Às vezes penso em que rumo teria tomado a minha vida se, em vez de ter passado a minha adolescência a ver desenhos-animados, tivesse tido Tvcabo e visto canais de música. É que ainda hoje fico abalada por uma espécie de sonho americano, quando vejo Mtv.
O que eu queria mesmo era ser cantora.
Queria aparecer na televisão e usar roupas que me favorecessem.
Queria ter um agente que me orientasse e um batalhão de maquilhadores que convencesse toda a gente, incluindo eu mesma, de que não tenho celulite e estrias.
O que eu queria mesmo era ser de plástico, ter extensões loiras no cabelo e alguém que fizesse tudo por mim, até arrotar.
Queria ter aquele vento contra a minha cara e a favor do meu cabelo incrível, 24h por dia.
Queria usar casacos de pele, pestanas de pêlo de marta e colares de diamantes.
Ter glitter por todo o meu corpo e depilação definitiva desde as unhas dos pés até às palmas das mãos.
O que eu queria mesmo era roçar-me pelas paredes como quem tem sarna, com ar de paralisia facial.
Ter as mamas sempre arrumadas.
Usar saltos altos como se fossem parte de mim.
Queria esquecer que um dia já tinha tocado guitarra e usado calças de ganga em videoclips. Pensar apenas nas coreografias sensuais, nos meus abdominais e em como vou mostrar a todos que emagreci 5 kg.
O que eu queria mesmo era esquecer que já fui pobre, fui pintora e professora de crianças malcriadas. Queria esquecer que já pesei 74 kg, que tive pêlos nas pernas e que à noite usava uma t-shirt qualquer para dormir, aparelho na boca e caía para o lado, morta de sono, afundada em marcadores e blocos de desenho, numa paz profunda.