atelier, logotipo, bochechas na menina do desenho, sobrancelhas e bigode à Frida Kahlo em mim, projectos em perspectiva, emails por responder, o que fazer para o almoço, fotomontagens e minutos contados.
Não necessariamente por esta ordem.
Sopa de letras.

Os elementos da fila, volta e meia chegam-se todos ao balcão e eu fico aflita porque sou a única funcionária desta loja.

11 de abril de 2008

figura humana



Há uns tempos atrás, pela primeira vez, senti o meu talento ser questionado por um cliente. Li nas palavras dele uma total falta de respeito pelo meu trabalho e pelos preços que pratico, ao insinuar-me que eu estava a cobrar caro por um trabalho "simples".

A Cilu serviu-me de modelo para resolver o braço e mãos desta boneca.
Se hoje, quando desenho, desenhar parece fácil e se, quando desenho, desenhar parece rápido e simples, é porque houve horas e horas e horas de desenho, muito trabalho com e sem vontade, suor, cansaço, toneladas de papel, e muito dinheiro investido. É por isso que eu cobro o que cobro hoje, e é por isso também que daqui a uns anos cobrarei mais. Nunca me vou esquecer duma entrevista do Jô Soares a um cartoonista em que, quando o Jô lhe perguntou quanto tempo levava a fazer uma tira, ele respondeu qualquer coisa do género "56 anos e 20 minutos". Que resposta tão verdadeira e tão clara...

Hoje apetece-me agradecer aos meus pais por me terem pago um curso caro como o de pintura. Caro em todos os sentidos. Apetece-me agradecer ao modelo de Desenho e Figura Humana de quem me lembro sempre que desenho bonequinhos, que ficou ali sentado, horas a fio, nu, quantas vezes cansado, com dores e as pernas adormecidas, para que hoje eu possa desenhar o corpo humano de memória. E por fim apetece-me agradecer muito a todos os que valorizam o meu trabalho e talento. E agradecer aos que pagam sem fazer julgamentos e com um sorriso na cara. Obrigada :)

8 de abril de 2008

arrumação

Tão boa a fazer prateleiras e a dar-lhes destino. Por dentro sou uma sopa de letras. O que me passa pela cabeça, pelo coração, pelas mãos, é tudo o mesmo. Não há gavetas dentro de mim, não há prateleiras sequer. Vejo-me duende dentro de mim à procura das coisas no meio duma enorme confusão onde ponho tudo. Cá fora o mesmo. O saco do pão aberto na cozinha está directamente ligado ao copo de tinta no bidé. É tudo o mesmo. Sopa de letras.

1 de abril de 2008

27 de março de 2008

i'm just people watching the other people watching me *

Ontem estive aqui e escrevi. No entanto escrevi barbaridades e lá veio a auto-censura. O meu pai diz que eu sou uma destravada. E sou. Mas recentemente comparou-me com a Juno e eu fiquei pensativa.
Ontem apanhei-me sozinha em casa e solteira. Apanhei uma overdose de chocolate, alucinei e escrevi coisas. Coisas daquelas que só digo perto de quem conheço bem e, acima de tudo, que me conheça bem. Depois pensei nos leitores deste blog. Nos que já são amigos queridos, nos que não se manifestam mas que eu vejo diariamente (no site que vê as pessoas que me vêem) e nos meus possíveis clientes, que entram aqui à procura de pinturas e dão de caras com uma tonta. E aí é que a censura me cai em cima. Há um limite, uma linha fininha que me corta em duas partes: a que vive neste blog e a que vive para além dele. No fundo somos todos assim, não é? E ainda bem.

* da música People Watching

Em relação ao sorteio que está a decorrer aqui em baixo, não se acanhem! Eu sei bem o que é ser leitor mudo, raramente deixo comentários nos blogues de que mais gosto. E já agora, obrigada pelos comentários todos! Fazem-me sorrir e oferecer o desenho com todo o gosto.

11 de março de 2008

ponha as suas coisas naquele cantinho e tire a roupa toda

Obedeci.
Estavam em maioria, ela que me acompanhou até ao consultório e ele, que me esperava para fazer os exames. Dois exames de rotina e fica-se logo de tudo à mostra. "Pode ficar com as meias calçadas." - Ah muito obrigada, agora estou nua e ridícula. - pensei para com as minhas banhas.

9 de março de 2008

das listas

As coisas escritas parecem mais verdadeiras do que pensadas. Mais sérias. Escrevo listas das minhas obrigações. Escrevo-as com letra bonita e numero as coisas por ordem de importância. Leio e volto a ler. Quanto mais bonita a caligrafia mais verdade parece... que vou conseguir fazer tudo nos próximos dois dias. Convenço-me de que sou capaz de seguir a ordem, de lhe obedecer. E depois perco a lista.

5 de março de 2008

lá fui

Dois pares de meias de algodão.
Sapatilhas apropriadas.
Palmilhas de silicone que absorvem o impacto.
Soutien de equitação (sem comentários).

Pés destruídos ao fim de uma hora.
Busto intacto.

4 de março de 2008

porque os blogs também servem para isto

... promessas públicas.

Diz que amanhã de manhã vou andar. Andar muito muito muito, assim como quem quer correr mas não pode porque tem excesso de peso e mamas grandes, assim muito muito muito rápido como quem quer fugir da casa dos setentas na balança.

Pausa para o palavrão F.

Prevejo o pior para os meus pés.

14 de janeiro de 2008

ando introspectiva sim

Quando eu era pequenina o meu projecto de vida era comer chiclets. Como os meus pais não me deixavam, sempre que tinha a oportunidade de comer um gelado, pedia um Epá.

Nunca fui fã de gelado de nata.

13 de janeiro de 2008

coisas minhas de que me orgulho

Um dia tinha cinco anos e decidi que ia aprender sozinha a andar de bicicleta sem rodinhas. Bastou uma manhã, a minha mãe dentro de casa e dois ou três tombos pequeninos.

Um dia entrei para o 10º ano e falava-se de praxes humilhantes. Fui sozinha para o liceu no primeiro dia de aulas.

Um dia decidi licenciar-me em Pintura. Bastaram-me cinco anos para sair de lá. Ainda não sei em quantos anos aprenderei a pintar.

.........................................

Desta não me orgulho mas rio sempre: um dia (tinha uns 13/14 anos) deram-me uma bofetada na cara - a única que levei na vida. Subiu-me uma lava vinda das profundezas do meu ser doce e meigo que saltou palma fora e assentou na cara daquela tonta que se atreveu a tocar-me na auto-estima.

5 de janeiro de 2008

auto-retrato

Enquanto eu comer chocolate e beber água, é porque estou bem.
No dia em que um elefante me pisou o coração, comi só uma sopa e a água vinha-me dos olhos, salgada.

31 de dezembro de 2007

na celulite duma mulher

... e não na pele.
Eu não sou nada de sexismos. Não sou. Acho que as diferenças entre homens e mulheres são tão óbvias que discuti-las é uma perda de tempo. Mas ser mulher num mundo de mulheres de plástico não é brinquedo. Ter a obrigação de não ter um bigode. Ter de ter uma boa pele aos vinte e cinco anos. Ter de estar bonita e de preferência magra. E todo o resto.
Há uns anitos vi na televisão um repórter a ser submetido a um electrocardiograma em directo. Despiu-se e deitou-se na marquesa naturalmente. Tinha uma grande barriga e a mim só me ocorreu E se fosse eu a repórter com a minha barriga flácida e o meu duplo-pneu-dorsal abaixo do soutien? - é que era escândalo nacional. E não é justo.

Hoje a Cilu aplicou-me tortura veet. Ainda bem que éramos só as três tontas do costume na cozinha e que eu lhe posso chamar todos os nomes começados por p e acabados em a, porque caso contrário e dependendo de mim, eu entraria em 2008 com cara de Frida Kahlo. Também fomos em busca de roupa nova e eu confrontei-me com um tsunami de celulite em toda a pele que vi naquele maldito espelho da loja. Agora não posso fechar os olhos que o que vejo é isto. Pensam os homens que fazer chichi de pé é o melhor. Não sabem. Nem sonham.

14 de dezembro de 2007

eu mulher

Cenário: Zara.
Eu num quartinho de vestir, a experimentar camisolas de menos de dez euros. Na última vez que lá estive, palhaça, encontrei uns sapatos de tacão número 39 e calcei-os sem meias. Andei para a Cilu ver e nos rirmos feitas parvas.
Vem a Di e traz-me um vestido chique.
Vem a Cilu e traz-me outros 39 com mais de 10 cm de tacão. Calço. "Ó Nat tira as calças!" - começo a desfilar de pêlos à mostra e a falar num tom autoritário e estupidamente pausado:
"Não. Admito. Barulho. Nas minhas aulas!

Ahahahaha! Chama o Bruno! Chama o Bruno! Ahahahaha!"

Vem o Bruno e tira-me fotografias, claro está. Dispo a fatiota e saio da loja com uma camisolinha no saco e dois pés destruídos.

7 de dezembro de 2007

mau feitio é o que eu tenho, seja lá o que isso for

Quando estou na estrada a tentar entrar numa fila ou a virar num cruzamento difícil e a minha grande oportunidade se perde por causa dum pisca que outro condutor não pôs, lamento muito por o meu monstro não ter carta de pesados.

O mau humor de hoje deve-se às dores que tenho do queixo até ao peito (que nem viro bem a cabeça), nas costas, nas pernas, nos pés, nos abdominais e nos braços, que se devem ao facto de ter pintado durante seis horas em cima dum escadote e a olhar para cima. E se as vertigens causassem dores, acho que agora estaria de cama.

os meus cabelos brancos

Tenho muitos. Arranco-os sempre que posso. Peço que mos arranquem sempre que podem. Não me interessa se nascem mais. Odeio-os. Crescem espetados, brilhantes e sorridentes. Preferia ter piolhos. Até porque o Quitoso deve ser mais barato que a tinta que hoje comprei...

(suspiro)

2 de dezembro de 2007

este monstro dentro de mim

Ia na rua. Vi quatro adolescentes. Um deu rebuçados aos outros e todos se puseram a comer. Somente um deles deu dois passos para deitar o papel ao lixo. Os outros atiraram tudo para o chão.
O monstro saiu. Pegou no caixote, rodou rodou e pimba na boca deles. Tão cheios de estilo e tão gulosinhos. Tão de dentes partidos.

Estava no cinema. Sentada e quieta como uma múmia. Eu e o Denzel gangster, aquele pão. Eu a imaginar-me traficante de droga e a lutar contra os "maus". Atrás de mim uma mulher de longas pernas. Um pontapé no meu encosto. Dois. Três. Vinte.
O monstro saiu. Levantou-se. Partiu as duas pernas à mulher. Pegou nela, rodou rodou e devolveu-a à Pontapelândia.

26 de novembro de 2007

fases da vida duma mulher ocidental

Perguntei ao Bruno se sabia o que é este objecto acabadinho de sair da máquina. Ele não adivinhou.
Quando eu era pequena sonhava com soutiens. Conta a Di que eu cheguei a chorar por não ter maminhas. A verdade é que com 13 anos eu não só era maior que os rapazes da minha idade, como tinha tanto peito quanto eles.

Momentos marcantes na minha vida com o Soutien:
O fascínio pelo peito alheio (lembras-te, Nhocas?). O primeiro soutien: andava na escola primária quando pedi um top à minha mãe. Ela deu-me uma coisa enorme que tinha tudo para ser cuecas mas que tinha um buraco para a cabeça. Mais tarde, lá me deu um top mais charmoso de que me lembro até hoje. Depois veio o admirável mundo do metal - colchetes e aros: no dia em que finalmente as maminhas deixaram de ser psicológicas tive direito a um mini-mini-soutien-de-aros. Foi a Cilu que mo vestiu, tentando disfarçar a folga. Com o fecho vem a vergonha de ir para a escola e saber que os soutiens se vêem nas costas através da roupa. Os rapazes puxavam-nos como se fossem fisgas. Anos depois deu-se a inesperada explosão mamária. A busca de soutiens-grandes-mas-sexies. Depois veio a resignação: deixar de correr atrás do que quer que seja. E por fim o domínio do assunto: tirar um objecto metálico da máquina de lavar roupa e saber enfiá-lo habilmente no orifício de onde saiu.